I'm sorry, mom
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Percy estava nervoso.
Suas mãos suavam enquanto o táxi que pegara andava, calma e tranquilamente, pelas ruas engarrafadas de Nova York.
Quanto mais perto do seu destino — o apartamento em que morava com sua mãe e seu padrasto, Paul Blofis -, mais tenso ele ficava, o que o deixou com raiva.
Ora, não era como se fosse sua culpa.
Tudo bem, ele não via a mãe há meses. Um ano, quase. Mas não porque ele fugiu de casa ou algo parecido; nem mesmo quando morava com seu padrasto, Gabe Cheiroso, pensara nisso.
Pelo contrário. Ele literalmente tinha sido tirado de sua mãe, de seu padrasto e todos que amavam por Hera, a deusa grega do casamento (ou Juno, sua forma romana, se preferir — Percy odiava ambas), para que pudessem vencer Gaia, a deusa primordial deusa da terra que de repente decidiu acordar e destruir o mundo.
Felizmente, o plano deu certo. Alguns dias atrás, Percy e seus amigos conseguiram enfim derrotá-la, conjuntamente com a ajuda dos deuses e dos campistas romanos.
Contudo, o garoto não podia evitar ficar chateado e, por muitas vezes, sentir raiva. Ele perdera 6 meses da sua vida dormindo. E pior: ficara sem memória, o que fora extremamente horrível.
Por isso, ele não podia culpar sua mãe por brigar por ele, ou por gritar com ele, ou por agredi-lo. Ele entendia completamente ela. Apesar de tentar contatá-la em sua missão com seus amigos Frank e Hazel para o Alasca, Percy não tinha certeza que a mãe tinha recebido.
Ele só esperava que tudo ocorresse bem.
Ao seu lado, Annabeth pegou sua mão. Era reconfortante saber que ela estava ao seu lado naquele momento, apoiando-o. Ela usava uma camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue e um jeans rasgado. Seus cabelos loiros estavam soltos, escorrendo por seus ombros. Em seu colo, tinha uma mochila com uma pequena muda de roupas e alguns itens necessários para semideuses: sua nova adaga — presente de um gigante aliado, Damásen, quando ambos caíram no Tártaro (longa história) -, seu boné dos Yankees, que voltara a funcionar após a guerra contra os gigantes, e ambrósia e néctar, comidas dos deuses: afinal, ambos eram semideuses e, apesar de estarem tecnicamente em um estado de paz, os monstros continuavam tentando atacá-los.
— Ela sabe que não é sua culpa, Cabeça de Algas — Annabeth disse, deitando a cabeça no ombro do namorado. — Não precisa ficar agitado assim.
Percy deu um sorriso fraco para ela.
— Obrigado por vir, Sabidinha — ele falou sincero.
Era incrível como Annabeth o deixava mais calmo. Mesmo sem falar nada, ou com poucas palavras, ela conseguia tal façanha.
Ele se lembrou do dia anterior, quando convidara a namorada para acompanhá-lo para ver a mãe. Percy quase surtou quando ela tinha dito que não iria.
— Eu não sei, Percy... Quer dizer, você sabe que eu adoro sua mãe, e claro que gostaria de revê-la, mas... Eu acho que isso é muito pessoal. Não quero atrapalhar seu reencontro com a sua família — ela dizia, enquanto caminhava para seu chalé após o café da manha no Acampamento.
Percy a tinha segurado a poucos metros do Chalé 6, de Atena. A cor cinza da parede lembrava os olhos de Annabeth.
— Annabeth, minha mãe te adora, e eu tenho certeza que adoraria te ver — ele havia falado. — E além do mais, Sabidinha, você querendo ou não, depois de tudo que passamos, você também é minha família.
Percy se lembrou de que a garota corou, e após alguns minutos ela acabou cedendo, graças aos deuses.
Depois de virar à esquerda, o táxi enfim chegara em frente ao prédio de sua mãe. Era igualzinho Percy lembrava, embora a pintura clara agora parecesse um pouco mais desgastada. Reconheceu o apartamento de sua mãe ao ver a flor que plantara na sacada, a qual tinha recebido de Calipso, quando fora para ilha de Ogígia.
Deuses, apesar de isso ter sido há pouco mais de dois anos, parecia que tinha se passado uma eternidade.
Annabeth entregou vinte dólares ao motorista, enquanto ambos desciam do veículo. Percy observou o táxi seguir em frente, suspirando pesadamente. Ele colocou a mochila em suas costas e foi em direção ao prédio.
— Anime-se, Percy — Annabeth comentou, quando ambos esperavam o elevador. — Eu tenho certeza que ela apenas vai te abraçar e dizer o quanto sente sua falta.
— Que os deuses te ouçam — ele disse. Os dois entraram no elevador e, segundos depois, encontravam-se encarando a porta do apartamento.
Percy tocou a campainha. O nervosismo não o deixara perceber antes, mas agora ele percebia o quanto tinha sentido saudades de casa. De repente, ele se lembrou de como era sua vida antes de descobrir que era semideus, quando sua única preocupação era não ser expulso de alguma escola, evitando decepcionar sua mãe.
Agora, suas preocupações consistiam em se manter vivo e, nos tempos vagos, salvar o mundo. Divertido, não?
Além disso, ele sentia uma saudade imensa de sua mãe, tão grande que seu peito chegava a doer. Sua mãe arriscara tanto para salvá-lo e, apesar de tudo, ela sempre o apoiara. Sentia saudades inclusive de seu padrasto, que apesar de não ser seu pai, Percy o considerava como um.
— Eu atendo. — O garoto ouviu a voz do padrasto e seu coração começou a disparar.
Paul abriu a porta. Ele estava igualzinho Percy se lembrava: mesmos cabelos grisalhos e aparência de ator americano, muito embora fosse apenas professor de inglês.
Por um momento, o homem congelou. Percy tentou um sorriso.
— Oi.
Paul abriu um sorriso enorme, e puxou o garoto para um abraço forte. O que Percy mais gostava em Paul era que o homem realmente gostava dele. Não havia falsidade por ser seu afilhado ou algo parecido e, mesmo após explodir a escola de Paul, ele ainda gostava de Percy.
— Percy, meu Deus! — ele disse, meio gritando, enquanto Percy retribuía o abraço. — Como você está? O que aconteceu? — Mas antes que o afilhado respondesse ele gritou: — Sally, venha aqui!
Passos foram ouvidos ao fundo. O coração de Percy parecia que iria explodir.
— Paul, espero que seja algo importante, porque estou com o macarrão no fogo e... PERCY!
Sally usava um avental branco por cima da camisa. Seus cabelos escuros estavam presos numa toca de cozinha. Qualquer pessoa normal, ao longe, pensaria que a mulher estava bem.
Mas bastava olhá-la de perto que era evidente que havia algo de errado. O cabelo estava sem vida, com alguns fios brancos a mostra. Eram evidentes suas olheiras, como senão dormisse bem há dias.
Aquela cena quebrou o coração de Percy.
Sua mãe sorriu e o abraçou com tanta força que ele temeu que ela quebrasse suas costelas, mas ele não importava. Retribuiu o abraço da mesma forma.
— Percy, meus deuses... Eu senti tanta a sua falta, meu filho. O que aconteceu com você? — ela falou com a voz embargada. As lágrimas rolando no ombro do filho.
Ela se afastou gentilmente dele, e observou seu rosto.
— Você sumiu, Percy! Eu fiquei tão preocupada...
— Eu sei, mãe, me perdoe. — Ele fez força para não chorar. — Não foi minha culpa.
— Tudo bem, meu querido — ela afirmou, puxando-o para um novo abraço forte.
Por um momento, tudo parecia estar bem. Percy se esqueceu de tudo que passara os últimos meses: a ida ao Alasca, à Roma, à Grécia... A luta contra os monstros e os gigantes... Parecia que ele nunca tinha saído dali, de perto da sua mãe.
Ele se sentiu idiota por ficar nervoso, por achar que sua mãe iria brigar com ele.
Enquanto ambos se abraçavam, ao lado deles, Paul abraçou Annabeth. Sally enfim percebera que a garota estava lá, tímida, e soltou-se de Percy para cumprimentar a nora.
— Oh, querida... Senti sua falta também.
Annabeth sorriu, retribuindo o abraço.
— Eu também, Sally. Desculpa por não dar mais notícias, mas com a missão, você sabe... não havia como.
— Está tudo bem — a mulher disse, e olhou para ambos com um misto de alívio e preocupação. — Felizmente vocês vieram em boa hora. Estou terminando o jantar. Vamos entrando, porque temos muito a conversar.
XXX
A comida da mãe de Percy era tão boa quanto ele se lembrava.
Ela preparou um macarrão que estava delicioso, com um molho que Percy desconhecia. Ele não sabia se era saudades da comida, mas ele repetiu o prato duas vezes.
A fim de comemorar a volta do filho, Sally estava na cozinha preparando um bolo azul. Era uma espécie de brincadeira entre eles, uma vez que azul era a cor favorita de Percy.
Quando ela colocou o bolo no forno, voltou-se para a mesa, agora com a expressão mais séria.
— Bem, agora acho que está na hora de vocês me contarem o que aconteceu.
Percy respirou fundo e olhou para Annabeth, que estava sentada ao seu lado. Em uma situação comum, normalmente ele deixaria a namorada contar a história: afinal, como filha de Atena, ela tinha uma memória muito melhor que a dele.
Entretanto, ele se sentia no dever de contar a própria mãe o que aconteceu, na versão dele.
Annabeth provavelmente percebeu isso pois, em vez de começar a contar, apenas segurou a mão do namorado por debaixo da mesa.
Percy suspirou e começou a contar tudo desde o início: desde quando acordara no Acampamento Júpiter sem memória, indo à sua missão com seus amigos Frank e Hazel, bem como quando Annabeth, Jason, Pìper e Leo chegaram com um navio de guerra, o Argo II. Relatou os problemas com os romanos, a missão que tiveram que ir à Roma, e, principalmente, a queda no Tártaro.
Era difícil falar disso ainda. Percy ainda tinha pesadelos sobre o lugar, que nada mais era que o lar dos monstros. Fora sem dúvida a pior missão da vida dele e, senão tivesse Annabeth, com certeza não teria chances alguma.
Então terminou a história contando quando lutara ao lado de seu pai, Poseidon, em Atenas, e quando seus amigos derrotaram Gaia.
Sally não o atrapalhou ou tentou cortá-lo, apesar de suas expressões alterarem entre alívio/choque/horror.
Paul foi o primeiro a falar:
— Uau! Não sabia que você era tão bom.
Percy riu.
— Eu tive ajuda, Paul — ele disse, olhando para Annabeth, que sorriu para ele.
Sally parecia nervosa, mas acabou relaxando.
— Bem... Não consigo imaginar como isso foi difícil, filho... E eu não gostei nada dessa sua tatuagem no braço — comentou, olhando a tatuagem SPQR com um traço no braço do filho — Mas eu acho melhor não pensarmos sobre isso. Não vamos reviver estes momentos horríveis. O que importa é que você e Annabeth estão aqui, e o mundo está salvo novamente graças a vocês.
— E espero que essa seja a última vez — Annabeth falou. — Acho que nós merecemos umas férias. Afinal, ainda temos que terminar o ensino médio.
— Quanto a isso, fiquem tranquilos — Paul disse. — Vou encaixar vocês dois no ano letivo da Goode. Um pouco de foco nos estudos e vocês conseguem acompanhar o ano normalmente.
— Eu acabei de salvar o mundo, e você já pensa em voltar à escola? — Percy perguntou, e todos riram.
O clima pesado finalmente havia passado. Era isso. Percy e Annabeth tinham acabado de voltar de um fim de semana no Acampamento, e estavam em um almoço na casa de Percy como fizeram dezenas de vezes.
Tudo estava normal.
O som do forno encheu a sala. Sally se levantou, para retirar o bolo do forno.
Enquanto isso, Paul começou a conversar com Annabeth sobre sua transferência para a escola em que dava aula.
Percy então resolveu seguir a mãe até a cozinha. Ela estava segurando a bandeja com o bolo azulado e colocando em cima da mesa. Ao observar o filho, ela sorriu.
— Alguém aqui estava com saudades das comidas azuis, não é mesmo?
— Posso fazer nada se a senhora é uma ótima cozinheira, mãe.
Sally retirou as luvas e deixou o bolo esfriando um pouco. Era possível ouvir a conversa de Annabeth e Paul, algo avançado de inglês que Percy desconhecia.
— Mãe, tudo bem se Annabeth ficar aqui esta noite? — Percy indagou, corando um pouco. — Quer dizer, está meio tarde, sabe...
— Tudo bem, querido — a mãe dele disse. — Sabe... ela veio aqui todos os meses em que você estava desaparecido. Uma vez por mês pelo menos para me atualizar do seu estado. Ela parecia tão desolada quanto eu, Percy. Ela realmente gosta de você. Se você perdê-la...
Ele nunca tinha pensado muito sobre isso. Quer dizer, fora difícil para ele ficar afastado dela porque, apesar de não ter memória, não se esquecera dela. Sabia que ela era sua namorada, e sentia sua falta.
Entretanto, ele passou muito tempo dormindo. Já Annabeth... passou todos os meses sentindo de fato a falta dele. Ficara louca de preocupação procurando por ele, mesmo sabendo que ele estava no Acampamento Romano.
Percy se sentiu incrivelmente culpado.
— Não pretendo deixá-la, mãe — ele disse, sabendo ser a coisa mais certa que falara desde que chegou. Ele e Annabeth passaram por coisas demais. Ele amava a garota. Nem em sonho pensaria em deixá-la. Agora, ele só queria terminar o ensino médio o mais rápido possível para ambos irem para Nova Roma fazer a faculdade e viverem juntos em paz.
— Muito bem, querido — ela disse, enquanto pegava os pratos no armário branco atrás dela. Cortou três pedaços de bolo e deu-os ao filho.
Percy voltou para sala. Agora, Annabeth e Paul estavam sentados assistindo um programa aleatório na televisão — algo relacionado a arquitetura.
Paul pegou um prato da mão de Percy, e fora para a cozinha comer com a esposa, deixando o garoto sozinho com a namorada.
Ele entregou o pedaço a ela.
— Obrigada, Percy.
Ela se aconchegou no peito dele quando ele se sentou ao seu lado. Os dois comeram em silêncio, apenas aproveitando a companhia um do outro.
— Eu amo você — ele afirmou, após um tempo em silêncio. — Obrigado por sempre estar do meu lado, por sempre tentar me acalmar, por sempre me apoiar.
Ele ouviu um riso. Deuses, Annabeth era maravilhosa.
— Eu também amo você — ela disse. — E agora que eu vim visitar sua mãe, acho que você me deve um favor.
— Que favor?
— Bem... — ela começou. — Apesar de eu não ter ficado desaparecida, estou há um bom tempo sem falar com meu pai, então... Acho que seria uma boa uma viagem para São Francisco. E apesar de ele saber que estamos namorando, acho que está na hora de você visitá-lo sendo oficialmente meu namorado, certo?
— Oh, deuses...
Aquela ideia apavorou Percy. A última vez que vira o pai de Annabeth, bem... ele meio que destruíra o carro do homem, enquanto estava em uma missão para salvar a filha dele. Frederick pode não ser lá muito fã dele.
Entretanto, Annabeth fizera o esforço de vir até a casa dele no reencontro com sua mãe. Nada mais justo que ele fazer o mesmo.
E, bem, ele não era um péssimo namorado para o sogro odiá-lo, não é? Quer dizer, às vezes ele colocava a namorada em problemas, mas eles anda estavam vivos, então não era tão ruim.
Percy a beijou.
— O que você quiser, Sabidinha.
Eles se aconchegaram no sofá enquanto terminavam de assistir o programa, e Percy não se sentia tão feliz há meses. Suas maiores preocupações no momento consistiam em ir à casa do sogro e estudar para ir à faculdade no ano seguinte. Ele se sentiu um garoto normal finalmente, o que o deixou aliviado. Estava cansado de salvar o mundo, de lutar contra monstros, de ajudar os deuses.
Estava vivo, em casa, com sua família, sua maravilhosa namorada... Por um momento, nada mais importava.
Ele estava em paz.
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