I'm Not a Hero
8 Bonus I: When we were young...
Notas iniciais
Foi um grande conselho o que ouvi certa vez, dado a um jovem: “Faça sempre o que tiver medo de fazer”. — Ralph Emerson.
Ela foi ao chão pela décima vez. Suspirando, tornou a levantar-se, pondo-se em posição de luta.
— Seus joelhos não estão flexionados o suficiente. — Hiashi a censurou. — Seus cotovelos estão muito levantados. Sua posição não está correta.
— Hai, otou-san. Sumimasen. — ela murmurou. Ao longe, Neji e Hanabi apenas assistiam ao treino. Hinata geralmente treinava com um dos dois pela parte da manhã, mas havia dias especiais em que seu pai decidia dar um tempo nos assuntos do clã e treinava com ela, testando suas habilidades. Aquele, infelizmente, era um desses dias. Justo no dia em que ela acordara se sentindo com vontade de fazer nada.
Dessa vez foi Hiashi quem suspirou, aparentemente desistindo do treino, e indo sentar-se a uma mesinha baixa com um bule de chá sobre ela, e com almofadas como assentos. Com a mão, chamou Hinata para sentar-se a sua frente.
— Ponha o chá.
Ajoelhando-se na almofada da outra ponta da mesa, ela fez o que lhe fora ordenado, despejando o líquido com suavidade sobre os dois copos.
— O que há com você, Hinata?
A garota subiu os olhos de suas mãos, pousadas nos joelhos, até o rosto duro e velho de seu pai, desviando logo depois.
— Nada, otou-san.
— Tudo bem em não querer me contar, mas é óbvio que aconteceu algo. — arqueou uma sobrancelha para ela. Desde que era pequena, Hinata nunca fora uma boa mentirosa. — Está dispersa demais.
Realmente não havia acontecido nada naqueles dias, mas com a guerra se aproximando e mais outros infelizes fatores, a mente de Hinata estava cheia.
— Engano seu, otou-san. — replicou com uma delicadeza fria, sem encará-lo nos olhos. — Eu só sou fraca. Como sempre fui.
Os olhos de seu pai fixaram-se em seu rosto inexpressivo, a típica expressão de um Hyuuga, a máscara que cada membro do clã usava para dissimular qualquer sentimento. A expressão que Hanabi aprendera a adquirir desde muito nova, mas que Hinata nunca conseguira, porque não era de sua natureza ser fria, mesmo que fosse para seu próprio bem. Agora, porém, sempre que estava perturbada demais e não queria que alguém percebesse, ela adotava aquela máscara, que Hiashi a tanto custo conseguira fazê-la aprender.
Ainda assim, havia falhas naquela tentativa de esconder o que estava sentindo. O modo como ela descaradamente não o olhava nos olhos, como estava extremamente distraída para quem era tão focada nos treinamentos, e como suas mãos apertavam inconsciente a calça ninja que usava.
— Hinata, eu sei muito bem que fui eu quem a ensinou a esconder seus sentimentos, e não me arrependo nenhum instante disso. Olhe-me nos olhos. — após um momento, ela o encarou. Havia tristeza e cansaço nas pérolas da primogênita Hyuuga. — Quando alguém machucá-la, insultá-la ou tentar lhe atingir de alguma forma... Então, sim, você não demonstra nada. Mesmo que esteja despedaçada, ferida, morrendo por dentro... Você não dá o gosto a quem quer que seja de ser vista atingida. É o que nos torna Hyuuga para os outros: não somos atingidos por nada. O mundo irá destruí-la se você permitir. Não permita.
Tomou um gole de seu chá, dando tempo para ela entender o que ele queria dizer, antes de prosseguir.
— Mas isso é para as pessoas de fora. Eu sou seu pai, Hinata, e aqueles ali são seu primo e sua irmã. Você está no seu clã. Somos sua família. Não há a necessidade de esconder o que sente aqui. Entende isso?
Ela mordeu o lábio e assentiu.
— Eu não estou me sentindo muito bem, otou-san, só isso. Podemos... Podemos deixar o treino para outro dia?
— Podemos desde que você não esteja com a cabeça nas nuvens.
Ela deu um pequeno sorriso e assentiu novamente, retirando-se logo em seguida. Hanabi curvou-se para ele, antes de ir atrás da irmã. Neji apenas ficou lá, o encarando. Hiashi mandou-o se aproximar. Quando o sobrinho sentou-se a sua frente, o líder do clã começou a falar.
— Sei que já tivemos essa conversa antes — disse calmamente, encarando Neji. Confiava nele mais do que em qualquer um. —, mas preciso que me prometa novamente que irá protegê-la custe o que custar. Ela e Hanabi.
— Eu irei. — Neji afirmou novamente. — Juro pelo clã.
— Não. — o Hyuuga mais velho interrompeu asperamente. — Não pelo clã. O clã poderá acabar um dia, mas os laços entre vocês só acabarão quando estiverem mortos. Jure por si mesmo e pelo que sente por elas.
— Eu juro — repetiu.
— Eu agradeço Neji. Hinata ainda não é forte o suficiente, e Hanabi é só uma criança. Se algo acontecer a elas quando eu não estiver mais aqui... — balançou a cabeça negativamente.
— Com todo o respeito, Hiashi-sama, mas Hinata-sama é bastante forte.
— Sim, ela é. — concordou enquanto terminava seu chá. — Mas só será forte o suficiente quando perceber que é. Hinata ainda é insegura demais. Não se pode sentir tal coisa no campo de batalha; um segundo de hesitação, um pensamento de “eu posso ou não” e você morre. — ele levantou-se, de forma cansada. Estava velho e tudo o que queria era passar o resto da vida de forma tranquila. Amava seu clã, é claro, mas já estava ali a mais tempo do que conseguia lembrar. Estava mais do que na hora de passar a liderança para outra pessoa, mas sua filha ainda precisava crescer mais... Ele só não sabia se haveria tempo o suficiente para isso... — Você e Hinata logo passarão por uma guerra, e nem quero imaginar o que fará com vocês. Uma guerra nunca é fácil. — ele sabia daquilo muito bem. Já passara por outra, na primavera da idade, e de vez em quando ainda tinha pesadelos com as cenas de tantos anos atrás. — Prepare-se para perder, Neji. Esteja pronto para ganhar.
E saiu, deixando Neji sozinho com seus pensamentos.
•••
Hanabi fechou a porta do quarto e aproximou-se sorrateiramente da cama da irmã. Subiu, deitando-se no colchão e encarando Hinata, deitada de lado e de frente para si.
— Então? — inquiriu a mais nova.
— Nani? — a Hyuuga mais velha deu um pequeno sorriso, sabendo que Hanabi viera ali lhe arrancar informações a qualquer custo.
— O que aconteceu?
— Eu já disse que só estou cansada, Hanabi-chan...
— Onee-chan! — a pequena, com seus apenas onze anos, reclamou. — Eu sei que está mentindo! Tem a ver com o Naruto-san?
— Escute aqui mocinha, nem tudo que acontece comigo tem a ver com o Naruto-kun, está bem? — corou, fazendo Hanabi dar um risinho.
— Então tem?
Hinata gemeu, afundando o rosto em seu travesseiro. Sabia que a irmã não pararia até que contasse, porque tal situação já acontecera dezenas de vezes antes, e Hinata sempre acabava contando.
— Tem mais a ver comigo mesma. — disse, meio distante.
— Você sabe que pode contar tudo pra mim.
— Você é muito jovem para entender...
— Tente.
Com um suspiro resignado, Hinata ajeitou-se melhor na cama e encarou sua irmã.
— Sou eu, Hanabi. Eu sou... fraca. Física e emocionalmente. S-sou fraca demais para uma Hyuuga, mesmo para uma chunnin, e está vindo essa guerra... Sou fraca demais até para conseguir encará-lo... e parece que eu não aprendo...
— Do que está falando, onee-chan? Quanta bobagem! — Hanabi franziu o cenho. — Você é a kunoichi mais forte que eu conheço, e é a futura líder do clã. Você é extraordinária, onee-chan, e você e o Neji-nii-san conseguirão ganhar essa guerra. Vai ser fácil! — Hinata a olhou com delicadeza. Sua irmã ainda era ingênua demais, o que era adorável. Gostaria que ela não perdesse aquela inocência nunca. — Mas o que quer dizer com “não aprendo”?
Hinata suspirou, alisando os cabelos da mais nova.
— Agora sim é sobre o Naruto. — deu um sorriso fraco. — Eu sei que ele nunca vai sentir o mesmo que eu sinto, mas... eu ainda tenho esperanças... e isso só me torna... estúpida...
— Eu não penso assim! — a pequena exaltou-se. — Se ele não consegue ver quão admirável você é, é ele que está perdendo, Hina-onee-chan! E você não deve se achar estúpida por amar alguém. Não foi você que me ensinou que amar é a coisa mais maravilhosa do mundo?
Hinata sorriu verdadeiramente dessa vez.
— Continua sendo maravilhoso. — aproximou-se da irmã, encostando suas testas. — Um dia você encontrará alguém que fará seu coração bater muito rápido, e vai parecer que seu estômago tem borboletas dentro, e tudo o que irá sentir é felicidade quando está perto dessa pessoa.
— É assim que você se sente? — perguntou a menina, abraçando a cintura da irmã e encostando o rosto no peito dela. Hinata tornou a acariciar seus cabelos castanhos, e sorriu consigo mesma.
— Não. É dez vezes mais intenso.
— Uau, onee-chan... — balbuciou agora meio sonolenta. — Você realmente ama o Naruto-san... — nunca vira o amado de sua irmã pessoalmente, mas só pelo brilho nos olhos dela ao falar dele, Hanabi supunha que Naruto fosse um cara maravilhoso, nada menos do que Hinata merecia.
— Hai... — uma pena que ele não retribua, pensou tristemente.
Quando tudo o que se ouvia no quarto era a respiração tranquila de Hanabi, ela soube que a menina dormia. Com cuidado para não acordar-lhe, Hina saiu da cama. Tomou um banho, trocou de roupa e então lembrou que tinha um encontro com Kiba e Shino. Iriam visitar Kurenai-sensei, e depois treinar. Olhou no relógio; estava atrasada!
Saiu silenciosamente do quarto, para não acordar sua irmã, mas assim que pôs os pés no corredor pôs-se a correr. Calçou as sandálias ninjas na porta de entrada, e começou a correr até o ponto de encontro, um lugar no centro da vila, perto do Ichiraku.
Torcendo para que eles não tivessem desistido, porque queria realmente passar um tempo com seu time (ninguém tinha tempo ultimamente; havia várias tarefas a se fazer, com a guerra tão próxima...), Hinata apressou o passo. Quando chegou ao local, Kiba e Shino ainda a esperavam. Kiba foi o primeiro a percebê-la, provavelmente pelo cheiro.
— Oe Hinata, finalmente! — resmungou enquanto a Hyuuga se aproximava. Akamaru pulou e lambeu seu rosto de modo afetuoso. — Pensei que tinha morrido.
— Eu esqueci o encontro. Gomenasai! — curvou a cabeça.
— Está tudo bem... — foi Shino quem disse, ajeitando seus óculos. — Já estou acostumado a ser esquecido...
—... Para com isso, cara. — Kiba revirou os olhos, enquanto Shino o ignorava e começava a andar até a casa de Kurenai. Os outros dois o acompanharam. — Mas você geralmente é a primeira a chegar, Hinata. Aconteceu algo?
— Estava conversando com a Hanabi-chan e acabei perdendo a noção do tempo... — explicou-se. — A propósito, como vai Ino-chan?
Ele e Ino já namoravam há alguns meses. Kiba nutria uma paixão secreta pela loira, que apenas Hinata sabia sobre, mas a Yamanaka era supostamente apaixonada pelo Uchiha... mas então, o suposto amor acabou um dia, quando Ino reconheceu que era apenas uma paixão sem fundamento. Sasuke não iria voltar e, mesmo se voltasse, e era um grande se, não ficaria com ela.
Então a loira deu uma chance para Kiba e acabou realmente apaixonando-se por ele. Era realmente bonito vê-los juntos. Era um amor puro que existia ali, mesmo que os dois tivessem gênios fortes, e brigas acontecessem de vez em quando. Ainda assim, era de aquecer o coração ao ver como eles ficavam felizes na presença um do outro.
— Ah, vai bem. Quer dizer, eu acho. — ele coçou a cabeça, meio contrariado. — Não a vi muito essa semana, infelizmente.
— Ah, sim. Todos estão bem ocupados essas semanas... — concordou Hinata. Ela subiu o olhar, distraída, e o que a viu a fez parar de andar. Do outro lado, indo em direção ao Ichiraku, vinham Naruto e Sakura. A Hyuuga arregalou os olhos, em pânico, mas seus colegas de time não perceberam. — H-hum, será que poderíamos ir por outro caminho? — sugeriu nervosamente.
Sabia que estava agindo como uma covarde, mas a última coisa que queria naquele momento era ver Naruto. Com Sakura, ainda mais. Desde a luta contra Pain eles não se falaram, e talvez fosse melhor daquele jeito. Se ele não queria vê-la, não seria ela que lhe faria o favor.
— Outro caminho? — Kiba repetiu, franzindo o cenho. — Mas esse é o caminho mais curto pra casa da sensei, e nós ainda temos que treinar... Ei Hinata, você tá bem?
— Kiba, Hinata quer ir por outro caminho para não ter que se encontrar com Naruto. — disse Shino, que acabara de notar Naruto e Sakura, e ligara os pontos.
— N-nani? N-não é nada disso, Shino-kun. Eu só... — ela corou quando eles pousaram o olhar sobre si. A quem queria enganar? Eram seus colegas de time, seus amigos; eles já sabiam da massiva paixão que nutria pelo Uzumaki. Infernos, quem não sabia? — Por favor, eu não quero que ele se sinta obrigado a falar comigo...
Kiba e Shino se entreolharam e então, cada um do lado dela, os três saíram de lá, tomando o caminho mais longo. O Inuzuka colocou o braço ao redor dos ombros de Hinata.
— Você sabe que é maravilhosa, não sabe? — Akamaru, ao lado do dono, latiu, como para que confirmar.
Hanabi tinha dito algo parecido naquela manhã. Hina sorriu docemente para Kiba, sabendo que ele estava tentando animá-la, como sempre fazia quando estava chateada. Agradecia internamente a ele por isso.
— E sabe que ele é um idiota, né? — continuou.
Hinata riu.
— Kiba-kun, não fale assim dele...
O moreno suspirou.
— Mas ele é um idiota, Hina! Deveria ao menos ter falado com você depois que declarou seus sentimentos a ele! — oh, sim, ela havia contado da batalha contra Pain à Kurenai, e por algum infortúnio, Shino e Kiba ouviram, apesar de nunca terem tocado no assunto antes. — Que tipo de imbecil não responde aos sentimentos de uma linda garota? Imperdoável! Imperdoável!
— Kiba, você está deixando-a deprimida. — Shino o recriminou. — Não o escute, Hinata. Tenho certeza que Naruto só está confuso sobre o que sente e não quer se precipitar para não magoá-la.
— Mas ele já tá fazendo isso. — Kiba rebateu com irritação.
— Obrigada, Shino-kun. Kiba-kun... — ela sorriu novamente, embora fosse um sorriso visivelmente menor e mais triste. — Não se pode obrigar ninguém a amar outra pessoa.
— Eu sei. — murmurou. — Mas eu o obrigaria a te amar se pudesse.
— Mesmo sabendo ser impossível, também faria isso. — Shino disse daquele jeito formal que lhe era característico.
— E eu agradeço a ambos. — riu. Eles eram os melhores amigos que poderia um dia ter. — Mas podemos mudar de assunto, onegai?
Eles anuíram e o resto do trajeto conversaram apenas banalidades. Quando chegaram à casa de sua sensei, ela embalava o pequeno Asuma em seus braços, sentada num banco no jardim de sua casa. Hinata adorava aquele jardim. Kurenai gostava de flores tanto quanto a Hyuuga, e seu jardim estava sempre bem cuidado e lindo.
Ela sorriu para eles quando se aproximaram, com seus olhos vermelhos os esquadrinhando centímetro por centímetro, para se certificar que não havia nada de errado. Como uma mãe faria. Como Kurenai sempre fez.
— Ora, vejam só. Achei que tivessem esquecido sua velha sensei.
— Perdão pelo atraso, Kurenai-sensei. — Hinata corou. — A culpa foi minha.
— Na verdade, nós tivemos um pequeno imprevisto, sensei, foi tudo. — Shino interveio, e Kiba, ao seu lado, concordou.
Juntos até o fim, Hinata pensou dando um pequeno sorriso, lembrando-se de quando haviam feito aquele juramento, pouco antes do 2º Exame Chunnin acontecer. Naruto já havia saído da vila para treinar aquela época.
— Vocês são um time — Kurenai dissera. —, e como tal, devem sempre se ajudar, não importa o que aconteça. Nunca devem ofuscar um ao outro, nem sentir inveja das habilidades do outro, mas ajudar-se mutuamente para que todos tenham o mesmo nível de força. Vocês são um time. — repetiu, estendendo a mão com a palma virada para baixo. — Juntos até o fim.
— Juntos até o fim. — os três ecoaram; cada um colocando sua mão em cima da mão de sua sensei.
— Bem, não importa. O bom é que vocês estão aqui. Hinata... poderia segurá-lo por um momento, por favor? Vou pegar uns bolinhos que eu fiz. Aliás, como madrinha do Asuma, você está bem sumida... — dizia enquanto ia para dentro de sua casa.
Quando voltou, Hinata lhe respondeu.
— Sinto muito por isso, sensei, eu realmente queria visitá-la mais, mas está complicado...
— Eu sei, eu sei. Eu só me sinto solitária. — suspirou, colocando a bandeja de bolinhos sobre uma mesinha do jardim. — Sirvam-se, enquanto eu o coloco no berço.
— Está tudo bem, eu posso colocá-lo. — Hina murmurou, observando as faces coradas da criança. Era uma coisinha gorducha e adorável, e estava todo aconchegado no colo da Hyuuga.
— Ele está adorando ficar aí. — Kurenai sorriu acompanhando-a até dentro de sua casa, até o quarto de seu filho. — Você vai ser uma ótima mãe, Hinata.
Com toda a delicadeza possível, a garota o pôs no berço. Deu um sorriso melancólico para a única figura materna que tinha desde que sua mãe morrera quando tinha seis anos.
— É... Acho que sim...
— O que foi criança? — acariciou o longo cabelo azulado de sua aluna. — Não quer ter filhos?
Hinata queria, sim, algum dia. Queria muito. Queria que fossem loiros e de olhos azuis, e com um sorriso tão bonito quanto o do pai.
Infelizmente, querer não é poder.
— Quero, m-mas... não acho que vá acontecer...
— Hinata... — pôs uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. — Você é jovem, extremamente jovem. Há muitos homens por aí que podem fisgar seu coração, criança.
Mas a kunoichi duvidava disso. Seu coração só batia daquele jeito por Naruto, e não via mais ninguém em sua vida daquele jeito.
No entanto, tudo o que disse a Kurenai foi:
— Hai, sensei. — sorriu, embora tudo o que conseguia pensar era que era patética por amar alguém que nunca retribuiria. — Manterei isso em mente.
Kurenai assentiu, acreditando nela, e alegremente elas saíram do quarto, desceram as escadas e voltaram até o jardim onde os rapazes estavam.
— Oh! Mas os biscoitos já acabaram? — Kurenai piscou surpresa ao ver a bandeja vazia.
— Shino comeu todos. — Kiba acusou, com a boca cheia, e alguns farelos de comida saltaram quando falou. Akamaru latiu, porém se engasgou, porque também tinha a boca cheia de biscoitos.
Não dava para saber exatamente, por causa dos óculos, mas Hinata tinha quase certeza de que o Aburame estava revirando os olhos. Riu baixinho deles.
— Vocês não mudam. — sua sensei bufou para Kiba e Akamaru, mas depois, sem se aguentar, sorriu para todos os três. — Realmente senti falta de vocês, crianças.
•••
Alguns minutos antes...
Ele a observou caminhar com os colegas de time para longe, sorrindo para os dois. Bem, era bom saber que ela estava feliz. Franziu o cenho, pensando se ia até lá ou não.
— Você devia falar com ela. — Sakura disse, observando-o muito astutamente.
— Ora, ora, Sakura-chan. Achei que você fosse ficar com ciúme, dattebayo. — disse com ironia.
— Ei, que tom é esse? — lhe deu um pequeno cascudo, que não chegou a feri-lo de fato. — Estou falando sério, Naruto.
O loiro suspirou. Hinata e seu time já se afastavam.
— Mas eu não sei o que dizer ‘ttebayo. — pronunciou tristemente. Não queria perder a amizade da Hyuuga, mas não sabia como não magoá-la. Nutria um enorme carinho por ela, mas não a amava... Olhou de lado para Sakura, pensativo. Não sabia mais se amava a ela, tampouco, apesar de continuar brincando com a companheira de time sobre isso.
Maldição, Naruto não sabia sequer o que seu coração sentia. Que complicação.
— Deveria agradecê-la, pelo menos. — Sakura o puxou de volta à realidade. Ela parecia distante, e Naruto soube quase imediatamente que ela pensava em Sasuke. Sempre Sasuke. — Ela salvou sua vida, afinal...
Quando olhou novamente, Hinata já estava fora de vista.
— Bem, ainda há muito tempo pra falar com ela... — coçou a nuca. Sakura lhe lançou um olhar estranho, meio pensativo meio triste. Naruto não sabia, é claro, fora proibido a todos contar que estava acontecendo uma guerra para capturar ele e Killer Bee.
— Talvez não haja Naruto... — murmurou. Hinata poderia morrer naquela guerra. Todos poderiam morrer lá. Suspirou. Não, não podia pensar naquelas coisas. Eles iriam... eles tinham que ganhar aquela guerra!
— Uh? O que quer dizer, Sakura-chan?
— N-nada, nada. Vamos comer!
Naruto deu de ombros, entrando na barraquinha de ramen. Sakura o seguiu. Fizeram seus pedidos e comeram em silêncio, algo raro com o loiro por perto, mas ele estava muito perdido em seus pensamentos para conversar.
A Haruno mexeu sua comida com os hashis, e lançou um olhar cuidadoso a Naruto, que olhava para o próprio prato. Já estava tudo pronto para ele ir para uma missão àquela tarde, junto de Gai e mais outros ninjas. Eles iriam para uma ilha isolada, onde Naruto e o jinchuuriki do Hachibi estariam protegidos de Madara.
Sakura perguntou a si mesma se tornaria a vê-lo novamente. Balançou a cabeça, movimento que não passou despercebido pelo companheiro de time. Pare com isso, Sakura! Pare com esse pessimismo!
— Sakura-chan, você está bem? Está estranha hoje.
Ela subiu as esmeraldas para ele, com determinação nelas.
— Naruto, prometa que nunca vai esquecer seus amigos.
— Nani?
— Prometa!
— Mas por que isso de repente? — franziu o cenho.
— Todos se importam muito com você, Naruto. Você é um idiota, mas é nosso amigo e... e... todo mundo te ama, tá bem? Alguns mais do que outros. — provocou pensando em Hinata, fazendo Naruto corar um pouco. — Só não... só não se esqueça disso. Prometa que não esquecerá.
— Tá certo, eu prometo... — respondeu ainda confuso. — Tem certeza que tá bem, Sakura-chan?
— Sim, claro, eu estou ótima! — disse agora bastante animada. Levantou-se. — Até mais, Naruto!
— Mas... você nem comeu nada!
— Não estou com fome! — gritou, já longe, acenando para ele.
— VOCÊ NÃO VAI PAGAR?
— FICA POR SUA CONTA!
E aí ela sumiu de sua vista. Naruto pegou a carteira, choramingando.
•••
— Yoshi! — Gai gritou quando eles acabaram. — Mais trezentas flexões!
— Já chega Gai-sensei! — Tenten reclamou, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego. — Você quer nos matar?
— Ele tenta fazer isso todo o dia. — Neji resmungou ao seu lado, lançando um olhar mortal ao sensei.
— Doze, treze, quatorze... — Lee contava, fazendo flexões no chão.
— SAI DAÍ, LEE! — a garota o puxou do chão. — Já fizemos quinhentas flexões só essa manhã! Vocês são doentes!!
— Você que está ficando fraca, Tenten! — Gai rebateu muito sério. — Um ninja tem que estar sempre preparado para se superar e vencer os desafios impostos pela vida! Vocês estão na flor da juventude! Abracem-na, beijem-na, vivam a flor da juventude, pupilos! — ele gritou.
— HAI, GAI-SENSEI! — Lee também gritou tão animado quanto o sensei, anotando o que ele dizia em seu bloquinho de notas. — YOSHI! MAIS QUINHENTAS FLEXÕES!
Tenten deu um tapa na própria testa, enquanto Neji suspirava. Todo o dia era a mesma coisa...
— Parem já com isso — o Hyuuga ordenou, cruzando os braços. —, ou já esqueceram que nós temos que vigiar a vila, e que o Gai-sensei tem uma missão?
—... Oh. — Gai disse, piscando uma vez, e outra, e mais uma. — A missão.
— VOCÊ ESQUECEU? — Tenten bufou. Tsunade-sama havia chamado Neji, Lee e Tenten ao seu escritório no dia anterior e lhes dado à missão de vigiar a floresta de Konoha a fim de descobrir se havia algo suspeito nos arredores da vila. Com a guerra se aproximando, os tempos estavam muito perigosos... Gai, por outro lado, iria para outra missão importantíssima com Naruto e outros ninjas da Folha. Como ele pudera esquecer? — E eu pensando que com o tempo ele melhoraria... E você, Lee, também é uma negação! — e ainda resmungando consigo mesma, a morena pegou ambos pelas orelhas e começou a andar, arrastando-os. — E andem mais rápido se não quiserem se machucar mais!
— N-Neji! — os dois imploraram pela ajuda do Hyuuga, mas o jounin apenas deu de ombros, os seguindo de perto.
— Maldito... — Lee choramingou.
•••
— Preparados? — os dois assentiram. — Comecem.
Hinata avançou, mas tanto Kiba quanto Akamaru distanciaram-se, sabendo muito bem que ela não precisava tocá-los para fazer um estrago grande. O juuken era incrivelmente forte.
Rapidamente Kiba criou um bushin, e os dois montaram em Akamaru.
— Jinjuu Konbi Henge — ele e o clone transformaram-se, e fumaça os encobriu por um momento. — Santōrō!
Uma enorme fera de três cabeças surgiu, onde antes estavam Kiba, seu clone e Akamaru. Havia criado a técnica há não muito tempo, e era a primeira vez que a testava em combate.
— Ooiga Gatenga! — ele começou a girar e girar, indo na direção de Hinata. A Hyuuga pulou bem a tempo, e o ataque atingiu várias árvores ao redor do campo onde eles treinavam. Kiba parou de girar, e Hinata pulou na direção dele, começando a atacá-lo com o Juukenhou: Hakke Sanjuuni Shou.
— Ni Shou! Yon Shou! Hachi Shou! Juuroko Shou! Sanjuuni Shou! — trinta e dois golpes. Hinata suspirou; ainda não conseguia passar dos trinta e dois. Lembrou-se de Neji a ensinando a alcançar as 64 palmas. Quem sabe um dia conseguisse...
Kiba desfez a transformação, meio tonto e decepcionado. Akamaru lambeu sua bochecha.
— Minha técnica ainda não tá forte o suficiente. — bufou.
— Você só precisa aperfeiçoá-la, Kiba. — Shino disse, aproximando-se deles. — Quando estiver completa será incrivelmente poderosa.
— Shino-kun está certo.
— E você, Hinata — o Aburame virou-se para ela. —, deveria pensar em juntar o Juuho Soshiken com as 64 palmas. Daria um belo combo.
— Se eu conseguisse fazer... — ela olhou para baixo. — Não sou tão forte quanto o Neji-nii-san...
— Que besteira!
Os três viraram-se para Naruto, que acabava de pular da árvore onde estava para o campo em que eles se encontravam. Havia chegado há não muito tempo, logo depois que o treino acabara, e ficara ouvindo a conversa do time 8.
Hinata arregalou os olhos ao vê-lo. O que ele fazia ali?
— N-N-Naruto-kun. — amaldiçoou-se por gaguejar. Já não tinha superado aquilo?
— Você não é fraca, Hinata. — disse ele passando a mão pelos cabelos, meio sem jeito. — Devia saber isso, dattebayo.
Ela abaixou os olhos para as mãos, sem saber direito o que responder. Shino cutucou Kiba discretamente.
— Hm... Nós... Quero dizer, eu e o Shino, vamos... eh... nós tínhamos um negócio pra fazer e tal, depois do treino, sabe... — deu uma tossidinha esperando que Hinata captasse o que tentava dizer, o que infelizmente não aconteceu. — Um negócio importante... Você sabe Hinata...
O Aburame revirou os olhos por trás dos óculos escuros. Como mentiroso Kiba era um ótimo ninja.
— Negócio? — Hinata repetiu confusa, não percebendo a intenção dos colegas. Oh, tão ingênua.
— Sim, sim. — Shino ajeitou os óculos, e por um momento eles refletiram a luz do sol de maneira maléfica. — É coisa de garotos, Hinata, não se preocupe. Vemos você depois. Até, Naruto. — e, puxando Kiba e Akamaru, eles saíram dali. O Inuzuka ainda teve a cara de pau de dar uma piscadela para a garota, que corou absurdamente, finalmente entendendo as intenções dos amigos, mas Naruto não percebeu nada daquilo.
— Mas que estranho... — o loiro murmurou com os olhos estreitos, vendo os rapazes e o cachorro pularem para as árvores e correrem dali. Depois, deu de ombros. — Bem, como eu ia dizendo... Hinata, você é forte.
— E-eu... Hm, arigatou, Naruto-kun. — disse sentindo as bochechas quentes. Depois disso, um silêncio constrangedor se instalou entre eles. Hinata perguntava-se se ele viera até ela falar sobre sua declaração. Apertou as mãos contra o peito; chegara o momento em que ele finalmente lhe dizia não e acabava de vez com aquela inútil esperança que ela carregava dentro do peito?
Naruto, que não conseguia manter-se quieto por muito tempo, começou a falar.
— Ahn... Então, esse Juho sei lá das quantas foi aquele jutsu que você usou contra o Pain?
— Ah... hai. — ela murmurou com vergonha. — Ele ainda precisa de algumas modificações...
— Eu achei um jutsu bem legal 'ttebayo! — sorriu para ela. — Quer dizer, eu acho que ele é bem legal agora... naquela hora eu só estava... hm, muito preocupado com você.
— A-ah, sinto muito por isso. — torceu as mãos. Diga algo de útil! — Eu q-quis ajudá-lo, mas no final só atrapalhei. Sumimasen.
— Não diga isso, Hinata. — ele disse com uma careta emburrada, repreendendo-a. — Se não fosse por você eu não teria conseguido derrotar o Pain, e encontrar o meu pai, e...
— S-seu pai?
— Ah, é uma longa história. — dessa vez o sorriso dele foi bem maior. — Eu não disse pra nenhum amigo meu e tal, mas acho que posso contar pra você. — piscou para ela. A Hyuuga evitou corar ainda mais, porque acabaria desmaiando de calor. — Quando eu liberei a Kyuubi, meu pai me impediu de soltar todas as nove caudas. A gente conversou e tal... foi bem legal conhecê-lo. — disse agora meio envergonhado por ficar falando tais coisas desinteressantes, mas Hinata tinha um semblante meigo em seu rosto. Ela estava adorando ouvi-lo, para falar a verdade.
— E como é o seu otou-san?
— Ah... bem, você com certeza já ouviu falar do Yondaime Hokage, Namikaze Minato, hehe.
A Hyuuga arregalou os olhos.
— O Yondaime é seu otou-san?
— Eu sei. Difícil de acreditar, não é? — olhou para baixo, com um sorriso quase acanhado.
Hinata sabia o que ele pensava. Não sabia como, mas sabia, talvez porque já tivesse feito aquilo muitas vezes antes. Ele estava se autodepreciando. Seu pai fora o quarto Hokage, e ele com certeza achava que nunca iria chegar aos pés dele.
Você vai ultrapassá-lo, Naruto-kun, ela pensou, com certeza. Vai ser mais forte que qualquer ninja existente.
— Nem tanto. — foi o que respondeu, sorrindo de forma doce. Naruto a olhou surpreso, fazendo Hina corar um pouco. Desviou o olhar, tomando coragem para continuar a falar. — S-sempre achei que você era capaz d-de ultrapassar muitos limites, Naruto-kun. E-e não era você que dizia que iria ultrapassar todos os Hokages anteriores?
Ele piscou surpreso mais uma vez, e então tombou a cabeça e gargalhou.
— Você sabe mesmo me animar, Hinata! — disse sorridente, e ambos lembraram-se do Exame Chunnin, onde Hinata o incentivara antes da luta contra Neji, e logo depois da luta contra Pain. A última lembrança fez Naruto sentir-se culpado. Não havia dado uma resposta a ela ainda...
Olhando para a kunoichi, ele sorriu outra vez.
— Eu já vou, Hinata. A obaa-chan me chamou pra uma missão, sabe como é... Até mais!
... nem daria tão cedo. Não queria ver aqueles olhos tão bonitos magoados com a resposta que tinha em mente. A amizade dela era muito preciosa para ele perder...
E, também, estava sendo um pouco egoísta, sabia disso. Hinata era a primeira garota que dizia lhe amar. Ela era a primeira pessoa que dizia tal coisa para ele. Naruto queria aproveitar aquele sentimento inédito um pouco mais.
— Até... — murmurou, sabendo que agora só o veria depois da guerra... Se sobrevivesse. Observou-o se afastar... — E-espere Naruto-kun!
Ele parou e virou o rosto para ela, curioso.
— O que foi?
Ela parou, sem saber o que falar. Havia o chamado por instinto, não querendo que ele fosse embora. Mordeu o lábio, movimento que capturou a atenção dos olhos do Uzumaki por alguns segundos.
— Só quero que saiba que todos nós confiamos e acreditamos em você. — disse suavemente, olhando-o nos olhos. — Que eu sempre confiei em você, desde que era pequena. — pausou por um momento, dessa vez sem corar. Vamos. Já havia dito uma vez, podia dizer de novo. — E que tudo o que eu disse naquele dia era verdade... Eu amo você, Naruto-kun. E... e mesmo que não seja mútuo, eu continuarei o amando, porque é isso o que amar significa: você dá, sem esperar nada em troca... Eu continuarei torcendo por você, de onde quer que eu esteja. — deu um pequeno sorriso, quase aliviado, por finalmente dizer tudo aquilo. — Até mais, Naruto-kun. Tenha uma boa missão.
E, com aquelas últimas palavras, ela virou-se e saiu dali, com movimentos suaves e passos leves, numa delicadeza já tão característica sua, e sob os olhos surpresos de Naruto.
Eram as palavras dela, que de tempos em tempos, por algum motivo, invadiam a mente do Uzumaki. Antigamente, quando ele pensava que já não havia mais esperança, ou motivo para se lutar por, ou quando a solidão se apoderava de forma tão intensa que ele pensava que ninguém mais se importava... Então as palavras dela ecoavam em sua mente, lembrando-o que sempre teve alguém que se importou.
Naruto nunca a agradecera por aquilo.
Mas, bem, tal coisa havia acontecido há muito tempo, e agora quando a solidão o envolvia, ele já não lembrava mais de Hinata e de suas palavras...
Não havia mais nada para salvá-lo agora.
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