Imagine - stray kids

42 . LeeKnow - Projeto Halloween


Notas iniciais
Projeto Halloween – Lee Know ⚠️ Avisos: ⚠️ Dor, Gore, Violência, Monstro/Sobrenatural. Capítulo em colaboração com a @MelDaekness

O outro lado.

Ser professora é algo fantástico, as vezes chega a ser mágico poder ver o crescimento e a evolução dos meus alunos, mas nem sempre essa é a realidade da profissão.

Hoje, por exemplo, eu estou passando por um dia péssimo na escola em que leciono, uma de minhas alunas veio se mostrando um tanto diferente e quando fui atrás do porquê disso, descobri que ela estava sofrendo abuso de um dos seus colegas, então chamei os pais dele e bem agora estou com eles em reunião.

[...]

— Mas o que você está dizendo professora Chun-Hee? Que o meu bebê não está se comportando?

— Como os senhores viram no vídeo, o filho de vocês está com práticas abusivas com uma de nossas alunas e isso não é algo aceitável e por isso chamei os senhores aqui, precisamos ajudá-lo para o entender melhor e tentar mudar esse seu comportamento.

— Mas isso é um absurdo! — O pai do rapaz se levantou batendo na mesa e gritando feito um boçal. — Quero falar com a diretora, não pago uma mensalidade altíssima para uma zé ninguém como você vir dizer o que meu filho pode ou não fazer, se ele está agindo assim com essa fedelha ela provavelmente lhe deu motivos e não serei eu quem o pedirei para parar com isso, ele é homem e sabe muito bem o que deve ser feito com insolentezinhas como aquela pirralha ou como você e se não me pedir desculpas agora mesmo por esse incômodo desnecessário você vai se ver comigo.

Aí estava a raiz de todo o problema do meu aluno, um pai monstruoso e uma mãe omissa servindo de exemplos para o meu aluno, respiro fundo e o encaro com calma.

— Senhor, se deseja falar com a diretora me siga, levarei os senhores a sala dela.

Eu não tinha estrutura para lidar com aquilo no momento, um pai acabou de me ameaçar como um misógino que era e eu estava farta, então faço a única coisa que julgo coerente para o momento e levo o casal descompensado a direção da escola e tenho certeza que a diretora Koen vai saber lidar com isso.

— Ótimo, aproveite e aprenda onde é o seu lugar, onde já se viu...

[...]

Aquele casal ainda fez muito escarcéu na escola, vieram para cima de mim dizendo que eu estava incriminando o filho deles falsamente como se as provas não fossem o suficiente, eles simplesmente pareciam cegos e surdos aos fatos e depois que a direção tomou as rédeas da situação, eu decidi finalizar meu dia, arrumei minhas coisas e decidi que voltaria para casa na caminhada hoje, esse dia merecia algo que dissipasse todo esse clima tenso que se fez sobre ele e caminhar me parecia uma excelente opção.

[...]

— Boa noite, qual o seu pedido?

O atendente da cafeteria onde parei no caminho para casa sorriu gentilmente para mim.

— Quero um Mocha Branco do grande e você pode separa esse donut para mim?

Aponto para o donut de ninho com Nutella que amo de paixão e sorrio pensando em devorá-lo sem dó nenhuma, tudo o que preciso para hoje é o meu café e meu docinho.

— Claro, só um minutinho e seu pedido já vai ficar pronto.

— Quanto deu?

— Vinte nove e oitenta.

— Okay, no débito, por favor.

Pago e fico observando o atendente preparar o meu pedido, o que não demora e então pego e com calma sento e me delicio com o meu café favorito no mundo e aquele donut macio e delicioso deu a mim um afago na alma do qual sei o quanto mereço.

[...]

Termino de comer e saio do café já colocando meus fones de ouvido, o resto da minha caminhada precisava ser regada com boa música.

Eu me recuso chegar em casa com todo esse peso e música realmente alivia tudo.

Continuo caminhando despreocupadamente quando avisto alguém, com certeza mais alto do que eu, mas que trajava uma máscara bizarra de coelho e levo um susto, mas isso ocorreu tão rápido que acredito fielmente que foi apenas um devaneio meu.

— Devo estar alucinando, é o stress do trabalho só pode... quanto falta para as minhas férias?

Falo baixinho pensando sozinha enquanto caminho o que me leva a crer mais ainda que estou perdendo o juízo, quem fala sozinho na rua?

Eu não era disso.

Decido apertar o passo, porque tendo visto o que vi ou não eu realmente levei um susto, então vamos evitar mais sustos como esse chegando em casa o quanto antes.

— Aí!

Dou uma leve tropeçada o que fez meu tornozelo doer um pouco e quando olho para frente lá estava novamente aquela máscara de coelho me encarando, mas decido fingir que não vi nada e continuo a passos rápidos e firmes, comecei a sentir um frio na barriga e eu não estava gostando nem um pouco dessa sensação.

Sigo andando e olhando em volta, provavelmente a neura já está me consumindo e de uma forma bizarra sinto o clima ir mudando gradualmente, a rua em que eu estava parecia completamente vazia não fosse por uma figura muito alta que notei estar caminhando atrás de mim e isso ligou todos os meus sinais de alerta de uma só vez me fazendo temer algo que estava por vir mesmo sem ter certeza se viria ou não.

Continuo caminhando depressa e enquanto o faço vou olhando em volta, pareço mais uma maluca e até cogitei ser o pai do meu aluno que estava atrás de mim para uma vingança fora da escola, porém o pai que enfrentei hoje era baixinho e robusto e esse que estava atrás de mim além de muito alto era extremamente másculo, dava para notar só pelos olhares de relance que eu lançava às pressas em sua direção e em uma dessas olhadas que dei, eu tive certeza de que estou precisando de férias urgentemente ou um afastamento que fosse já me ajudaria porque ninguém teria os olhos tão vermelhos como o desse homem que aparenta estar me seguindo.

Aperto mais meu passo sem deixar de olhar para trás o que começou a me por louca uma vez que era certeza que a cada olhada minha, o ser que era bem alto, forte e de olhos rubros estava mais próximo a mim, e isso começou a mexer com meus nervos que já não estavam lá essas coisas me deixando praticamente a flor da pele por toda essa tensão absurda.

Como o caminho para minha casa ainda levaria um tempo comecei a me forçar a manter a razão e procurar opções de fuga caso fosse preciso.

Voltar ao café seria inviável, para isso teria que retomar o caminho e assim que eu me virasse eu bateria de frente com o ser imenso que está em meu encalço, as lojinhas que ficam pelo caminho estão fechadas então me lembro do meu karaokê favorito e aperto o passo para chegar nele, já que estou um tanto próxima de lá.

Mas para minha completa infelicidade o karaokê está fechado e suas luzes apagadas.

— Como assim?

Falo em total desespero, esse lugar está sempre aberto e era a opção mais viável de todas para me esconder, então respiro fundo pegando fôlego, com essa minha última carreira até o karaokê o caminho para casa estava mais próximo e então eu me ponho a correr e sei que se eu for firme chegarei logo lá.

— Pode me dizer que horas são?

Sinto uma mão forte e pesada pousar em meu ombro com certa força e posse e a voz que veio junto a ela era grave e quase me fez desmaiar pelo susto que levei e quando me viro era o mesmo homem que me seguia e céus, ele era grande, forte, alto, enfim grande mesmo, e apenas seus olhos que antes eu tinha certeza que eram vermelhos agora mais de perto noto ser de um castanho intenso.

Olho meu relógio e o encaro em seguida.

— São dezoito e trinta, nossa não me dei conta que já estava anoitecendo.

Forcei um sorriso e o moço me encarava com um semblante forte e determinado.

— E a senhorita sabe me dizer para que direção fica o parque de diversões? É que hoje vou trabalhar lá e por ser novo aqui acho que estou meio perdido.

Sua fala me fez relaxar um pouco, então era isso, ele não estava me seguindo, ele apenas queria informações.

— Bom, o parque de Seul não está muito longe daqui, — falo sorrindo mais tranquila. — Você só precisa seguir reto essa rua, lá na frente você vira à direita e vai chegar ao parque florestal, não se preocupe, você irá vê-la de longe, lá é uma grande área verde e o parque está logo a frente, eles estão usando o parque para o evento de Halloween então você terá acesso pelo parque mesmo... AI MINHA NOSSA!

Eu falava apontando a direção que o moço deveria tomar, mas quando volto a encará-lo levo um enorme susto o que me fez perder o equilíbrio e cair, mas o homem em minha frente me segurou rapidamente colando meu corpo ao dele e por ver meu desespero ele levou sua mão enorme a minha boca a tapando com força para que eu não gritasse e eu apenas o encarei vendo que ele sorria alucinadamente em minha direção e ao olhar para seus olhos uma compreensão parece me invadir.

“Então eu não estava louca, os olhos dele são realmente vermelhos...” penso e uma vontade de chorar começa a me dominar.

Começo a me debater, tento fugir com todas as minhas forças, mas era impossível, o ser que me segurava com dominância era forte demais e mesmo que eu quisesse muito eu jamais escaparia de sua posse.

— Shiiiu fique quietinha sim? Agora tudo será mais fácil, você vai ver.

Choraminguei e vi um carro preto se aproximar, foi tudo muito rápido e antes que eu pudesse pensar em algo fui colocada no carro e em um flash vejo mais uma vez o homem com a máscara de coelho observando em um beco do outro lado da rua eu ser levada por esse ser sem mover uma palha sequer para me ajudar.

Tudo aconteceu com uma enorme rapidez e quando dei por mim eu estava sendo vendada, amordaçada e amarrada em meus pulsos, o carro deu partida me levando para o que acredito ser o meu fim.

[...]

Eu não pude ver o caminho por onde fui levada, mas não demorou muito senti o carro parar e assim que parou de vez fui lançada para fora dele, empurrada sem dó caindo de joelhos e imediatamente minha venda foi tirada de mim.

Foi aí que senti que minha sanidade jamais voltaria, olho em volta e apesar do escuro que dificultava tudo pude ver algumas silhuetas enormes de algo que me parecia ser lobisomens, ou de uma mescla bizarra de homens e lobos, sei lá, a essa altura já não sei dizer ao certo, não sei nem se isso tudo é real.

Forço minha vista para entender aquilo tudo quando vejo pares de olhos vermelhos iguais aos do que me colocou no carro me encararem com certa fúria, mas os olharem sobre mim não se demoraram, eles entraram em um tipo de discussão e então eu me levantei e dei um passo para trás os ouvindo com atenção e os dois que estavam no carro vieram até os demais.

— Nosso líder já está chegando, ele só ia resolver algo e viria direto para cá então se acalmem ou eu mesmo acabo com vocês.

Aproveitei que eles tinham suas atenções voltadas para si e corri como louca, eu precisava sair dali o mais rápido que podia e ir para o mais longe possível deles, mas eu mal me afastei e um calafrio me tomou por ouvir os uivos nitidamente raivosos deles em minhas costas, com certeza eles se deram conta da minha fuga e agora ou eu corro por minha vida, ou eu morrerei aqui.

Sigo correndo, eu só preciso fugir deles então corro feito louca até que chego a uma clareira, não havia árvores ali e desenhado no chão vejo um círculo perfeito e quando olho mais atenta vejo um buraco bem ali, vou para a borda e tento olhar dentro dele, dependendo do que tiver ali posso me esconder, mas foi em vão, era impossível enxergar algo ali dentro e o pânico me consumiu.

“Mas que inferno!”

Penso irritada e olho pelo caminho que vim, o que só me faz ter mais desespero por notar que os lobisomens já estão visíveis para mim, o que indica que estou encurralada e quando eles se aproximam notando onde eu realmente estou eles param de avançar e eu os ouço mais uma vez.

— San, deixa isso para lá...

— O Peter tem razão, agora não vale mais a pena.

Travo no lugar, o que poderia ser tão assustador para aqueles que me assombravam?

— Mas eu a quero para mim!

— Não endoida San, ou você quer mesmo enfurecer o nosso líder? Lembra o que ele fez com a gente da última vez que não seguimos suas ordens?

— Lewis você é muito certinho, que saco!

— Tá não podemos irritar o líder, mas ainda temos que pegá-la, ou vocês querem perder a escolhida do Chan?

Ouvi a tudo aquilo incrédula, sério que eles estavam discutindo assim na minha frente com medo de encarar o buraco atrás de mim?

O que será que tem aí que está os deixando tão receosos?

Olho para o buraco mais uma vez e volto a encará-los, agora parecia que eles finalmente criaram coragem e decidiram se mover cautelosamente em minha direção.

— Bob, não se afobe.

— Fala isso para o Sky, ele que é o afobado aqui.

O sorriso doentio do tal de Bob que me encarava como se fosse me devorar, me encorajou a fazer uma loucura e sem pensar demais me jogo no buraco e dou início a uma queda livre no escuro e um pouco antes de chegar ao chão, sinto como se galhos aparecem minha queda, foi doloroso, mas evitou que eu me espatifasse toda quando caí de costas no chão em um baque seco.

A dor pela queda levou todo o ar dos meus pulmões e pela dor cruciante que estou sentindo agora tenho certeza que quebrei alguma costela.

Abro meus olhos lentamente e vejo uma névoa tomando tudo ao redor, havia árvores aqui também, mas diferentes das de onde eu estava a pouco elas eram finas e sem folhas como se estivessem todas mortas e quando olho mais a frente vejo várias cruzes fincadas no chão.

“Porque ali eu consigo ver tão nitidamente?”

Me pergunto em pensamento estranhando de verdade esse fato e olho para cima buscando pelo buraco de onde acabo de cair, mas ao invés de o ver o que encaro é uma lua enorme que estava extremamente próxima a mim.

“Meu deus o que está acontecendo aqui?”

Volto a me perguntar em total agonia, eu só queria entender, não, a verdade mesmo era que eu só queria mesmo me livrar dessas amarras em meu braço, dessa mordaça em minha boca e voltar para casa.

A névoa vai ficando mais densa e eu preciso apertar meus olhos para enxergar melhor e bem mais adiante de onde estou avisto uma menininha em um balanço, então decido ir até ela para buscar alguma informação ou até mesmo quem sabe uma ajuda, mas é claro com todo o cuidado do mundo.

Me aproximo tentando fazer alguns barulhos e bato na estrutura de metal do balanço a fim de chamar sua atenção e assim que o faço noto ela se virar para mim, mas me arrependo na mesma hora de ter feito o que fiz.

“O quê? Ela tem o meu rosto? Ela sou eu?”

O pavor me toma por notar a enorme semelhança da garotinha comigo, mas os olhos dela eram de um preto denso e seus cabelos vermelhos como sangue.

— Olá Chun-Hee, você precisa de ajuda?

A garotinha sinistra saiu do balanço vindo em minha direção e eu quis morrer ali mesmo, mas ao contrário do que achei que seria, ela começou a tirar minhas amarras libertando meus braços enfim.

— Quer ajuda com sua mordaça?

Ela fala simplista, mas nego sua ajuda, uma vez com minhas mãos livres eu mesma posso tirar a mordaça de mim e quando o faço sinto em minha língua e meus lábios a secura do pano que estava apertando minha boca.

— Obrigada por isso, pode continuar sua brinca... JESUS!

O rosto da menininha se abriu inteiro em algo que não sei bem definir, mas havia tantos dentes ali que me fez gritar em puro horror.

— SOCORRO! AAAAHHH!!!

Eu a vi avançando em minha direção e então corro com tudo o que posso, mas a garotinha era rápida e conseguiu me alcançar me pegando pela perna e ali senti que tudo estava acabado para mim quando de repente ouço um estrondoso BANG, som esse que reconheço ser de uma doze e no mesmo instante sinto um líquido quente e viscoso escorrer pelo meu rosto assim como pedaços de carne quente caindo em mim e quando abri os olhos que havia fechado por instinto uma ânsia incontrolável me toma e eu quase vomitei por ver vários pedaços espalhados por todo lugar e até em mim mesma que agora me encontrava toda suja e pegajosa.

— Se você quiser sair viva daqui garota, apenas me siga!

Olho para a direção da voz e vejo o mesmo homem coelho de antes.

— Por que só agora você decidiu me ajudar? — Pergunto quase furiosa. — Sendo que está me observando desde o início?

Ele respirou pesadamente.

— Lá em cima eu não poderia interferir, sou proibido de me meter nos assuntos do mundo superior.

Me senti um pouco confusa, mas também não me sinto em condições de questionar demais, afinal ele acabou de me salvar do meu eu infantil e monstruoso, e vai que esse era apenas mais um maluco.

Não se pode contrariar gente maluca.

— Está bem, vou com você.

Eu não tinha muitas opções.

— Vamos.

“Um homem de poucas palavras”, pensei, e comecei a andar ao seu lado, que por todo o caminho permaneceu calado.

[...]

Depois de uma breve caminhada, chegamos a uma espécie de bunker onde tinha uma parede enorme de vidro que nos permitia ver a floresta onde estávamos a pouco.

Eu seguia olhando curiosa e o homem coelho retirou sua máscara e em seguida a arma de seu ombro e quando o encarei bem pude notar suas feições, ele era muito pálido e tinha olheiras muito profundas, mas era também muito belo e eu segui o encarando.

— O que foi?

Ele perguntou em um ar sério.

— É que eu achava que você era mesmo um coelho.

Falo e me sinto uma tola em seguida, o homem coelho apenas riu de mim, um sorriso lindo, mas um tanto intenso demais e se virou para pegar algo em um armário que tinha ali se virando em seguida e jogando em minha direção uma toalha e roupas limpas que as peguei no ar, mas o esforço repentino me fez sentir uma dor absurda e eu acabei respirando fundo pelo incômodo.

Ele me olhou sério e retirou um relógio de bolso o encarando também e em seguida ele veio para mais perto de mim me encarando como quem pudesse me ler ou algo do tipo.

— Você quebrou uma costela no lado esquerdo e trincou outra do lado direito.

O jeito simples dele tratar tudo isso estava me deixando insana.

— Como você sabe disso homem coelho?

— Eu posso ver, mas para o seu azar não posso fazer muito por você, além disso.

Ele se virou e foi pegar remédios para mim.

— Aqui, se limpe de uma vez e tome isso, logo você sentirá menos dor.

Ele se afastou sentando em um sofá que ficava de frente para a enorme parede de vidro e encarou ali como se eu não estivesse com ele então entendi que era para que eu pudesse me limpar e me trocar e assim eu fiz.

— Sente aqui comigo se já terminou aí.

Ele fala em seu tom simplista e calmo e eu tomo os remédios que ele me deu e vou me juntar a ele no sofá.

— Por que estamos parados aqui sentados e observando e não fugindo para sair desse lugar?

Pergunto no tom mais calmo que consigo e ele segue encarando o lado de fora.

— Não podemos estar lá fora a essa hora, mais tarde será mais tranquilo, e acredite no que digo, se sairmos agora certamente morreremos, então aguente firme as próximas horas e eu a levarei daqui.

Penso em o responder, mas nada coerente me vem à mente devido a tudo isso ser um grande absurdo para mim e então apenas respiro fundo e noto que ele sorria pequeno.

— Você gosta de filmes de terror Chun-Hee?

Sua pergunta me pegou desprevenida.

— Não, nem um pouco homem coelho, na verdade, eu detesto filmes assim.

Ele parecia um pouco cansado, mas também muito concentrado em seja lá o que for.

— Uma pena, porque nas próximas horas será só o que veremos, terror e mais terror sem direito a interrupções.

O ouço e me sinto arrepiar, então olho em volta procurando a televisão onde assistiríamos a tais filmes e não vejo nada.

— Ali.

Ele fala apontando para a parede de vidro em nossa frente e eu a encarei.

— Onde estou homem coelho? Que lugar é esse? O que está acontecendo? E quem é você afinal?

Ele nada disse, apenas me encarou por um instante como quem ponderava se me responderia ou não, e ouvimos um grito agudo e horrendo que me paralisou por completo e o homem coelho me olhou ainda mais sério e bufou desgostoso por ver o meu total desespero e pavor e aí se pôs a falar.

— Em primeiro lugar, meu nome não é homem coelho, me chamo Lee Know então pare com isso. Onde você está? Isso é bem difícil de explicar... E o que está acontecendo? — Ele fala como se a resposta fosse algo óbvio. — Chegamos em outubro!

Eu o encarei pensativa.

— Isso não me diz muito homem coelho.

Ele respirou fundo e revirou os olhos rapidamente.

— Eu queria ter a paciência e a eloquência do oráculo... — Ele disse se mostrando um tanto impaciente — Bom, como você tem observado o mundo não são só das flores que vocês respiram lá em cima, está mais para como se fosse algo dividido em natural e sobrenatural.

Sigo o encarando, eu realmente quero entendê-lo e ele continua.

— Algumas coisas sobrenaturais se mesclam com o mundo humano, mas as mais bizarras não, elas ficam separadas por um véu de magia feita por diversos deuses antigos, que notaram há muito tempo que o sobrenatural e o mundo natural não se misturam bem. Geralmente esse véu é forte, mas na época de outubro depois que houve a caça às bruxas feita pela igreja dos humanos esse véu perdeu a manutenção do seu lado das coisas e em outubro é quando ele está mais fraco e as herdeiras mais poderosas do seu mundo usam mês de outubro para fazer o rito de restauração no dia trinta e um para que as coisas que você vai ver aqui não invadam o mundo da superfície.

Eu seguia o ouvindo com atenção e o encarando e como se ele soubesse o que estou pensando ele segue com sua explicação.

— E o que eu tenho a ver com isso? Digamos que sou um tipo de zelador desse zoológico de aberrações e não, eu não sou humano, eu sou um familiar, eu fico aqui porque a minha deusa mestra pediu, ela foi uma das que criou o véu e eu sou quem tenta manter tudo sob controle.

Uma loucura maior que a outra isso sim, mas minha curiosidade me leva a continuar o questionando.

— E você fica sempre sozinho aqui?

Pergunto o encarando com sinceridade e ele me encara de volta aprofundando seu olhar no meu, era como se ele me visse de verdade pela primeira vez o que me fez ruborizar um pouco.

— Só em outubro que é quando preciso manter essas coisas presas.

Volto a encará-lo curiosa.

— E a que coisas você está se referindo LeeKnow?

Ele apenas aponta para a parede de vidro e eu compreendo o que ele quer dizer.

— Posso perguntar o porquê de você estar me ajudando?

— O oráculo disse que esse ano teríamos alguns acontecimentos e me avisou sobre você, por isso te vigiava… — Ele fala um tanto pensativo. — Esses acontecimentos se referem a mortes humanas para ser mais exato e ele me disse que se elas não fossem evitadas o véu que separa os dois mundos poderia não aguentar até o dia trinta e um e depois seria uma guerra para conter o sobrenatural de novo, porque acredite quando digo Chun-Hee, armas humanas não tem efeito em monstros, a minha doze ali que você viu em ação agora a pouco é uma arma mágica, e só por isso deu conta da criatura que estava prestes a te devorar.

Os pensamentos corriam em minha mente em uma velocidade absurda e eu me mantive em silêncio tentando absorver tudo o que o LeeKnow havia me dito.

Mortes humanas... pensei.

Eu mesma escapei por pouco de morrer nas mãos daqueles lobisomens e da criança amaldiçoada.

O véu poderá não aguentar...

A fala do LeeKnow ecoava em minha mente, o mundo que conheço e ao qual pertenço está por um fio, não existem armas em nossa posse que poderiam dar um jeito nessas criaturas e até onde entendi o LeeKnow é alguém solitário, que faz todo esse trabalho de contenção por sua própria conta por seguir ordens da deusa a qual pertence.

Olho novamente para o vidro e vejo um rapaz e uma moça tentando sair vivos de uma sala cheia de monstros, tem alguém correndo atrás deles com adagas e por deus eles comeram coisas apodrecidas para poder escapar de uma das salas, continuo os observando e penso que de fato aquilo parecia um filme de terror como o LeeKnow disse que seria, e para minha infeliz surpresa quando acho que eles finalmente escaparão dali tudo volta do início e eles começam a passar por tudo aquilo novamente como em um looping infernal.

Me senti extremamente assustada, triste e frustrada pela visão que tive e em seguida vejo monstros, criaturas que pareciam ter mais de três metros de altura com suas peles cinzentas e cabelos longos, finos e falhos que copiavam vozes humanas tentando atrair algumas pessoas para buracos idênticos ao que me joguei quando vim parar aqui.

Havia monstros se atacando e se destroçando bem na nossa frente e os pedaços de seus corpos batiam no vidro e aquilo era extremamente nojento.

Outros monstros começaram a atacar o vidro de onde estávamos me deixando ainda mais aflita e em pânico e a força do impacto deles contra as paredes do bunker faziam com que a porta do lugar onde estávamos tremesse como se fosse se partir ao meio pela força dos ataques que recebia dos monstros raivosos que também estavam por ali.

Estávamos cercados por criaturas horrendas e raivosas quando de repente ouço com precisão...

— Professora Chun-Hee me ajuda!

Ouvi a voz da minha aluna que estava sendo perseguida pelo aluno valentão.

— Nos deixe entrar!

Era a voz do meu pai, o que me fez paralisar.

— Filha, por favor, somos nós!

A voz da minha mãe soou chorosa e uma lágrima desceu meu rosto.

— Chun-Heeyah! Nos ajude irmã!

O grito do meu irmão me destruiu, fechei meus olhos e chorei um pouco mais, em seguida encarei o homem coelho, meu coração estava acelerado, meu rosto molhado por minhas lágrimas de desespero e sem nada dizer eu implorava por ajuda.

— Se acalme Chun-Hee, não são as pessoas que você conhece e ama, são apenas os monstros tentando atrair você.

— Como pode saber LeeKnow? E se eles os pegaram?

— Você sabe, eles sabem, e eu sei que isso é só um blefe, então mantenha a calma, eles estão assim por sentirem sua presença e o seu medo e por isso estão mais agitados que o comum, mas fique tranquila, nada nesse bunker se quebrará, eles não conseguirão entrar aqui, você está a salvo enquanto estiver aqui dentro, esse bunker é protegido pela deusa da qual sou o familiar.

— E você LeeKnow? Você não tem medo?

— Não, eu nunca tive e nem terei, o que tiver de acontecer a mim vai acontecer eu não preciso temer o futuro.

Ele era muito centrado e corajoso e nesse momento sequei minhas lágrimas o invejando intimamente.

Eu queria ser como ele, mas nem em mil anos eu teria esse autocontrole que ele demonstra ter.

— E que horas essas criaturas vão dormir para você poder me tirar daqui?

Ele sorriu descontraído e eu notei o quão lindo era seu sorriso.

— As criaturas que vivem aqui não dormem nunca, elas só ficam mais lentas.

— E então como pretende me tirar daqui?

— Como viu quando caiu aqui, a lua está muito perto de nós e isso é por conta do poder da deusa, então ficarei mais forte para te tirar daqui por ser um espírito lunar, apenas espere e quando for a hora eu lhe garanto que você voltará para casa.

Ele era realmente muito neutro, sua expressão imutável, suas convicções bem estabelecidas, nada o abalava e de certa forma aquilo me tranquilizou como se eu pudesse de alguma forma me apoiar e confiar no LeeKnow.

Me arrumei novamente no sofá e pelas próximas horas ficamos vendo o show de horrores passando sem cessar pela janela de vidro em um completo silêncio.

[...]

Horas depois os monstros pararam de tentar invadir o bunker e eu me perguntava se seria agora que o LeeKnow me tiraria daqui então ele se levantou em um movimento fluido e me encarou.

— Se prepare Chun-Hee, agora teremos que correr.

Me coloquei de pé e notei que o remédio que o LeeKnow me deu havia feito efeito, a dor diminuiu bastante o que me animou muito, assim conseguirei correr melhor e mais rápido.

— Não se anime muito, o efeito do remédio é temporário e assim que passar sua dor voltará a incomodá-la então quando estiver de volta ao seu mundo procure um médico está bem?

Aceno que sim com a cabeça e ele me encara uma última vez.

— Foi bom conhecê-la Chun-Hee.

Ele colocou sua máscara de coelho e me entregou uma mais simples junto a uma espécie de bolinho que encarei sem entender o porquê daquilo.

— Para que isso LeeKnow?

— Coloque a máscara que lhe dei, vai ajudar a manter sua presença um pouco mais disfarçada para os monstros.

Enquanto falava vi ele pegar sua arma que assim que entrou em contato com sua mão se transformou em uma sniper o que me fez lembrar quando ele me disse que ela era mágica.

— Me escute bem, — Ele fala virado para mim e eu o encaro prestando o máximo de atenção possível. — Assim que sairmos do bunker você vai correr em direção à lua sem olhar para trás, corra o mais rápido que conseguir e assim que você se encontrar embaixo da lua morda o mocchi que lhe dei sem hesitar entendeu?

— Sim LeeKnow, e obrigada.

Ele acenou com a cabeça e eu fui para a porta do bunker como ele me sinalizou.

— No três você começa a correr... Um... — Sinto uma adrenalina me tomar, mas me mantenho focada em suas instruções. — Dois... — Estou com um medo absurdo de correr para todo o horror que vi nas últimas horas, mas a encarada firme do homem coelho me trouxe uma certa segurança. —Três!

Assim como ele me orientou saio correndo que nem louca, corro o máximo que consigo e começo a ouvir atrás de mim o início de algo como se fossem gritos, mas estes não foram muito além porque em seguida ouço tiros que julgo ter vindo da sniper do LeeKnow e pedaços de monstros começam a passar por mim assim como seus fluidos.

Tentei acelerar minhas passadas para correr ainda mais depressa e vi que um monstro vinha em minha direção de frente para mim e nesse momento sinto uma pontada de dor que vinha das minhas costelas quebradas.

O monstro veio com tudo em minha direção e quando ele pulou tentando me alcançar me joguei no chão tentando deslizar para frente na esperança de fugir dele e já no chão vi um raio de luz explodindo a criatura que se espatifou no ar espalhando tripas, pedaços de carne e muito sangue para todos os lados inclusive sobre mim.

Tento me levantar cambaleando mesmo, me sinto trêmula e enojada de tudo isso e volto a correr com toda minha força, eu preciso sair daqui, essa é a minha única chance e eu estou muito próxima do meu destino para desistir.

Chego finalmente em baixo na lua assim como o LeeKnow me instruiu, mas uns cinco monstros me cercaram no mesmo instante me fazendo duvidar se eu conseguiria mesmo voltar para casa.

Tudo foi muito rápido, vi alguns disparos de luz vindo na direção dos monstros que iam caindo um a um e então levei o meu mocchi a boca e o mordi, ainda pude ver um último raio de luz atingindo o monstro que estava a centímetros de mim, ele caiu sem vida no chão e o último vislumbre que tive foi do LeeKnow com sua arma olhando em minha direção e eu estava grata o meu salvador, o homem coelho.

[...]

— Mas o quê?

Falo finalmente me dando conta.

Eu estava em pé na sala da minha casa completamente ensanguentada e em meu ombro um pedaço grotesco de carne do último monstro que o LeeKnow havia derrubado me fez gritar e com minha mão tirei aquela prova nojenta de que tudo o que vivi foi mesmo real do meu ombro a jogando para longe de mim.

Me senti estremecer, todo o meu corpo estava desfalecendo e sem que eu notasse me pus a chorar em completo desespero por me dar conta de tudo que passei nas últimas horas.

[...]

LeeKnow POV.

— Ela conseguiu, — respiro aliviado, no fim até que eu fui com a cara dela. — Adeus Chun-Hee, cuide-se bem.

Falo um tanto aliviado e sigo meu próprio rumo solitário novamente, com a consciência de que até dia trinta e um terei muito trabalho a fazer e no que depender de mim os dois mundos continuarão em seus devidos lugares e o equilíbrio das coisas permanecerá intacto.

Notas finais
Espero que tenham curtido! Até a próxima att.