Immortal
17 Entre Mutantes, Homens, Aberrações E Afins – Parte I
Os três permaneceram num firme silêncio durante cada quilômetro percorrido daquela singular viagem. O novo e direcionado foco dava ao casal vários motivos para gastarem suas horas apenas refletindo enquanto o ronco do motor se mantinha constante num ruído potente e baixo que, após tanto tempo de movimento, parecia sequer existir. Ao homem queimado, esse silêncio devia-se apenas devido à insuportável dor que acometia cada ínfima porção de sua carne incendiada, sentindo-a em brasas como se Eve ainda mantivesse os ardentes dedos sobre sua pele, incinerando-a ao comando de um único pensamento que ele pôde ver refletido através das labaredas crepitantes ao fundo daqueles olhos escarlates. Olhos que lhe pareceram tão abrasivos quanto o mais ativo vulcão, e ao mesmo tempo mais gélidos do que todas as nevascas do planeta concentradas unicamente naquele par infinitesimal de íris.
Era ela quem dirigia o Porsche, absorta em uma expressão que parecia dividir-se entre algo carrancudo e concentrado. Os verdes olhos de águia mantinham-se inseparáveis da rota que traçavam, atendo-se apenas à estrada e ignorando os esporádicos gemidos de dor que vinham do banco de trás, aonde o homem que carregava as mais hediondas cicatrizes tentava debelar cada manifesto de dor...
...Apenas tentava.
Logan, sentado de forma desleixada sobre o banco do passageiro, brincava com alguns fios de sua barba, enrolando-os ao pressionar o polegar e o indicador sobre eles. De todos, era o mais distraído e alheio, talvez dominado pela solenidade de finalmente encontrar-se com seu passado e tirá-lo a limpo de vez. E agora que afinal estava perto o suficiente do intuito de toda a sua vida, perguntava-se, tomado por inconveniência, se gostaria do que veria, ou mesmo se estaria pronto para tais revelações a respeito de si.
Porque ignorar o monstro que sabia coexistir em seu íntimo era uma tarefa fácil enquanto este se mantivesse escondido nas sombras, sem ousar mostrar-se. Mas a partir do momento que sua forma vil se revelasse, não haveria como voltar atrás, e caberia apenas uma pergunta a se fazer; Quem ele realmente era?
Jamais saberia aquelas respostas até que elas estivessem diante dos próprios olhos, reveladas em conjunto com os dias obscuros que lhe fugiam à memória e que ainda lhe pareciam tão remotos, mesmo com a considerável distância já rodada, que os levaria direto ao ponto de encontro entre o furacão e o mar, ao princípio de tudo o que ele se tornara. E ainda que o rumo tomado fosse finalmente o certo, e não apenas mais uma tentativa vazia e sem propósitos, o medo de acabar desembocando em um errôneo fim da linha o assustava.
Aquela era, sem dúvida alguma, a sua melhor (e talvez única) chance de enfim descobrir-se, contudo sua melhor chance poderia de um segundo a outro tornar-se o seu pior pesadelo dependendo do que encontrasse. E ele sabia que encontraria.
Outro gemido escapou dos lábios em frangalhos do homem que os seguira, e Wolverine percebeu Hela apertar com força os dedos sobre o volante, criando uma expressão ainda mais dura nos traços que desenhavam seu semblante pouco amigável, como se até mesmo a simples lembrança de que o dono do Porsche dividia o mesmo espaço que ela fosse irritante demais para que pudesse controlar, ou mesmo fingir não se importar.
O sepulcral silêncio se mantinha, denso demais para ser quebrado por qualquer um dos três. Mas, vez ou outra, um grunhido aflito se sobrepunha, opondo-se à falsa calmaria instalada no automóvel, o diminuto ambiente dominado pela mesma paz que antecede a detonação de uma granada.
Até que um dos irritantes resmungos vindos da traseira do carro foi o estopim. O pino solto da granada.
Eve diminuiu a velocidade do carro, dando seta de forma a indicar que entraria no acostamento, e Logan fitou-a intrigado, porém palavra alguma saiu para verbalizar sua dúvida. Ao finalmente encostar, ela ligou o pisca alerta e virou-se para encarar o homem cheio de dor, sentindo-se perigosamente irritada com toda aquela situação.
— Ei, você! – chamou-o rudemente, pouco disposta a gentilezas – Se não calar essa maldita boca juro que vou te dar motivos para gemer de verdade! – ameaçou, já ciente de que o limite de sua pouca paciência fora ultrapassado há mais tempo do que seria capaz de recordar. O homem não respondeu. Nem ao menos pareceu ouvi-la, seu corpo apenas tremia em espasmos irregulares... seu rosto estava absorto em aflição e um doentio rubor invadia a pele tocada e parcialmente consumida pelo fogo. A respiração pesada e audível traduzia uma fração do tormento físico que assolava aquele homem – Você me ouviu, seu merdinha? – Hela perguntou alto, irritando-se ao cogitar que estava sendo ignorada.
— Acho que ele está tendo alguma espécie de choque... – Logan opinou ao observá-lo todo tremores e suor. A voz do mutante saiu áspera, quase assustada. Não podiam perdê-lo, não ainda... aquele homem era sua melhor ponte com sua amnésia e, sem ele, provavelmente retornariam à estaca zero, sem saber exatamente como prosseguir... Tal pensamento o preocupou por alguns milésimos de segundo, até lembrar-se do poder que sua companheira de viagem possuía.
— Merda! – reclamou, mal-humorada. Contorceu-se o melhor que pôde em direção ao banco de trás com ódio e pressa, como se lesse os pensamentos urgentes de Logan, visando alcançar o homem que parecia inconsciente em meio às próprias convulsões. As íris da mulher já estavam dominadas pelo brilhante tom lilás, e assim que ela o tocou, os espasmos se aquietaram.
Eve manteve o contato que despejava vida para o corpo do outro mutante apenas tempo o suficiente para estabilizar o seu organismo, que respondia com ferocidade e de forma letal à violenta injúria das queimaduras que ela mesma provocara. Teve a cautela de não curá-lo além do necessário, fazendo questão de manter cada marca e cicatriz que o fogo lhe dera sob os cuidados de Hela. E, se possível, manter também a dor, assim como o fétido odor de queimado que ainda se difundia de sua carne desfigurada. Se dependesse daquela mulher, aquelas aflições jamais teriam um fim.
Wolverine a fitava calado, um nó no estômago causado pela culpa que ressecava sua garganta. Podia perceber com clareza o quanto aquela viagem começava a afetá-la, quase como se Logan, de alguma forma não intencional, transferisse toda a obsessão de sua vida para a mulher, que parecia a cada minuto um pouco mais disposta a comprar uma briga que não lhe pertencia, e que poderia resultar em feridas permanentes. Sentia-se agradecido por todo o apoio, mas também incomodado, de uma forma que fazia a culpa em si crescer.
Eve era o tipo de pessoa que parecia atormentada demais com os próprios fantasmas, não precisava agregar mais nenhuma desavença à sua consciência que parecia já pesar tanto.
— Guria, ei... – chamou-a ao perceber que ela tencionava dar partida no carro assim que se ajeitou melhor sobre o seu assento, o mesmo olhar letal e injustificado encarando algum ponto fixo na estrada, ao longe – Vamos, deixa que eu dirijo um pouco.
— Eu estou bem! – avisou, mas seu tom foi frio demais para que Logan acreditasse naquelas palavras ocas.
— Não, não está. Descanse um pouco, eu dirijo a partir daqui. – propôs, num tom que parecia tão indisposto a discussões quanto o dela.
Eve jogou a cabeça contra o estofado do banco, suspirando. Nem ela mesma saberia adivinhar com exatidão o que a incomodava tanto, e por isso mesmo julgou por bem despistar os estranhos sentimentos que, profunda e misteriosamente, vinham-na perturbando de forma incessante desde que seus caminhos se cruzaram com o do homem que jazia inútil no banco de trás.
— Tudo bem, grandão. É todo seu. – apontou vencida para o volante, abrindo a porta ao seu lado e a fechando sem muito cuidado quando finalmente se viu fora do veículo. Logan imitou-a, ambos encontrando-se em frente ao capô do carro. Ele a impediu de se afastar, segurando com firmeza o braço da mulher quando ela fez menção de dar a volta pelo corpo do mutante a fim de alcançar a porta do outro lado.
— Qual o problema, guria? – perguntou de modo calmo, a voz macia mostrando um interesse verdadeiramente preocupado. Ela fitou-o com insolência, porém, indubitavelmente sua raiva injustificada foi se perdendo ao perceber as íris castanhas responderem ao seu olhar com amargura. Eve sentou-se sobre a lataria azul do veículo, encarando a estrada como se almejasse enxergar o seu fim. Gastou alguns segundos contemplando a paisagem e sentindo o vento bagunçar seu cabelo conforme os carros passavam apressados ao lado deles.
— Você confia nele? – finalmente o encarou, dispensando um rápido e significativo olhar para o mutante que permanecia entorpecido dentro da lataria, inerte a tudo que o rodeava – Você acredita que ele realmente esteja nos levando para a GlobalGen?
— Bom... Acho que não temos muita escolha quanto a isso! – sentou-se ao lado de Hela, fitando-a como se visasse decifrar suas angústias e arrancá-las com as próprias mãos se preciso – Não é exatamente uma questão de confiança, mas de necessidade.
— Tudo aquilo que ele contou sobre a GlobalGen – Eve principiou, fazendo uma pausa no seu discurso como se tentasse recordar as palavras exatas – Ele disse que estão sempre em busca de novos mutantes, que sempre os recrutam.
— Sim, eu me lembro. É isso que te incomoda?
— E se ele estiver nos levando para uma armadilha? Se metade do que ele diz é verdade, a GlobalGen tem um exército de mutantes ao seu serviço. E se, nos levando até lá, ele tenha em mente alguma cilada? Nós somos apenas dois...
— Você está com medo? – seus lábios se repuxaram num meio sorriso incrédulo, segurando o queixo de Eve de forma carinhosa e debochada ao mesmo tempo. E seus traços eram apenas afeição.
— Olha o que fizeram com você... – ela lembrou-o, passando alguns dedos pela mão de Logan, capaz de sentir a rigidez inflexível do adamantium disposto abaixo da pele do mutante e seguindo com extrema facilidade o trajeto que o metal fazia – Não temos nem ideia de com quem estamos lidando, e eles parecem nos conhecer muito bem. Não é medo, eu só não gosto da ideia de colocar nosso destino nas mãos de um deles. Preferia levar meses procurando a empresa só com você do que levar apenas algumas horas seguindo os passos e as regras que esse cara dita. Ele pode muito bem estar armando alguma coisa.
— Eu não estou nem um pouco preocupado. – afirmou sem qualquer espectro de dúvida para desmentir sua certeza, e Hela manteve-se encarando o homem, esperando talvez que o mutante terminasse de desenvolver o raciocínio – O que, depois da lição que você deu nele? – perguntou, como se fosse óbvio, uma sugestão de sorriso brincando em seu rosto conforme tentava convencê-la – Esse cara vai pensar no mínimo duas vezes antes de te olhar nos olhos de novo, guria, que dirá nos trair.
Eve acabou rendendo-se a um sorriso bem-humorado enquanto lembrava como cada fiapo de terror o dominou quando ela o tocou com o fogo, e como até a alma do homem pareceu incendiar-se diante das vingativas vontades de Hela, cremando desde o físico do mutante até as pretensões capciosas que lhe acompanhavam.
De repente, os próprios pés pareceram uma visão mais interessante do que deveria, e seus olhos se mantiveram focados naquela direção enquanto refletia. Logan estava certo... Não havia por que se preocupar tanto com a fidelidade de um homem que estava todo em suas mãos, abalado demais até mesmo para manter-se desperto, que dirá tramar algo que pudesse prejudicá-los...
— Talvez eu tenha exagerado mesmo... – admitiu, sentindo-se tola por suas neuroses.
— Não somos poucos. Eu te dou cobertura e você me dá cobertura. Não precisamos de mais nada nem ninguém. – disse, sério, transmitindo no olhar toda a confiança que de fato sentia. Toda a confiança que depositava nela, como jamais havia feito com qualquer outra pessoa, muito menos com alguém que conhecera há tão pouco tempo. Em breve aquela mulher seria apresentada ao seu passado tanto quanto ele, e por mais que aquele fato o incomodasse profundamente, não poderia pensar em ninguém melhor para dividir o que ele era.
— É, eu sou obrigada a admitir... – sorriu, voltando os verdes orbes para o homem ao seu lado no capô – Pra alguém que passa gel no cabelo, até que você é bem esperto!
— E essa é a prova de que você já está no seu normal de novo! Voltou a ser a mesma criança debochada e insolente de sempre. Que sorte a minha... – brincou, e Eve riu, saindo de cima do Porsche.
— E você, a mesma Lady das Cavernas... – rebateu, encarando-o agora de frente, um meio sorriso calmo fazendo com que todas as desconfianças que antes a incomodavam se esvaíssem espontaneamente, evaporando de si como o mais volátil dos produtos apenas pela segurança que ele lhe inspirava. Ela aproximou-se ainda mais dele até que seus corpos estivessem próximos o suficiente para conseguir sentir o calor natural que irradiava do outro. Roçou seus lábios nos dele, provocando-o com um de seus olhares isentos de qualquer pudor enquanto ainda brincava com a boca sobre a sua, sorrindo dona de um ar lúbrico que tinha o poder de fazer com que cada defesa do mutante ruísse. Wolverine avançou com avidez em resposta àquele convite, porém Hela afastou-se, rindo com malícia e ligeira maldade – Vamos indo, grandão. Ainda tem muita estrada pela frente. – incitou, indo até a lateral do Porsche e abrindo a porta que daria lugar ao assento do passageiro, ainda sorrindo enquanto se acomodava em seu novo lugar.
Logan manteve-se ainda por um breve momento naquela mesma posição, um meio sorriso nos lábios enquanto negava algo com a cabeça. Deu fim ao apoio proporcionado pelo capô quando traçou o caminho até o banco do motorista, e logo em seguida já haviam retomado a viagem, o veículo azul novamente na rota que os levaria à sede da GlobalGen. Ao núcleo de todo aquele enviesado tumulto...

Após cerca de quatro horas, uma nova cidade vinha crescendo à medida que o carro deslizava praticamente em silêncio pela estrada, quase tão hesitante quanto o homem ao volante que o guiava cheio de receios. Uma placa convidativa de “Sejam bem-vindos à Centralia, Pensilvânia” marcava o exato ponto em que a urbe se iniciava, delimitando a região a partir daquela fronteira imaginária.
Tanto o coração de Logan quanto o de Eve pareceram acelerar-se em sincronia ao vislumbrar o lugar que guardava dentro de si tantos segredos. Finalmente estavam diante das coordenadas fornecidas pelo dono daquele Porsche, e à primeira vista, a cidade não refletia nada de especial, parecendo um tanto comum e sem qualquer atrativo que chamasse algum tipo de atenção. Na verdade, tratava-se de uma visão até mesmo provinciana e atrasada, quase uma daquelas cidades fantasmas que se via apenas em filmes antigos. Algo que chegava a ser macabro.
— Que merda de lugar é esse? Silent Hill? – Eve inclinou o corpo, como se tentasse captar melhor a visão do vazio demográfico que era aquele lugarejo – Isso não pode estar certo! Esse imbecil nos fez dirigir até o lugar errado... – Hela rugiu cheia de frustração, e enquanto Logan ainda teimava em dirigir a dez por hora pela cidade (que parecia de fato abandonada), a mutante deu um sonoro tapa numa das avantajadas queimaduras do homem desacordado que voltara a tremer no banco traseiro. Ele pulou ao abrir os olhos, assustado, gemendo de dor pelo abrupto contato e despertando de um pesadelo para acordar em outro. Olhou para a mulher, confuso, e quis encolher-se em si mesmo ao vislumbrar o ódio direcionado a ele através daqueles malditos olhos mutáveis – Olha para aonde você nos trouxe! – urrou, irritada, ao vê-lo desperto (apesar de ainda parecer estranhamente inconsciente), e de repente Eve sentiu novamente que aquilo não passava de uma armadilha do ardiloso homem – Que droga de lugar é esse? – perguntou, e, quando o fez, garantiu recrutar o fogo para junto de si, compreendendo que as chamas dentro de seus olhos seriam suficientes para aterrorizar o homem, como um pequeno incentivo para que ele contasse a verdade sobre suas intenções ao guiá-los até aquele lugar morto.
— É a sede da GlobalGen! Eu juro! – declarou, dominado por ondas sufocantes de desespero, incapaz de desviar a atenção das fagulhas e faíscas que se acendiam nos olhos vermelho-vivo de Hela, e ciente de que o maior tormento de sua vida estava à distancia de apenas um toque, ou mesmo um único pensamento daquela mutante que a priori ele caçava, mas que o havia reduzido de caçador à presa. – Nós chegamos! É aqui! – repetiu, na esperança de que aquelas palavras, em conjunto com o terror que sabia extravasar de suas assustadas feições, fossem suficientes para convencê-la.
Porque, de fato, haviam chegado.
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