Illéa e Nova Ásia: Dois reinos, uma seleção.
12 Alice Salvatore
Notas iniciais
“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura” — F.W.Nietzche
Alice Salvatore tentava – em vão- conter as fantasias de seu cérebro. Estava inspirada, e mais do que nunca desejou ter papel e caneta ou uma máquina de escrever, algo que pudesse concretizar suas ideias. Desde muito nova queria ser escritora, embora também se saísse bem nas outras artes. Sempre buscava inspiração nas coisas do dia a dia, e a seleção se revelou uma ampla fonte que jorrava tal criatividade. Esforçou-se para não se esquecer da ideia que tivera e voltou a ler o livro que estava em suas mãos. Se tratava de um livro futurístico em que a protagonista ia para um jogo de matança, vinte e quatro jovens, mas apenas um sobrevivente. O livro, apesar de se ambientar no futuro, era muito antigo, fazendo com que Alice manuseasse-o com enorme cuidado – afinal, ela não queria que estragasse.
— Senhorita Alice, poderia nos dizer o que pode ser mais interessante do que ouvir minha explicação? — Constance falou, fazendo com que a selecionada corasse.
— Desculpe. — Disse a selecionada de belos olhos azuis esverdeados.— Estava falando sobre o que?
Constance suspirou, depois continuou sua fala.
— Falava sobre o príncipe Jonathan e seu pedido de desculpas por ontem. Ele não está se sentindo muito bem hoje, porém mandou-me dizer que está arrependido. Disse ainda que as senhoritas não têm culpa alguma sobre o ocorrido, ele anda cheio de preocupações e descontou nas selecionadas. Está muito arrependido.
Alice ouviu algumas selecionadas murmurarem em apoio ao príncipe, mas também ouviu algumas chamando-o de “falso” e “mimado”. Ela se concentrava na pequena porcentagem de garotas em cima do muro, que julgavam ser cedo demais para tomar uma decisão concreta. Constance retomou a fala, dessa vez conversando sobre as traquinagens do dia anterior . Vendo que aquilo terminaria em um belo sermão, a selecionada voltou a ler o livro que pegara surripiara da biblioteca do palácio – Claro que iria devolver. Suas pulseiras tilintavam todas as vezes em que ia mudar de página, então acabou por tirá-las e deixa-las repousadas na mesinha que estava ao seu lado. Nunca ligara muito para magnificência em roupas e acessórios, preferia que usassem tal adjetivo em palavras e pensamentos, quem sabe as pessoas parassem de ser tão fúteis se soubessem aonde depositar o luxo.
— Meu Deus, essa mulher não sabe ficar quieta. — Alguém que se aproximara sem que Alice percebesse disse. — Estou ficando com sono.
— Se te serve de consolo, também estou com sono. Constance se empolga demais com as coisas.
A selecionada ao lado de Alice bufou.
— Como se chama? — Indagou.
— Alice. Digo, Alice Salvatore. E você?
— Amber Victoria Ashes.
— É um belo nome. — Elogiou
— Eu sei. Minha mãe costumava ter um bom gosto.
— Costumava?
— É uma longa história. Mais longa do que esse sermão de Constance. O que está lendo?
Alice olhou para a capa do livro, mas viu que o título estava apagado.
— O título está apagado, mas é muito bom.
— É criativo?
— Como? – Indagou, confusa.
Amber repetiu a frase.
— Ah, sim, é bem criativo. Eu jamais pensaria em algo assim.
— Eu gostaria de ter pensado em algo assim antes que a autora publicasse.
— Gosta de escrever? — Indagou Alice, entusiasmada.
— É um hobbie. As garotas continuaram a conversar por um longo tempo. Entretanto, as portas do salão se abriram e revelaram príncipe Liang.
— Perdão, senhoritas, estou interrompendo algo importante?
— De modo algum, Alteza. – Constance disse. — Aconteceu algo?
— De fato, aconteceu. Preciso conversar com a senhorita Margarette Buford.
Margarette, que estava mexendo em seu cabelo, automaticamente olhou para o príncipe.
– Sou eu. — Disse, depois acrescentou baixinho, de uma forma que somente as selecionadas mais próximas poderiam ouvir. — Parece que já temos uma rainha. Podem chorar.
Com uma risadinha, andou lentamente até o rapaz. O vestido que usava era vulgar, apesar de ser longo, e seus cabelos louros estavam ajeitados em um belo penteado trançado. Margarette tinha uma beleza comum, mas de que adiantava ser bela quando tinha um coração tão mal?
Fez uma longa reverência, de forma que seus avantajados seios pudessem ficar à mostra no decote de seu vestido. Entretanto, o príncipe não estava olhando para ela.
Liang indicou para que ela saísse primeiro do cômodo, e a selecionada obedeceu. Quando o rapaz saiu, fechou a porta atrás de si.
— O que será que ele quer? — Alice indagou à Amber.
— Eu queria ser uma mosquinha para poder ouvir. Margarette já se achava antes, agora então...
— Vai ser insuportável. — Concluiu Alice, recebendo um aceno de cabeça como sinal de concordância. — Por que a garota má sempre se dá bem?
— Eu não diria que Margarette é má, apenas egoísta e mesquinha. Até agora,Não fez maldade alguma.
— Bom, não que nós ficamos sabendo.
Um ou dois minutos se passaram, mas ainda era possível ouvir os murmurinhos das garotas. Alice foi tomada por uma imensa vontade de usar o banheiro, e após pedir permissão para Constance, saiu do salão. Por sorte, seu quarto ficava apenas um andar acima de tal salão.
Já tendo saciado suas necessidades, voltava tranquilamente para o salão das selecionadas. Enquanto cantarolava, se perdeu do caminho.
Foi então que ouviu a voz de Liang.
— Senhorita, isso não é um encontro, já lhe disse mil vezes.
Alice escondeu-se atrás de um vaso, ansiando por ouvir mais. Ao lado de uma porta que dava acesso ao jardim, estavam Margarette e Liang, embora o príncipe estivesse com uma expressão de tédio.
— Fico feliz por ter sido reconhecida, Alteza. — Disse a selecionada, com sua voz estridente e terrivelmente aguda. — Se me permite dizer, as outras garotas se comportam como animais e...
— Basta! — Se zangou o príncipe. — Tenho algo muito sério para tratar com a senhorita.
— Diga.
— Ontem, recebi uma notícia nada agradável. Tal notícia envolve você.
— Sou frequentemente noticiada, Alteza. Meu pai é dono de uma das maiores jazidas de...
— Os patrimônios de seu pai não são de meu interessa. No entanto, o bem estar dos meus criados é de minha total responsabilidade.
A garota se calou.
— Sabe, estou terrivelmente decepcionado com a senhorita.
— Mas não fiz nada de errado.
— Jogou sopa e xingou uma criada. Isso lhe parece certo?
— O incidente da criada? Foi um acidente, Alteza, eu respeito muito todas as pessoas.
— Acaba de ofender as suas colegas de seleção, para mim, isso não é respeito.
— Não irei negar, eu realmente a ataquei com a sopa. Porém, a criada fez algo terrível, e de propósito.
— Pelo o que me foi dito, ela te deu uma sopa quente.
— Foi exatamente isso.
— Já me queimei várias vezes com comida quente, senhorita. Assim como me espetei com agulhas,mas nunca ousei ofender ou machucar um criado por conta disso. Respeito é algo essencial para avida.
Margarette estava de costas para o campo de visão de Alice, porém imaginar a expressão dela chegou a ser engraçado.
— A criada foi fazer fofoca para você, Alteza?
— Não precisa saber se foi ela quem me contou ou não. Te darei mais uma chance, senhorita, mas considere-se avisada: Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
— Não irá acontecer novamente. — Disse, embora soasse como uma promessa vaga.
Vendo que o assunto havia se acabado, Alice saiu rapidamente e seguiu até o salão das mulheres. Quando Margarette voltou, inventou uma mentira qualquer sobre o príncipe ter elogiado-a. Alice conteve a vontade de desmenti-la e rir no meio do salão.
Bônus: Criada Aurea
Que as paredes tinham ouvidos todos já sabiam, mas nada se comparava ao guarda Edward.
— Eu juro pela alma da minha bisavó. — Disse ele. — O príncipe estava chamando a atenção de uma das selecionadas.
Os criados estavam reunidos na cozinha, ouvindo a narrativa de Edward. Em alguns minutos, a lista de novos criados dos príncipes seria divulgada, mas Aurea duvidava que sua ansiedade conseguiria aguentar até tal lista ser revelada.
Ela queria aquele cargo. Odiava ficar trancafiada na cozinha, ouvindo as fofocas das mulheres mais velhas. Seria meio irônico ela, que sofrera inúmeros abusos na mão do homem que a gerara, servisse a um outro homem. Mas era corajosa e forte, aguentaria a pressão.
Esmeralda, a encarregada pela organização das criadas, adentrou na cozinha.
— Vejo que estão tendo muito trabalho. — Reclamou ela.
Os criados se afastaram de Edward, deixando-o na mira do olhar quase fatal da bela mulher negra.
— E quanto ao senhor, guarda Edward? Pelo o que eu saiba, deveria estar trabalhando.
Ele, pedindo desculpas, saiu depressa da cozinha. Após uma bronca, Esmeralda desdobrou o papel que estava em suas mãos. Aurea sentiu a garganta apertar, queria poder espiar o que estava escrito, porém sua altura não permitia. Por que diabos Esmeralda tinha de ser tão alta?
— Carrego aqui o nome dos cinco novos criados que servirão aos príncipes. Tudo foi decidido pela competência, educação e habilidades físicas, Não é nada fácil servir a alguém de tão alta nobreza...
— Deixe o converseiro pra depois! — Alguém gritou.
Esmeralda fico ligeiramente zangada, limpou a garganta e começou a falar:
— Os escolhidos são: Theresa, Agnes...
Os nomes foram quase uma tortura para Aurea. Apertava a barra de seu vestido de criada freneticamente, ansiando por ouvir seu nome.
— Effy, Richard e Aurea.
Alguém veio lhe dar os parabéns pelo cargo, mas ela nem escutou direito. Apenas queria comemorar o cargo que tanto pretendia, queria gritar bem alto para todos ouvirem.
Ela era Aurea Monreal Olsen, a nova criada do príncipe Liang.
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