I'm Not Ok
29 Capítulo 28 - Nas Minhas Mãos
Notas iniciais
Uma semana. Uma maldita e fodida semana. Sete dias sem sentido que passaram correndo por mim como se eu não estivesse vivo. Não fui à escola, não visitei Ray, não falei com Mikey, não liguei para Frank e nas poucas vezes que andei pela casa, restringi meu trajeto a rápidas visitas à cozinha. Fora isso, não saí de casa nem do quarto e às vezes nem levantava da cama. Não fiz a barba, não tomei banho e não me lembrava exatamente da última vez que havia escovado os dentes ou descansado realmente. Era como estar dormindo de olhos abertos, com o corpo inteiro anestesiado sem conseguir me mover. Lembrei-me do meu antigo colégio e, durante aquela semana, experimentei viver novamente alguns dias de depressão. E eles tinham um gosto tão amargo quanto eu conseguia me lembrar.
Na tarde em que tive minha última conversa com Frank, quando cheguei em casa, subi para o meu quarto sem falar com ninguém. Não demorou muito e minha mãe tentou abrir a porta. Eu a havia trancado. Ela bateu nela com força diversas vezes. Gritou, se descontrolou e disse que ficaria ali a noite toda, se preciso fosse, até que eu abrisse a porta. Uma hora depois ela desistiu e foi embora. Meu pai também tentou fazer algo a respeito, porém com um pouco mais de tato que minha mãe, ao menos. Mesmo assim não consegui atendê-lo, como se algo me atasse à cama. Ele disse que se eu precisasse conversar, ele estaria ali como sempre estivera. Também o deixei ir, apesar de tê-lo feito com certo peso no coração. Mikey sequer se pronunciou, e sinceramente não o culpava. Eu mesmo desejava naquele momento nunca mais olhar na minha própria cara, se possível fosse.
E aquele sentimento de agonia e inércia não me deixava! A sensação de que tudo está dando errado e que seu futuro vai ruir à qualquer instante diante dos seus olhos... como se alguém estivesse pisando nos seus sonhos. Queria sinceramente que tudo isso passasse, que aqueles sentimentos fossem embora... Não tinha idéia de quanto tempo mais agüentaria aquela fossa...
... mas também não era como se eu estivesse me esforçando para sair dela.
Foi só na segunda-feira à noite que a ajuda mais uma vez decidiu bater na minha porta meio tímida, tentando não acordar ninguém.
– Gerard? – Lindsey sussurrou do outro lado da porta, o que fez com que eu me sentisse alerta no mesmo instante. Por um tempo, me esqueci de que ela ainda estava naquela casa. E me senti culpado por isso, os ombros ainda mais pesados. – Sei que você quer ficar sozinho agora, mas, se quiser conversar... Eu tenho algumas coisas para dizer também...
O resto do que ela disse foi abafado pelo barulho que fiz destrancando a porta do quarto. Girei a maçaneta devagar e puxei um pouco a porta, que pareceu ranger mais alto que de costume no silêncio da casa.
– Posso entrar? – a ouvi sussurrar novamente, sorrindo de leve para mim. Não consegui retribuir, já que meu rosto inteiro parecia feito de pedra. Meu corpo inteiro, na verdade.
Abri um pouco mais a porta e saí do caminho para que ela passasse, ao mesmo tempo sentindo-me agradecido pela companhia e envergonhado... por mim, simplesmente. Enquanto trancava a porta novamente, percebi que ela andava pelo quarto observando meus desenhos pelas paredes entre os pôsteres de bandas. De repente me pareceu tão estranha a idéia de estar no mesmo cômodo que outro ser humano novamente que aquela situação, por alguns instantes, soou um pouco surreal.
Indiquei minha cama para que ela se sentasse e puxei a cadeira da minha escrivaninha para me sentar em frente a ela.
– O que você tem, Gerard? – foi o que ela me perguntou assim que se acomodou em minha cama desfeita. – O que aconteceu com você? – fiz uma negativa rápida com a cabeça, como quem tenta mudar de assunto e deixar pra lá. Como quem diz “não é nada”.
Ouvi Lindsey suspirar longamente, exatamente como me lembrava de ter visto Frank fazer incontáveis vezes quando se irritava comigo.
– Sei que não estou no direito de opinar em nada, afinal de contas, em parte fui eu quem causou essa confusão toda na sua vida, mas eu não sei se você consegue enxergar como está se destruindo, Gerard. Tem se olhado no espelho, por acaso? – ela perguntou incrédula enquanto eu sentia meus músculos se repuxando em um sorriso sem graça. Neguei com a cabeça. – Olhando você assim... Eu não queria trazer à tona problemas tão grandes. Não queria mesmo fazer você passar por tudo isso de novo e, te vendo assim, acho que realmente foi uma péssima ideia ter vindo te procurar. – ela me olhou diretamente nos olhos, as sobrancelhas arqueadas em preocupação. – Mas você sabe que eu não tenho com quem contar há muito tempo. Foi um impulso meu, talvez um erro...
Lindsey falava de maneira ininterrupta, seus olhos brilhantes colados em mim em sincera preocupação e, talvez, arrependimento. Gostaria de saber quando foi nessa historia toda que eu readquiri aquele incrível dom de machucar e decepcionar as pessoas com tanta destreza.
– Gerard. – ela chamou meu nome e só então eu percebi meu olhar preso nos meus próprios pés. Forcei-me a encará-la como o homem que eu deveria ser. – Eu não quero desistir desse processo. – as palavras me atingiram como um soco, porém tudo o que eu consegui externar foi um baixo “hum?” desconcertado. – Eu não posso te forçar a nada. Já te empurrei para muitas coisas que você talvez não quisesse fazer, mas eu não quero parar agora. Isso é algo muito importante para mim. Tem ha ver com os fantasmas do meu passado e do seu também. Eu preciso fechar esse capítulo da minha vida para seguir em frente, Gerard, e eu gostaria muito que você conseguisse seguir em frente também.
Foi então que percebi que aquela era a primeira vez em muito tempo que alguém me incentivava a lutar por algo, ao invés de me desanimar e tentar me fazer desistir para que eu não me machucasse ou me decepcionasse... O mesmo carinho e preocupação, porém demonstrado de maneiras diferentes.
Ela segurou meu rosto entre suas mãos mornas e continuou a falar:
– Mas eu não posso te obrigar a nada, e eu sei disso. Então... – ela deu um suspiro curto e se levantou da minha cama enquanto ainda me olhava. – eu preparei minhas malas e juntei umas economias que devem dar pra inteirar a passagem. Eu e Arthur vamos embora amanhã.
– O que? – foi tudo o que eu consegui balbuciar, atônito, me pondo de pé logo em seguida.
– Você precisa de espaço, Gerard. Desde que eu cheguei aqui tenho percebido que, com a exceção do seu pai, todo mundo te trata com um cuidado excessivo, como se cada passo que você desse pudesse ser em falso. Ficam em cima de você querendo saber aonde você vai, o que vai fazer, com quem... – ela gesticulava enquanto falava, uma expressão realmente desgostosa do rosto demonstrava o quão contrariada ela se sentia com àquela situação. – É como se não confiassem em você e eu acho que é isso que faz com que você duvide de si mesmo às vezes. Minha opinião pode não valer muita coisa a essa altura, mas eu decidi que preciso começar a fazer o que eu acho certo.
– Eu não quero que você vá embora. – aquela era a frase mais longa e coerente que eu havia conseguido montar em dias de devaneios. – Não por minha causa. Eu preciso cumprir minhas obrigações e o que eu...
– Você precisa se cobrar menos, Gerard. – ela me cortou sendo categórica. – Você acha que deve fazer mais do que já faz pelos outros, mas talvez esteja na hora de fazer algo por você! Você não percebe, mas está tão inseguro que não consegue nem acreditar em você mesmo. Gerard, você não era assim...
– Eu sei que eu não era assim, ok? – eu disse um pouco alterado, a voz saindo rouca e áspera da minha garganta. – Eu não era muitas coisas! Pelo menos não sou mais um babaca, então não é como se eu estivesse completamente na merda.
– Você tinha uma luz. Você era vivo, Gerard! Nós dois erramos muito, mas nos isolarmos do mundo não é uma opção nem nunca foi. Você precisa viver! – ela parecia exasperada enquanto falava, como se eu estivesse na beira de uma ponte, do outro lado da grade de proteção, pronto para me jogar de cabeça. – Onde está o Gerard que eu conheci? – ela tentou dar um sorriso que saiu bastante triste. – Aquele que ria do mundo como se tudo fosse muito estranho?
– Max deve estar com ele até hoje, porque eu nunca mais tive notícias. – respondi com amargura, me sentindo realmente irritado com o rumo que aquela conversa estava tomando.
Era confuso. Confuso pra caralho ouvir algo de alguém e, logo em seguida, vir outra pessoa e te dizer exatamente o contrário. Acredito que passei tanto tempo acostumado a saber como as pessoas esperavam que eu agisse que devo, em algum momento, ter perdido um pouco daquele filtro que forma a vontade própria de um ser humano. Porque, de uma forma ou de outra, eu havia vivido a adolescência inteira procurando saber o que as pessoas esperavam de mim, na tentativa de ser mais esperto que todo mundo sendo exatamente o contrário e, no fim...
... acabei perdendo parte da minha identidade em uma tentativa estúpida de “chocar” a sociedade.
– Pois bem – ela sentenciou, e logo eu percebi que a conversa estava definitivamente encerrada. – então me avise se ele aparecer por aqui. Caso contrário, terei de ir embora sem me despedir.
Ela acariciou minha bochecha novamente enquanto me olhava e sorria cúmplice, como se tivesse acabado de compartilhar algo muito importante comigo, ou como se soubesse que, mais dia, menos dia, eu entenderia o que ela havia querido dizer. Minha própria confusão e irritação me impediram de dizer a ela qualquer coisa. Até mesmo um simples “me deixa sozinho”.
– Gerard?
– Hum?
– Eu não sei o que aconteceu entre você, seu irmão e seus amigos – ela começou a dizer enquanto se afastava de mim em direção à porta. – e não precisa me contar se não quiser, mas não tenha medo de ficar sozinho. Você só vai ficar completamente sozinho quando não puder mais contar consigo mesmo. – ela abriu a porta devagar e saiu na ponta dos pés para o corredor sem o mínimo ruído. – Boa noite.
Sentei-me na minha cama, derrotado após aquele verdadeiro confronto. Minha cabeça latejava em uma dor que parecia me acompanhar desde o dia que eu havia me trancado no quarto, o que me fazia sentir uma diminuição considerável da minha velocidade de pensamento, mas mesmo assim eu estava me esforçando. Apoiei a cabeça nas mãos e os cotovelos nos joelhos enquanto fechava os olhos e tentava me concentrar em algo que não fosse a dor.
Só naquele momento que eu me lembrei porque sempre detestei discutir com Lindsey. Inevitavelmente ela teria razão sobre a maioria das coisas que diria – isso quando não tinha razão sobre tudo. Nossas conversas sempre me abriam diversas portas e linhas de pensamento, mas me irritava como quase nunca conseguia fazê-la descartar as próprias convicções. Porque, no geral, ela sempre tinha razão. Estava certa e eu tinha que abaixar a cabeça e aceitar.
Para variar, dessa vez não estava acontecendo muito diferente.
Lindsey me fazia reagir. Ela havia vindo como último recurso, a última carta em sua manga – porque ela sabia que, se as dúvidas que ela colocaria na minha cabeça não me fizessem levantar a bunda da cama para alguma coisa (nem que fosse para andar em círculos pelo quarto), dificilmente outra coisa faria.
E agora eu não conseguia mais parar de pensar em como eu fui idiota esse tempo todo e por tantos motivos diferentes. Uma hora eu não queria as pessoas cuidando da minha vida, na outra eu desejava desesperadamente uma companhia na solidão do meu quarto; em um momento eu queria resolver os problemas de todo mundo de uma vez e do meu jeito, em outro eu estava pouco me fodendo para Lindsey e os nossos problemas, que não eram pequenos.
Era bom ter alguém de fora que enxergasse tudo aquilo e jogasse tudo na minha cara assim, como um balde de água fria, mas eu não vou negar que era chocante ver todas as cenas que eu havia perdido da minha própria vida assim, do nada. Nem que esses momentos faziam minha consciência doer como o inferno.
Lindsey tinha razão em dizer que eu precisava pensar mais em mim, mas eu estava pensando em mim quando havia pegado o carro do meu pai e sumido por uma tarde toda na semana anterior. Eu não precisava simplesmente pensar em mim, eu precisava pensar em um problema de cada vez.Ir com calma talvez fosse a expressão mais correta. Era necessário que eu me focasse apenas no que era importante naquele momento.
Eu precisava fazer escolhas.
Pra começar, precisava escolher se Lindsey iria ficar e seguir com o processo contra Max ou se ela iria embora, com uma mala em uma mão e a mãozinha de Arthur na outra. Porque ela claramente havia deixado a decisão nas minhas mãos.
– Onde será que está aquele outro Gerard, hein, Way? Você sabe? – perguntei a mim mesmo em voz alta, as mãos embrenhadas nos cabelos, agora quase um palmo abaixo dos ombros e bastante sujos. Pensei na cara de obvia desaprovação que minha mãe faria ao me ver e senti uma vontade repentina de rir.
Era tempo de mudanças, afinal. De fazer escolhas e tomar os caminhos.
Eu nem me lembrava mais quanto tempo fazia que eu não era confrontado assim pela vida. Era estranho, estressante e me fazia sentir um frio um pouco desagradável na boca do estômago.
Pensei naquelas palavras saindo da boca de Lindsey como uma revelação: “eu decidi que preciso começar a fazer o que eu acho certo”. E eu precisava.
Levantei-me da cama vagaroso, meus músculos voltando a reclamar pela falta de uso, e rumei diretamente para o banheiro, analisando meu reflexo que, na claridade da luz do pequeno cômodo, fazia uma careta estranha enquanto olhava de volta para mim.
Repentinamente Frank invadiu meus pensamentos e eu fiquei imaginando o que ele diria se me visse daquela forma. Realmente era ótimo que ele não pudesse me ver naquele estado, daquela forma deplorável com aquela cara terrível de auto-piedade. Com aquela cara, fiquei pensando se não seria uma boa se eu mudasse meu nome para Gerard Tenha-pena-de-mim Way. Ma parecia conveniente.
Frank... Por alguns momentos pensei o que Frank tinha a ver com tudo aquilo. Ele havia me deixado sozinho, não é? Sozinho para cuidar dos meus assuntos.
Dos quais eu não estava exatamente cuidando...
Frank havia me empurrado por grande parte desse longo caminho e eu estava deixando tudo isso passar. Ele ouviu muitas coisas que não precisava ouvir, passou por situações que eu causei... Talvez o envolvimento dele nessa história toda seja, em parte, culpa minha. Pessoas próximas inevitavelmente acabavam se envolvendo nos assuntos umas das outras e agora eu vejo que essa era uma parte natural da vida que eu tentava evitar.
Mesmo Mikey ou Ray...
Como diria Frank, eu acredito que devia algo a eles. E o mínimo que eu podia fazer era continuar com tudo isso que eu mesmo havia começado e virar de vez essa página do meu passado. Mesmo que fosse para perdermos o caso, saber que tentamos já deveria ser um grande consolo. As conseqüências viriam caso isso acontecesse, mas o que na vida não gera conseqüências?
Uma onda de ânimo me invadiu por completo naquele instante, me fazendo sentir estranhamente eufórico e bipolar. Eu havia quebrado muitas coisas nesse meio tempo, muitas coisas que eu havia levado meses para construir, mas agora que a merda toda já estava feita eu precisava contar com a minha vontade de consertar tudo.
E torcer para que tudo tivesse conserto.
Voltei minhas atenções para o espelho novamente, minha própria imagem sorrindo de volta ainda um pouco enferrujada.
Estava na hora de eu parar de agir como um garoto para agir como um homem e assumir as responsabilidades que eu mesmo havia criado.
Desci para o café pela primeira vez em sete dias. A luz do sol ainda me incomodava um pouco, parecendo muito mais quente e clara do que eu me lembrava da última vez, mas nada absurdo. Na verdade, absurdo mesmo era o frio na boca do estômago que eu estava sentindo. Em parte, assumo, estava com vergonha de entrar na cozinha e encarar meu pai e minha mãe nos olhos depois de tanto tempo sem uma palavra. Minha mãe provavelmente, me exigiria algumas explicações se não estivesse atrasada, e meu pai me diria novamente que estava à minha disposição caso eu precisava conversar...
E a perspectiva de conversar seriamente com eles logo pela manhã não me abria o apetite.
Mas um pedaço de mim estava ansioso por sair de casa, como se eu tivesse acabado de chegar de viagem em outro país e meu corpo, biologicamente falando, me presenteasse com essas sensações estranhas na tentativa de me fazer sair o mais rápido possível para desbravar o mundo de possibilidades lá fora. E era isso que eu queria: perspectiva e possibilidades.
Tentei controlar meus músculos faciais, aparentemente congelados em um sorriso, e dei uma última checada no meu uniforme. Fazia muito tempo que eu não dava um nó naquela gravata tão bem. Respirei fundo uma, duas, três vezes e finalmente terminei de descer as escadas.
O simples som da aproximação dos meus passos já fez o barulho na cozinha diminuir consideravelmente, mas, quando eu finalmente passei pela porta que separava a copa da sala, o silêncio foi quase palpável.
Foi Lindsey, novamente, que me salvou de um constrangimento maior.
– Bom dia, Gerard! – ela me cumprimentou com um grande sorriso enquanto ajudava Arthur a beber um pouco de leite em uma caneca sem que o pequeno derramasse tudo.
Além dela, as únicas outras pessoas na cozinha eram meu pai e minha mãe, que me encarava absolutamente chocada de seu lugar à mesa, com a xícara de café a meio caminho da boca.
– Gerard, o que você fez com o seu cabelo? – ela balbuciou pausadamente em tom baixo. Minha vontade de gargalhar como uma criança que fez o que não devia e foi pega no pulo pelos pais foi quase incontrolável.
– Un... Eu só cortei. – disse simples, passando a mão pelos fios, agora apenas alguns dedos abaixo da nuca. Joguei minha franja, na altura da ponte do nariz, para trás e a encarei sorrindo.
Meu pai pareceu bastante satisfeito com o que disse, porque me cumprimentou com um aceno de cabeça e não disse mais nada. Me aproximei com pressa da mesa, pegando uma torrada e espalhando nela uma quantidade generosa de geléia. Era melhor comer no caminho porque, se Mikey não estava mais em casa, eu devia estar atrasado.
– Gerard, Steven me ligou na sexta-feira perguntando se não poderíamos ir ao escritório dele conversar sobre os últimos detalhes do processo. – meu pai falava sem desviar os olhos do jornal, e eu me senti realmente agradecido por ele estar agindo normalmente. Minha mãe ainda parecia em estado de choque. – Tem algum compromisso para depois da aula? Lindsey também precisa ir conosco.
– Por mim, tudo bem. – respondi entre uma mordida de torrada e um gole do café de uma xícara que eu supus ser de Mikey que já estava na mesa.
E eu já havia dito para ele não desperdiçar comida. Muito menos café.
Naquele momento encarei Lindsey, incapaz de não prestar atenção em suas reações, e o que eu recebi em resposta foi um olhar furtivo e um sorriso satisfeito, que inevitavelmente me fez sorrir também.
A primeira escolha certa em uma tonelada de escolhas erradas! Eu ouvi um amém?
Já estava para sair ali pela porta dos fundos mesmo quando minha mãe voltou a chamar minha atenção.
– Mas Gerard... – ela aparentemente tentava argumentar, mas não havia muito que pudesse ser dito, imagino. – Filho, você tem certeza que está bem?
– Não. – eu respondi bastante satisfeito, já com metade do corpo para fora de casa e a mochila pendurada em um dos ombros. – Mas eu vou ficar.
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