I'm Not Ok

18 Capítulo 18 - Não Me Julgue... Não Hoje


Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo tanto quanto eu gostei de fazê-lo. Espero realmente que tenha ficado bom!
Sugestão: ouvir as músicas "1979" e "Tonight, Tonight", ambas da banda Smashing Pumpkins. Tem muito a ver com o capítulo de hoje.
Bom, boa leitura! ♥

Capítulo 18 – Não Me Julgue... Não Hoje



E quando eu entrei em meu quarto àquela noite, tudo o que eu senti foi um imenso alívio e a satisfação em saber que eu estava fazendo a coisa certa, e que meus pais entendiam isso. Eu estava feliz. Feliz apenas em saber que eu havia conseguido! Eu sabia – sempre soube – que o caminho que eu havia escolhido não era o mais fácil a ser percorrido, e que ver Max na cadeia não seria uma tarefa fácil de ser realizada... Mas os primeiros passos de encontro a isso já haviam sido dados, e eu não pararia agora por nada! Como eu disse, essa luta era por Arthur, por Lindsey e por mim. Lindsey era forte, mas infelizmente não conseguiria ganhar essa guerra sem a minha ajuda.


Esquecendo um pouco tudo aquilo que eu teria que fazer, procurei avidamente pelo único som que eu queria ouvir. Pois é, eu ainda estava com aqueles CDs que Frank me emprestara, e aquelas melodias e letras se mostraram tão mágicas que ainda não sei se um dia os devolverei a ele. E aquele pensamento só me fez sorrir. Ainda não tinha ouvido todas as músicas, então coloquei o segundo CD para tocar em meu pequeno rádio e pus os fones. Mikey e meus pais já deviam estar dormindo, apesar de ainda ser cedo. Coloquei na quinta música, chamada 1979, e logo a melodia doce e calma me entorpeceu por completo.


Talvez um dia eu acabasse mexendo com música, ou algum outro tipo de arte. Transmitir uma mensagem ou um sentimento de uma forma tão indireta e, ao mesmo tempo, tão eficaz, é algo realmente incrível! Eu sempre gostei de desenhar e escrever, e apesar de nunca ter feito nenhum dos dois muito bem, sempre gostei de detalhar bastante as expressões e sentimentos, e eu costumava mostrar tudo o que eu fazia para minha avó. E ela sempre gostava e às vezes até se emocionava com algumas coisas que eu fazia. Sei que pode parecer bobo, já que opinião de parente nunca conta, mas os elogios dela sempre me faziam feliz. É realmente uma pena nós não a visitarmos com freqüência. Eu sinto saudades...


Enquanto a música ainda tocava, eu analisava o encarte com os belos e delicados desenhos nele, pensando em talvez reproduzi-los mais tarde, até que notei algo estranho embaixo do rádio. Levantei-o com cuidado, apoiando-o no chão e pegando em minhas mãos o caderno debaixo dele que, julgando pelos desenhos estranhos e palavrões escritos em letras garrafais, era meu. E eu bem me lembrava daquele caderno. Fazia três anos que eu o tinha e, mesmo sem mais folhas brancas, eu me recusava a jogar fora. Tinha muito de mim escrito nele, e geralmente, quando eu procurava, ainda conseguia encontrar um ou dois espaços pequenos para rabiscar qualquer coisa. Não era exatamente um diário, já que o que eu escrevia ali não tinha linearidade alguma. Eram apenas pensamentos momentâneos que me ocorriam às vezes, ainda na época em que eu pensava que Max fosse a solução para o tédio na minha vida. E eu gostava de reler algumas passagens às vezes, ou alguns textos e poemas pequenos e ver como eu pensava naquela época.


E qualquer um que já tenha lido o próprio caderno depois de alguns anos acaba rindo um pouco da forma como costumava pensar. E é realmente interessante ver como evoluímos com o passar do tempo. Ao reler alguns trechos admito que ainda me sentia da mesma forma... Talvez alguns pensamentos nunca mudem... Ou talvez eu só esteja evoluindo de novo para o mesmo ponto. E era bom pensar nisso. Acho que me conheço melhor pensando nessas coisas.


Abri o caderno sem conseguir distinguir muito bem os rabiscos devido à penumbra do quarto, então me aproximei da janela, buscando um pouco mais de luz. Olhei por um instante para a paisagem do outro lado daquele vidro e pude ver a rua deserta e bem iluminada. Talvez até convidativa. E eu não sei por que, mas consigo ver muito mais beleza nas coisas à noite. A noite em si é algo que eu sempre gostei, e a calma que ela me trás é incrível. Sorri, agora direcionando os olhos de volta para o caderno em minhas mãos. Eram desenhos confusos, frases desconexas, era eu. Eu estava naquele caderno, e não podia negar.


Notei uma movimentação anormal na rua, o que desviou minha atenção, e ao olhar novamente através da janela, pude ver Frank sentado em frente à sua casa na soleira da porta. Estava de pijamas, o que me pareceu engraçado em um primeiro momento. E em um impulso, caminhei para fora do meu quarto, desci as escadas tentando não fazer barulho algum e atravessei a casa escura, logo colocando um par de sapatos qualquer e saindo. O caderno ainda em minhas mãos.


Parei de costas para a porta da minha própria casa respirando fundo e olhando-o de longe. Ele mantinha os olhos no céu, talvez perdido nele, talvez concentrado, nunca soube ao certo. Só sei que ele estava tão distraído com o que quer que fosse que não notou minha aproximação até que eu colocasse o primeiro pé sobre seu gramado. Quando me viu ele sorriu tímido, o que me fez retribuir o sorriso com ânimo, enquanto ainda andava de encontro a ele.


– Sem sono? – perguntei, parado de pé em frente a ele, que olhava para cima, os olhos buscando meu rosto.


– Pois é. Cheguei em casa e dormi a tarde toda. Agora sinto que nunca estive tão acordado. – ele riu e empurrou o próprio corpo um pouco para o lado, logo indicando para que eu me sentasse, e assim o fiz. – Bela camisa. – ele comentou apontando para a camisa social que eu usava, e só então notei que não havia trocado de roupa desde o jantar.


– Un... Obrigado. Belo pijama. – eu rebati, e ele riu, analisando os próprios trajes, compostos por uma calça comprida de moletom cinza, uma regata branca, e o mesmo enorme par de pantufas escuras, que só agora eu notei que eram azuis.


– E aí, como foi com os seus pais? – ele perguntou como quem não queria nada, mas eu podia ver a curiosidade transbordando de seus poros. Ele logo me olhou ao não ouvir uma resposta imediata. Parecia preocupado. – Foi tão ruim assim?


– Não, não... Foi tudo bem, eu acho. – eu disse, e assisti ele abrir um pequeno sorriso aliviado. – Amanhã meu pai vai ligar para o advogado e... Não sei, vai ser estranho olhar para os meus pais de manhã. – comentei, rindo sem graça.


– Por quê?


– Não sei... Agora eles sabem tudo o que aconteceu. Eu sei que é besteira, mas eu me sinto estranho com isso. – eu disse, sem prestar muita atenção nas palavras que saiam da minha boca e esticando as pernas, apoiando o caderno sobre elas e olhando para o que, instantes antes, era o foco da atenção dele: o céu.


– Eu acho que é normal se sentir estranho com essas coisas. – ele resmungou, talvez mais para ele próprio do que para mim, e repetiu meus atos, levando os olhos para o céu novamente. – Ainda mais quando não se tem o costume de se abrir com os pais. E você guardou isso tudo para você durante muito tempo, era tudo muito íntimo. Acho compreensível.


Ficamos algum tempo apenas parados um do lado do outro, quietos, os olhares presos em cada estrela. Mas talveze apenas talvez estivéssemos enxergando além do que os olhos realmente pudessem ver aquela noite.


Mas antes que eu pudesse pensar em algo mais, os olhos de Frank caíram sobre o caderno que repousava sobre as minhas pernas.


– Capa interessante. – ele disse, franzindo o cenho ao ver um grande “Fuck U” que eu havia feito com um estilete, marcando-o permanentemente na capa do caderno. É, eu era um pouco extravagante nessa época. – Posso ver? – ele perguntou, e eu fui obrigado a parar para pensar um pouco.


Seria um pouco mais de mim que eu compartilharia com Frank, mas não tinha certeza se realmente queria que ele lesse todas as coisas que eu havia escrito ali. Tinham coisas boas e interessantes naquele caderno, mas também tinham coisas muito ruins. Será que ele tinha mesmo que conhecer esse meu lado?


– Pode. – respondi simples e entreguei o caderno em suas mãos.


Afinal, que tipo de amigo seria ele se não me aceitasse, mesmo com todos os meus defeitos? Que tipo de... pessoa seria ele, afinal?


Ele folheava o caderno com calma, vez ou outra parando em algumas páginas rapidamente para ler alguma frase ou ver melhor algum desenho. Até que ele parou bastante tempo em uma página em especial, e eu não demorei a me esticar para tentar ler o que ele lia.



"Você já parou para pensar... em como as pessoas te enxergam?

Já parou para pensar nisso hoje? Bom, eu, pelo menos, penso nisso todo o dia, quase o dia todo. Todos nos julgam, isso é um fato, mas eu tenho a impressão de que a minha falta de talento para me fazer entender me torna ainda mais "julgável".

Sou um adolescente estranho. Bebo por esporte, rio de coisas sem graça sem humor algum, não gosto de conversar e não vou com a cara das pessoas. Se alguém ouve algum diálogo meu com outra pessoa, pelo menos 78% do que ouvir saindo da minha boca serão palavrões. Falo alto, não costumo me refrear por nada, e exatamente por isso não faço questão de me explicar. Acho chato, acho irritante. E por isso muitas pessoas me julgam sem saber quem eu realmente sou.

Mas e eu? Sei quem sou?

As pessoas que convivem comigo bem sabem que eu gosto de coisas estranhas e falo sobre coisas estranhas. Para gostar de mim, além de paciência para lidar com meu humor instável, é preciso ter um gosto duvidoso para as coisas. É preciso gostar de coisas expressivas, mas que se contradizem muito. É necessário gostar de coisas que não se explicam. E muitas vezes nem há o que explicar: eu sou só aquilo o que vêem. Não é tão difícil assim de entender!

Mas sempre existem os outros. Aqueles fantasmas que nos seguem e nos limitam. Eu estou pouco me fodendo para o que os outros acham, sinceramente. Mas nem sempre é fácil ignorar os comentários alheios. Nem sempre é fácil se fazer de durão e ignorar as risadas. Nem sempre é fácil passar uma vida sem se fazer entender.

Muitas vezes me irrita a forma com que os meus próprios pais ouvem o que eu digo, mas entendem totalmente o contrário. E isso não é crise adolescente. Antes fosse. Às vezes uma simples peça de roupa, como uma camiseta de alguma banda, por exemplo, causa uma imensa discussão. "Mas que roupa é essa? Por que você está agindo dessa forma? É por causa dessa banda? Aposto que é tudo influência daqueles seus amigos...". Que tipo de comparação é essa, mãe? A senhora é louca, por acaso?

Mas ela pelo menos é minha mãe. É próxima a mim e talvez tenha até um pouco de direito sobre o que faço ou não da vida, pelo menos enquanto eu morar sob seu teto. O problema é quando esses "outros" vêm de longe. Aqueles colegas com os quais você nunca falou, mas que insistem que sabem mais da sua vida do que você mesmo. Eu sei o que eu sou para eles: um motivo de piada e um drogado de merda.

E, querendo ou não, essas coisas afetam a gente. Não sou a pessoa mais legal e divertida do mundo, mas também não sou esse imbecil completo que todos vêem. O que me leva a pensar se o mundo todo vai me ver assim para sempre... Se o mundo todo vai me enxergar como algo inútil e estranho... talvez até repulsivo.

E tudo isso, simplesmente, porque eu não consigo juntar as palavras de uma forma coerente o suficiente para falar coisas que façam sentido.

Eu não quero fazer sentido... Não hoje."



Eu terminei de ler aquele texto e parei para encará-lo, notando que ele ainda rolava os olhos pelas linhas de forma vagarosa, como se quisesse absorver toda e qualquer informação que aquele texto tinha para oferecer. Não que fosse muita coisa.


– Esse caderno é antigo, na verdade. – eu me apressei em dizer, assim que ele voltou a folhear o pequeno caderno.


– Eu notei, não tem mais nem um espaço em branco aqui. – e ele riu, folheando o caderno todo de uma forma rápida, antes de devolvê-lo a mim. – Isso foi antes ou depois do Max?


E eu ainda gostaria de saber quem deu a ele o filme da minha vida.


– Durante. – respondi, alisando a capa do caderno, agora novamente em minhas mãos e colocando-o de lado. – Eu havia acabado de conhecê-lo.


– Entendo. – ele murmurou, os olhos novamente no céu, e eu os segui de encontro às estrelas novamente. – Mas apesar desses seus pensamentos não terem resultado em uma boa coisa, eu acho que concordo com parte deles. – ele fez uma pequena pausa e eu deixei que ele prosseguisse. – Eu também não me importo com a opinião das pessoas, mas às vezes é difícil.


– É... Acho que é difícil para todo mundo. Todo mundo que quer ser quem realmente é, pelo menos. – comentei enquanto pensava sobre o assunto. Nunca tinha conversado sobre isso com alguém, porque ninguém parecia ter o mesmo problema que eu. Mas é sempre bom ver que não estamos sozinhos. – Nessa época, tudo o que eu queria era aparecer o máximo possível e esfregar na cara das pessoas que me olhavam torto que aquele era o meu jeito de pensar. Era um pensamento infantil, mas, de certa forma, eu me orgulho em não ter me vendido tanto a ponto de perder a minha personalidade. Eu só a perdi dentro de mim mesmo... – e eu acabei lançando um olhar involuntário para aquele caderno. – Acho que foi por isso que nunca joguei esse pedaço de papelão fora. É bom ler isso às vezes e ver o que disso tudo eu ainda quero ser, e o que eu quero mudar.


– Eu já pensei em mudar várias vezes, mas vi que dessa forma não seria feliz, então seria algo completamente inútil e sem sentido. – ele ponderou, e finalizou a frase com uma careta, da qual eu não pude deixar de rir. – Pra mim as mudanças deviam ser só para melhor.


– É, seria muito bom se fossem. – eu concordei sorrindo um pouco, e o vi sorrindo da mesma forma. Não conseguia mais olhar para as estrelas. Eu queria olhar para ele.


– Gerard. – ele me chamou um pouco tímido e incerto, mas sua voz era decidida. Apenas permaneci a olhá-lo, enquanto esperava que ele prosseguisse. – Você é um cara legal. – ele terminou a frase com um suspiro e um sorriso cansado e direcionou seu olhar a mim. Não era aquilo que ele queria dizer.


– Obrigado. Você também é legal. – eu disse enquanto ria um pouco, empurrando-o de leve com o braço e, inconscientemente, chegando mais perto. – Sabe, eu gosto de você. – eu falava sem pretensões. – Eu me sinto bem perto de você... E você me apoiou muito desde que nós nos conhecemos, mesmo eu não sendo sempre a pessoa mais legal do mundo com você. – eu o olhei e seus olhos estavam vidrados em mim. – Eu nunca vou conseguir parar de te agradecer.


– Já disse, não tem o que agradecer. – ele desviou o olhar para suas pantufas. Estava ficando visivelmente sem graça. – Não é como se eu fizesse o que eu fiz com você com todo mundo... Eu fiz isso por que também gosto de você. Bastante. – e seus olhos se voltaram novamente para o céu antes que ele dissesse em tom de brincadeira, como que para esquecer sua vergonha: – Como eu já disse, você é um cara legal.


E meus olhos não saíram dele nem por um instante. Eu havia entendido o que ele havia dito com gostar, e algo dentro de mim se remexia de forma inquieta pedindo para que eu tomasse alguma atitude. Mas, primeiro, eu precisava decidir como eu me sentia com relação a isso. Talvez... feliz? Percebo agora que quanto mais transparente Frank se mostra, mais ele me confunde.


– Frank?


Ele virou o rosto lentamente para me encarar, e ao mesmo tempo em que tudo ficava claro, os pensamentos só se embaralharam ainda mais dentro da minha cabeça, enquanto eu o fitava e decidia o que fazer. Minha mão foi em direção à sua nuca, e lá ficou durante um tempo até que eu percebi que ele se aproximava de mim devagar e comecei a me aproximar também, de forma que o espaço que havia entre nós fosse quebrado mais rapidamente. A respiração dele era acelerada, mais ou menos na mesma velocidade em que o meu coração batia, e quando eu toquei nossos lábios pela terceira vez desde que nós nos conhecemos, tudo parou.


Não era um simples toque... Acho que aquele beijo era como uma troca de informações, de experiências e de várias outras coisas que nem eu nem ele conseguiríamos colocar em palavras.


E eu queria quebrar aquele contato para dizer a ele o que eu sentia naquele momento. Para dizer a ele que talvez eu gostasse dele da mesma forma que eu sabia que ele havia se referido. Mas era tudo tão bom... as sensações que me carregavam eram maiores do que eu.


E nada do que eu estava pensando importava realmente. Nada fazia sentido.


Eu não quero fazer sentido... Não hoje.


Notas finais
Primeiramente, uma curiosidade: o álbum "The Black Parade" teve muitas inspirações da música "Tonight, tonight" citada lá em cima e, se vocês verem o clip, notarão as semelhanças.
Bom, espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu e que não tenha ficado nada muito forçado. Isso tudo estava nos meus planos ha muito tempo, mas só agora consegui encaixar esse capítulo.
E o texto do caderno do Gerard eu já havia escrito há um tempo, mas só agora acabei usando-o.
Muito obrigada por ler e espero ver todos vocês nos reviews!