Ilusão

3 Dúvidas e Possíveis Respostas


- Precisamos conversar.

Beatriz se assustou com a repentina frase de Dante, ela tinha caminhado com tanta sutileza até a porta para o salão, tudo para não ser notada.

- Eu não entendi o que você quer. Um momento você pede minha ajuda e no outro se comporta como se fosse atacá-la. – Dante falou sem disfarçar o cansaço.

- Desculpe-me. Eu só senti algo diferente em você. Só queria entender...

- Entender o quê? – Dante perguntou intrigado para Beatriz que estava parada na porta.

- Algo que escutei há um tempo. Você me perguntou se me lembrava de algo... Bem, eu me lembrei. – caminhou até a mesa e sentou na cadeira em frente a Dante.

- Verdade? Certo... Antes me diga: e o machucado?

- Vou sobreviver. Obrigado pela roupa.

Observou atentamente, pela primeira vez, a jovem: os cabelos em um tom avermelhado foram presos desleixadamente e em rabo de cavalo o que deixava seus olhos cor de mel mais atraentes. De fato, era muito bonita, até mesmo com o olhar distante e triste. Dante ajeitou-se na cadeira, afastando qualquer tipo de pensamento de sua mente e disse:

- Pode começar com a história.

- Ainda há algumas peças que não consigo encaixar. Certas coisas sem sentido. Bem, eu me lembro de Elíseos. É uma seita.

- Nunca ouvi falar. Que tal me falar onde é?

- Quer que eu anote? É difícil de chegar e você já comentou que nunca ouviu falar.

Dante fez um sinal de concordância enquanto pegava um papel qualquer em cima de sua mesa e um lápis.

- É fora da cidade. Perto de Fortuna. Eu imaginei que você não conheceria. Eu faço parte dessa seita. Na verdade, seria mais um centro de estudos. Nada errado. Disso eu já me lembrava antes. Mas agora eu sei que o que aconteceu comigo tem a ver com essa seita, que eu achava ser inofensiva.

Falou anotando no papel como chegar até o local.

- Como você chegou até essa seita?

- Família. É uma tradição. Há alguns dias certas pessoas me disseram que seria iniciada em algo mais profundo. Confesso que fiquei ansiosa, mas não sabia ao certo o que era. – entregou o papel a Dante e concluiu — Ninguém nunca me passou qualquer coisa sobre isso. Até hoje. Havia algo errado naquele lugar: não era o templo da minha cidade. Trouxeram-me para cá.

Dante além de ouvir o depoimento de Beatriz lia a anotação feita pela mulher. Realmente ele nunca havia ouvido falar do “culto”. Algo estranho, principalmente para ele, mas preferiu ignorar esse pequeno detalhe, como de costume.

Beatriz respirou profundamente e fitou o chão antes de continuar num tom sombrio:

- Havia tantas pessoas estranhas. E... Demônios. Não muitos, mas eles conseguiram deixaram o ambiente tão carregado. Quando eu percebi onde estava tentei fugir. Olhe, eu não sei como consegui escapar, mas eu preciso lhe dizer uma coisa, talvez você não acredite em mim, mas eu nunca imaginei que eles poderiam estar relacionados com esses seres. Nunca falaram nada sobre isso, nem deixaram nada escrito.

- Eles devem ter te dado algo para dormir. Como você sabia de mim?

- Isso eu não me lembro. Mas algo me dizia para vir aqui. Pode parecer estranho, mas até mesmo acontecimentos que ocorreram antes estão confusos na minha mente.

- O que eles poderiam querer com você? Esse tipo de gente não mexe com qualquer tipo de demônio. Eles procuram os melhores. Aqueles que tem poder de fato para criar acordos. Mesmo não conhecendo essa seita ou local de estudo, como você disse, eles fariam pactos com esse tipo de demônio. Se eles precisam somente de você eles a irão seguir. Ou seja, eles a encontrarão aqui. Se o que você disse é verdade, não temos muito tempo.

- Enquanto isso você vai ficar aqui parado? É claro que eu falei a verdade! O problema não é somente eu! Existem mais humanos por aí e essa seita agora é algo realmente sério. Eles são perigosos.

- Bem, você estava se sentindo segura até hoje, não é? Que tal esperar mais algumas horinhas?

- Você realmente não parece se importar... Eu irei te pagar se é esse o problema. Afinal de contas, você é um caçador, não é mesmo?

- Veremos...

Dante começou a ler uma revista como se mostrando que não queria mais prolongar aquela conversa. Beatriz levantou-se e caminhou lentamente até um das janelas. Era difícil enxergar qualquer coisa lá fora, além da chuva a janela era de um vidro opaco.

Na verdade, Dante não conseguia ler uma única linha da revista, sua atenção estava voltada para a explicação de Beatriz sobre um possível chamado demoníaco. Não confiava totalmente na estranha, apesar de toda aparência frágil. Ele já havia sido enganado outras vezes com mensageiros demônios fingindo ser humanos. Mesmo assim, aquela mulher poderia estar correndo perigo, não só ela, mas toda uma população. Se o que ela tivesse dito fosse verdade, ele teria sérios problemas pela frente. Respirou profundamente pensando que, como sempre, não conseguia fugir de seu dever como salvador. Ele não aceitava ver humanos sendo usados por qualquer tipo de demônio. Ele iria seguir conforme o caminho fosse mostrado e veria até onde aquele caminho o levaria. As conseqüências? Dante não se importava muito com elas.

- Eu tenho um pressentimento de que algo estranho irá ocorrer. Tudo está tão calmo — Beatriz falou tentando enxergar alguma coisa lá fora. Sabia que poderiam ser os demônios que a queriam.

- Eu já teria sentido… Espere um instante. — Dante levantou-se bruscamente de sua cadeira e caminhou até onde Beatriz estava. Ele havia captado algo diferente. Na metade do caminho seus temores se concretizaram e gritou para Beatriz:

- Saia daí!AGORA!!!

Em poucos segundos dois demônios alados quebraram a janela em que Beatriz estava parada e correram em sua direção.

Dante foi mais ágil e impediram que eles a alcançassem.

- Vamos ver se vocês conseguem o que tanto desejam.

Um dos demônios apenas gritou enquanto o outro com a aparência mais humanóide disse em um sussurro:

- Mestiço, saia do caminho!

- Você sabe que precisará mais que apenas palavras para me tirar do caminho. — Dante disse em um tom sombrio.

- Pegue a garota — o demônio humanóide disse enquanto encarava Dante. — Eu cuido do herói.

Com apenas um golpe de espada Dante corta o demônio que queria chegar até Beatriz.

- Vocês realmente pensavam que seria fácil, não é? — falou sarcasticamente — Então, você disse que cuidaria de mim… Por que você não tenta?

Sem dizer mais uma palavra, o ser voa para o teto e joga na direção de Dante fagulhas de fogo. Muitas caem em cima do sofá que começa a se incendiar.

- Se abrigue! – Dante grita para Beatriz que corre para a direção da porta.

- Não tão rápido assim, moçinha! – com grande força o demônio lança mais labaredas que por pouco não a atingem.

Dante pula na direção do ser alado e com um golpe de espada consegue trazê-lo para baixo.

O demônio lança mais chamas na direção de Dante, mas sua figura já transformada sai das labaredas sem demonstrar qualquer ferimento. Usando de sua força sobre-humana o golpeia em direção à parede, o deixando preso. Com extrema rapidez retira do chão o instrumento que seria usado pelo outro demônio falecido, uma grande corrente, e prende com extrema violência o pescoço do ser.

- Surpreso, não? Você não significa nada perto do que já lutei.

Com a mesma velocidade que havia se tornado um demônio, Dante retorna a sua forma humana e vira seu rosto em direção de Beatriz que o olha com um misto de medo e choque. Não havia tempo a perder com explicações. Olhou novamente para o demônio preso e falou:

- O que vocês querem com uma humana?

- Você pode me matar, mas o ritual já foi iniciado. Não há nada para impedir. Logo, ela voltará para seu lugar, quer queira quer não. Seu corpo pede por isso. – disse em um tom rouco.

- Explique-se melhor. – Dante fala segurando com mais força as correntes.

- Humanos buscando união com demônios. Essa história é antiga... Ela vai ser usada no “Sacrifício Maior”. Pergunte para ela se a sensação até agora não foi prazerosa, isso se ela se lembrar.

Com um sorriso o demônio termina sua frase e encara Beatriz que recua.

- Eu não sei do que você está falando...

- Logo você se lembrará. As drogas são fortes, não é mesmo? Você pode me matar! Não direi mais nada! Isso vai terminar mais rápido que você imagina. – o demônio gargalha de toda a situação criada.

Dante o interrompe cortando seu corpo em dois. Um líquido de cor azulada escorre pela parede e suja todo o rosto de Dante que depois de observar o corpo do demônio desmaterializar no chão volta-se para Beatriz.

- Não se aproxime! – Beatriz fala irritada.

- Assim fica difícil de conversarmos. – Dante reclama.

- Você é um demônio como eles!

- Sim e não. Um mestiço. Olhe, isso não tem a ver com o momento, eu não posso te ajudar se você não colaborar.

- Agora você decidiu me ajudar? Como eu posso confiar em você, agora que...

- Você veio aqui. De todos os lugares possíveis você veio aqui. Sem saber o porquê da escolha. – Dante suspirou – Eu não mordo.

- Isso não é engraçado, mas tudo bem. – Beatriz sentou-se em uma das poltronas destruídas pelo fogo e fitou o local onde o resto do demônio estava.

- Olhe a minha casa... Espero que tudo isso seja realmente interessante. – Dante reclamou antes de começar o interrogatório:

- Você não se lembra de mais nada? Um lugar talvez? Ele disse que logo se lembraria. O efeito das drogas já deve estar passando.

- Só espero que não demore. Ele disse que meu corpo pediria para voltar, o que será que isso significa?

- Não tenho idéia. Deve ser parte do ritual. Algo grande, pelo o que entendi. – Dante a encarou antes de continuar — Demônios e humanos... Essas uniões nunca terminam bem.

- Ele não clareou muito o caminho... Eu já me lembrava que era alguma coisa relacionada à seita.

- Ele disse “Sacrifício Maior”. Não estamos mexendo com qualquer coisa.

Beatriz levantou-se sem conseguir esconder sua decepção. Caminhou distraidamente pela sala destruída sendo vigiada pelos olhares atentos de Dante.

Mal havia começado a andar foi pega por imagens em sua cabeça. Imagens que clarearam seu caminho escuro. Parou de repente no meio da sala absorvendo algumas informações.

- Estranho... Minha cabeça. Acho que ela está pregando peças em mim – apoiou-se na parede e fitou o vazio demoradamente. Dante observava tudo aquilo com um ar de curiosidade, mas decidiu esperar por alguma reação de Beatriz. Se o que ela estava sentido pudesse ajudar em sua caça, era melhor esperar pacientemente.

Beatriz havia visto imagens disformes sobre um galpão, sim, ela se lembrava daquele local... Era frio e sujo. Eles tinham posto algumas cadeiras em volta de um altar. Ela chegou lá vendada. Haviam dito que tudo daria certo e que ela era muito corajosa. Ela estava com medo, mas mesmo assim continuou caminhando vendada até o altar. Assim que ela viu o local seu corpo estremeceu e todo seu íntimo pedia para voltar... Seria possível? Eles falaram que ela seria responsável por algo grande, mas ela não sabia o que era. Somente quando a fizeram beber algo adocicado e quente que ela percebeu que aquilo era errado. Um homem alto e com voz grave iniciou a leitura de um mantra e ela perdeu toda a noção de tempo. Vozes distantes... Línguas estranhas. A bebida havia surtido efeito, ela via até mesmo uma figura conversar com ela, dizendo palavras sensuais... Seria um demônio?

- Ele me queria, mas eu fugi. – a visão de Beatriz havia acabado com imagens estranhas de sua fuga. Ainda difíceis de entender.

- Quem?

- Eles queriam despertar um demônio e me usariam como corpo. Era um sacrifício, mas eu não sabia... Agora eu me lembro – Beatriz apoiou-se na parede e falava de forma distante como se ainda estivesse em outra dimensão. – Pareciam humanos para mim. Eu não sei como fugi, talvez... Talvez algo saiu fora do controle.

Dante levantou de onde estava e caminhou até a jovem.

- Eu estava gostando... Até acordar. Parecia estar me completando. Demônios devem ter esse poder.

Seu tom era sensual, como se todo o ritual fosse prazeroso. Dante tentou ignorar a sensualidade de Beatriz.

- Você sabe aonde é o local?

- Agora eu sei. Eu corri muito até chegar aqui.

- Vamos então. – Dante decidiu acabar logo com essa história e saiu em direção à porta.

Beatriz o observou atentamente antes de segui-lo.