Prólogo:

Querida, vai dar tudo certo. Tudo vai ficar bem.

As palavras de minha mãe ecoavam em minha mente me torturando como se fossem facadas em meu coração. Ela tinha razão? Bom, aqui estou eu, voltando pra casa depois de dois anos morando com minha madrinha na Islândia e tudo que se passa na minha cabeça são memórias distantes do meu maldito passado. Drogas e bebidas. Estão aí duas palavras que os pais temem mais do que qualquer coisa nesse mundo. Mas quer saber? Traição e divorcio. Duas palavras que nenhum filho quer ouvir. E eu ouvi. E conseqüentemente meus pais também tiveram que enfrentar o seu maior temor. O que eu estou dizendo, enfrentar? Eu não diria que fazer as malas de sua filha desorientada de 15 anos e mandá-la para a casa de um parente que ninguém via há anos é um bom jeito de enfrentar tudo isso. Tá, eu não os culpo. Eu realmente era um caso perdido, sabe? Mas nem sempre foi assim, acredite em mim, eu temia tudo isso tanto quanto os meus pais.

Capítulo 1:

‘’Bem vindo ao aeroporto internacional de Rosewood’’ dizia uma placa gigante que eu pude avistar assim que desci do avião. Não posso negar que estou feliz por estar de volta. Eu realmente senti falta do doce cheiro natural que tinha por aqui, senti falta das pessoas correndo contra o tempo, senti falta de toda a arte espalhada por cada canto da cidade e só de pensar que eu veria minha família de novo todos os meus problemas evaporavam da minha cabeça. Mas, infelizmente, não era tão simples assim. Foram dois anos sem nenhum contato com meus pais além de telefonemas e chamadas pelo skype que não se passavam de conversas diretas como aqueles típicos interrogatórios de pais quando você passa as férias longe deles: ‘’está se alimentando direito?’’ ‘’está indo bem na escola?’’ ‘’você e sua madrinha estão se dando bem?’’ ou alguma coisa a mais, mas eu nunca tinha a oportunidade de perguntar como andavam as coisas por aqui.

– Aria?! Ai meu Deus!

Nem tive tempo de olhar para trás quando minha mãe veio correndo em minha direção me dando um abraço acolhedor e assim tirando de minha cabeça todos aqueles pensamentos negativos. Ela me abraçava tão forte que eu poderia morrer sufocada. Sufocada de tanta felicidade.

–Oi mãe.

Eu não sei por que eu estava surpresa com a reação da minha mãe. Na verdade, ela estava até mesmo um pouco calma pro seu jeito eufórico de sempre.

– Estou tão feliz que você está de volta, Aria. Você está tão diferente! — ela disse me abraçando de novo.

Bom, óbvio que eu estava diferente. Fazia dois malditos anos de tortura que eu não a via; eu deveria ter crescido um pouco mais, e meu cabelo definitivamente estava mais longo e escuro.

– Estou feliz de estar de volta também, mãe.

Deus me livre ter que passar mais um segundo na casa apertada da minha madrinha.
Minha mãe apertou minha mão e me puxou em direção ao seu carro. Eu entrei no banco traseiro e o cheiro do seu perfume doce atingiu minha face tão repentinamente que lágrimas surgiram nos meus olhos. Pisquei rapidamente para afastá-las. Tudo que eu menos precisava agora era uma tonelada de perguntas me esmagando e fazendo com que os últimos meses que eu vivi nessa cidade voltassem para mim na velocidade de uma bala.

Passaram-se alguns minutos até eu começar a avistar a boa e velha casa de meus pais. Quer dizer, pelo menos era de meus pais até o bendito divorcio acontecer. Tal pensamento me fez perceber de que eu não sabia do paradeiro de meu pai, nem mesmo se minha mãe ainda morava naquela casa. Mas quando me passou pela cabeça começar as perguntas me caiu a ficha de que minha mãe havia parado o carro há alguns minutos e me encarava.

– Me desculpa.

Foi só dizer essas palavras que minha mãe começou a rir escandalosamente. Que saudade que eu senti daquela risada.

– Nervosa?

– Um pouco... Mentira, muito.

Eu esperava frases confortadoras ou até mesmo um abraço, mas minha mãe apenas me pediu para esperar no carro e foi andando em direção a casa.

Minutos depois ela voltou com um sorriso de orelha à orelha me puxando para dentro de casa de um jeito que talvez nem assustador seja a palavra certa para descrever. Ela me mandou fechar os olhos e saiu praticamente me arrastando rua a fora.

– Surpresa!

Foi o que eu ouvi assim que botei os pés na porta de entrada. Automaticamente as lagrimas que fiz todas as forças possíveis para guardar para mim começaram a escorrer pelo meu rosto.

Depois de cumprimentar todo mundo fui correndo para o meu quarto para matar a saudade do meu pequeno ‘’cafofo’’. Ao contrario do que eu pensava meu quarto continuava do mesmo jeito que eu o havia deixado. A mesma cama lotada de almofadas aconchegantes, minha escrivaninha lotada de livros, meu guarda-roupas nem um pouco organizado. Tudo em seu devido lugar. Eu estava prestes a me jogar na cama quando uma voz calma e familiar veio por trás de mim me fazendo congelar por dentro.

– Não é educado abandonar uma festa quando ela foi feita em sua homenagem, senhorita Montgomery.

Essa voz... Não, não era possível! Ele havia ido embora fazia anos. Minha mãe me avisaria se ele tivesse voltado, não avisaria?

Olhei para trás e tive que piscar várias vezes seguidas para ter certeza de que não era coisa da minha imaginação.

– Ezra!

Eu não sabia se corria para abraçá-lo ou se espancava ele por ter me abandonado e sumido da minha vida por exatamente quatro anos.

Imagens da minha infância dispararam pela minha cabeça até parar na minha ultima lembrança que eu tinha sobre ele: uma carta. Ezra havia me deixado uma carta se despedindo, pois iria se mudar e não conseguiria dizer adeus para mim pessoalmente. Filho da puta! Uma carta! Depois de anos de amizade, depois de tudo que passamos uma carta!

Tarde demais para pensar em partir pra cima dele, Ezra sorriu para mim de um jeito tão encantador que toda aquela raiva que eu sentia por ele até segundos atrás tinham simplesmente desaparecido. Droga, ele estava tão bonito. Bonito pra caralho, devo constar.

– Nem um abraço, Montgomery? Eu sei que você morreu de saudades de mim.

– Pode começar.

Eu disse afastando qualquer pensamento que relacionasse ao quanto ele estava atraente.

– Começar com o que?

Ele disse, passando a mão em seus cabelos negros lisos e arrepiados logo em seguida. Droga! Por que diabos eu estou suando frio?!

– Começar a explicar o porquê de você ter feito o que fez comigo.

– Aria... Isso é passado. Podemos esquecer isso, não podemos? Eu estou aqui agora.

Foi como se uma onda passasse dentro de mim levando todo o meu esforço para conseguir uma explicação custe o que custar. Ao invés de tentar arrancar alguma coisa, apenas sorri indo em direção aos braços dele. E de repente tudo ao nosso redor congelou. Era só nós dois e mais nada. Eu não posso me apaixonar por ele. Ezra Fitz era meu amigo, o melhor amigo que alguém pode ter. Mas algo dentro de mim gritava dizendo que amizade não era o suficiente para mim. Eu sabia cada detalhe da vida dele depois que ele partirá, não vou negar. Mesmo ele estando longe de mim e nós não tendo nenhum tipo de contato, eu checava suas redes sociais 24 horas por dia pra saber como ele estava. Era meio que uma obrigação minha. Mesmo sentindo ódio por ele. Um ódio tão grande, mas tão grande, que me sufocava todo maldito dia. Mas esse ódio não conseguia ser maior que a dor que a saudade dele me causava, a náusea que as lembranças com ele me traziam.

Então, Ezra olhou para mim de uma maneira que fez meu coração ir a mil e disse:

– Senti sua falta.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.