I'm Not a Hero

2 All that remains is emptiness...


Notas iniciais
Desculpem a demora para postar esse primeiro capítulo, mas é que escrevê-lo foi tão difícil, por causa das lutas! (espero que tenha me saído razoável, rs) Mas aí está, espero que gostem e prometo >tentar< não demorar muito no próximo, hehe. Prestem muita, MUITA atenção a esse capítulo, porque tem detalhes cruciais que vão servir para coisas reveladoras ao passar da história... Nota: A música que eu usei como trecho no começo desse capítulo é meio que a "música-tema" da fic. Eu já usei ela em outra fic minha, mas aqui ela bate tão perfeitamente com Naruto e Hinata e tudo o que anda acontecendo na história, que eu não podia deixar de citá-la. A versão original, do Nine Inch Nails, é linda também, mas é mais sombria (o que na real combina ainda mais perfeitamente com a fic). Enfim, chega de falatório. Boa leitura!

“Hoje machuquei a mim mesmo para ver se ainda sinto. Eu me concentro na dor, a única coisa que é real. [...] Debaixo das manchas do tempo, os sentimentos desaparecem. Você é outra pessoa... eu ainda estou bem aqui. [...] O que eu me tornei, meu mais doce amigo? Todos que eu conheço vão embora no final...” — Hurt, Johnny Cash.


Três anos depois...

Olhou pela janela. O céu estava negro e sem estrelas e a lua era encoberta por algumas nuvens. Era irônico como ele sempre parecia refletir o humor da cidade. Suspirou e prendeu os cabelos em um longo rabo de cavalo já costumeiro. Seu cabelo estava grande demais, chegando até o quadril, mas ela não tinha tempo para pensar em cortá-lo. A mente estava cheia com coisas muito mais importantes e preocupantes.

Olhou-se no espelho que havia em seu quarto. Geralmente evitava fazê-lo porque sabia o que encontraria no reflexo: uma mulher debilitada, frágil; triste. Sem esperanças restantes. Sem nada restante.

Usava uma capa negra que lhe cobria o corpo todo. Puxou o capuz e esse lhe cobriu a cabeça, ocultando-lhe parcialmente o rosto. Sabendo que Neji já deveria ter ido há um tempo, ela saiu sorrateiramente do clã. Não que houvesse algum membro restante além dela e de Neji para se preocupar em ser pega; todos eles haviam morrido ou na guerra ou no ataque da Kyuubi ou a mando do Hokage.

Ah, sim. O hokage, não a. Tsunade havia morrido há três anos; ela tinha sido muito debilitada no ataque da raposa e depois... bem, o desgosto que sentia apenas fizera tudo piorar e a morte viera rapidamente. A população de Konoha havia sido incrivelmente enfraquecida; os clãs ninjas haviam perdido vários membros, principalmente os mais velhos e sábios, sobrando apenas alguns membros de cada clã. Um ou dois clãs foram exterminados. O mais novo Hokage estava inclinado a ser Nara Shikamaru, se fosse pela vontade dos ninjas e do conselho.

É. Se fosse. Mas não foi. Ao invés, Konoha fora obrigada a ter, como novo líder, Shimura Masao¹ — o que era irônico, já que ele não tinha nada de correto —, filho de Shimura Danzou. Ninguém nem sabia que Danzou tivera um filho, mas ele tinha e ele era terrivelmente forte e cruel e vinha levando Konoha ao caos com sua tirania. Tomara o poder à força e foi-se descoberto que Masao vinha bolando planos e táticas há bastante tempo, desde antes até da morte do pai, até o dia perfeito chegar; o dia em que Konoha estaria debilitada. E o dia chegara e ele assumira o poder. Alguns ninjas ainda lutaram contra, é claro, ela estava entre eles. Fora inútil, contudo. O bastardo era tão forte que nem mesmo suara! E o pior, porque sim, é claro que ainda havia algo pior: ele tinha um pequeno exército a seu favor, uma armada que vinha juntando ao longo dos anos. Um grupo de cento e tantos homens, assassinos, renegados, espiões, nukenins de cada canto do mundo shinobi, e agora eles usavam, orgulhosamente, um hitaiate da Vila da Folha.

É. Konoha havia se tornado deplorável.

Para o resto do mundo ninja a vila continuava a mesma, ainda tentando se recuperar do segundo ataque da Kyuubi; nenhum dos cinco países ninjas ou outros menores sabia ou desconfiava. Masao era incrivelmente engenhoso, não deixando nunca transparecer o estado real da vila e nas raríssimas reuniões de Kages que havia para eles discutirem a situação atual da Aliança — que durava até hoje, mas Hinata tinha quase certeza de que não duraria muito mais —, ele sempre mentia, é claro. Ele matara o daimyo do País do Fogo para ele não chamar atenção para a vila, e botara um de seus subordinados em seu lugar, fingindo ser ele. Terrivelmente esperto.

Eram poucos os ninjas que faziam missões fora do País do Fogo e, mesmo assim, esses eram ninjas do mini-exército de Masao, já que ele não podia correr o risco de ter seus planos expostos. Eles também haviam parado de receber pessoas de outros países na vila, o que desgastara totalmente o turismo, e a economia da vila estava lá embaixo. O povo vivia em constante temor e quem ousasse desafiar o Hokage ou era preso ou era morto.

Bem, dizer que era preso era uma mentira. Fora aquilo que Masao dissera em seu discurso como Hokage, para toda a pobre população da vila: “Sou seu líder e me devem respeito. Minha palavra é lei e, como lei, quem a desobedecer será preso ou morto.” Heh. Ninguém fora preso. Todos os que se revoltaram foram mortos.

Yamato, Lee, Gai. Kurenai e seu filho, apenas porque a mulher ajudara alguns cidadãos alimentando-os. Iruka, por ensinar autodefesa às crianças que treinavam escondidas. Kiba e Shino, que haviam lutado contra Masao, quando ele se declarara Hokage.

Hanabi.

Sai fora quem liderara o grupo de ninjas, ainda debilitados pela luta com a raposa, contra Masao, porque ele conhecia o cara e sabia mais ou menos algumas técnicas dele. Os dois participaram da ANBU Ne e foram companheiros antes da morte de Danzou e da extinção desse grupo, mas Sai não tinha a mínima ideia de que o sujeito era filho de Danzou até ele declarar aquilo para todos. Bem, Sai também morrera.

Ela não gostava de pensar naqueles que tinham morrido. Os números eram tantos! Tantos amigos... sua sensei... um pobre e inocente bebê... sua irmã. Hanabi nunca poderia ficar quieta. Sorriu tristemente ao lembrar-se dela. Era quieta como todo Hyuuga, mas tinha dentro de si uma vontade enorme, uma determinação enorme que fazia Hinata admirar-lhe. Ela, Neji e Hanabi eram os únicos remanescentes do clã Hyuuga... Agora, era só ela e Neji.

Havia acontecido há um ano. Sarutobi Konohamaru fora espancado em praça pública — era obrigatório à população ver torturas como aquela, para mostrar a todos um exemplo do que acontecia a quem desobedecesse às regras — por roubar comida. Sim, comida. Eram tempos de desespero, nem todos recebiam missões e como vivia chovendo as plantações acabavam morrendo. A comida era escassa e cara, e a maioria da população era pobre — tirando, claro, os malditos subordinados do Hokage, além dele próprio. Hinata já vira muitas pessoas morrerem de fome por ali. Era horrível.

O pior era que, em casos de açoitamento, o chicote usado era revestido em chackra. Depois de dez chicotadas dadas sem nenhuma pena ou arrependimento — todo mundo ali sabia o quanto o guarda, Haito, estava se divertido —, as costas do Sarutobi estavam em carne viva e ele estava quase desmaiando.

Hanabi interviera por Konohamaru quando ninguém mais o fez. Os companheiros de time do Sarutobi estavam mortos; os de Hanabi também. Haviam morrido no ataque da Kyuubi, já que na época todos eram chunnins e eram obrigados a lutar. Eles haviam se aproximado e se tornado amigos desde então e em tempos como aquele, Hinata ficava grata por Hanabi ter algum amigo.

As duas sabiam o quanto o Sarutobi era forte e em como ele poderia acabar com aquilo se quisesse, mas se ele se revoltasse seria pior. Ele o sabia também e, por isso, aguentou cada chicotada em silêncio, o maxilar travado e os punhos fechados pela dor.

Hinata segurara a mão da irmã fortemente o tempo inteiro, com medo de que ela fizesse alguma besteira. Não adiantou nada, Hanabi fora lá mesmo assim. Quando estava distraída, ela soltara-se de sua mão e correra até o palco que eles usavam para showzinhos como aquele.

Colocou-se na frente de Konohamaru e protegeu seu corpo com o dela, gritando para o açoitador que ele era um maldito covarde pau mandado de um Hokage filho da puta.

Todos prenderam a respiração. E, se Hinata não soubesse o que aconteceria depois, teria se orgulhado da pequena irmã. Não o fez, contudo, porque no momento seguinte Hanabi tinha sido atingida por um golpe e, desacordada, ia sendo arrastada pelos cabelos diante de todos até o escritório do Hokage. Tentou correr até ela, mas Neji a impediu. Lembrava-se de ter gritado para ele, tantas vezes, “me solte”. Não poderia perder mais ninguém. Não poderia perder ela.

— O que você fará Hinata-sama? — fora a resposta dele, fria e calculista. Mas ela sabia, ela podia ver o pesar que ele tinha no olhar ao ver o caminho por onde Hanabi fora para nunca mais voltar. — Você não é páreo para tantos deles. E você sabe que seria uma dor a mais para Hanabi-sama ter que vê-la morrer bem em sua frente.

E ela se calou e parou de espernear. Porque ele estava malditamente certo; porque ela não seria de ajuda nenhuma e as duas morreriam, e do jeito que eles eram cruéis, fariam uma das duas assistir a outra sendo torturada.

O Sarutobi desmaiara depois disso, apesar de Hinata ter um leve vislumbre de que ele estava prestes a seguir o guarda e Hanabi. Konohamaru saíra horrivelmente machucado, com algumas cicatrizes no corpo e muitas no coração — a Hyuuga sabia que ele amava sua irmã. Mas ao menos, ele saíra vivo.

Eles nem mesmo lhe deram um corpo para ser enterrado.

Passou pelo portão da vila, cuidadosa e silenciosamente. O guarda de vigia parecia dormir a tempos e ela teve que revirar os olhos; não botavam muita segurança ali, porque todos sabiam que dar um passo para fora de Konoha significaria morte.

Mas era o que ela estava fazendo agora.

Não era para fugir da amaldiçoada vila, no entanto. Todo dia, de manhã cedo, acontecia uma espécie de lista de presença feita para a população por um dos brutamontes de Masao. Aquele que não estivesse presente era caçado e não importava os truques que o infeliz usava, eles sempre descobriam quem havia fugido. E eles sempre conseguiam alcançar a pobre alma. E eles sempre conseguiam matá-lo.

Correu por entre a floresta e pousou em uma clareira não muito grande, apenas o suficiente para que coubesse uma cabana.

Fez alguns selos e então estendeu a mão. Diante dela, uma porta apareceu. Abriu-a e entrou na cabana, retornando a fazer os selos e vendo a porta desaparecer. Virou-se e viu vários olhos fixos em si. Inclinou a cabeça levemente, em sinal de reverência.

— Gomen pelo atraso. — disse tirando o capuz. — Eu... perdi-me em pensamentos durante o caminho.

Ela olhou para Neji em um silencioso cumprimento, que ele retribuiu também com o olhar e um pequeno aceno com a cabeça. Parecia preocupado.

— Por que a reunião tão de repente? — perguntou curiosa e foi então que Shikamaru saiu de sua frente, dando espaço para seus olhos focaram-se em Ino, deitada totalmente num dos sofás. Havia sangue seco em seu rosto e vários cortes, tanto em seu corpo como em sua face, cortes bastante feios. Viu a Yamanaka tossir um pouco de sangue e Sakura apressou-se até ela, para limpá-la.

— O que houve com a Ino-chan? — perguntou preocupada. — Por que você ainda não a curou totalmente, Sakura?

— Eu não posso. Não ainda. — foi o que a Haruno respondeu, aflita, enquanto passava um pano pelo sangue que saíra da boca da loira. — Ela foi machucada demais e eu estou muito fraca agora. Passei o dia curando alguns ninjas e já não tenho quase nenhum chackra restante... Os ferimentos não são muito sérios, pelo menos. Tenho que esperar um tempo ainda para poder curá-la.

— Descobriram que ela andava curando os ninjas torturados. — Shikamaru lhe disse olhando pesaroso para a companheira de time.

— Eu tinha saído mais cedo para pegar algumas plantas medicinais guardadas em casa e ela continuou lá — as duas atendiam aos pacientes em uma casinha isolada e abandonada de Konoha, em uma parte bem afastada do centro. —, e quando eu voltei... — Sakura fungou. — Foi uma sorte não terem a matado...

Ainda pairou no ar, porque todos sabiam que agora Ino ficaria marcada para Masao, e não tardaria muito até ele fazer algo contra ela. Hinata estremeceu, memórias a invadindo de maneira cruel.

— Eu finalmente bolei outro plano. — o Nara tornou a falar e todos o olharam em expectativa. Em três anos eles só haviam feito duas tentativas de acabar com a ditadura de Konoha e todas falharam. Na segunda, um ano atrás, Lee, que tentara escapar da vila, fora morto.

— Mas todas as nossas tentativas falharam! O Lee... — a voz de Tenten tremeu.

— Foram poucas tentativas. — Neji rebateu. — Desistimos fácil demais. Não dá para continuar nessa situação. Todos aqui sabem que Masao já está nos visando há um tempo. Ele sabe muito bem que somos uma ameaça e se continuarmos assim, seremos mortos... Como todos os outros.

— O que está feito, está feito e pensar no passado é problemático demais. — Shikamaru disse. — Eu venho planejando táticas e observando as de Masao há muito tempo, Tenten, você sabe. Esse plano ainda há falhas, mas é o que nós temos e vai ter que dar certo. Algum de vocês vai tentar sair daqui de Konoha... de novo.

— Nani? — os quatro perguntaram. Ino provavelmente teria a mesma reação, se estivesse consciente.

— Shikamaru, você sabe que isso é impossível... Lee-san tentou e agora ele está...

— Impossível é continuar assim. — ele interrompeu Sakura. — Algum de vocês terá que ir até Suna e contatar o Kazekage, como era o nosso plano inicial. Ele irá ajudar, ele ainda se sente em dívida com Konoha por causa do... bem, enfim. Vai ser problemático sair do País do Fogo, vão ter muitos ninjas e os caminhos estarão cheios de armadilhas dos subordinados do Masao, mas — e dessa vez ele sorriu, minimamente, mas sorriu. — não é impossível. Nas poucas missões que consegui pegar eu analisei o terreno e, a pedido meu, Neji também. Juntando as informações que temos até agora, eu posso fazer um mapa com todos os elementos necessários.

Ele puxou um papel e um lápis e começou a desenhar lá. Os amigos reuniram-se ao seu redor, observando atentamente.

— Eles nunca mudam de posição por muito tempo. Podem caminhar por entre a floresta, mas geralmente voltam ao lugar de origem. — disse apontando para os inimigos desenhados de forma mal feita, mas era apenas uma representação, só para terem uma ideia. — Ficam escondidos nas árvores ou camuflados na terra. Sempre a espreita. Há quatro a leste e cinco a nordeste e mais ou menos três a sudeste, então as chances são mais favoráveis do outro lado, — disse apontando para outro lado do mapa. — há dois a noroeste e a norte, e três a sudoeste, mas não precisamos nos preocupar com isso. Quem for, terá que percorrer em linha reta por alguns quilômetros e depois se dirigir a noroeste.

— Certo, estamos entendendo, mas quem vai? — Tenten perguntou.

— Eu me ofereceria — suspirou o Nara. —, mas não pode ser eu. Tenho que ficar aqui para cuidar de camuflar a saída da Hinata.

Ela subiu os olhos perolados para ele, questionadora.

— Tem que ser você. — ele justificou de modo sério. — Você é ágil e esquiva, e seu byakugan é de extrema importância. Neji poderia ir, mas preciso dele aqui. Quando você aproximar-se o suficiente a noroeste, desacorde os caras de lá. Simples e silenciosamente. Não precisa matar e não entre, de jeito nenhum, em lutas desnecessárias, porque isso comprometeria tudo. Não chame atenção e seja rápida, bastante rápida, porque eu sei que eles estão em constante comunicação entre si e logo perceberiam que algo está errado. Depois, você vai ter que ir mais pra cá — disse, fazendo um círculo na parte norte do mapa. —, e tente desacordar os caras de lá também. Se vir que não é possível, não tente. Apenas passe de forma silenciosa por eles. Eu sei que eles sempre ficam à espreita nas árvores, então passe pelo rio. Esconda seu chackra e torça, torça muito pra eles serem estúpidos ou estarem distraídos o suficiente para não te notar. Esgueire-se até a fronteira. Depois de lá... — ele suspirou. — Você estará livre. Você entende Hinata?

— Hai. — ela murmurou. — Eu entendo.

— Confiamos em você. — disse e todos os outros assentiram em concordância.

A garota suspirou. Era hora, então, de fazer algo. Finalmente. Esperara meses por qualquer plano do Nara e agora não era hora para receios.

— Não os desapontarei. — disse firmemente.

— Sabemos que não. — Tenten disse lhe dando um pequeno sorriso, algo muito raro para todos ali. Ela era sua melhor amiga e sabia que estava preocupada consigo, mas apenas balançou a cabeça. Não os decepcionaria. Ela conseguiria. Sabia que sim. Tinha que conseguir. Estava cansada de se esconder, de não lutar de volta. Aquilo não era vida; aquilo era uma prisão. Um cárcere onde ela se via mais e mais encurralada. Olhou tristemente para Ino. Ela não merecia aquilo. Nenhum deles merecia.

— Eu cuidarei dela. — Sakura disse chamando sua atenção. Tinha aquele olhar vazio de sempre que ela havia acolhido desde o ataque da Kyuubi, desde a morte da mestra, desde a expulsão que fora obrigada a presenciar do companheiro de time. — A família Nara tem um livro de medicina muito útil e eu sei que meu chackra logo se recuperará o suficiente para eu poder reverter o estado dela. Não se preocupe, Hinata-san. Ino viverá.

A Hyuuga assentiu, confiando nas palavras da Haruno, porque era a única coisa que podia fazer.

— Você tem que partir agora, Hinata. — Shikamaru murmurou olhando para o mapa que havia feito, pensativo. — Vão ser três dias e meio até chegar a Suna.

— Dois se eu me apressar. — ela disse fazendo o Nara soltar um pequeno sorriso. — Como vai conseguir enganá-los?

— Daremos um jeito, não se preocupe com isso. Vai ser temporário, o suficiente para atrasá-los o bastante para que você já esteja fora do País do Fogo e não tenha que se preocupar muito com eles te perseguindo. O plano tem falhas, você vai ter que estar preparada para qualquer adversidade. E não chame atenção de jeito nenhum! — repetiu.

Ela assentiu e então o viu abrir sua mão e jogar lá duas agulhas. Senbon.

— Faça valer o alvo. Você tem que passar na sua casa para arrumar o que precisa?

— Não. Sempre saio de lá preparada.

Ele sorriu novamente. Shikamaru havia se tornado um ótimo amigo aqueles anos; todos haviam.

Virou-se, mas antes de ir Neji a puxou pelo braço para um canto da cabana. Eles se comunicavam apenas com o olhar. Virara um costume. Naqueles tempos onde uma palavra significava morte, era um costume necessário. Tenha cuidado, os olhos dele diziam.

— Não precisa se preocupar, nii-san. — disse confiantemente. — Eu sei me cuidar...

— Eu sei que sabe, mas não é o suficiente, Hinata-sama. Você não teve o tanto de missões que eu ou Shikamaru tivemos e que ainda assim foram poucas. Você não tem ideia das coisas que presenciamos. Konoha... Aqui dentro pode estar terrível, mas lá fora está pior... — suspirou. — Essa paz que os Kages insistem em espalhar só se resume às principais vilas ninjas; fora dos muros, você nem pode imaginar...

— Ambos sabemos que eu não sou mais a menina ingênua de antes, não é mesmo, Neji-nii-san? — dessa vez a voz dela saiu mais baixa. Ele lhe olhou com pesar, mas ela logo voltou a tranquilizá-lo. — Está tudo bem. Eu prometo voltar inteira.

— Preferia que não voltasse pra cá.

— Eu nunca abandonaria meus amigos!

O olhar dele suavizou.

— Você me lembra ele, Hinata-sama.

Ela sabia de quem ele falava; sabia tão bem que aquilo a fez enrijecer e virar-se para sair dali.

— Espero que dê tudo certo aqui. — disse a Shikamaru e depois voltou-se para Sakura e Tenten. — Cuidem-se.

Nenhuma despedida. Eles nunca despediam-se entre si, porque todos ali já tinham tido despedidas demais para uma vida inteira.

Aproximou-se de uma das paredes, fez os selos e a porta reapareceu. Depois de sair da cabana deu um olhar para trás apenas para certificar-se que Tenten faria os selos novamente, para que a porta desaparecesse. Quando a morena o fez, Hinata virou-se e pulou para uma das árvores, começando a correr.

Pôs novamente o capuz na cabeça e foi se afastando de Konoha cada vez mais. Estava preocupada em como Shikamaru faria para disfarçar o fato de ela haver fugido da vila e, principalmente, o que aconteceria a ele e aos outros se descobrissem que eles estavam envolvidos. Suspirou; não era hora de pensar naquelas coisas.

Não era rápida como Lee, o que era uma desvantagem, mas ela tinha algo mais. Seus olhos. O byakugan há muito já estava ativado e ela olhava ao seu redor atentamente, seguindo as instruções do Nara. O caminho estava cheio de armadilhas e a escuridão da noite apenas piorava tudo. Estava realmente um saco livrar-se das emboscadas, elas eram muito bem feitas, mas ela estava conseguindo. Não podia perder a paciência e não podia ser imprudente. Poderia custar sua vida.

Começou a tomar caminho a noroeste, mas parou rapidamente, escondendo-se atrás do tronco de uma árvore. Xingou-se mentalmente. Quase fora pega! Escondeu o chackra e espiou, com o byakugan, três guardas de Masao. Droga. Não era pra eles estarem ali! Certo, Shikamaru disse que o plano tinha falhas e ela teria que estar preparada para qualquer adversidade.

Depois de mais uma olhada, pôde perceber que havia outra pessoa ali. Uma mulher. Era ninja, notou que era pelo modo como o chackra era desenvolvido; mas o chackra dela estava fraco e corria irregularmente. Hinata percebeu que ela estava machucada e deduziu que ela tinha lutado. Os três homens, muito mais altos e com o chackra em perfeito estado, a cercavam. Hinata desativou o byakugan; dali de onde estava dava para ouvir o que eles diziam.

— Ah, vamos, querida. — um deles, o que estava no centro, disse com um sorriso nojento estampado na face. — Você não acha que pode nos acertar com essa kunai, acha? Por que não para de resistir um pouco?

Ele acariciou o rosto dela e a mulher mordeu um de seus dedos; no momento seguinte, ela acertou o rosto dele com a kunai que usava, fazendo um grande corte. O homem se afastou, enquanto os outros dois a seguravam, impossibilitando-a de se mexer.

— Vadia! — ele rosnou tocando no corte na bochecha que ela fizera. — Eu ia só me divertir, mas agora, depois de nós três nos divertirmos, eu vou matar você. Arranquem a roupa dela!

A kunoichi gritou quando sua blusa fora cruelmente arrancada. Provavelmente só estava tentando completar uma missão que devia ter conseguido com muito esforço e aqueles três apareceram. Hinata fechou os olhos com nojo, ouvindo os gritos da moça e os risos dos guardas. Em sua mente vieram lembranças que todos os dias ela tentava esquecer. Não entre, de jeito nenhum, em lutas desnecessárias, lembrava-se das palavras de Shikamaru. Não chame atenção. Tirou os senbons que ele havia lhe dado, de sua bolsa ninja e os contou; só era o suficiente para desacordar os guardas mais a frente, nada mais que isso.

Ativou o byakugan novamente, tremendo com o esforço de não ir até lá e arrancar os olhos daqueles monstros, ouvindo as súplicas de uma companheira de vila. As súplicas que ninguém mais ouviria; as últimas súplicas dela, porque Hinata sabia que ela seria morta logo depois, assim como também sabia que a mulher desejaria ser morta depois.

Aproveitou-se da abominável distração deles e esgueirou-se por entre as árvores, ágil e silenciosa do jeito que sempre fora. Quando já estava longe o suficiente para não ouvir os gritos, Hinata pôde deixar-se cair em um galho. Sussurrou perdoe-me para os ventos, sabendo que ninguém a ouviria e que, mesmo se a mulher ouvisse não lhe iria desculpar. Lembrou-se do primo e de suas palavras. Você não tem ideia das coisas que presenciamos. Seria de coisas como aquela que ele falava? Em seu íntimo, Hinata sabia, com toda a certeza, que não. Ele falava de coisas ainda piores.

Paz. Ela desprezou aquela palavra com todas as forças, fechando os punhos. Não existia a completa paz e nunca existiria enquanto houvesse pessoas como aqueles guardas. E sempre haveria “pessoas” como eles.

Ouviu passos e vozes vindas a sudeste de onde estava, e se camuflou na árvore onde estava encostada, ainda ocultando o chackra. Prendeu a respiração, observando dois dos guardas de Masao passarem bem perto de onde ela estava.

— Onde aqueles inúteis se meteram? — ouviu um deles resmungar.

— Provavelmente se divertindo por aí, enquanto a gente tem que ficar plantando armadilhas por toda essa maldita floresta. — o outro bufou e eles foram se afastando até o lugar de onde Hinata viera. Talvez eles atrapalhassem a diversão deles, ou talvez eles se juntassem a ela. Hinata, sentindo o nojo crescer dentro de si com a última hipótese, tornou a correr entre os galhos, tomando cuidado com as armadilhas que o segundo cara comentara.

Parou ao ver dois ninjas, de costas um para o outro, observando o local, a procura de qualquer suspeito. Eles estavam parados, o que tornava tudo mais fácil. Com o byakugan ainda ativado, ela pegou os únicos dois senbons e os mirou em pontos vitais nos pescoços deles. Atirou-os e eles acertaram em cheio o alvo. Os dois caíram ao chão, desacordados, com sorte, mortos. Agradeceu mentalmente a Sakura pelas aulas medicinais, bastante úteis caso não houvesse nenhum iryou-nin por perto. Era necessário muito conhecimento em anatomia para saber o ponto exato onde acertar.

Passou por eles e seguiu mais a norte. Correu pelo que deduziu serem horas; maldito fosse aquele país. Como aquela faixa de terra podia ser tão extensa? Já tinha amanhecido muito tempo atrás e o sol começava a se pôr novamente. Ela suspirou e reduziu a velocidade, escondendo-se atrás de um arbusto, parando para descansar. Olhou atenta aos arredores e contou dois inimigos a leste de onde estava; a sudeste apenas um e a nordeste três. Suspirou agora de alívio. Eles estavam longe o suficiente para não apresentar muito perigo. Estava suando por permanecer tanto tempo com o byakugan ativado, sem nenhum descanso. Desativou o doujutsu e relaxou.

Quando sentiu que estava pronta para tornar a correr, uma hora depois, levantou-se e ficou atenta. Já estava escuro novamente, o que ela agradeceu, já que era muito mais fácil se camuflar no escuro. Parecia que os guardas estavam trocando de turno. Ativou o byakugan e pôde ver alguns ninjas se aproximando. Começou a correr para longe, fazendo cálculos mentais sobre qual direção devia seguir agora. Viu que a norte, onde estava à fronteira do País do Fogo com outro menor, havia seis ninjas, impedindo a passagem. Seis. Seu coração apertou; Shikamaru errara os cálculos naquela parte.

Seguiu perto de um rio que corria por ali, sentindo-se aliviada; a água lhe acalmava. Continuou atenta aos chackras aproximando-se. Quando viu que eles se aproximavam demais, Hinata mergulhou no rio, silenciosamente. Ela viu um deles surgir em seu campo de visão. Assustada, permaneceu imóvel. O ninja pegou um pouco de água para jogar no rosto e então, como se percebesse algo, olhou suspeitosamente para onde ela estava. Seu coração acelerou.

— Oi! Koji! — alguém chamou o rapaz. — Anda logo com isso! Eu quero começar logo pra terminar mais rápido. Não passa ninguém por aqui, não sei por que o chefe nos manda vigiar essa droga de floresta.

Nenhum deles, Hinata notou, parecia feliz com o fato de terem que ficar rondando uma floresta solitária dia e noite.

Koji, o ninja que lavava o rosto, deu uma última olhada para onde ela estava e depois deu de ombros, como se dissesse a si mesmo que não era nada. Sentiu os dois chackras se afastando. Se fossem só aqueles dois, ela não estaria tão preocupada, mas Hinata sabia que vinham mais quatro, o que a fez continuar debaixo d’água. Não era um problema realmente, afinal, seu elemento era o Suiton — o que era uma sorte àquela hora —, mas apesar disso, não podia continuar para sempre ali, porque ainda não se tornara nenhum peixe e nem criara guelras.

Esperou apenas o tempo necessário para se ver longe dos ninjas que transitavam por ali e emergiu. Respirou fundo e saiu da água. Já estava percebendo que teria que lutar. O byakugan visualizou, a quilômetros de distância, os seis ninjas sendo substituídos por outros seis. Um deles lhe era bastante conhecido: o açoitador de Konohamaru e assassino de Hanabi — e ela sabia que tinha sido ele porque o bastardo lhe dissera pessoalmente o quanto era bom acabar com um Hyuuga —, Haito.

Apertou os punhos, sabendo que não daria para seguir pelo rio e se esgueirar sem que eles lhe notassem. Lutar era a única escolha e ela não fugiria, porque, pela segunda vez em sua vida, Hinata desejava, com todas as forças, ver o sangue de alguém manchar suas mãos.

Notou um chackra na terra; um ninja deitado e camuflado na lama da floresta. Por entre as árvores, ela também camuflou-se, andando silenciosamente, atenta a qualquer movimento dele, mas o chackra corria tão tranquilamente que ela suspeitava que ele tivesse acabado dormindo. Quando se viu longe, começou a correr. Prendeu um grito ao quase pisar em uma linha que muito provavelmente ativaria uma selva de kunais sobre si. Pulou para frente, longe o suficiente para que evitasse — se houvesse — qualquer outra linha escondida na sombra da primeira.

Quando viu, estava perto o suficiente dos seis caras. Eles conversavam e uns dois ficavam andando de um lado para outro. Haito estava sentado, as costas contra o tronco de uma árvore, totalmente relaxado. Tinha outros dois atentos às árvores do outro lado da floresta. Pegou seis kunais e as jogou neles. Uma perfurou a cabeça de um dos ninjas atentos às árvores, outra acertou um dos caras que conversava na coxa e as outras passaram apenas raspando.

No segundo seguinte, todos os ninjas estavam atentos às folhas da árvore onde ela se escondia. Pulou, antes que uma enxurrada de kunais a acertasse.

— Ora, ora! Uma fugitiva! — um deles, com cabelos longos e azuis, gargalhou. — Finalmente algum tipo de ação.

— Uma garotinha. — debochou outro, um ruivo alto. — O que faz aqui menininha, está perdida da mamãe?

Hinata arqueou as sobrancelhas. Aos pés do ruivo estava um de seus companheiros, a kunai jogada por ela atravessando a cabeça dele, e eles ainda assim estavam lhe subestimando? Sorriu internamente. Quanta estupidez. Nunca subestime o inimigo, era uma das regras ninjas.

Haito, que havia pulado de onde estava sentado, também sorria. Tinha cabelos negros e olhos sombrios. Não sabia o que ele tinha feito para acabar ali, vigiando a floresta, porque ela sabia que Masao só mandava para lá os subordinados que mereciam uma lição de alguma forma, ou os que fossem muito fracos. Haito não era fraco.

— Hyuuga Hinata. — ele cantarolou com satisfação. — Você definitivamente quer ter o mesmo destino da sua irmãzinha, não é?

Apertou os punhos. Ele achava que aquilo iria distraí-la? Pulou de uma kunai estúpida jogada pelo ruivo. O ninja que havia sido acertado na coxa por sua kunai, retirou a lâmina da perna e a jogou em um canto longe. Havia sangue caindo do ferimento, mas ele não ligou, apenas gritou:

— Katon: Goukakyuu no Jutsu!

Ao mesmo tempo, Hinata gritou:

— Suiton: Suijinheki!

A barreira de água chocou-se contra a bola de fogo, apagando-a. Percebeu um dos ninjas, o único que não falara nada até ali, soltar uma exclamação de surpresa.

— Hyuugas não usam elementos! — exclamou chocado. Provavelmente tinha nascido em Konoha, diferente dos outros ninjas ali.

Bem, de fato, Hyuugas não usavam elementos... geralmente. Ela também ficara abismada ao descobrir que tinha afinidade com a água, três anos antes. Konoha vivia constantemente chovendo e, um dia, ao sair para treinar secretamente em uma área isolada de treinamento, descobrira que conseguia manipular as gotas de chuva ao seu redor. Depois disso, pesquisara em antigos livros do Clã, que não foram destruídos. Havia ali registros de antigos Hyuugas que usavam ninjutsus elementais, e ela acabara descobrindo algumas técnicas Suiton. Não tivera muitas oportunidades de testar as técnicas que aprendera aqueles anos em ninguém; era sua primeira experiência.

— Suiton: Mizurappa!

O ninja com o ferimento na perna não conseguiu desviar e a rajada de água o acertou em cheio. Ele trombou com o tronco de uma árvore e caiu desacordado. Menos um; faltavam quatro.

O ruivo e o cara de cabelos azuis correram até ela, um de cada lado, encurralando-a. Os dois usavam katanas e estavam a empunhando, prontos para atacá-la. Ela pensou rapidamente; podia ver que eles usavam chackra nas katanas, provavelmente para fazer o dano maior, mas suas barreiras com o Suiton ainda não eram fortes o suficiente para impedir as espadas. Estreitou os olhos e esperou eles virem, fingindo-se de encurralada. No último momento, porém, quando as katanas estavam quase lhe acertando, ela abaixou-se e as duas chocaram-se, um som metálico ecoando pela mata, enquanto os dois ninjas afastavam-se um pouco pelo impacto.

Sorriu. Aproximar-se de um Hyuuga era um erro que eles aprenderiam a não cometer mais; eles estavam dentro de seu alcance de ataque agora. E, pensando isso, ela pôs-se em posição.

— Juukenhou — Hakke Hyakunijuuhachi Shou! (Estilo do Punho Suave: 8 Trigramas 128 Golpes)

Ela começou a atacá-los, dividindo os golpes entre os dois oponentes, tão rápido que eles não podiam defender-se e nenhum dos outros dois ninjas poderia intervir.

— Ni Shou! — dois golpes. — Yon Shou! — mais dois. — Hachi Shou! — mais quatro. — Juuroko Shou! — mais oito. — Sanjuuni Shou! — mais dezesseis. — Rokujuuyon Shou! — mais trinta e dois. — Hyakunijuuhachi Shou! — mais sessenta e quatro golpes. Totalizando: 128 golpes!

Os dois foram jogados longe pela força dos impactos. Menos dois, ela pensou. Não estavam mortos, apenas desacordados. Haito seria o único morto ali. Suspirou, pondo-se em posição de ataque. Tinha que ser rápida ou então logo chegariam mais e mais ninjas. Haviam sobrado Haito e o cara que ficara chocado ao vê-la usar um elemento. Observou esse mesmo cara correr até ela, enquanto Haito apenas observava tranquilamente, um sorriso prepotente no rosto.

Tão distraída estava em observar Haito que fora atingida por um chute potente na barriga, dado pelo outro ninja, sendo jogada no rio. Cuspiu sangue e firmou-se sobre a água, segurando a barriga. Viu seu inimigo pular em sua direção e os dois começaram uma luta de taijutsu normal. Ele era rápido, não deixando nenhuma brecha. Começando a impacientar-se e ouvindo a risada de Haito ecoar, Hinata desviou-se de outro chute e segurou a perna do adversário, puxando-o e espalmando a palma em seu peito.

— Shuukuken! (Calcanhar da Palma)

Aquela técnica nunca fora muito forte, mas em todos aqueles anos ela havia treinado — escondida, porque treinar e aprimorar habilidades eram considerados como um começo de uma rebelião pelo Hokage — e conseguido melhorá-la. O oponente caiu ao chão depois de rolar uns metros e a Hyuuga sabia que ele não acordaria tão cedo. Menos um.

Ouviu Haito aplaudir, dando uma risada irônica. Já podia sentir alguns chackras se aproximando; não demoraria muito para chegar até onde estava.

— Bravo! Bravo! — ele disse, rindo. — Então o que o chefe disse sobre o clã Hyuuga era verdade... Vocês até que são razoáveis. Opa, minhas desculpas. Eram! — corrigiu-se, um riso malicioso escapando-lhe.

— Acha que vai conseguir me atingir jogando na minha cara a situação de meu clã? — ela perguntou friamente, os olhos com o byakugan ativado brilhando furiosamente. — Todos os dias eu acordo sabendo e aceitando isso, obrigada.

— Uhhh, fria! — ele disse, rodeando-a, observando-a como se fosse um objeto raro. — Como todos os Hyuugas, eu presumo.

Sabia que Haito tinha vindo de um país pequeno, de uma vila menor ainda, onde ele assassinara a todos os habitantes. Todas as informações que ele devia ter sobre si ou sobre seu clã deveriam ter vindo do maldito Masao.

— Mas eu já confirmei que não importa o quanto vocês sejam frios, na hora da morte, até mesmo um Hyuuga pode implorar.

Hinata estreitou os olhos.

— O que quer dizer?

— Sua irmãzinha. Qual era o nome? Hani, Hana... Bem, não importa. Ela chorou o tempo todo, sabe. Implorando por sua vidinha miseráv... — Hinata lhe acertou um soco com toda a força que tinha. Não era nem comparada a de Sakura, por exemplo, porque seu taijutsu não era de força bruta, mas estava com tanta raiva que não se importava mais. Ele riu, desviando-se dos golpes que ela tentava acertar-lhe. — Parece que eu consegui alguma emoção.

Ele tirou uma adaga do bolso e com um movimento rápido fez um corte no braço dela. Distraída com o ferimento, ela não conseguiu se defender a tempo do chute no estômago. Caiu alguns metros longe, cuspindo sangue. Estava sem ar; o chute que o ninja anterior havia lhe dado ainda doía e, somando-se ao novo, a dor vinha dez vezes pior. Antes de tentar levantar-se, levou outro chute, agora no rosto. Haito subiu em cima de si, rindo e apontando a adaga para seu coração.

— Você achou mesmo que conseguiria? — riu, quase amavelmente. — Nenhum de vocês vai escapar. Masao é cem vezes mais forte do que você pensa. Essa vila — falou com desprezo. — vai ser só o começo. Logo uma quinta guerra explodirá e ele vai derrotar a todos os outros kages. E você, assim como todos os outros, são apenas sacrifícios necessários para ele alcançar o que tanto almeja.

— Que seria? — murmurou friamente, sentindo a ponta de adaga transpassando sua capa e seu colete ninja, cutucando sua pele fria.

— Ser o deus de um novo mundo!

Ah, ótimo. Outro que queria criar um mundo novo e ser deus. Já não tinham bastado Pain, Obito e Madara?

— E o que te faz pensar que você também não se tornará um sacrifício necessário para ele?

— Eu serei seu braço direito. — disse agora frio como gelo. — Ele mesmo disse. Sou o melhor homem que ele tem.

— Ele te fez uma lavagem cerebral. — ela notou com pena em sua voz.

Haito rosnou algo, mas não estava pronto para acabar com aquilo ainda. Ele gostava de falar... e aquele seria seu erro.

— Sabe... sua irmãzinha também duvidou de que pudessem matá-la. Ela lutou. Tão jovem, porém tão feroz. — sorriu. — E aí eu a peguei. No final, tinha tanto sangue que eu sequer conseguia reconhecê-la... E ela implorou. — dessa vez ele gargalhou com vontade. — Implorou tanto para poupá-la, acho até que ela rastejaria e beijaria meus pés se pudesse se mexer...

Hinata havia fechado seus dedos ao redor da terra e grama que havia ali, sem ele perceber. Ela jogou a terra em seus olhos. Momentaneamente perturbado, ele gritou algo e saiu de cima de si, caindo no chão. O erro fatal. Ela tirou a adaga que ele deixara fincada em seu colete e, dessa vez, foi ela a subir em cima de si, imobilizando-o.

Ele tirou a terra dos olhos e a encarou com fúria.

— Ela chorava e gritava e implorava! — gritou, para logo depois sorrir doentiamente. — Então eu cansei das súplicas e a matei! Assim como matei Ko, aquele seu guarda-costas estúpido! Ele tinha me desafiado e eu fiquei irritado... Ele nem mesmo soube o quê o atacou por trás.

Ela sentiu os olhos arderem e suas mãos tremerem. Ko havia sido um dos únicos sobreviventes do ataque da raposa. Fora bem antes da morte de Hanabi, mas ainda estava vivo na memória de Hinata. Quando o dia amanhecera e ela descobrira que Ko não dormira no clã, saíra para procurá-lo, mas tudo o que encontrara fora seu corpo estraçalhado. Golpes de uma adaga, agora ela lembrava. Sua respiração acelerou.

— Isso — ela enfiou a adaga em seu ombro, sentindo satisfação ao ouvi-lo gritar de dor. — é por Konohamaru. Isso — ela fez um corte em seus olhos. Dessa vez, ele urrou com a dor e ela sabia que não tardaria nada a chegarem mais ninjas ali. — é por Ko.

Então Hinata enterrou a adaga bem no meio de sua testa.

— Isso é pela minha irmã, seu bastardo.

Levantou-se, arrancando a adaga de sua cabeça. Olhou para o corpo e então para uma árvore enorme, tendo uma ideia. Sabia que não podia perder mais tempo, mas aquilo tinha que ser feito. E ela fez.

Minutos depois ela guardou a adaga em sua bolsa ninja e, olhando para o que tinha feito, ela murmurou consigo mesma, antes de virar-se e atravessar a fronteira:

— E isso é pra você aprender a não subestimar um Hyuuga.

Notas finais
¹= Masao, segundo minhas pesquisas loucas em sites de significados de nomes, significa "homem correto", e foi por isso que eu escolhi esse nome pra ele, por conta da ironia. Ah, amo ironias. Ah, daimyo é o Lorde Feudal de um país, o líder de tal país. Então, Naruto não apareceu nesse e nem foi citado (diretamente, cof cof), mas não se preocupem porque, como protagonista, ele logo aparecerá, hehe. ;) Sim, a Hinata está mudada, mas aconteceram tantas coisas com a garota, o clã exterminado, a irmã morta, a vila destruída e sob terror, Naruto nukenin... E ainda tem outra coisa SUPER revelante sobre ela que eu não citei, mas tem relação com as partes em que ela tem "memórias que ela prefere esquecer". Vamos ver se vocês adivinham o que aconteceu a nossa Hyuuga. Não é muito difícil (você fala isso porque é a autora!!). Ah, e essa ideia que a Hinata teve agora no final... quero ver quem consegue adivinhar o que foi que ela fez com o Haito. lol Ela tá levemente maléfica, mas foi só por causa desse infeliz... Mas qual é, acho que todo mundo se descontrolaria com aquele cara. Bem, enfim, espero que tenham gostado e prestado atenção em todo o capítulo, porque, como eu já disse, tem muitos detalhes importantes.