Im Just A Fallen Angel...
7 Those eyes.
Notas iniciais
Eu não sentia entusiasmo algum por ter saído do mosteiro, o que era algo indiferente... Eu raramente poderia ser narrador de certas emoções e sentimentos pois tinha alguma dificuldade em senti-los e, até então, o mais forte que havia sentido foi ao ver aqueles dois estranhos seres humanos. A mulher de olhos verde-água e o homem de cabelos prateados, cujos caminhos não se cruzaram com o meu desde a última vez.
Enquanto eu lamentava minha falta de ''humanidade'', o loiro tinha até demais. Saíra correndo da sua casa, constantemente me chamando com receio de que eu ficasse sozinho e acabasse morrendo de tanta falta de conhecimento que eu tinha sobre este mundo. Repetia para si mesmo constantemente:
– Eu vou atrasar... Vou atrasar... Aaaai.- procurava as chaves em seus bolsos, com as quais abriria e poria a funcionar o ''carro'', tal e qual fez a seguir.
– ...? — eu observava o loiro entrando apressado no carro e se enrolando no cinto de segurança de tanta pressa. — Vamos! Vamos!
Eu não sabia ter pressa. Antes de ser mortal, o tempo pra mim não existia e agora eu teria que fazer essa figura triste...(?) Andei calmamente até a outra porta do carro e entrei, lidando com um silêncio constrangedor por parte do outro individuo.
– ... Poderia ter um pouco de consideração para comigo poxa. Eu estou atrasado e você vem mó relaxado... Faltava só um picolé pra você entrar na brisa.- ele olhava pra mim com ar de quem não estava acreditando.
– Hm... -
Se eu não respondi, foi porque eu não sabia o que era um picolé.
Em meio tempo o carro estava na estrada como antes, porém por um caminho totalmente diferente do que seguimos anteriormente.
– Esse caminho nunca esteve tão fácil de passar! Sem tráfico, sem acidentes... Alex, você trás sorte! — o loiro largava cada frase que saía da sua boca rasgada num sorriso sempre com ênfase.
– Hm.- respondi secamente enquanto mirava as pessoas do lado de fora.
Ele foi consumido por um silêncio repentino, porém breve, o que me fez direcionar a atenção para ele de tão raro que aquilo era. Mal fiz tal coisa que me deparei com os olhos azuis daquele ser humano olhando pra minha figura com cara de ponto de interrogação.
– Alex, você parece tão...nulo.- disse com um tom inocente misturado com pena.
– A vida é nula.- retruquei, voltando a direcionar minha atenção para a janela do carro. Provavelmente ele não ia entender aquilo, mas eu sim... Quando se é imortal, não se tem vida, porque ela só existe quando há a morte. Eu não tinha, e agora tenho.
Não me faz sentir nada melhor.
– Eu acho que você era emo.- respondeu, parqueando o carro.
............................
– De tanto que as estradas estavam livres, cheguei antes da hora ahah!- ele comemorava sua vitória contra o tempo. Acabávamos de passar pelo portão no meio de paredes de flores e arbustos muito bem cuidados, bem adiante havia aquele edifício que parecia ser o principal... Elegante e grandioso.
– Que lugar é esse?- perguntei ao ver vários humanos em seu nível de concentração elevado, dispersos pelos jardins.
– Eh? — ele parou de andar e piscou os olhos em tom de confusão.- Ah! Desculpa, eu esqueci. Aqui é a minha faculdade, é onde eu faço meu curso de psicologia.
Faculdade... Não era um vocábulo tão novo para mim, mas desconhecia a maior parte do seu significado.
– Está bem então.-
– Err... Alex...- ele chamou novamente a minha atenção.
– ...?-
– Você se importaria se eu apresentasse você ao meu docente? Talvez ele pudesse ajudar você a passar por essa sua fase complicada!-
–Sim, eu me importaria.-
– Err.... — seus ombros frouxaram em um suspiro que levou sua boa vontade toda embora.
*Minutos depois*
A porta do gabinete do docente de Elliot se abriu num acto de violência assustadora.
– Bom dia! — Elliot sorrindo, com sua roupa toda amarrotada e um olho negro tirando muitas outras marcas pelo seu rosto. — Trouxe um paciente!
O homem de estatura média arregalou os olhos por trás dos óculos retangulares ao ver seu aluno e amigo de longa data naquele estado, puxando um indivíduo com quase o dobro do seu tamanho pelos pulsos.
– Lembra do Alex que eu lhe falei? — O loiro me puxou consigo, me fazendo entrar na sala.
– O rapaz da amnésia? — O velho ajeitou os óculos e assentou o olhar em mim.
– Sim sim, esse mesmo.- o loiro ergueu meus braços pelos pulsos.- Adivinha onde ele está, doutor?
– Eheheh...muito obrigado por tê-lo ''convencido'' a vir.- sorriu enquanto se levantava da sua poltrona por de trás da mesa.
– A amnésia afetou alguns neurónios dele. Há que tomar medidas drásticas de vez em quando.- o loiro sorriu enquanto ajeitava a sua roupa.
– Tsh....- praguejei.
– Ora bem, você poderia ir para a aula, Elliot. Enquanto eu tenho aqui uma pequena prosa com o senhor Alex.- o velho passou o olhar por mim para me observar por uns segundos.
– De certeza? Olhe que ele é dificil de lid....- interrompeu a frase ao gelar com meu olhar se afiando para ele.- Tudo bem, tudo bem... eu vou.
– Podia até passar pela enfermaria primeiro, eheheh.- o homem falou num tom de deboche enquanto o loiro saia da sala com um sorriso torto de vergonha.
Ao fechar a porta, o silêncio reinou naquele lugar. O velho voltou para a sua secretária e tirou de lá um bloco e uma caneta.
– Pode se sentar, Alex. — apontou para o sofá atrás de mim, enquanto ele se sentava em outro, de frente para mim.
– Então, tudo bem com você? — pressionou a caneta para começar a tomar notas.
– Duvido.- cruzei as pernas e estiquei os braços sobre a parte superior do sofá.
– Eu também duvido... Meu nome é René Fredhenam, e estou aqui para ajudar você a entender mais sobre o que está acontecendo, assim pode ser que volte à sua vida normal. O que acha?- sorriu para mim. Mas eu não engoli aquele sorriso.
– Porque acha que eu quereria voltar a minha outra vida? -
– Ora bem... é uma boa pergunta.- tomou algumas notas.- Imagine que você tenha uma família algures, uma casa, amigos, gente que ama você...? Não gostaria de voltar a vê-los?
– E se eu não tiver nada? Pior, e se eu não tiver nada de bom? O que me impediria de continuar um novo caminho? -
Ele esperou que eu acabasse de falar, pousou o bloco no colo e tirou os óculos do rosto.
– Você não tem amnésia, pois não?- fitou o olhar em mim.
Fitei o olhar de volta e sorri de lado.
O olhar dele então se direcionou para a porta do gabinete que mais uma vez se abria de forma bruta.
– Eu quero saber quem foi esse filho da mãe que machucou o Elliot! — uma voz feminina de tom ameaçador ecoou pela sala.
Eu queria saber quem era o ser humano que acabara de chegar para me divertir mais um pouco, mas antes que eu pudesse virar o rosto senti algo quente em meu rosto e uma dor ligeiramente incómoda. Acabara de levar um soco.
– CO-CHAN! — o loiro vinha correndo para dentro da sala, mas o sangue já tinha sido derramado.
– Isso é para você aprender a se meter com gente do seu tamanh...o....- a voz dura e firme dela tomava uma insegurança conforme a sua frase ia terminando e eu virava o rosto para ela.
–...!- Eu senti uma pontada bem na cabeça ao assentar os olhos nela.
Nossos olhos arregalados estavam fixados um no outro, como se acabássemos de ver uma assombração.
Ali estava ela, a moça dos olhos verde-água.
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