Immortal
29 “Tick, Tick, Tick. That’s The Sound Of Your Life Running Out!”
Notas iniciais
Cada novo passo era extremamente penoso à mulher de verdes olhos instáveis.
Seus pés travavam aquela árdua corrida ao longo do cenário que, em cada mínimo e menor aspecto, lhe trazia dolorosas recordações da imagem de Charles por cada canto percorrido, ainda que a altivez do Instituto agora se mostrasse comprometida pela recente destruição em que fora submetida aos termos assassinos da GlobalGen.
Mais do que tudo, Eve queria parar, escorar-se à parede fuliginosa e permitir de bom grado render-se ao pranto e ao luto que já a espreitava, impaciente, quase sedento por consumi-la. Seu semblante encenava indiferença, porém o real sentimento em seu peito parecia disposto a esmagá-la pelo modo cruel e descortês com que a pressionava. Seu pai, afinal, se fora nos termos mais definitivos possíveis, antes que Eve fosse sequer capaz de reunir a coragem necessária para que sua conturbada relação com o professor angariasse a tão almejada redenção que, desde o início, era a principal ambição de Xavier ao fazer mais uma tentativa de contato com a filha.
E que ela não hesitou em, mais uma vez, afastar em meio ao seu repúdio arrogante e sentimentos feridos dentro daquela conturbada relação. E agora pagava o merecido preço de seu irremediável orgulho, aparentemente insaciável pelas dores passadas e levando-a a colecionar novas angústias.
Apenas os dedos de Logan, entrelaçados com complacência aos seus enquanto a acompanhava naquela breve corrida, foi motivação o bastante para que Eve se permitisse sustentar a vontade necessária que ainda a movia. Apenas a força dele vinha sendo o bastante para erguê-la...
...Ao menos por ora!
Derraparam desajeitadamente quando enfim deram-se conta de estar no mesmo recinto que os antigos alunos de Charles Xavier, e a amargura novamente acometeu Hela assim que suas retinas captaram aquilo que um dia fora seu lar, destruído, irreconhecível pelas fuligens e eternamente desfalcado pela ausência de Charles. A cena perturbadora se agravou ainda mais com as feições extremamente pálidas e assustadas dos X-Men que travaram ali uma luta perniciosa, sem ao menos chegar a abranger um alcance superficial acerca das razões que levaram àquele inesperado embate.
— Não é possível... – Hela sussurrou, desconsolada ao notar a obra de seu pai desfeita em meio à destruição evidente do lugar. O cenário de extermínio fez com que fosse mais difícil esconder as lágrimas, que se formaram como fartas películas brilhantes na linha bem delineada de seus inconformados olhos.
— Eve! – Hank exclamou, a surpresa em sua voz rouca despontando dolorida pelos vários ferimentos arrecadados durante a batalha, as largas queimaduras em seu corpo tirando por completo a destreza de seus movimentos – Logan, você não devia tê-la trazido aqui. Acho que fomos infectados por... Alguma coisa... – avisou, a ignorância daquela situação incerta o incomodando profundamente.
— Sim, peludo, nós sabemos! – Wolverine adiantou-se, dirigindo-se à Fera com urgência – Pra onde eles foram? – inquiriu, referindo-se aos mutantes da GlobalGen.
— Eu nem sou capaz de dizer quem são eles, que dirá saber seu rumo a partir do Instituto – Fera arfou, meneando a cabeça num gesto exaurido de incompreensão – O que vocês sabem sobre o que aconteceu aqui? Me parece que esse ataque tinha por intento atingir vocês dois. Por quê?
— Somos culpados por saber demais, Hank – Eve respondeu um tanto quanto vaga, arrancando um olhar irrequieto de McCoy e dos alunos ali presentes, isolados pelo mortífero silêncio de sua mudez – Não temos tempo de explicar tudo agora. Temos que tentar reverter isso... – avisou, a desesperança levando-a a duvidar de que tal situação pudesse ser passível de algum conserto.
— Então é verdade... Nós fomos mesmo infectados? – Tempestade perguntou num tom inseguro atípico, a postura encurvada numa posição assentada e derrotista, os olhos fixando-se num canto qualquer do piso, parecendo não querer encarar nada específico.
Logan e Eve trocaram um breve e preocupado olhar, desconcertados diante daquela provável possibilidade.
— É quase certo que sim... – Hela anuiu, sua postura indicando o quanto estava desconfortável em abordar o assunto – Tudo pode não ter passado de uma encenação, mas nós temos uma caralhada de motivos pra duvidar disso.
— E nós vamos morrer? – perguntou Vampira, incisiva. A essência de seu olhar estava assustada, porém incrivelmente madura. Os olhos de uma autêntica X-Men.
Dessa vez resposta alguma foi verbalizada, e tanto Eve quanto Logan baixaram com incômodo o olhar, incapazes de encarar qualquer um ali. Incapazes de encarar a realidade dos terríveis fatos que se mostravam escancarados a quem quisesse ver.
— Eles... – Hela pigarreou, mudando descaradamente de assunto – Eles disseram alguma coisa antes de saírem?
— Nada que fizesse muito sentido! – Hank recordou, ainda sentindo-se completamente estúpido quanto ao que acabara de ocorrer ali – Só fizeram um terrorismo barato quanto a nossa condição e gabaram-se de terem sido imunizados por uma vacina quando eu destruí a máscara de gás de um deles... O líder, creio eu.
— Existe uma vacina? – Wolverine questionou, de súbito esperançoso.
— Foi o que nos disseram... – anuiu, esgotado – Vocês ao menos podem nos explicar o que está havendo?
— Aguenta aí, tufo de pelo... – Wolverine o cortou, os amendoados olhos agora focados em Eve com todo o fulgor de esperança que ainda era capaz de nutrir – Se encontrarmos essa vacina, podemos curar a tempo todos os mutantes infectados pela Praga!
— Não, creio que não... – Hank mais uma vez se manifestou, mesmo o comentário não sendo direcionado a ele – Vacinas são medidas profiláticas, e não curativas. Ter acesso a ela não mudaria em nada a nossa situação.
— Mas pode fazer a diferença com quem ainda não foi contaminado... Certo? – Hela questionou, revezando olhares entre Logan e McCoy, falhando miseravelmente ao tentar camuflar o desânimo contido na própria voz.
— Certamente que sim! – Fera concordou, e na complexidade incutida nas nuances de seu semblante Eve percebeu que o mutante compreendera que, para eles, não havia a mais remota esperança de cura.
“A não ser que...”— Hela cogitou, perguntando-se por que não ponderara essa alternativa antes.
— Eu posso tentar curar vocês! – lembrou, o brilho óbvio iluminando sua expressão num relance de entendimento inesperadamente alegre. Suas íris arroxearam-se, sugestivas, convidando os mutantes infectados a beberem de seu inesgotável elixir da vida. – Alguma cobaia se habilita? – sorriu, estendendo a mão para quem quisesse tocá-la.
Kurt, já apresentando sinais evidentes do início da infecção, aproximou-se da mutante, ansioso por recuperar a saúde que lhe fora roubada. Seu olhar anêmico encontrou o da mulher, e os três dedos azuis de sua mão direita se ergueram trêmulos de encontro à pele de Eve, que naquele sublime instante carregava o prelúdio da vida. Tocou-a sem hesitar, esperando por algum grande sinal de que o poder de cura tivesse cumprido seu desígnio...
...Porém, assim que o contato se firmou, o lilás nas íris começou a vacilar, intercalando-se ao habitual verde musgo como interferências de imagens televisivas. Até que o roxo recuou por completo, sobrando apenas o tom oliva dentro de seus ambíguos olhos mutantes.
— Funcionou? – Noturno inquiriu em dúvida ao romper o toque, se dando conta no momento seguinte que sua pergunta fora completamente prematura ao perceber que nem mesmo as queimaduras que sofrera durante a batalha saíram de seu corpo. Eve franzia a testa, confusa, nitidamente incapaz de explicar a intrigante omissão de seu poder.
— Eu... eu não entendo... – ela se afastou, quase ferida, estranhamente culpada por falhar naquele decisivo momento em que várias vidas dependiam de sua mutação. Invariavelmente a cena em que tentava salvar seu pai já morto ocupou por completo suas lembranças, e a dor chegou tão forte ao fundo de sua garganta quanto o gosto amargo da bile.
— Talvez esteja além da capacidade de seu poder por ora... – Hank abstraiu, usando de sua exímia inteligência e sagacidade para já propor uma teoria que explicasse a prática – Você acabou de despertar de um coma grave, eu diria, e talvez a sua capacidade ainda não esteja inteiramente recuperada. Sua energia, no momento, provavelmente está canalizada apenas em si mesmo, ainda ocupada em devolver-lhe a força perdida e em reparar os danos que sem dúvida foram graves após o... incidente... contra a Irmandade – Fera concluiu com amargura, sem qualquer indício de seu singular bom humor nos tristes olhos que mantinham vivo o animal dentro de si. Ao menos o que restara dele.
Eve caminhou até uma janela da destruída Mansão, conseguindo vislumbrar num relance o túmulo alto e elegante de seu pai. O único que poderia demonstrar algum controle sobre essa situação caótica, agora enterrado a sete palmos nos domínios de seu próprio lar. Engoliu em seco na tentativa de suprimir a tristeza líquida que queria sobretudo escorrer de seus olhos, contudo a angústia alçou uma voz mais imperativa dessa vez, e algumas lágrimas ousaram cruzar a linha de partida.
— Precisamos encontrar essa vacina, guria... – Logan seguiu-a, apertando levemente o ombro da mulher num gesto cúmplice, farto em ternura.
— Não... – a filha de Charles contrapôs, secando num movimento sutil a umidade do rosto e levando os verdes olhos, firmes e infelizes, a encarar cada X-Men naquela sala – A Praga já foi solta. Até encontrarmos o primeiro vestígio dessa vacina, a maioria dos mutantes já vai estar infectada e morta antes que nos dêmos conta, e de nada vai servir a porra do nosso esforço. – exaltou-se, inconformada com toda a situação – Na verdade, se engajar nessa busca agora seria tanta perda de tempo que provavelmente estaríamos fazendo um enorme favor à GlobalGen.
— E o que você tem em mente? – Ororo franziu a sobrancelha, vislumbrando em Eve uma acanhada parcela do mesmo ardil típico de Charles.
— Jogar toda a merda no ventilador. Fazer com que os verdadeiros responsáveis paguem! – suspirou longamente, não acreditando no que diria a seguir – E pra isso, precisamos do apoio daquele traste do Magneto. Ele sabe fazer um espetáculo quando quer, isso ninguém pode negar... O velhote tem estilo!
— Magneto fugiu desde que você o curou. – Ororo argumentou, descartando aquela opção com a intensidade de um olhar descrente – Jamais o acharemos sem o professor...
— Não é verdade... – um meio sorriso se esboçou quase imperceptível nos lábios de Logan, que destilou um olhar repleto de significado para Eve – Eu sei por onde começar.
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