I'm Sorry
4 Slicer
Notas iniciais
Cap. 04 Slicer
Nico DiAngelo
Não bati na porta antes de entrar, nunca o tinha feito e não sabia por que começar agora. Uma pessoa atenta ouviria os passos e identificaria ameaça ou a falta dela com apenas isso, às vezes as lições de meu pai se viravam contra ele.
O corredor que levava ao seu quarto era escuro e eu podia ouvir meus próprios passos, as botas pesadas ecoando no mármore do mesmo tom das paredes negras. Nenhum quadro na parede, nenhum espelho, nenhuma foto, nenhuma lembrança. Levantei a cabeça e uma das minhas sobrancelhas se ergueu quando o som foi se aproximando de mim. Fiz uma careta de nojo ao chegar na abertura que levava à grande sala em que ficava a cama do meu pai e uma cozinha modesta que dividia o espaço em dois. Gemidos e arquejos preenchiam o quarto me deixando nauseado, o volume de dois corpos na cama se movendo contra o outro violentamente me deixava enojado, mas o que aumentou minha ânsia de vômito ao ponto de eu quase me dobrar e colocar tudo que eu não tinha no estômago para fora foi o fato de aquela não era minha mãe. Eu sabia que não era quando vi que a porta estava aberta e associei isso aos sons do quarto porque a minha mãe, Maria Di Angelo nunca, nunca, deixaria o quarto aberto daquele jeito com o risco de qualquer um entrar ali e ver a vida privada dela. Ela podia comandar uma gangue, podia comandar mortes e coisas horríveis, mas tinha modos de uma rainha. Ela nunca correria o risco de deixar o próprio filho ver uma cena daquelas. E eu aprendi que nunca seria ela quando eu vi essa cena pela primeira vez quando tinha oito anos e entrei no quarto do meu pai que também estava com outra mulher naquela ocasião.
A pouca luz que saía das pequenas aberturas das cortinas pesadas e escuras bateu na pele nua dos ombros largos do meu pai quando ele se virou na cama saindo de baixo das cobertas. A mulher que estava com ele era morena e com cabelos da cor de chocolate que brilhavam. Ele se sentou encostado na parede onde a cama se encostava e ela o beijou. A pele nua das costas totalmente visível para mim, assim como o contorno dos seios fartos. Ela era atraente, tinha que admitir. Aquilo me deixou ainda com mais raiva por que comecei a ficar vermelho.
Então ele abriu os olhos e me encarou com um tédio controlado, sem surpresa nem reação, só como se eu não devesse estar ali interrompendo o momento de prazer dele. A morena tinha começado a beijar o pescoço dele e quando o mordeu, ele fez uma careta de prazer e dor que foi a gota d’água para mim. Apontei para a cozinha e fui para lá, enquanto ele recomeçava seu showzinho. Encolhi-me na bancada tentando ignorar aquele conjunto de sons horríveis. Algum tempo depois vi de relance a luz do banheiro acesa e o barulho da água caindo. Algum tempo depois meu pai apareceu atrás do balcão da cozinha em que eu me sentei. Encostou-se ao balcão cruzando os braços e me encarou. Eu o encarei de volta.
Nossos olhos eram iguais, o mesmo tom duro e impermeável de castanho tão escuro que era confundido com o preto. Já tinha ouvido falar que o boato era que meu pai tinha tirado os meus e os próprios olhos e mandado revesti-los em ferro Estígio – das antigas histórias gregas – e depois os implantado novamente. Obviamente não passava de um boato bobo, mas as crianças pareciam acreditar: algumas parecendo assustadas, outras mais curiosas. Parei de apreciar esse boato quando uma delas enfiou os dedinhos gorduchos nos meus olhos para provar a si mesma que não eram como diziam a lenda.
Acho que entre cutucar meus olhos e o do meu pai, ele escolheu a melhor opção.
Hades Di Angelo era um cara alto e de corpo bem definido, com ombros largos e músculos desenvolvidos nos lugares certos, mas não exageradamente, de modo que quando ele usava uma blusa preta e calças jeans, com sua famosa jaqueta de couro preto parecia um líder e não apenas alguém de quem se ter medo. Ele tinha sobrancelhas grossas e insinuantes que acentuavam toda sua expressão de assassino de sangue frio, a boca era uma linha fina com pequenas covinhas no canto, o nariz fino e reto. Linhas de expressão começavam a surgir do canto dos seus olhos. Ele era o desejo de qualquer mulher adulta e também de qualquer adolescente boba.
– Então. – Ele desviou o olhar do meu e moveu as mãos até um compartimento de vinhos, se debruçando sobre o balcão para pegar uma garrafa e puxando duas taças limpas que já estavam em cima da superfície de pedra do balcão. Encarei a taça que ele empurrou na minha direção sabendo que ela não era para mim, mas mesmo assim aceitei quando ele derramou o vinho no compartimento de vidro que reluzia. – Suponho que lhe deva dizer Feliz Aniversário.
– Suponho que não devesse dormir com uma mulher que não fosse minha mãe.
– Fidelidade nunca foi meu forte. – Ele levantou a taça em um gesto de indiferença. – Como foi hoje?
O olhei mais uma vez, analisando-o.
– Roubo padrão à um banco da região leste, guardas mortos, pegamos boa parte do dinheiro e escolhi um refém. – Dei de ombros.
– Ouvi que é um garoto. – Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para mim por cima da taça.
– Sim é. – Respondi e repeti o gesto de indiferença que ele demonstrara a pouco com a taça.
Ele se irritou um pouco, o que não demonstrou só nas rugas ao redor dos olhos se intensificando, mas também no tom mais áspero de voz.
– Não se descuide. – Foi tudo o que disse.
Eu sabia os mil avisos contidos naquela pequena frase. Joguei todos fora por uma janela imaginária.
– Ele é só um brinquedo. – Me justifiquei.
– Às vezes não é assim que funciona.
Eu ia responder alguma coisa quando meu pai de virou com um ruído vindo da cama. A mulher morena tinha se mexido e resmungado. Então ele virou o rosto para mim com um sorriso torto no rosto, me deixando nervoso. Não era um sorriso encorajador, não era o sorriso do meu pai, era o sorriso de um gangster cruel e psicopata.
– Acho que lhe devo um presente.
Ele se levantou e foi até a cama, beijando a mulher com calma e repentinamente, ela o beijou de volta como fora criada para fazer. Então ele a levantou do colchão bruscamente, envolvendo suas pernas com as mãos e as enroscou na própria cintura. Sem parar o beijo ele a trouxe até o balcão e eu me afastei, com tédio, deduzindo que o que ele tinha dito sobre o presente fora só da boca para fora. Bebi o resto do vinho e ia sair, mas quando estava caminhando em direção à saída ele me puxou pelo braço e me jogou em cima da morena. Minha reação de choque chegou um pouco atrasada e ela automaticamente me envolveu com as pernas. Ela segurava um lençol contra os seios e as pernas, mas eu sabia que toda aquela expressão de inocência era apenas fachada. Eu não queria que ela me tocasse. Aquilo me dava nojo, mas eu sabia que ele estava observando, me testando de novo.
Eu tomei a boca dela na minha e a beijei como se realmente quisesse isso, mas na verdade tentava pensar em qualquer outro tipo de coisa que não fosse aquilo. Puxei suas pernas contra mim, colando nossos corpos, ela deixou o lençol cair e pressionou o corpo contra o meu. Aquilo não era excitante, era exatamente o contrário.
Ouvi a risada de escárnio do meu pai e virei o rosto para ele, abrindo os olhos. A mulher começou a beijar meu pescoço.
– Não vai ficar para a festa? – Gritei para ele.
– Tenho assuntos a tratar. – Ele sorriu. – Divirtam-se crianças.
E saiu fechando a porta atrás de si.
– Qual seu nome? – Sussurrei voltando-me para a mulher nua na minha frente.
– Perséfone. – Ela respondeu com a voz sonolenta.
– Bom... Perséfone...
Em um movimento rápido eu peguei uma faca da minha calça e a pressionei contra o pescoço dela, que prendeu a respiração, mas não parecia muito impressionada. Só agora me perguntei se ela tinha bebido ou se drogado, por que aparentava.
– Não acho que você queira que essa faca rasgue a carne do seu lindo pescoço não acha?
Os olhos dela demonstravam medo, mas seu corpo parecia entorpecido, sem reação. Ela era uma máquina de sexo, que não pensava nem reagia.
– Vou receber isso como um sim. Você vai sair por aquela porta e não vai mais voltar, vai para o outro lado do país, mas se eu souber de você de novo...
Eu me afastei dela e joguei uma tolha — que estava jogada em uma cadeira por perto – na direção dela.
– Ah se eu souber de você de novo... – Eu sorri para ela e vi o pânico se espalhar no rosto dela como sempre acontecia. Era um sorriso de demônio e isso não era ruim. – Ninguém nunca mais vai saber.
Voltei-me na direção do meu quarto percorrendo os corredores escuros, peguei o elevador e andei alguns lances de escada que poderiam ser evitados, mas que faziam sentido para mim. Finalmente abri uma porta de madeira escura que levava ao meu quarto e olhei para o ambiente familiar: as paredes cinza, as poltronas de coro marrom, a cozinha afastada com torta e sorvete na geladeira. Alguns quadros nas paredes e apenas algumas fotos espalhadas por ai. Eu e minha mãe com minha primeira arma. Uma de quando eu nasci nos braços do meu pai, quando ainda se podia ver nele um traço do seu lado paterno e da sua paixão cega que diziam que tinha pela minha mãe. Uma do pessoal todo junto, entre outras. E a grande estante de livros que eram meu tesouro. Olhei para ela com admiração própria antes de entra no meu quarto.
Em um gesto automático tirei a jaqueta e joguei em cima de uma cadeira perto da porta, depois as botas, deixando-as ao lado do tapete. Minha ideia era deitar no tapete enquanto apreciava um bom livro, até pegar no sono, mas então uma mancha vermelha-amarronzada me chamou atenção no tapete champanhe. Sangue. Aquilo me deixou puto mas então eu me virei para minha cama.
O garoto loiro – Jason – estava encolhido sobre a colcha, agora com uma blusa preta limpa e jeans folgados. Os cabelos estavam bagunçados e ele tinha machucados por todo o rosto. A maçã do rosto era de um tom roxo. Os olhos estavam fechados e a boca uma linha fina comprimida e cortada.
Aquilo era como um presente inesperado de aniversário.
Aproximei-me dele e toquei seu braço de leve, seus olhos se abriram arregalados, mas ele não falou nada. Demorou um segundo para me reconhecer e eu não sei definir o olhar que se passou pelo rosto dele.
Os olhos azuis estavam presos em mim transbordando expectativa quando eu o beijei. De leve, apenas um selinho. Depois algo mais sério, forçando a passagem da minha língua, e quando ele cedeu, eu o beijei de verdade. O empurrei mais contra a cama e seus ombros encolheram, mas ele me beijou também, relutante e com medo.
Toquei seus ombros de leve, seus braços. Minha mão fora para seu peitoral quando eu o beijei mais forte, pressionando-o contra a cama. Ele recuou no beijo e seu corpo todo tremeu. Segurei seu queixo com força e o puxei para mim.
Mal percebi quando ele começou a chorar. Pouco a princípio, depois tanto que o gosto salgado se misturava ao do beijo. E então seu corpo começou a tremer, seus ombros, sua mão na minha, seu queixo. Continuar beijando-o era angustiante. Eu me afastei devagar e apenas o suficiente para encará-lo. Eu estava sentado no seu colo e ele estava apoiado na parede. Ainda sentia o gosto e o calor da boca dele na minha.
Quando me inclinei para a frente, a mão pressionada contra o peitoral, na intenção de perguntar algo ou simplesmente beijá-lo novamente, ele estremeceu. Não apenas de medo, mas todo o seu corpo reagiu com meu toque.
– O que foi? – Sussurrei.
Sem resposta, seus olhos só se focaram nos meus por um segundo de coragem desesperada e depois se fecharam. Ele mal abriu a boca.
Toquei sua barriga sobre a camiseta e tive a mesma reação. Ele se encolheu mais e as lágrimas aumentaram. Ele tinha todos os motivos por estar chorando, mas eu sabia que não era só pressão psicológica ou medo, apesar de também ser isso.
Levantei a blusa dele e ele mal tentou em impedir. Fitei a pele agora roxa, preta e avermelhada sangrando cortada e uma careta de dor inundou meu rosto.
Ele não estava chorando por saudades de casa, por medo ou por toda a bagunça que a vida dele se tornou, muito menos pelo fato de que agora ele não tinha valor e estava sendo usado como objeto por gente como eu. Ele estava chorando por algo muito mais duro e nobre, inevitável.
Ele estava chorando por dor.
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