Quando se está submerso tudo fica de certa forma inaudível. As sensações são cortadas pela metade e é fácil ser tomado pelo desespero. O corpo dele demorou a reagir enquanto era engolido pelo oceano. Doto Insólito ainda podia sentir os braços de Deplório o comprimindo. Os pulmões inundaram rápido e sua consciência foi esvaindo-se.

O abraço de Deplório não só quebrou seus ossos, mas também o fez engasgar-se com seu próprio sangue, que surgia das perfurações que as costelas fizeram nos órgãos internos. Ser esmagado por um Absário era uma forma terrível de chegar à morte, estava além do que Doto concebera segundos antes de ser comprimido nos braços de Deplório, quando já tinha se dado conta que não havia mais chances de sobreviver.

Quando eles mergulharam juntos no mar, seus sentidos já não funcionavam bem, de modo que só havia espaço para um sentimento derradeiro: o amor por Eliff. Em uma fração de segundos, lembranças do beijo doce dela, do brilho dos seus olhos, de como eles davam as mãos, de seu cheiro e de todas as demais lembranças de uma alma em processo de evasão permearam sua mente. A morte vinha devagar, desatando cada conexão entre alma e corpo.

A sensação da morte se aproximando era algo muito mórbido, pois ela vinha sorrateiramente, como uma paciente aranha a embalar sua presa nas teias. Doto sentia seu espírito desvincular-se do corpo e, em seguida, flutuar lentamente para cima. A sua frente, tomada pela escuridão, via se projetar uma enorme escada para cima. Em poucos segundos, ele estava de pé, diante de mais de novecentos degraus tortuosos e velhos, que se perdiam muitos metros acima, como se levassem ao céu. No topo da escadaria havia uma luz, como a entrada de um portal. Seria aquela a abertura para o Vale? Ele se perguntava se o Deplório teria mentido a respeito da existência do Vale. De toda forma, ir para lá era sua única esperança.

Doto se sentia como um moribundo desprovido de emoção, que não tinha em seus atos mais que a apatia de um cadáver, subindo degrau por degrau para a luz eterna. Entretanto, após percorrer alguma extensão da escadaria, ouviu soar um cochicho:

⸺ Ora, ora, o que temos aqui? O que faz neste lugar tão impróprio para você, meu coelhinho? Venha, vou te levar pra um lugar melhor.

Em meio às palavras irônicas que surgiam de baixo, Doto sentiu um tentáculo comprimir sua canela esquerda e o puxar. Ele se desequilibrou e caiu de punhos nos degraus.

⸺ Não resista, coelhinho. Você vai conhecer minha toca, garanto-te que é mais confortável do que subir estes intermináveis degraus. – Doto ouvia enquanto era puxado novamente, ficando pendurado à beira da escadaria.

Em um movimento brusco, Doto foi arrancado dali e sentiu o corpo despencar de uma altura indefinível na escuridão.

* * *

De todas as sensações que se podiam sentir, aquela era a mais agressiva. Não se tratava de algo exatamente físico, pois o maior peso estava concentrado na bagagem da consciência. Doto caíra em um local raro, extremo, obscuro por sua natureza. E esse lugar era chamado de Absísmio, um nome que trazia o significado de erro, defeito, falha.

Não se tratava precisamente de uma localidade, pois não ocupava lugar no espaço e era composta de um eflúvio muito raro da energia, o que o tornava inconsistente. Não se sabia dizer exatamente o que ele trazia de tão traumático, mas parecia ser apenas fruto da imaginação, sensações criadas pela mente, algo confuso e penetrante.

Doto sentia esvair sua lógica, entrar lentamente na inconsciência profunda, sentia abandonar seu corpo, ceder sua força. E de repente lhe parecia ser apenas um sonho, ou um pensamento forçado, induzido. Mas havia algumas coisas que não deixavam de ser sentidas e afetavam a todos que por lá estavam ou estariam um dia. E dessas coisas a mais relevante era a dor, pois aquele local era inundado de sofrimento.

Então, aquele pobre indivíduo começou a sentir os infortúnios do momento. Sentiu um aperto muito forte no coração, como as contrações de um ataque fulminante. A dor o levou a fechar seus olhos e, quando ele os abriu, não enxergou nada. Embora não estivesse plenamente consciente, ele podia distinguir seus martírios, que agora agravavam-se por fortes enjoos e dores musculares.

O enjoo era uma reação ao cheiro insuportável de carne estragada que surgira repentinamente. Esse conjunto de percepções era confuso, pois não se podia enxergar nem sentir o solo, era como estar flutuando na escuridão, ter sua alma puxada e arrastada contra a própria vontade. Então, uma voz grave e ecoante surgiu na cabeça de Doto, dizendo-lhe:

⸺ Seja bem vindo, meu hóspede! Acaba de chegar à casa do Parasita.

A voz era muito mais que horripilante, pois enunciava com ares de sadismo e ironia. E Doto não podia identificar de onde ela vinha, já que não enxergava absolutamente nada. Ainda que enxergasse, aquela voz não poderia ser descoberta, pois parecia ser oriunda não de ondas sonoras e sim de um tom profundo da mente, pois estava impregnada na cabeça de quem a ouvia.

⸺ Não tenha medo, aproxime-se, coelhinho!

E Doto sentiu um cheiro pútrido muito mais forte do que o anterior e vomitou. Quando deu conta de si, percebeu que estava deitado de barriga para baixo em um chão arenoso e que seu vômito o havia sujado. Então começou a tossir repetidamente e entre os espasmos vomitar novamente. Ao olhar em volta de si, percebeu que ainda estava escuro e tudo o que podia ser visto era mesmo aquela pequena parcela do chão de terra vermelha, era como se a luz escassa caísse somente sobre ele.

Doto teria tentado se levantar e se defender de alguma coisa, mas estava fraco e zonzo. Antes que pudesse raciocinar o que havia acontecido, a voz longínqua surgiu novamente emitindo risadas de tom grave e monstruoso.

⸺ Não se acanhe, você agora é propriedade minha. Já não possui sua costumeira disposição, pois eu a roubei! E ainda tenho muito proveito a tirar desse seu corpo frágil.

Então o pavor começou a atinar a cabeça de Doto, pois aquilo era terrível e amedrontador. E ele tentou engatinhar, mas seus joelhos deslizaram sobre o vômito e ele caiu. E parecia que uma criatura horrenda estava por perto e se aproximava pelas costas fungando sua nuca. Ali, naquele cantinho imerso na escuridão, ele sentou-se para ver o que o farejava. Mas não havia nada!

⸺ Não seja tolo, garotinho! Você não pode me ver, pois eu sou tudo e estou em todos os lugares ao mesmo tempo. E antes de moer seu corpo terei prazer em desfrutar o recheio dele.

E, como se tivesse sido atingido por uma forte enxurrada, sentiu o corpo ser derrubado. E sentiu também todo o cansaço do mundo abater-se sobre suas costas e o depredarem. Sua força era sugada como se houvesse um cano ligado ao corpo para absorver seu ânimo. Mas uma última tentativa de oferecer resistência o colocou de pé e ele percebeu que não havia para onde correr, pois agora perdera os movimentos. Ali não pode mais falar nem se debater.

E ele estava atirado ao desespero, submisso à dor. Seu corpo já não reagia a uma condição tão corrosível como aquela. E, abrindo seu peito para a morte, escancarando sua angústia sob os olhos famintos do Parasita, ele fraquejou e deixou estar. Em um tombo fúnebre e ecoante, embalado pelo pensamento imundo daquele ser, seu corpo tomou o chão, espalhando por todos os lados a poeira do emudecimento. E desse silêncio pesado e áspero veio a solidão que um dia o Criador sentiu.

Com os olhos fixos no ignoto, vagos como os próprios pensamentos que jaziam na mente, ele vegetou e por lá esteve durante muito tempo. A escuridão e a fome estiveram ali vigiando aquele homem, que já não passava de um punhado de trapos envoltos pela desgraça. E um dia, o Parasita, percebendo que abatera mais uma vítima, lançou sobre o indivíduo os olhos soberanos e enojados das trevas e enunciou:

⸺ Consumam a carne deste verme infeliz! Agradeçam pelo generoso alimento que vos trago e deem-me a pouca luz que lhe resta, pois esta é para mim e ai daquele que a cobiçar!

Assim, surgiram da turbidez do desânimo olhos negros e brilhantes, úmidos como o choro, e se aproximaram com desespero do corpo que repousava sobre a escuridão. E muitas bestas nefastas e horrendas se debruçaram sobre o corpo flagelado, disputando cada pedaço daquele ser, alimentando-se, primeiramente, da felicidade remanescente da áurea e depois da matéria tendenciosamente física.

E quando Doto já estava inconsciente, uma pequena luz dourada, de forma quase esférica emanou de seu corpo e começou a se despedaçar lentamente, flutuando a poucos centímetros de seu peito. A luz atraiu o Parasita, que surgiu do escuro na forma de uma criatura enorme, mas que não podia ser vista na penumbra. E ele lançou sobre Doto um membro grande com dedos muito longos e finos, de pele úmida, coloração amarronzada e textura enrugada.

Quando as garras se aproximaram, os bichos que se alimentavam do corpo de Doto evadiram-se com rapidez e medo, deixando com que a mão apanhasse Insólito pelas pernas, segurando-o de cabeça para baixo a um metro e meio do solo. A luz manteve-se próxima a ele, acompanhando o balançar do tronco. E da escuridão mais profunda e infecta, surgiu a cabeça de uma besta terrível, com olhos pretos e brilhantes.

A criatura abriu a boca e começou a alimentar-se da esfera dourada, desfazendo-a com os dentes afiados. Quando isso aconteceu, os últimos sinais vitais de Doto começaram a decair e seus órgãos entraram em paralisia. Aquele era o prenúncio de sua morte e logo ele padeceria. Entretanto, enquanto o Parasita consumia sua luz, uma lança afiada surgiu da escuridão e perfurou seu olho direito.

Imediatamente, a criatura abandonou o corpo de Doto e recolheu-se novamente para as trevas, agonizando de dor, emitindo um som asqueroso como o de um javali. Quando isso aconteceu, a parte restante da esfera dourada recolheu-se fugazmente para o peito de Insólito, devolvendo uma lucidez muito sutil e frágil. E seus olhos permitiram que ele visse um homem se aproximar e dizer:

⸺ Deixe-o em paz!

⸺ O que o faz pensar que pode levar meu alimento? Respondeu o Parasita.

⸺ Isto não é seu alimento! Volte para seu lugar.

Então ouviu-se um grito de raiva absurdamente alto, grave e rouco que ecoou às mil vozes e o Parasita surgiu novamente. Doto não pode ver o rosto dele, mas viu sua sombra cobrir-lhe e parar repentinamente. O animal aproximara sua cabeça a meio metro do guerreiro e congelara seus movimentos como se tivesse sido tomado por um pavor repentino, uma profunda hesitação. E os olhos da besta se arregalaram.

⸺ Perdoe-me, nobre Pareador. Não se ofenda com meus atos, pois foram motivados pelo engano. Não pude reconhecer-te na penumbra. Aceite meu sincero perdão e sinta-se a vontade para saborear qualquer produto que lhe for degustável. — Disse o Parasita.

⸺ Levarei apenas esse pobre homem e o manterei sobre meus cuidados. — Disse-lhe.

A criatura, então, recolheu-se lentamente para o vazio de onde viera e Pareador apanhou o corpo de Doto e o levou embora. Insólito nunca havia chegado tão próximo da morte, ele tangenciou a inexistência, raspou os grãos do perecimento. Pelo próprio desgaste que o Absísmio impunha sobre os corpos ou pelo ataque do Parasita, Doto não tinha mais forças para agir e sua consciência ia e vinha como o ar desesperadamente aspirado em um afogamento.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.