(Im) Perfeição
1 Último suspiro.
Notas iniciais
Oneshot.
"Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação." —Levítico, capítulo 18, versículo 22.

O terraço. Ali, naquele mesmo lugar, Patrik e ele haviam partilhado tantos momentos que nem ao menos conseguia contar.
Lembrava-se de quando se conheceram, em um esbarrão nos corredores do prédio. Mais tarde, encontraram-se novamente no terraço, ambos com lágrimas nos olhos. Lembrava-se de ter pensado que desabafar com estranhos era muito bom. Houve uma vez em que acamparam ali no terraço, e naquele dia se declararam um para o outro. O coração de Patrik estava a mil quando se deitou sobre o peito dele. Era quente, aconchegante. A sensação era infinita e as possibilidades tinham esse mesmo número. Também se lembrava de quando se amaram pela primeira vez, também ali, apenas para não perder as manias. O vento que vinha ali em cima era ainda mais frio quando ficava em contato direto com a pele.
Envolvido pela lembrança, estremeceu gradativamente. Parecia que estava nu novamente, mas daquela vez não havia ninguém que pudesse abraçá-lo e murmurar palavras reconfortantes em seu ouvido, sobre como tudo um dia ficaria bem para os dois. Sobre como a vida iria acolhê-los e como iriam ser felizes em uma casa na fazenda.
“Eu odeio você! A única coisa que você faz é fugir, se esconder embaixo de uma mesa. Chega disso! É hora disso tudo acabar, dessa mesa quebrar! Acabou!” “Você não vê? Deus não vai nos acolher com um filho como você na família!”.
Seus olhos pararam na beira do precipício. Faltavam exatos seis passos, mas suas mãos tremiam tanto que não sabia se era exatamente aquilo que queria. E se Patrik voltasse para ele? E se sua mãe o olhasse de uma maneira com um pouco menos de nojo no dia seguinte?
As três palavrinhas de ambos, Patrik e sua mãe, retumbaram na sua mente em uníssono. “Eu odeio você.” Proferidas em tempos diferentes, espaços diferentes e com o mesmo significado. Eles não o queriam lá, não iriam voltar para ele como se tudo tivesse sido apenas um sonho ruim.
Um passo. As cenas voltaram na sua cabeça novamente, como se estivesse dentro de um filme que apenas ele podia assistir. Dois. As palavras ficavam cada vez mais altas. Talvez os maldosos moleques da escola estivessem apenas aumentando o volume do filme para que ele caminhasse mais rápido, e morresse mais depressa. Três. Quatro. O vento era frio, e conseguia ouvir o leve murmurar dos carros abaixo de si. Afinal, Nova York realmente não dormia. Cinco. Sentia algo quente e molhado descendo pelo seu olho esquerdo, passando pela bochecha. E então havia mais daquilo no outro lado do rosto também. Parecia que havia um abismo enorme dentro do seu peito, como se quisesse sugá-lo de dentro para fora. Seis passos. Por que suas mãos tremiam e suavam daquele jeito? Talvez fosse a altura. Olhando para baixo, via os carros em movimento rápido e incessável. As luzes dos prédios e outdoors pareciam ainda mais intensas, o que fazia seus olhos doerem. A dor no seu peito parecia tão grande que não era possível suportar.
“Eu odeio você!” “Eu te odeio, Half!” O sétimo passo pareceu fisgar o seu coração com tamanha precisão que aquelas coisas molhadas desceram mais depressa pelo seu rosto. Apesar daquilo, não houve tempo o suficiente para pensar em algo a mais. Eram apenas ele, as palavras e promessas vazias e o vento.
Na manhã seguinte, o telefone de várias casas tocaria. Alfred Collins estava morto.
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