I'm With You
5 Os Sonhos
Notas iniciais
Catarina seguia sem rumo, pensando nas palavras do pai e em como se sentia traída. Era uma promessa antiga, mas era a promessa a qual ela se agarrava para seguir sendo quem ela queria ser, quem ela nascera para ser.
Ela não precisava de um marido para comandar a Fazenda Albuquerque, não precisava de alguém lhe dizendo o que fazer, como agir, podando cada pequena atitude que tivesse. Já imaginava seu futuro como uma mulher amargurada e infeliz, e não conseguia perdoar o pai por estar fazendo ela passar por aquilo.
No entanto, entendia as reações da mãe, apesar de tudo. Elisa sempre quis ver a única filha casada e praticamente tinha um ataque do coração todas as vezes em que Catarina dizia não precisar de um marido. Não foi surpresa ver que ela aparentou estar tão certa de que aquele casamento aconteceria.
No início do verão. Catarina balançou a cabeça, espantando esses pensamentos e tentando esquecer que tudo isso havia acontecido. A moça havia ido para o lago onde a ponte ligava as terras dos Albuquerque com as dos Castro, deixando Tempestade, seu cavalo, amarrado em uma árvore ali perto.
Não se surpreendeu ter terminado ali, afinal, era um de seus lugares favoritos para ficar sozinha, só que agora recebia um novo significado. Olhar o encontro daquelas terras a fez lembrar que, por mais que tenha pensado que sim, não tinha controle nenhum sobre seu futuro, e não adiantaria nem fugir.
A moça deixou que as lágrimas lavassem toda a emoção que transbordava dentro dela, toda a angústia, toda a raiva, toda a mágoa e toda a decepção que ela estava sentindo naquele momento. Todo o medo. Catarina tinha medo do que estava por vir, tinha medo do tal noivo. Não o conhecia, não sabia do que ele era capaz e se odiou por não poder controlar sua própria felicidade.
Chorou por tudo aquilo que perdia.
***
Antônio havia saído transtornado da Quinta.
Como era possível terem orquestrado tudo e envolvido sua vida nesse maldito acordo? Casamento e Antônio de Castro eram duas coisas que não combinavam de forma alguma no momento, ainda mais de forma arranjada. Parecia até uma piada de mal gosto contada por Afonso, e ele até riria se o irmão fosse quem tivesse lhe contado e não seu pai, com todo aquele ar de superioridade e seriedade que o envolvia.
Teria que fugir, era isso ou se casar com uma moça com o intelecto de um ovo que não amava e que serviria apenas para fazer com que os planos de seus pais e os Albuquerque de enriquecerem ainda mais desse certo.
Ele não podia ficar ali, não ia conseguir suportar olhar a cara do pai até o fim do verão. Não fazia ideia de quando iriam querer casá-lo, mas ele não estaria aqui para ver o evento acontecer. Iria falar com Vicente e eles conseguiriam fazê-lo escapar desse lugar. Viajaria para a França, se fosse preciso deixar Portugal, mas não ficaria mais nenhum minuto ali.
Antônio estava maquinando diversos planos de fuga em sua mente quando um choro baixo alcançou seus ouvidos. Não tinha percebido que havia caminhado para tão longe assim, estava na ponte sob lago da divisa entre a Quinta do Girassol e a Fazenda Albuquerque e, ao olhar para baixo, viu uma moça sentada em uma espécie de tenda de madeira, olhando para o lago e chorando copiosamente.
— Senhorita? Está tudo bem? – Perguntou o advogado, preocupado. Ali não era um local muito movimento, algo sério podia ter acontecido. – Alguém lhe fez alguma coisa?
— Se me fizeram alguma coisa? O senhor nem imagina... – Catarina murmurou alto, pois ele já tinha atravessado a ponte e estava chegando perto dela.
— Ninguém tentou atacá-la? Roubá-la?
— Não, pode ficar tranquilo. – Suspirou. – Cheguei aqui sozinha. Gosto de vir aqui para pensar.
— E parece que gosta de vir para chorar também. – Antônio foi indelicado, mas a moça pareceu não ligar. – Me permite?
— Fique à vontade.
Ele se sentou ao lado dela e respirou profundamente. Não sabia o que o levou a essa atitude, não era uma pessoa que fazia amizade tão fácil com estranhos no meio do mato, ainda mais moças chorosas.
— Sabia que esse é meu lugar favorito dessa região? – A moça começou a falar surpreendendo o advogado, que não esperava que ela fosse puxar assunto. – Conseguiram macular o meu lugar favorito.
— Macularam como? – Antônio indagou olhando a paisagem. – A grama me parece verde na medida certa, os animais conseguem se alimentar melhor do que imaginam e o lago aparenta estar tão limpo que você consegue mergulhar tranquilamente, ainda que seja nesse frio. Me parece estar tudo em ordem.
— Você não entende. – A moça murmurou, o surpreendendo com o uso da informalidade. – Esse lugar era meu lugar de paz e o destruíram. Destruíram todos os meus sonhos.
— Pois devo dizer que você não foi a única privilegiada nessa área da vida. — Ele devolveu o uso da informalidade. – Parece que voltar para cá foi realmente uma péssima ideia.
— Veio de onde? – A moça finalmente olhou para o seu rosto.
O advogado se surpreendeu com o que viu. Apesar da face inchada das lágrimas, aquele era o rosto mais bonito que já havia visto em toda a vida. Não lhe era estranho e ele forçou um pouco da memória para lembrar, mas nada vinha a sua mente.
A dor que viu nos olhos da moça desconhecida era tão profunda que doía a alma dele, fazendo com que quisesse afastar tudo aquilo dela, quisesse fazê-la sorrir.
— Lisboa. – Respondeu, ainda encarando aqueles olhos. – Deveria ter ficado por lá, mas nunca aprendi a ouvir minha intuição.
— As coisas deram errado por aqui? – Ela perguntou e ele não conseguiu decidir se era por curiosidade ou para que não se abrisse sozinha.
— Mais do que você pode imaginar. – Ele suspirou. – Nunca quis ficar nesse lugar, estava construindo minha vida na capital, quando voltei por uma curiosidade boba e acabei com a vida de cabeça pra baixo.
— Eu deveria saber que não ia ser diferente para mim, mas minha teimosia foi maior. – A moça deu um sorriso fraco. – Sempre achei que poderia ter os meus sonhos realizados, mas adivinha? Sou apenas uma mulher.
— Isso significa que seus sonhos não podem se realizar?
— Não sonho com casamento, como a maioria das moças da minha idade. – Ela suspirou e, como se estivesse compartilhando um grande segredo, deixou sair um sorriso fraco. – Eu sonho com trabalho, finanças e organização, e é verdade que sou muito boa nisso, melhor do que muitos universitários por aí...
— Humilde? – Perguntou ele, achando engraçado a confiança da moça.
— Sempre. – Ela deixou escapar uma risada. – Mas é verdade, é o que eu sou boa e o que nasci para fazer. Mas não posso, não se não estiver casada, e talvez nem se estiver.
— Os homens deveriam saber aceitar ajuda de mulheres inteligentes. – Ele falou sério dessa vez.
— Você tem razão. – Ela concordou. – É uma pena o mundo em que vivemos não acreditar nisso.
— Quem sabe um dia, não é?
— Quem sabe....
Antônio estava intrigado com aquela moça que entendia de finanças e organização, mas não podia trabalhar com aquilo que amava. Lisboa estava evoluindo, mas até lá as mulheres não podiam trabalhar diretamente com esse tipo de coisa. Era estranho uma jovem sonhar com trabalho no mundo em que eles viviam, mas quem era ele para julgar os sonhos de alguém?
— E, depois de ter seus sonhos destruídos, está querendo escapar daqui? – Perguntou curioso, sabendo que seria insanidade dela fugir.
— Mais do que tudo nessa vida. – Ela lhe olhou travessa, mas deu um suspiro e voltou os olhos para o lago a frente deles. – Mas não posso.
— Eu vou fugir.
— É claro que vai. – Ela bufou. – Você é homem, tem dinheiro. Seria um idiota se não fugisse.
— Exatamente. – Ele concordou. – Mas eu preciso fugir, só falta arquitetar como.
— E posso ajudar em algo? – Ela o encarou profundamente, fazendo com que arrepios surgissem no corpo do advogado. – Se não posso arquitetar a minha fuga, ao menos posso ajudar na sua.
— Infelizmente acho que nunca mais nos encontraremos para dar continuidade ao plano. – Ele brincou, mas estranhou a sensação de perda que esse pensamento lhe causou. Você nem a conhece, Antônio, pare com isso.
— Uma pena. – A moça deu de ombros. – Eu adoraria te ajudar nesse projeto tão difícil da sua vida, mas infelizmente tenho que realizar os planos que traçaram para mim.
— Eu sinto muito. – Antônio deu um sorriso fraco e ficou sério, sentindo a honestidade das suas palavras. Esperava que a moça também sentisse que estava sendo sincero.
— Obrigada, eu vou sobreviver.
— Quem sabe não realiza esses sonhos no meio desses planos traçados por outras pessoas? – Sugeriu ele, ainda que parecesse um idiota tentando dar esperanças a uma jovem que, com certeza, não possuía nenhuma.
— Duvido muito, mas aceito sua fé de bom grado.
A moça se levantou e ele a acompanhou. Abriu o relógio de bolso para verificar as horas e se surpreendeu em como não haviam sentido o tempo passar tão rapidamente.
— O frio está começando a ficar mais forte e a lua não vai demorar muito para aparecer. – A moça disse. – Obrigada pela companhia. Espero que seu plano de fuga dê certo.
— Obrigado. – Ele assentiu com a cabeça. – Espero que seus sonhos se realizem.
Antônio viu a moça assentir mais uma vez pronta para ir embora, numa despedida e sentiu a respiração ficar um pouco mais pesada com a visão dela indo a cavalo em direção ao futuro.
Ela o impressionara, não podia deixar de negar esse fato. A forma como o tratara de maneira informal, em como conversaram tão facilmente sobre seus sonhos e o que havia dado errado se suas vidas... Era fácil conversar com essa moça. Ele sequer havia perguntado o nome dela.
O advogado decidiu que precisava de mais um pouco de tempo para por a cabeça em ordem e, antes que o frio de uma noite no início da primavera o atacasse, voltou a caminhar de volta à Quinta, acrescentando o sorriso de uma completa estranha em seus pensamentos.
***
Catarina cavalgava de volta à Fazenda pensando no quanto toda aquela situação fora absurda. Havia se assustado quando percebeu que não estava sozinha, é claro, mas não o impediu de se aproximar. E o que sentiu com ele ali foi algo completamente desconhecido, essa confiança cega a ponto de partilhar seus sonhos sem medo de ele achá-la uma boba.
Eles não se conheciam, ela nem havia lembrado de perguntar como ele se chamava, mas o jeito como ele sorria ficou preso na sua mente, mesmo com ela dizendo a si mesma que não precisava de mais esse problema para si. Não iam se encontrar novamente, não precisava ficar lembrando dele.
A jovem sentiu a mágoa voltar ao se aproximar novamente de casa, mas não permitiu que isso a destruísse novamente. Subiu rapidamente as escadas para o seu quarto e tomou um banho, colocando a roupa de dormir. Se recusava a descer para jantar com seus pais hoje, precisava descansar longe deles. Estava perdida, mas ela ia se reerguer, mesmo que precisasse cumprir o seu dever a contragosto.
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