Immortal

15 Livre-se De Tudo Que Não Interessa, Inclusive Princípios


Notas iniciais
Minhas mais felizes boas vindas à leitora Queen, que me fez arrotar confetes com o review que mandou no último capítulo! =DDD Muito obrigada por se manifestar, sua lindona, adoro saber a opinião de todos vocês, e fico contente demais com a chance de conhecê-los!!! Manolos, me deu ALOKA aqui e eu mudei/editei o nome de praticamente todos os capítulos, hahaha! Mas não se preocupem, absolutamente nada foi alterado na história, só os títulos mesmo, eu apenas obedeci as vozes estilo “Alvin e os Esquilos” que ficaram gritando enlouquecidamente na minha cabeça até que eu os mudasse (???) =P E não, eu não uso drogas, hehehe

À testemunha das luzes fracas suspensas pelos postes, uma violenta detonação marcou o início do dia, adiantando a luminosidade laranja que chegaria só após o romper do sol, o estrondo forte o suficiente para fazer o asfalto tremer e esquentar.

Eve sentiu todo o impacto do topo de seu crânio literalmente se rachando ao ser arremessada com brutalidade de encontro à quina do armário envelhecido da pousada. Seus olhos lacrimejaram ferozmente ao comando da dor excruciante, o corpo em intensa vermelhidão e completamente marcado por queimaduras que ardiam de uma forma insuportável.

O fogo consumia cada porção do quarto com a mesma voracidade e gula com que abrasava a pele da mutante, e o espaço todo construído em madeira apenas servia para alimentar os estalidos crepitantes que crocitavam do incêndio regularmente, o som intenso emanado pelas chamas parecendo apenas traduzir-se em destruição e morte.

O organismo peculiar de Hela não tardou em começar a trabalhar na cura da mutante, as íris agora num curioso tom lilás, refletindo a sombra rubra e dançante do fogo aos arredores, livrando-a de toda catástrofe que certamente seria fatal a qualquer um que a experimentasse. Sem saber como ainda estava consciente, Eve primeiro provou a inusitada sensação de seu crânio voltando à posição original, e grande parte da dor se abrandou. O profundo corte que ainda jorrava sangue naquele mesmo ponto aos poucos se fechou, e as queimaduras que antes provocavam um incômodo intolerável foram tornando-se uma leve ardência, até que toda a dor finalmente partisse de vez.

Ainda tonta, conseguiu levantar-se, agora com força o suficiente para sucumbir à intensa tosse que a fumaça provocou ao irritar seus pulmões. Seus olhos, ainda lacrimejantes, imediatamente passaram para a mesma tonalidade vermelha que consumia o recinto, o fogo agora obedecendo unicamente aos seus comandos.

As chamas foram ficando menos extensas, suas labaredas não mais alcançando o teto que antes lambiam cheias de luxúria e posse. O escarlate foi retrocedendo, extraviando, seguindo as ordens daquela que os controlava, daquela que tinha o comando nato de cada faísca, de cada centelha que a reconhecia como a própria Natureza, inquestionável portanto. Até que o incêndio se apagou por inteiro, morrendo, e o que antes era completa luz, agora se tornara negro em meio à fuligem.

A mulher caminhou de modo trôpego até Logan, percebendo o que restava das queimaduras do mutante se esvair de sua pele como num passe de mágica. Com alguma dificuldade, ele pôs-se em pé, encarando-a cheio de dúvidas e incompreensão marcando o seu rosto enegrecido pela explosão.

– Tudo bem, guria? – ele perguntou, parecendo analisar com cuidado a mulher que o ajudava a levantar.

– Tirando o fato de que parece que fomos atacados pelo próprio Smaug, tudo ótimo! – disse com falsa empolgação, mas logo ficou séria, o trato respiratório ardendo e provocando novas tosses – Temos que sair daqui, e rápido...

– Sim! Tudo o que não precisamos agora é ter que explicar como sobrevivemos a isso apenas com as roupas rasgadas... – concordou, prevendo que em breve bombeiros viriam averiguar o local, se é que já não estavam a caminho.

Eve correu até o que restara da sacada, de repente parecendo preocupada.

– Merda! – praguejou alto ao encontrar o que procurava – O carro já era! – avisou, fitando com certa angústia o automóvel também atingido pela explosão, parcialmente capotado há alguns metros do que tinham estacionado. No segundo seguinte Logan já estava ao lado da mulher fitando a mesma direção que ela, como se quisesse confirmar suas palavras com os próprios olhos. Pareceu tão desanimado quanto a própria Eve, e um silêncio se alastrou, ambos tentando encontrar novas alternativas e soluções para prosseguir com a viagem...

...Foi quando o silêncio se rompeu por uma voz rouca que não pertencia a nenhum dos dois.

– Vocês pretendem realmente perder mais tempo aqui? – um timbre diferente surgiu da entrada estragada do quarto, chamando a atenção de ambos os mutantes como choques agindo em seus sistemas nervosos – Se eu soubesse não teria perdido o meu tempo planejando este incêndio... Vamos, crianças, eu não tenho o dia todo.

– Como é? – Eve arqueou uma sobrancelha intimidadora, pouco disposta a diplomacias – Quem é você?

– Óh, mas que descuido o meu, ainda não fomos apresentados. Eu sou aquele a quem vocês procuram... – disse, sua resposta não tendo qualquer significado para Wolverine e tampouco para Hela.

– Você provocou isso? – Logan rugiu ao referir-se à explosão, as mãos já em punhos e uma veia se pronunciando mais irritada pela extensão do pescoço – Você causou o incêndio? – perguntou novamente, dando passos perigosos na direção do homem que ostentava um sorriso irreverente, que sequer vacilou ante a evidência de ameaça na voz daquele mutante que ele conhecia tão bem.

– Temo que sim... – seus lábios se apertaram um contra o outro numa linha reta e tensa como se pedisse desculpas, concordando com a acusação dono de uma cortesia que chegava a ser irritante. Logan não expôs completamente as garras, apenas deixou que suas afiadas pontas cruzassem a barreira de sua pele, movimento este que passou despercebido pelo homem de lábio leporino – Sinto pelo inconveniente, mas foi estritamente necessário...

Wolverine não mais se conteve e, estando perto o suficiente do estranho homem, acertou-lhe um soco no meio da face, o adamantium despontando sutilmente por entre os nós de seus dedos causando instantâneos e profundos cortes no semblante do homem, e três fartos filetes de sangue surgiram no rosto agora desmaiado e caído por conta do brutal golpe.

O gosto enferrujado do sangue preenchia sua boca quando ele acordou.

A visão demorou alguns instantes para se estabilizar ao escuro e desconhecido ambiente, mas foi fácil reconhecer as silhuetas de Eve e Logan observando-o, os olhos em faíscas como se iniciassem um novo incêndio por conta própria. Todo o seu corpo estava firmemente amarrado por gavinhas de raízes enroscadas ao longo das principais articulações, roçando ásperas ao menor movimento... Certamente uma cortesia de Eve. O som de sirenes se propagava abafado e ao longe, como se estivessem em algum tipo de subsolo...

Assim que o casal percebeu que ele recobrou a consciência, o tom hostil não tardou a chegar:

– Por que você tentou nos matar? – a voz provinha claramente de sua caça, Eve, e ele não percebeu qualquer hesitação em sua entonação perigosa.

Mesmo naquelas condições desfavoráveis, ele acabou gargalhando pela conclusão tão errônea atribuída ao incêndio que causara... A ignorância dos dois chegava a ser hilária! Estavam completamente engajados numa busca por respostas, mas sequer tinham conhecimento do básico, do mínimo que os cercava.

– O que é tão engraçado? – dessa vez foi Logan quem se pronunciou, tão ameaçador quanto, segurando com força um punhado do cabelo grosso de seu prisioneiro de modo a posicionar o pescoço do indivíduo num ângulo desconfortável. O homem preso reconheceu de imediato a fúria bestial que adornava os olhos de Logan, os instintos e modos do mutante provando que ele ainda era o mesmo animal de quando o aperfeiçoaram. Ainda rindo, o refém respondeu:

– Acham mesmo que eu quero matar vocês? É o melhor palpite que têm? – seus lábios se alargaram ainda mais, irritantemente debochados – Nem seria uma tarefa muito fácil a julgar as mutações dos dois... – Logan afrouxou o aperto, encarando-o mais intensamente.

– Como você sabe...?

– Ora, eu sei tudo sobre vocês, meu caro. – interrompeu-o – Você não se lembra de mim, Logan, mas eu me lembro muito bem de você! – advertiu, causando uma intensa e ininterrupta onda de adrenalina e expectativa em Wolverine. O mutante gastou mais tempo encarando o homem preso do que a paciência de Eve era capaz de suportar.

– Quem é você e por que está nos seguindo? – inquiriu, enérgica, disposta a tomar a frente da situação.

– Já disse! Eu sou quem vocês procuram. E eu os segui para ajudá-los a direcionar sua busca. – respondeu sem nada esclarecer, irritando ainda mais a mulher.

Eve acertou um cruzado de direita sobre o nariz do homem, criando um novo percurso sanguinolento em seu rosto já ferido.

– Quem é você e por que está nos seguindo? – fez a pergunta uma segunda vez, deixando claro o quanto sua paciência era finita.

– Não conseguem chegar a conclusão alguma sozinhos não é? – zombou, cuspindo a nova remessa de sangue que atingira sua boca – Vocês estão completamente perdidos nessa busca, rodando o país sem ter a menor ideia do que estão fazendo! Sem nem saber se estão no rumo certo!

Wolverine liberou as garras, enfiando-as sem hesitação alguma na clavícula esquerda do homem, trespassando o seu ombro e arrancando-lhe um brado de dor.

– Responda! – ele rugiu, mais enfurecido do que lembrava já ter ficado, e finalmente viu a zombaria no olhar daquele homem dar lugar ao temor. Manteve o adamantium no homem, e começou a torcê-lo dentro de sua carne como uma motivação a mais para fazê-lo falar. O grito da mais pura aflição veio antes de sua resposta, a voz agora despontando vacilante e fraca.

– Eu trabalho para a GlobalGen... – contou, finalmente colaborando – E o diretor da empresa me mandou atrás de você – apontou para Eve com o olhar, e a confusão transpareceu nos traços da mulher.

– De mim? – fitou-o sem compreender – O que essa empresa nojenta pode querer comigo?

– Eu não sei dizer... – articulou, e Logan rasgou ainda mais o seu ombro, chegando quase a altura do peito ao som de novos gritos, enquanto cada vez mais sangue ia se perdendo – Eu realmente não sei – falou com maior urgência –, eu apenas faço o que mandam, não peço explicações quando recebo um trabalho... tudo o que eu sei é que o chefe quer a garota.

– Por que não tenta dar um palpite?! – Logan ordenou como se apenas sugerisse, prestes a deslizar suas garras novamente caso houvesse alguma recusa por parte do interrogado.

– É provável... – ele arfou, como se falar se tornasse um fardo cada vez maior – É provável que eles queiram usar o poder dela. Somos uma empresa que está sempre recrutando mutantes. Mas ela também pode ser visada para algum teste, eu não sei ao certo!

Logan arrancou as garras, e mais sangue do que sabia ser possível começou a jorrar da grosseira ferida, provavelmente uma artéria calibrosa rompida pela agressão do mutante. Eve adiantou-se, tocando-o com seu poder de cura antes que fosse tarde e todas as perguntas se perdessem junto à vida do interrogado.

– E como você nos encontrou? Como sabia onde nos achar? – Hela perguntou ao homem extremamente pálido pelo volume perdido de sangue.

– É a minha mutação... – contou, visivelmente enfraquecido mesmo com a intervenção de Eve – Eu posso sentir qualquer mutante, mesmo que distantes, e inclusive sentir qual é o teor do poder de cada um. O seu é único, foi fácil encontrá-la. Como se houvesse um letreiro luminoso apontando diretamente pra você em meio a um deserto.

– Por que você explodiu a pousada, se sua intenção não era nos matar? – a mutante lançou uma nova pergunta, irredutível.

– Eu fui ordenado a apagar seus rastros ao longo do caminho. Vocês deram todos os dados relevantes para que pudessem rastreá-los ao preencher o check-in da pousada. Não queríamos deixar qualquer pista do seu trajeto, até porque nunca sabemos quem serão os interessados em encontrá-los... Seu pai, por exemplo, ele certamente saberia seguir o mesmo caminho que vocês com essas pequenas pistas e o dom da telepatia. Isso não era um problema antes, mas agora estamos perto demais da GlobalGen para arriscar expor o nome da empresa.

– Bastava destruir a droga dos documentos que preenchemos, e não criar um tumulto capaz de chamar toda essa atenção! – Eve contestou, ainda ouvindo o barulho de sirenes por todos os lados, certamente bombeiros que procuravam a causa do incêndio e tentando entender como ele havia se apagado sozinho. Mas estavam seguros de olhos curiosos ali. Eve os escondera abaixo dos alicerces da pousada, e ela sabia não haver a menor chance de serem encontrados naquele subsolo improvisado por seus poderes.

– Como eu disse, seu pai é um astucioso e poderoso telepata. Ele reconheceria vocês pela memória da recepcionista.

Hela estancou, de súbito entendendo os reais motivos daquele incêndio, o asco e a fúria se revezando como principais sentimentos.

– Você fez tudo isso para matar aquela pobre senhora? Ela era inocente! – berrou, só agora se dando conta de que vítimas haviam sido criadas naquele atentado, antes ocupada demais para tentar entender o que acontecera e sequer cogitando essa possibilidade. Agora sentia-se estranhamente culpada pela morte da doce velhinha, cuja maior culpa foi ter entrado em seu funesto caminho – Quantos mais você matou com isso? – perguntou, o ódio subindo-lhe à cabeça mais rápido do que as doses de whisky que estava habituada a tomar, o sabor daquela verdade muito mais amargo e em nada palatável.

– Vocês eram os únicos hóspedes desta espelunca, e ninguém vai sentir falta de uma velha em suas horas extras aqui na Terra. Era apenas uma humana sem qualquer valor. – disse repleto de desprezo.

– Você quis brincar com fogo quando provocou esse incêndio, mas se esqueceu de que as chamas não lhe pertencem, não são suas para que você as use. Agora vamos ver como o fogo brinca com você! – aproximou-se do homem, as íris transformando-se no mais fulgurante tom rubro, retificando que a posse daquele elemento e de todos os demais era de Eve, e somente de Eve. A mão feminina segurou com firmeza a nuca do homem que havia sido feito prisioneiro, o terror dominando cada mínima porção de seu rosto assustado quando o sentiu queimar em profusão. Berrou ao ser invadido pelo odor da própria carne em combustão, a pele formando dolorosas bolhas que se estouravam ao longo do processo, como se sua carne estivesse sendo liquefeita ao comando da temperatura agonizante. Eve prosseguiu, as queimaduras de alto grau agora atingindo também o corpo do homem, que apenas gritava a plenos pulmões, seus traços completamente irreconhecíveis pelo trabalho desuniforme das chamas. Músculo e pele começaram a se misturar, indefinindo os limites entre um e outro.

– Ainda precisamos dele! – Logan lembrou-a, temendo perder sua única fonte de informação.

Hela considerou aquele apelo com certo desgosto, percebendo que de fato ele ainda teria muita utilidade vivo. Afastou-se do homem em agonia, agora detendo a imagem da verdadeira aberração que era, a carne retorcida e irreconhecível tornando-se a responsável por cada grito de desespero que explodia involuntariamente de seus pulmões.

– Você vai nos levar até a GlobalGen – Eve advertiu friamente, tentando ignorar o odor nauseante que exalava do prisioneiro e já ocupava todo o ambiente subterrâneo.

Apenas mais berros continuaram vindo em resposta, e o homem sabia que a imagem dos olhos inflamáveis daquela mulher o encarando assombraria até o seu último pensamento, assim como o aroma de si mesmo ainda em brasas.

Notas finais
O meu lado “Psycho Killer” foi completamente aflorado nesse capítulo! =X Mas e aí? Conseguiram se sentir vingados pelo capítulo anterior? ^^ (Estou beeem ferrada esse mês, lindões, então tenham paciência caso eu acabe demorando a postar... Já foi um milagre conseguir escrever esse capítulo, acreditem!)