I'm Not Ok

17 Capítulo 17 - Pai


Notas iniciais
Demorei?
Bom, capítulo imenso. Desculpa, de verdade, não é "encheção de linguiça", é que, realmente, não deu para fazer em menos.
Agradecimento especial para a Vickty que fez uma recomendação maravilhosa e eu não tive a oportunidade de agradecê-la.
Muito obrigada, Vickty! De verdade! ♥
Bom, uma boa leitura à todos!
Vejo vocês nas notas finais!

Capítulo 17 – Pai


– Gee...


Ouvi meu nome ao longe. Parecia um som irritante, já que eu estava cansado e queria continuar dormindo, mas não era nada tão irritante que não pudesse ser ignorado. Era só eu usar um pouco da minha força de vontade e não abrir os olhos.


– Gerard, acorda! – e eu senti uma mão sacudir meu ombro de leve. Mas que insistente! Aquela voz parecia até a do...


– Mikey? – perguntei com a voz engrolada, ainda sem abrir os olhos e me apoiando na cama com os cotovelos. Ele soltou uma risada. É, deve ser muito engraçada a cara de desgosto e cansaço extremo que eu estou fazendo agora. – Que foi?


– Dormiu bem? – ele perguntou e eu me obriguei a abrir os olhos minimamente apenas para vê-lo segurar o riso ao olhar para mim.


– Eu, sim, minha coluna não. – respondi, sentando-me na cama e colocando uma mão nas costas, enquanto com a outra eu coçava os olhos, na inútil tentativa de ficar mais desperto.


– Bom, mais tarde você volta para o seu sono de beleza. – e Mikey só riu ainda mais quando eu lhe lancei meu melhor olhar de desgosto. – Vem, levanta. O pai acabou de chegar e a mãe ligou dizendo que, pela primeira vez em um mês, vai vir para casa a tempo de jantar. – ele parecia contente com o fato, mas só então eu me lembrei daquela sensação estranha de horas atrás. E logo em seguida lembrei o motivo dela.


E o nervosismo voltou. Com força total.


– Certo... Eu... Eu já vou descer, ok? – eu disse meio incerto. Na realidade, não queria descer, queria apenas que Mikey saísse do quarto para que, assim, eu ficasse sozinho. E, uma vez sozinho, eu poderia me desesperar à vontade até adquirir condições psicológicas favoráveis para uma conversa civilizada com os meus pais.


– Tudo bem. Mas não demora. – ele respondeu, mas parou à porta apenas para me dizer antes de sair: – Qualquer coisa eu vou estar por perto, ok? – e eu não pude deixar de sorrir.


– Eu sei que vai.


E assim que meu irmão deixou o quarto, me levantei e fui tomar um banho. Tirei a camisa e me debrucei sobre a pia, me aproximando do espelho apenas para analisar melhor meu reflexo. No espelho eu só conseguia ver um cara nervoso suando frio, com a pele tão pálida, quase transparente, que só fazia suas profundas olheiras parecerem maiores e mais escuras. Fiz uma careta para o meu próprio reflexo e abandonei-o no espelho, decidido a melhorar minha imagem e me acalmar um pouco com um banho quente. Não seria nada bom conversar com os meus pais do jeito que eu estava. Ainda mais com a minha mãe. Se ela me visse com aquela cara, nem me daria a oportunidade de falar nada. Ia ser uma noite inteira de reclamações sobre o quão mal alimentados Mikey e eu estávamos.


Ri com aquele pensamento. Apesar de ausentes, eu não cansava de reafirmar para quem quisesse ouvir que nossos pais se preocupavam bastante conosco. Talvez eles não fossem perfeitos ou exemplos a serem seguidos, mas eles faziam o que podiam, e aquilo para mim bastava.


Saí do banho alguns instantes depois me sentindo um pouco melhor, mas, infelizmente, não por completo. O nervosismo ainda estava em mim, e eu sabia que ele só iria aumentar quando eu estivesse cara a cara com os meus pais e começasse a tropeçar nas palavras. A companhia de Mikey era um consolo, mas ele não poderia fazer nada por mim. Eu teria que falar tudo, afinal, é da minha história que falaremos. Quem a contaria melhor que eu mesmo?


E enquanto eu buscava por entre as minhas gavetas alguma roupa que minha mãe considerasse decente para vestir, o entendimento simplesmente veio até mim. Era por isso que eu estava nervoso e tinha medo. Porque pela primeira vez em muito tempo, eu estava fazendo algo que dependia apenas de mim. Um futuro sucesso ou fracasso, tudo seria causado por mim. Eu teria que escolher bem as palavras, eu teria que dizer o que eu mesmo fiz. E se eu fracassasse provavelmente Lindsey continuaria presa naquela droga de vida, sem condição de melhorar a educação do Arthur, sem falar com os próprios pais, e Max continuaria impune. Livre. E não era só a minha vontade de fazer tudo certo que estava em jogo dessa vez. Tinham outras coisas em jogo. E eu teria que lutar por elas.


E eu notei que era normal sentir medo. Ainda mais quando outras pessoas estão dependendo de você. Mas se você não enfrentar os seus medos e correr atrás, você nunca sairá do lugar. E todos que confiaram e dependeram de você um dia iram se decepcionar e te virar as costas (com razão).


E dói menos enfrentar o medo do que enfrentar a rejeição. Ou enfrentar a própria covardia.


E com tudo isso em mente – com a ansiedade martelando forte e pontuando cada um dos meus passos. –, saí do meu quarto e pus-me a descer as escadas. Assim que tive uma visão, mesmo que parcial, da sala de visitas, pude encontrar meu pai sentado de forma desleixada em um dos sofás de couro preto. A gravata afrouxada, os pés apenas de meias, a pasta marrom esquecida ao seu lado. Tinha a cabeça pendida para trás e os olhos fechados. A cena era engraçada, mas ele parecia realmente exausto.


Meu pai não era muito diferente de mim, de fato. Tinha os cabelos escuros como os meus – porém agora já um tanto grisalhos. – e a pele bem pálida. Seu rosto era fino (e nisso Mikey se parecia um pouco com ele) e usava óculos, que, pelas grossas lentes, só faziam aumentar suas perceptíveis olheiras. Não sei muito bem o que dizer de sua personalidade. Ele é calado, mas é uma pessoa divertida e compreensiva. Infelizmente não o conheço tanto quanto gostaria. Mas quem sabe ainda dê tempo?


– Pai? – eu disse receoso, ao terminar de descer as escadas, parando na entrada da sala. Não sabia ao certo se ele estava ou não dormindo.


E, ao abrir os olhos, ele sorriu.


– Filho! – ele disse, e por um instante eu quase não reconheci sua voz. Ele parecia animado. Bom sinal. – Quanto tempo, hein? – e eu notei um pouco de culpa em seu sorriso nesse ponto.


– Como foi de viagem? – eu perguntei, adentrando na sala e sentando-me próximo a ele no sofá.


– Bem. Foi cansativo, mas valeu a pena. – ele me lançou um sorriso cansado.


Meu pai é arquiteto, e não eram raras as vezes que ele tinha que ficar vários dias fora para atender a algum cliente que morasse longe. Quando nos mudamos, meu pai acabou tendo que largar o emprego. Era um bom trabalho, próximo de casa e ele sempre chegava cedo. Mas com a mudança tudo ficou do avesso e ele teve dificuldades para arranjar um emprego de cara. Por sorte um amigo dele de longa data decidiu montar com ele um escritório em sociedade, e meu pai, sem pensar duas vezes, aceitou. Ele ganha muito mais hoje em dia, mas também se cansa muito mais. E confesso que me sinto culpado com isso até hoje.


– Mas e você e o seu irmão? Se comportaram? – ele perguntou enquanto arrumava os óculos exatamente da mesma forma que Mikey sempre fazia, e aquilo me fez rir involuntariamente.


– Sim, como sempre. – eu respondi. – Pai... Depois que jantarmos, eu... Eu posso falar com você e com a mãe? – eu disse meio incerto se aquele era o momento certo para tocar naquele assunto.


Assisti seu rosto ganhar feições preocupadas enquanto me encarava, me analisando. E eu estava nervoso, isso ele já devia ter percebido há tempos. Imaginei o que estava se passando na cabeça dele naquele instante. Na última vez que todos nós sentamos para ter uma conversa, eu estava em uma cama de hospital me recuperando de uma parada cardíaca causada por uso de drogas e tudo terminou em uma mudança de cidade.


Pois é, agora ele devia estar tão tenso quanto eu.


– Ah... claro, filho. – ele disse um tanto vago, deixando transparecer preocupação.


E ficamos algum tempo mergulhados em um silêncio deveras constrangedor quando Mikey apareceu vindo da cozinha dizendo que nossa mãe estava chegando com a comida. Não sei se já tive a oportunidade de comentar, mas nossa mãe não cozinha. Ela costumava dizer que era muito boa com comida: muito boa em comer comida. E nisso eu concordava plenamente com ela! O único que se arriscava a brincar com o fogão era meu irmão, e mesmo assim de vez em quando eu sentia o cheiro de queimado se espalhar pela casa toda enquanto ele fazia suas experiências culinárias.


E não deu cinco minutos e a porta da frente se abriu, dando espaço a um bolo de sacolas e bolsas, que logo identifiquei como sendo minha mãe e me apressei em ir ajudar. Às poucas vezes que tive a oportunidade de vê-la chegar em casa, sempre foi assim: abarrotada de bolsas, sacolas e caixas. E o que tinha dentro delas? Trabalho, com certeza. Minha mãe tinha essa péssima mania de se empenhar demais no trabalho. Às vezes tenho a impressão de que ela se esquece de viver um pouco. E sobre isso eu não me sinto exatamente culpado, porque mesmo em seu antigo emprego, ela agia da mesma forma.


Minha mãe é uma mulher elegante, e isso eu posso dizer com certeza e orgulho. Ela é realmente muito bonita, os cabelos lisos e loiros vão até o ombro, e ela está sempre bem vestida – seja no trabalho ou fora dele.


E até que, no fim, foi um jantar agradável. Aproveitei a comida como se fosse minha última refeição. Era bom ter todos à mesa novamente, depois de tanto tempo. Sentamos eu e Mikey de um lado da mesa, e nossos pais do outro. Em certo ponto do jantar, vi meu pai puxar minha mãe para a cozinha e cochichar algo para ela. Olhei para Mikey, que me retribuiu o olhar tentando me transmitir alguma calma. Nós dois sabíamos de que assunto eles estavam tratando lá dentro, e quando eles voltaram à mesa para tirar os pratos, fui com Mikey para a sala, esperá-los. Estava chegando a hora.


– Gerard... – Mikey começou, me olhando incerto. Ele também parecia um pouco apreensivo. – Tudo certo? – ele perguntou com uma expressão que dizia claramente “Não vai dar pra trás agora, não é?”.


– Tudo. – eu respondi, tentando parecer firme. Minhas mãos suadas e geladas talvez me denunciassem, então apertei uma contra a outra, na esperança de me acalmar.


Alguns instantes depois assisti meus pais entrarem na sala, lado a lado, os rostos exibindo feições igualmente preocupadas. Eles se sentaram de frente para mim e meu irmão e agora a mesinha de centro era o único obstáculo entre nós. Seus olhares passeavam de mim para Mikey, sem saber exatamente o que dizer ou como agir. Nossa mãe era a mais tensa, e isso era bem perceptível. Ela era a que mais tinha más lembranças de nossas “reuniões em família”.


– Querido... – ela começou e eu engoli em seco. – Seu pai disse que tinha algo que queria conversar conosco.


E, pela terceira vez, preparei-me mentalmente para contar minha história a alguém.


– Sim... Eu... Eu queria falar sobre algumas coisas que aconteceram... Bom, coisas que têm acontecido. – as palavras pareciam que se embolavam umas nas outras antes de saírem da minha garganta, mas, mesmo assim, eu prossegui, tentando ser o mais coerente possível. – Quero dizer... Eu queria conversar com vocês hoje por que... Eu preciso de ajuda.


E, pela expressão que minha mãe fez naquele momento, imagino que ela me interpretou mal.


– Gerard, isso tem a ver com as coisas que aconteceram antes de nos mudarmos? – e eu assisti seus olhos se encherem de lágrimas com certo pesar. Ela estava se referindo às drogas.


– Sim. – e ela desabou no ombro do nosso pai, enquanto Mikey, ao meu lado, olhava deles para mim, perplexo, sem saber o que dizer ou fazer. Quando ela se acalmou um pouco, eu prossegui. – Mãe – eu a chamei, e ela direcionou os olhos vermelhos a mim. – não tem nada a ver com drogas. Eu nunca fui um drogado. Bom, na verdade, eu quase fui.


– O que você quer dizer com isso, Gerard? – e foi a vez do meu pai se pronunciar.


– Tudo o que aconteceu há três anos... eu nunca cheguei a contar tudo à vocês.


– Por quê? – e eu encarava os meus sapatos, sem presença de espírito o suficiente para encarar meus pais nos olhos.


– Porque eu não tive coragem. – eu disse simples. – Eu não queria que vocês soubessem que eu saía todos os fins de semana com um pessoal mais velho para beber só por que eu achava legal e também não queria que vocês soubessem que, por muito tempo, eu comprei drogas para esses caras, para eles me aceitarem melhor no grupo. Eu não queria que vocês soubessem o quão idiota o filho de vocês foi. Vocês não me criaram assim...


O silêncio reinou na sala, porém não absoluto, já que os soluços que minha mãe deixava escapar livremente serviam como plano de fundo para aquela pausa estranha no nosso diálogo.


Eu levantei os olhos para encará-los e o que encontrei foi o olhar decepcionado dos meus pais sobre mim. E aquilo doía mais que o inferno. Senti meus olhos arderem, mas prossegui, eu queria que eles entendessem aonde eu queria chegar. Eles precisavam entender.


– Eu andava com esses caras do terceiro ano por diversão. Costumávamos nos reunir próximo à linha do trem, mas qualquer lugar deserto era um bom lugar. Lá eles tinham garotas, bebidas, tudo de graça, se você fosse aceito no grupo. E eu queria fazer parte daquilo tudo, mas sei que fui muito estúpido por pensar assim... – parei de encará-los por um momento passando a mão pelos olhos e encontrando-os molhados. A mão amiga de Mikey veio de encontro às minhas costas, e eu lhe sorri em agradecimento antes de prosseguir. – A única forma que eu vi para eles gostarem um pouco mais de mim foi começar a fazer favores para eles. Eu comecei fazendo as lições e roubando gabaritos das pastas dos professores para entregar para eles, mas logo isso já não era mais suficiente, então eu comecei a comprar drogas para eles.


E quando eu vi minha mãe fazer uma careta indignada pelo que me pareceu a terceira vez desde que eu comecei meu discurso, eu me exasperei.


– Mas eu não usava, eu nunca tive coragem de usar. Eu estava lá por que... Não sei, aquilo tudo tinha um glamour estranho! Eu pensava que eu fosse me sentir melhor andando com eles, ou que eu fosse aproveitar mais a vida dessa forma.


Aproveitar mais a vida se drogando, filho? – minha mãe disse em meio a soluços, a cabeça pendendo para o lado, quase se encontrando novamente com o ombro do meu pai.


– Eu já disse, eu nunca me droguei! – e eu acabei elevando o tom de voz sem perceber.


– E como você nos explica o dia em que tivemos que te buscar no hospital, han? Com que cara acha que ficamos quando ouvimos do próprio médico que você quase tinha morrido por causa dessas malditas drogas? – minha mãe gritava comigo à beira do descontrole, e eu pude sentir meu irmão se afundar um pouco no sofá ao meu lado. Nosso pai tentou acalmá-la, mas parecia em vão.


– Eu posso explicar isso. – eu falei, enquanto gesticulava freneticamente. Estava tudo se embolando cada vez mais e parecia que, quanto mais eu falasse, menos da história toda eles iriam entender. – Em uma dessas noites, eu conheci uma garota. Lindsey, vocês devem se lembrar dela...


– Aquela que ficou grávida e foi expulsa de casa pelos pais? – meu pai perguntou pensativo.


– É.


– Oh, Gerard, não me diga que... – ele começou, mas eu o impedi antes que tivesse a oportunidade de terminar e apavorar mais ainda minha mãe.


– Não, não é nada disso. Vocês devem se lembrar do Max também, não é? Ele ganhou uma bolsa como atleta para a faculdade... – esperei que eles expressassem algum entendimento, e como não disseram nada, apenas prossegui. – Nessa noite em questão, Max queria ficar com a Lindsey... Ele a queria, mas ela não queria. Quem tinha habilitação costumava levar o carro para lá, e Max levou Lindsey para o carro dele contra a vontade dela e... bem...


Eu não consegui terminar. E também, pelo silêncio sepulcral que não tardou a se instalar na sala, nem precisava. Até minha mãe havia parado de chorar.


– Eu não cheguei a... ver. – e eu ainda não conseguia dizer. – Mas eu a vi caída no chão toda machucada e com as roupas rasgadas... E eu não podia deixá-la assim! Eles me ameaçaram de várias formas, diziam que iriam me matar e matar a ela se nós contássemos a alguém... E depois daquele incidente eu nunca tive tanto nojo de mim mesmo por um dia ter andado com eles.


Fiz uma pausa tentando engolir o nó que se formava em minha garganta. Eu já havia contado aquela história antes e dito aquelas mesmas palavras, mas aquela parecia a primeira vez.


– Mas eu tentei compensar as coisas e comecei a andar com Lindsey. Ela ficou estranha depois daquele dia, mas ainda assim era uma ótima pessoa e amiga... Mas quando Max e os outros viram que eu realmente não voltaria a andar com eles, ficaram com medo começaram a nos ameaçar cada vez mais, e quando eu estava sozinho... Às vezes eles apareciam em grupos grandes e eu acabava apanhando. – eu me arrependi no último momento quando aquela frase escapou da minha boca. Eu poderia ter pulado aquele pedaço.


– Então era por isso que no hospital você estava tão cheio de hematomas? – minha mãe perguntou, se segurando para não recomeçar a chorar.


– Também. – eu respondi, e seu rosto se contorceu em uma expressão que eu não conseguia identificar. – Eu não me preocupava muito comigo. Eu queria paz, só isso, mas Lindsey nunca teria paz com Max atrás dela por causa da gravidez, então, entre ela e eu, eu me preocupava mais com ela. – suspirei pesado antes de prosseguir. – Em uma das últimas vezes que vi Lindsey, eu disse a ela que poderia assumir o filho dela se ela quisesse, pelo menos para amenizar a situação com os pais dela, mas a única coisa que ela fez foi me colocar para fora do apartamento improvisado que ela arranjou na época e disse para que eu não voltasse mais. E, com isso, a única coisa na qual consegui pensar foi tentar falar com Max.


– Mas para que falar com ele? – meu pai perguntou, e nesse momento imagino que ele já estivesse prevendo o que eu iria dizer. Isso me aliviou um pouco, finalmente eu estava me fazendo entender!


– Eu não sei... Queria conversar com ele, dizer a ele que iríamos sumir se ele parasse de nos atormentar e ameaçar. E foi o que eu fiz. Fui atrás dele na madrugada de sábado, perto da linha do trem. Eles estavam no meio de uma daquelas festinhas, mas Max acabou topando conversar comigo. Ele prometeu que nos deixaria em paz, me pareceu, inclusive, bastante amigável, e pediu apenas que nós sumíssemos e fim. – eu encarei meus pais novamente, e o olhar deles era neutro. Menos mal. – E eu fiquei tão feliz que, por um momento, abaixei a guarda. Ele me ofereceu uma bebida, eu aceitei, e depois disso eu não sei ao certo o que aconteceu... E eu acordei no hospital.


Finalizei a parte mais difícil da narrativa com grande alívio. Analisei as expressões dos dois à minha frente, e eles pareciam ter entendido bem o que eu queria dizer. Se eu continuasse assim até o final eu conseguiria o que eu precisava. Era só mais um pouco de conversa...


– Porque você nunca nos contou isso antes? – meu pai me questionou novamente.


– Eu já disse. Vergonha, medo... Vergonha de vocês e de mim. Vergonha por ter ido embora e por não ter podido mais ajudar à Lindsey. E medo de contar algo à polícia e acabar acontecendo algo comigo, com Lindsey ou... com vocês. – minha voz foi morrendo ao final daquela fala. Eram coisas que eu pensava sobre, mas nunca tive coragem de dizer, nem em frente a um espelho. – E também... – e eu ri amargo. – me parecia que vocês já tinham uma imagem formada de mim. “O filho drogado”. – e eu prossegui, ignorando o início dos protestos vindos da minha mãe. – Eu sei, não era assim, mas na minha cabeça era assim, e nada do que eu dissesse faria isso mudar. Todos os fatos estavam contra mim. – e eu os assisti tocarem olhares culpados.


– Mikey já sabia? – minha mãe perguntou.


– Eu fiquei sabendo há pouco tempo. – Mikey se pronunciou pela primeira vez. Parecia ainda um pouco atordoado, mas eu estava feliz apenas por ele ter ficado ao meu lado o tempo todo. – Gerard nunca me disse nada a respeito também, mas eu sempre soube que ele saia para beber e só voltava de madrugada. – e foi a minha vez de olhá-lo. E eu estava surpreso, porque disso nem eu mesmo sabia. Ele me encarou de volta. – Eu tenho o sono leve, então sempre ouvia você subir as escadas de madrugada.


E eu não sabia que Mikey me acobertava desde tanto tempo atrás, mesmo na época em que menos tivemos contato como irmãos, amigos ou o que quer que fosse. Nessa época eu costumava irritá-lo e ridicularizá-lo, tratando-o como a criança que eu achava que ele era, quando, a única pessoa que estava agindo infantilmente, era eu.


– Querido, você disse que precisava da nossa ajuda... – nossa mãe se pronunciou novamente, parecendo bem mais receptiva e compreensiva do que antes, e só então eu me lembrei do propósito daquela conversa.


– Na verdade, Lindsey e eu precisamos. – eu disse. – Nós precisamos de um advogado. Ela decidiu que vai denunciar o Max e... eu gostaria de testemunhar e apoiá-la no que fosse possível. Infelizmente ela também não tem dinheiro para pagar um, porque ela e os pais nunca voltaram a se falar. E ela ainda tem que se preocupar com as despesas do Arthur...


– Arthur? – meu pai me interrompeu.


– Ela... ela não chegou a abortar. Ela teve o bebê, e essa é a única prova que ela tem do estupro.


– E como ela tem certeza de que essa criança é mesmo desse garoto? – minha mãe voltou a se pronunciar, e por um segundo eu cheguei a me questionar se ela estava mesmo falando sério e se ela tinha noção da gravidade da hipótese que ela estava levantando. Se ela conhecesse Lindsey como eu a conheci, ela saberia...


– Ela me contou que nunca esteve com outros caras... Quando Max a estuprou ela era virgem. – eu disse tudo em tom seco, observando um tanto satisfeito as dúvidas de qualquer um naquela sala serem desfeitas em forma de expressões perplexas.


– Eu... Nós... – minha mãe gaguejava, olhando de mim para Mikey, e dele para meu pai.


– Você está ciente de que não poderemos responder por você, já que você é maior de idade, certo? – meu pai começou me expondo os riscos. A escolha que eu fizesse naquele instante ditaria de que forma eu passaria as próximas semanas da minha vida... Ou talvez até mesmo o resto dela. E, sem pensar mais que isso, assenti. – Você tem certeza de que é isso que você quer? – e eu assenti novamente, sem medo. – Então estaremos ao seu lado no tribunal. Amanhã ligarei para um amigo meu, ele é um ótimo advogado, imagino que poderá nos ajudar. – e ele finalizou seu discurso com um sorriso discreto, e eu não pude mais refrear o nó em minha garganta.


– Meu amor... – minha mãe o chamou enquanto eu era abraçado por Mikey.


– Querida, qual foi a última vez que você conversou com o Gerard? Qual foi a última vez que nós ouvimos que ele precisava de nós e que ele queria conversar? – assistimos, Mikey e eu, os olhos de nossa mãe se encherem de lágrimas novamente.


E meu pai se levantou, deu a volta na mesinha de centro, e parou em frente a mim. E quando eu me levantei para ficarmos cara a cara, fui surpreendido por um abraço partido dele. E eu já nem me lembrava mais quanto tempo fazia que eu não o abraçava.


– Não se preocupe, filho. Nós vamos te apoiar no que for possível.


Notas finais
E aí? O que acharam?
O capítulo ficou gigante, eram muitos detalhes, e demorou um pouco para eu conseguir finalizá-lo. Mas espero que tenham gostado, de verdade!
Agradecendo à Vickty mais uma vez e à PandaDoIero e a A_Revolution que já tinham recomendado a história antes. De verdade, meu coração da saltos mortais quando vê um review ou uma recomendação nova! Muito obrigada! ♥
E obrigada por ler!
Vejo vocês na seção de comentários!