I'm Not Ok
7 Capítulo 7 - Para Melhor
Notas iniciais
Atualizei rapidinho porque eu acabei adiantando demais a história, e quando eu fico com excesso de capítulos, meus dedinhos coçam para postar aqui!
Bem, eu espero que aproveitem!
Capítulo 7 – Para Melhor
Permaneci na calçada mesmo depois de Frank ter entrado em casa. Virei-me então para encarar a bela porta de madeira da minha própria, as palavras ácidas que eu havia direcionado a Ray e Mikey voltando à tona rapidamente. Esperava, sinceramente, que Ray não estivesse mais lá, pois pelo menos Mikey eu tinha certeza que conseguiria ignorar, ele não... Ainda nem sabia direito com que cara olharia para ele da próxima vez que nos víssemos. Porque eu sabia que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde: é o tipo de situação que por mais que você tente, não vai conseguir evitar. Pelo menos não daria para evitar se eu quisesse mesmo manter nossa amizade.
Retirei as chaves do bolso da calça e abri a porta, vagaroso. “Merda!” foi a única coisa na qual consegui pensar quando ouvi vozes conhecidas na sala. Fechei a porta um pouco mais, de modo que ficasse apenas entreaberta. Quem passasse na rua e me visse daquela forma pensaria que sou um ladrão – minha aparência também não ajuda muito. – mas minha curiosidade sobre o assunto que eles falavam era maior do que a minha importância com a opinião alheia (que, na realidade, sempre foi nula).
E não demorei a constatar que a conversa envolvia meu nome. Eu estava em alta!
- Ray, ele não te disse mentira alguma. – e eu me surpreendi com o que eu ouvia Mikey dizer. Com o jeito que eu gritei e fui grosso, imaginei que ele fosse ficar do lado do Ray. – Lógico, ele não precisava ser tão cavalo, mas na minha opinião, esse tapa na cara foi bem necessário pra você. – sua voz tinha um leve tom de bronca, tão conhecido por mim.
- Eu sei que ele está certo, eu sei... Mas eu não agüentaria passar por metade do que ele passa naquele lugar! – a voz de Raymond tinha um tom choroso que me chocou fortemente. Eu nunca, em três anos, havia notado, sequer, um quê de tristeza em sua voz.
Apesar de se esconder nas aparências, quando estava comigo e com Mikey, estava sempre de bom humor, sempre pronto para apoiar ou contar uma piada. Me senti ainda pior por ter notado que ele sofria, mas que fora eu, seu melhor amigo, que quebrara a muralha de suas máscaras, fazendo-o desmoronar.
Engoli o nó que se formava em minha garganta e continuei parado no mesmo lugar.
- Você sempre soube que nós estaríamos lá. Você nunca esteve sozinho, não tinha motivos para procurar conforto em coisas tão banais como amiguinhos falsos e festinhas. Você sabe que eles te desprezam. Não te consideram de verdade. – as palavras de Mikey não eram duras ou gritadas, mas eram ácidas, e do modo como ele falava, sentia cada uma delas queimar em mim.
Ray devia estar se sentindo tão lixo quanto eu.
- Eu sei, eu sempre soube. Mas é mais fácil a gente se enganar com algo. – Raymond fungava baixo, a voz um pouco mais controlada, porém tremida. Minha vontade era de chegar para Mikey e pedir para ele calar a boca, porque ele não estava ajudando Ray a sair da fossa, e sim cavando ainda mais fundo só para depois jogar terra por cima.
- Eu estou realmente feliz por ele ter dito o que disse, se você quer saber. – e imaginei que Mikey fosse continuar com a torrente de insultos, porém ele tocou em um ponto que era sensível. Em mim. – Gerard remoia isso há muito tempo. Sempre comentava comigo que não gostava muito do jeito como você agia na escola.
- Por quê? – o tom de Ray era surpreso, e eu já sabia a resposta.
- Porque o começo de todos os problemas do Gerard foi o fato de ele ser igualzinho a você.
Entrei de repente, quebrando todo o clima da conversa. Fiz questão de entrar o mais ruidosamente possível, para que assim pudesse ser notado e a conversinha particular deles acabasse exatamente ali. Não queria ninguém discutindo o meu passado. O próprio nome já diz: meu passado. Se é meu, eu faço o que quiser com ele. E eu já o havia enterrado há muito tempo, exatamente para evitar aquele tipo de discussão. Mas pelo visto eu não tinha cavado fundo o bastante, e ele estava voltando para me assombrar. E no momento mais inoportuno possível.
- Gerard. – Mikey me chamou, mas minha missão já havia sido cumprida, e eu não estava nem um pouco a fim de conversar.
Olhei para ele e depois para Ray, que permaneceu sentado no sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça pendendo em um ângulo estranho, os olhos inchados e vermelhos, o rosto triste. O nó em minha garganta cresceu em vê-lo assim, e eu, como bom sentimentalista que sou, virei as costas aos dois e subi as escadas correndo em direção ao meu quarto, ignorando todos os chamados consecutivos de Mikey.
Entrei, tranquei a porta, busquei meu aparelho de som, escondido debaixo de uma blusa velha e dois ou três livros que eu havia esquecido de devolver à biblioteca. Retirei a mochila dos ombros, abri-a e peguei novamente o CD que Frank havia me emprestado. Aumentei o volume ao máximo e coloquei na faixa número seis: a única que eu tinha ouvido, mas também a única que eu queria realmente ouvir. Deitei-me em minha cama e fechei os olhos, permitindo-me imersão total em meu próprio mundo.
Era assim que eu lidava com os problemas. Permanecia dentro da minha própria bolha até a tempestade passar de vez. E, até lá, eu não iria querer saber de mais nada... nem ninguém.
Isso pode parecer ridículo, mas só me dei conta que havia dormido quando fui acordado pelo ronco do meu próprio estômago. O quarto ainda estava claro. Olhei para o despertador, empoleirado na mesinha de cabeceira do lado direito da minha cama. Ainda eram quatro e meia da tarde, mas como eu não havia almoçado, estava faminto! Àquela altura, com o pouco de consciência que eu havia recuperado, raciocinei lentamente que Ray já deveria ter ido embora, pois a não ser que ele tivesse levantado acampamento na minha sala de estar, a necessidade dele de fazer algo em sua própria casa já devia ter se mostrado presente.
Caminhei até a porta do meu quarto e, ainda meio cambaleante, a destranquei e sai. Desci as escadas com os olhos entreabertos, sem ver exatamente onde pisava, e quando me vi no hall, agradeci mentalmente por não ter tropeçado e caído. A queda teria sido bem feia. Enquanto caminhava, ainda meio torpe, em direção a cozinha, sinto algo se chocar contra mim.
Eu havia me esquecido que Mikey morava comigo. Que belo irmão eu sou.
Me recuperei do choque (agora bem acordado) e continuei em direção à cozinha, a cara fechada, tentando demonstrar que não estava a fim de conversa.
Tentativa em vão.
- Gerard, eu quero falar com você! – ele dizia, vindo atrás de mim, e eu caminhava rapidamente na tentativa de fazê-lo desistir. Mas não! Mikey era uma criaturinha persistente! Não sairia de cima de mim enquanto eu não desse a ele o que realmente queria. – Gerard, eu estou falando sério! Da pra parar de correr?
E eu não pude fazer nada a não ser realmente parar, obedecendo-o, parado de costas para ele. Não demorou muito para que ele se aproximasse de mim e me virasse com força para encará-lo.
- Gerard, o que está acontecendo com você? – seu rosto estava contorcido em um misto de decepção e desespero. Permaneci impassível. – Sério, eu preciso saber! O que aconteceu com você nesses três anos? – e eu recuei um passo. Sim, sou um covarde. – Gee, você precisa me dizer! Você nunca mais foi o mesmo depois daquilo tudo...
- Eu sei. – foi o que me limitei a responder.
- Então me deixa te ajudar a ser o mesmo Gerard de antes!
Ele não tentou uma nova aproximação. Ele sabia, tanto quanto eu, que aquele era um momento bem... delicado. Já fazia muito tempo que eu não me abria com ele, nem com nenhuma outra pessoa, e agora ele estava tentando alcançar meus sentimentos tendo como apoio apenas os nossos laços sanguíneos. Queria tanto contar para ele... mas eu não sabia se conseguiria encontrar as palavras.
- Eu já disse, Mikey, você não pode me ajudar com isso. – passei a mão pelos cabelos em sinal de nervosismo. Mikey notou isso e tentou se acalmar um pouco, ele nunca deixa passar nada.
- Não, não... Eu posso sim, mas você não quer. – e ele expressou exatamente o que eu estava pensando, e foi a vez dele expressar seu nervosismo, ajeitando os óculos no rosto freneticamente. – Bom, quando você estiver cansado de mentir, saiba que eu vou estar aqui para conversar com você a hora que quiser, ok? – e foi a vez dele começar a se afastar de mim, seu olhar era pesaroso e eu me sentia culpado, mas como dizer a ele tudo o que eu sempre tentei esconder e enterrar?
- Mikey... – chamei-o baixo antes que ele saísse da cozinha, e rapidamente ele parou de costas para mim, mas eu sabia que estava ouvindo. – Frank se mudou porque o pai dele morreu. – observei-o virar o rosto para mim, meio surpreso. – Acredite, meus problemas não são, nem de longe, tão grandes.
E dito isso ele finalmente saiu da cozinha. Eu sabia que ele iria ficar pensando naquilo, assim como eu estava pensando naquele assunto e continuaria a pensar nele durante um bom tempo. Frank era forte de um jeito que eu não conseguia ser. Eu sempre fui dramático demais, vítima demais, sensível demais, covarde demais. Não acredito que um dia conseguiria encarar as coisas do modo como ele aparentava encará-las.
E o resto do dia passou sem mais interrupções. Comi algo, retornei ao meu quarto, e lá fiquei pelo resto do dia, até que veio o sono e eu apaguei. Acordei às cinco e meia da manhã imaginando estar atrasado. Olhei para o despertador – que ainda não havia tocado. – vendo que ainda teria um tempinho para descansar, porém já estava sem sono, então comecei a me arrumar e decidi fazer café também. Café é sempre um bom modo para começar o dia.
Minha mãe e meu pai já não estavam em casa. Meu pai trabalha em outra cidade, a mais ou menos duas horas de onde moramos; e minha mãe trabalhava como gerente em uma loja de roupas femininas na parte nobre da cidade. A loja mesmo só abria às nove horas, mas ela cuidava da contabilidade do local, além de ter que dar conta de verificar se todos os prazos de entrega das mercadorias estavam em dia e essas coisas chatas que eu esperava nunca ter que fazer em meu trabalho. Ela e meu pai ganhavam bem, mas infelizmente eu e Mikey sempre perdemos muito com isso. Mas eu não podia reclamar! Quando nos mudamos, há três anos, eles mudaram toda a vida deles, inclusive a de Mikey, por causa das merdas que eu havia feito, e que me atormentavam até hoje. Largaram os empregos, venderam a casa e os carros, e vieram para cá simplesmente porque meu psiquiatra disse que seria uma boa forma de recomeçar.
Lembro-me que nas primeiras semanas fiquei trancado no meu quarto, mesmo ele estando ainda abarrotado de caixas fechadas. Depois, aos poucos, comecei a arrumá-lo, depois até a sair dele, até que, por fim, decidi dar uma espiada no jardim e me deparei com Mikey conversando com um garoto alto e magrelo, com um cabelo que na época eu achava engraçado. Não que agora eu não ache o cabelo de Ray engraçado.
Mas, bem, à partir daí, todo o resto da história de como caí nesse buraco já é imaginável. De qualquer forma, sei que devo muito à minha mãe e ao meu pai, e um dia ainda pretendo retribuir à altura.
Depois da pequena seção nostalgia, terminei de me arrumar, desci as escadas, preparei café e torradas, arrumei a mesa, e depois de todo aquele trabalho, encostei-me na pia com um sorriso bobo nos lábios, me achando o melhor dono-de-casa que os Way já haviam visto!
Peguei uma xícara e enchi-a de café forte... Pensei um pouco, e quando vi, já estava em frente à porta do quarto de Mikey, que, de acordo com o meu relógio, só levantaria daqui a rigorosos quinze minutos. Mikey era muito pontual.
Abri a porta devagar e localizei logo no meio da cama algo que mais parecia um alien gigante com camadas e mais camadas de pele. Mas com a minha experiência de convivência com Mikey, sabia que era apenas ele e o excesso de cobertores que ele usava para dormir. Podia fazer o calor que fosse, não interessava! Ele iria dormir coberto até a cabeça de qualquer forma.
Aproximei-me vagaroso da cama até que estava próximo o bastante para alcançar as inúmeras cobertas que escondiam Mikey. Sempre me perguntei se ele não sentia falta de ar dormindo daquela forma. Puxei algumas delas para trás, de forma que consegui descobrir apenas seu rosto. Olhei-o durante algum tempo, achando realmente engraçado a forma como ele dormia agarrado ao travesseiro, a ausência dos óculos também faziam diferença, deixando-o com uma aparência mais infantil. Queria que nossa relação fosse ao contrário, e que eu pudesse ser o exemplo naquilo tudo. Quem sabe um dia eu ainda não conseguisse fazê-lo ter orgulho de mim?
Enfiei a mão debaixo das cobertas com cuidado, encontrando seu ombro e balançando-o levemente. Logo vi seus olhos se abrindo e sorri.
- Gee... que horas tem? – ele se sentou na cama meio confuso, enquanto esfregava os olhos com força.
- Seis horas. Acordei mais cedo e não consegui mais dormir. – entreguei a xícara a ele, que ficou mais confuso ainda. – Eu fiz o café. – expliquei. E ele apenas me sorriu, agradecido.
- Já vou descer. – ele falou animado, quase pulando da cama, e eu saí do quarto.
Mikey tinha razão, fazia muito tempo que não agíamos realmente como irmãos. Agíamos como amigos e nada mais, ou talvez nem isso. Às vezes me frustrava o fato de eu não conseguir me abrir nem com ele. Eu realmente queria, mas não era como se eu conseguisse fazê-lo. Me sentia estranho sempre que pensava em começar algum assunto relacionado aos meus sentimentos com Mikey. Então eu deixava do jeito que estava, acomodando-me mais uma vez. Talvez meus sentimentos estivessem mais bem guardados comigo.
E não demorou nem cinco minutos para Mikey estar sentado à minha frente. Tomamos café juntos como há muito não fazíamos e conversamos banalidades do dia a dia. Estranhei o fato de como ele insistiu para lavar a louça, dizendo que eu já tinha feito um favor muito grande fazendo o café. Depois de toda a cozinha arrumada, pegamos nossas coisas e finalmente saímos de casa, com tempo de sobra para chegar à escola.
Porém, aparentemente, duas pessoas haviam madrugado mais do que nós e nos esperavam na porta de casa.
- E aí, cara? – Mikey foi animado de encontro à dupla, cumprimentando Ray primeiro. – Ah, bom dia, Frank! Mora por aqui também?
- É, moro aqui em frente. – ele apontou a casa atrás dele e logo seus olhos pousaram sobre mim. Eu estava concentrado tentando acertar o buraco da fechadura para trancar a porta (ou talvez eu estivesse apenas adiando o momento em que eu teria que encarar Ray) então me sobressaltei levemente quando o ouvi falar comigo. – Bom dia, Gerard.
- Ah, bom dia... – eu respondi meio sem jeito sorrindo amarelo, deixando as chaves caírem e logo abaixando para pegá-las. Eu devia estar parecendo um idiota.
Me aproximei um pouco mais deles e, por fim, parei de frente para Ray. O clima entre nós não chegava a ser ruim... era simplesmente estranho. Geralmente nos encontrávamos e mal falávamos bom dia um para o outro, simplesmente começávamos a conversar como se sempre sobrasse algum assunto do dia anterior sobre o qual não tínhamos comentado. E pela primeira vez acho que nenhum de nós sabia o que dizer para o outro.
- Bom dia, Ray... – eu disse, meio sem graça, passando a mão pelos cabelos e evitando olhá-lo nos olhos.
- Fala aí, cara! – e ele simplesmente pegou minha mão e me puxou para um abraço desajeitado. O sorriso grande de sempre estampado nos lábios.
E aquela era a forma de Ray dizer que estava tudo bem, apesar de eu ter enchido ele de coices na última vez em que nos vimos.
E todos aqueles pensamentos me fizeram sorrir tanto quanto ele. E fazia muito tempo que eu não sorria daquela forma.
Logo todos nós começamos a tagarelar, como se nada mais importasse a não ser a nossa conversa extremamente interessante e divertida. Até Frank parecia estar se dando bem, apesar de conhecer meu irmão e Ray há tão pouco tempo quanto ele conhecia a mim.
E se eu achava aquele início de dia totalmente atípico para mim, era porque eu realmente não sabia o que o resto daquela semana me reservava.
Nunca imaginei que as coisas pudessem mudar tanto assim. Muito menos para melhor!
Notas finais
De verdade, gente, se algo não estiver agradando, não deixem de comentar para que eu possa saber o que é!
Porque, como eu já disse, independente do conteúdo do comentário, contanto que a pessoa seja educada (é claro), responderei a todos!
Obrigada desde já e agradeço por terem lido!
COMENTEM! :)
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