Imaginando!
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu ando pelos corredores do laboratório dispensando todo o pessoal da minha equipe. Encontrei-os na sala de descanso conversando animadamente. Pra falar a verdade... Eu não sinto a mínima vontade de sorrir.
- Vocês estão liberados.
Digo em voz alta para que me ouvissem através daquelas algazarras. Eles me olharam e pararam de rir. Minha presença causa algum incômodo? Oh não, já sei o que é. É a minha expressão.
- Aconteceu alguma coisa com você, Grissom?
Catherine me pergunta preocupada enquanto os outros se ocupam em guardar seus pertences nos armários. Tenho que me livrar de um sermão de Catherine. Me sinto como um filho que está recebendo da mãe uma lição de moral. Não estou com cabeça para sermões de Catherine hoje. Não mesmo.
- Não. Estou bem.
Bem? Isso foi uma mentira. Não acreditem na minha resposta, ok? Essa semana foi uma tortura. E a causa dela está bem na minha frente. Sinto que se eu não sair daqui agora vou ter uma síncope.
- Bom dia pessoal, bom descanso.
Dei meia volta e fiz um gesto com a cabeça em direção a ela. Sara me olhava e me analisava, eu sei disso. Suas palavras são mais nítidas pelo olhar. Seu sorriso maroto ao me observar significava que ela sabia... Sabia sim! Sabe que eu sinto algo bem profundo por ela.
Passei em minha sala só para pegar minha pasta de relatórios e segui pra casa. Preciso de um banho pra ver se esfrio a cabeça.
Entro em meu carro, e encosto minha cabeça no volante. Estou muito cansado. Não do trabalho, isso mal me cansa. Estou cansado da solidão, de querer e não poder, de olhar e não tocar, de sentir e não poder demonstrar. São coisas do coração. Isso está me sufocando... Definitivamente!
Quando levanto minha cabeça sinto alguém se aproximar de mim, na janela do motorista.
- Hey...
- Sara?
Era ela. Meu coração pulsou, como se eu tivesse levado um susto. Dessa vez ele bateu muito mais forte do que das outras vezes. Será que estou me apaixonando cada vez mais pela minha subordinada? Ah, droga de sentimento estúpido!
- Você esqueceu... Seus óculos.
- Oh... Obrigado, Sara.
Viu como estou? Esqueci meu próprio óculos. Meu Deus, essa mulher mesmo não estando comigo, mesmo não mandando em mim, tem um controle enorme sobre mim e minhas atitudes.
- Por nada.
Ela deu meus óculos em minhas mãos e sorriu de lado, se despedindo. Gosto quando ela sorri, também gosto quando ela vem até mim e fica perto. Eu gosto dela por completo.
- Tchau...
Gosto de ouvir sua voz. Só não gosto quando sua voz pronuncia um “Tchau, Grissom...” Sabe minha vontade, leitores? Vou confessar que tenho vontade de falar: “Não vá, fique comigo.” Sou um tolo. Um covarde.
Bom, mais uma vez, deixei-a ir. Acompanho seus passos até vê-la entrar no seu carro. Ela o liga, suspira, e vai... Vai longe. Será que ela sente a mesma dor que eu? Acho que pior. Ok, preciso parar de pensar nela, vou entrar em depressão.
Ligo o rádio e dou partida no meu carro. Vou mudando as estações enquanto saio do estacionamento e me deparo com a linda voz de Kelly Clarkson... A sua música ainda não tinha acabado, mas estava no refrão. Lembro-me do seu nome, era “Breaking your own heart”.
Você está partindo o seu próprio coração
Levando isto longe demais numa estrada solitária.
A música, mesmo estando no refrão, me dizia muita coisa. É verdade... Eu estou partindo meu próprio coração com tudo isso. Sara sempre está ali, pra mim, e eu não faço nada. Mesmo querendo, mesmo desejando. Tudo o que eu queria era acabar com todas as regras existentes, ter uma idade estável... Mas eu não consigo achar uma maneira de fazer com que esse relacionamento der certo. Eu tenho medo... Tudo isso é apenas um amor. Vai passar. Um dia passa.
Você diz que é apenas um amor
Mas quando estiver quase lá,
Apenas deixe ir a coisa que você tem mais medo.
Você tem feito isso desde o começo...
Partindo seu próprio coração.
Estou concordando plenamente com as palavras da cantora. Se eu, um dia, tomar a coragem de me entregar a Sara, de todo meu coração, eu tenho que aprender a abandonar esse medo. Medo esse que não sei explicar. E se eu me envolver? E se eu me entregar por completo e quando eu ficar mais velho, um inútil, ela não precisar mais de mim? Ela simplesmente tomar seu rumo com outro mais novo?
Não é muito tarde,
Eu ainda estou aqui...
Se você apenas deixar seus medos irem...
Espera, me deixa mudar de rádio! Essa música está me enlouquecendo. Claro! Sabe por que ela me enlouquece? Porque ela fala simplesmente a verdade... A verdade nua e crua aqui, batendo na minha cara, e eu não quero enxergá-la. Mas vamos ser realistas ok?
Se Sara me esperou por todos esses anos... É claro que se eu me entregasse ela não me abandonaria. E ela continua ali... Pra mim, toda minha! Com aqueles olhos me fazendo delirar, seu cheiro me fazendo ter fantasias particulares, e sua voz me fazendo imaginar seus gemidos sugestivos enquanto fazemos amor, e...
- Presta atenção, titio!
Um cara grita quando dou uma freada brusca e quase perco o controle do carro. Vejo a fumaça da freada passar ao meu lado, e dou graças á Deus por estar vivo. Não posso me deixar levar por pensamentos tão alucinantes quanto esses ao dirigir, vou me lembrar disso na próxima vez. Mas eu sei de uma coisa... Isso vai continuar acontecendo enquanto eu não sentir seu corpo sobre o meu. Seus beijos... Como será o sabor?
Em minutos estou em casa. Mas a frase da música que escutei a pouco continua em minha mente, vagando como uma alma perturbada, atiçando meus sentidos... Mandando-me a imagem daquela deusa pra me fazer perder o pouco de juízo que me resta... Não agüento mais ficar sem sentir seu toque.
Não é muito tarde...
Eu ainda estou aqui...
Não! Não é tarde demais. Eu sinto isso... Pelo menos ainda não é. Tenho que fazer alguma coisa. Eu passo as mãos por entre meus cabelos e começo a andar de um lado para o outro dentro de casa. Estou acabado! Ficando velho, e não consegui ser feliz. Sentei no sofá, desgostoso da vida, com vontade de sumir. Porque tudo tinha que ser tão difícil?
Mas não é difícil! Eu que complico as coisas! Olhem pra mim... Eu sou um homem tão sábio, não é? Ah... (risos) vocês que pensam! Sou tão diferente quando o assunto é o coração, que ás vezes penso que não devo me envolver com ninguém, que não vou saber conviver com a pessoa.
Só que eu imagino com Sara. Imagino viver com ela, acordar e vê-la ao meu lado, me dizendo “bom dia” e me presenteando com um beijo poderoso, subindo em cima de mim, ainda nua desde a nossa noite de amor. Levanto-me e vou até a cozinha. Abro a geladeira e pego leite, encho o copo e fico ali, bebendo em pé mesmo, tentando organizar meus pensamentos... Tentando, com todas as expectativas, fazer a coragem aparecer, para tomar uma iniciativa do que fazer a respeito dela. Ali, onde estou escorado, tem um som. Eu o ligo, sem a menor vontade... E mais uma vez as músicas estão de marcação comigo!
Não fala nada.
Deixa tudo assim, por mim.
Eu não me importo, se nós não somos bem assim...
Gabriel Guerra, com sua música “Só pro meu prazer”. Não há nenhuma vez que eu não se lembre de Sara quando toca essa música. Meu coração está se rendendo. Aos poucos, a vontade de tê-la pra mim aumenta, e com ela, a coragem. Isso coragem! Venha, estou esperando por você. É só você aparecer! A música continuou tocando, e eu estava quase terminando com todo o leite que havia no copo. Houve um momento da música que fiquei parado, prestando atenção... Lembrando-me dela...
Eu te imagino, eu te conserto
Eu faço a cena que eu quiser.
Eu tiro a roupa pra você...
Minha maior ficção de amor...
Fecho meus olhos e sua imagem aparece nitidamente, como se estivesse aqui pra mim. Me vejo á sua frente, admirando-a e a adorando como algo sagrado. Continuo imaginando, fazendo um filme nos meus pensamentos. Pensando o quanto seria bom escutar da sua boca dizer que me ama. E de repente o desejo aflora dentro de mim, e eu reconheço que estou me rendendo. Me vejo tirando minha roupa e juntando nossos corpos para uma prazerosa jornada tentadora de amor. Seu corpo cavalgando sobre o meu... Uma grande ficção em minha mente.
Abro os olhos devagar, e vejo que aquilo foi só mais um de meus pensamentos... Maravilhosos pensamentos... Tudo aquilo poderia ser real, mas sou ainda muito covarde pra isso. Enquanto minha coragem não aparece, vamos lá, eu brinco com meus pensamentos!
Só pro meu prazer...
Isso... Só pro meu prazer... Eu penso nela se despindo pra mim, e jogando-se na cama ao meu lado, mordendo meus lábios e me excitando completamente.
Só pro meu prazer...
A música está quase no fim, mas a cena de Sara dançando é só mais um novo episódio dessa novela sem fim. Vejo-me perdido, sem direção... E é agora! Não posso mais perder um segundo de minha vida com pensamentos.
Jogo o copo na pia e pego as chaves do meu carro. Pela velocidade que ando, se a polícia passasse por mim eu estaria sendo preso por excesso de velocidade. Mas que se dane! Eu tenho coisa melhor pra fazer... Salvar minha vida! E salvar a vida da mulher que eu amo!
Gostei disso... “A mulher que eu amo”.
Se alguém perguntar pra mim: “Qual é a coisa mais importante da sua vida?” Antes eu responderia que era meu trabalho, mas agora, essa será a resposta: “A mulher que eu amo”. Minutos depois paro em frente á seu apartamento. Saio do carro às pressas e noto que parei o carro quase em cima da calçada. Mas eu estou com pressa, gente. Não posso fazer nada.
Subo as escadas correndo, e logo estou em frente a seu apartamento. Toco a campanhia insistentemente, além de bater na porta. Enrolada em um roupão ela abre a porta... Eu não espero mais anda e a agarro forte. Deixo-me levar pelo sabor de seus lábios e percebo que, mesmo sendo surpreendida, ela sabe que sou eu, por isso corresponde.
- Isso é invasão de domicílio.
Eu ri ao parar de beijá-la. Como ela não me pede uma explicação? Geralmente, se fosse outra mulher, iria me fazer várias perguntas. Iria querer saber por que eu só vim agora, qual o motivo de ter tido essa mudança, e outras perguntas que agora, nesse momento, não me vem na cabeça. Eu estou concentrado em beijar aqueles lábios tão lindos...
- Me prenda.
Entrei no seu jogo, mas não parei de beijá-la. Senti ela me empurrar contra a porta, e me veio aquela sensação de “Será que é tarde?”. Mas não. Ela não iria me colocar pra fora de casa. Ela me encostou ali para poder trancar a porta e fazer igual aos meus pensamentos:
- Eu amo você...
Agora eu vejo o quanto fui burro. Tudo o que eu queria estava em minha frente, todo meu filme, minha novela, meu paraíso estava em minhas mãos, e eu os estava negando, me deixando levar por minha solidão.
Eu imaginava muito. E não pensava no que estava na minha frente.
Se eu tivesse pensado mais eu... Ah, chega! Desculpem leitores, eu não posso mais ficar me martirizando. Eu sei que fui um idiota, um burro, um covarde... Mas agora tudo mudou, eu me entreguei. E eu prometo, eu prometo mesmo, que irei agora só imaginar meu futuro...
Imaginar como será o fruto do nosso amor! Esse sim será o meu futuro! Isso sim é o que tenho que imaginar...
The end.
Notas finais
E então... Gostaram?
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