I'll be your pillow.

1 Looking too far, back and forth.


Notas iniciais
Olá! Não sei quantas pessoas precisam dessa informação, na verdade. Eu sempre escrevo Harry Potter, já escrevi originais e outros gêneros, porém nunca publiquei. Contudo, acho que ás vezes é necessário mostrar outros interesses que me formam. It's Kind of a Funny Story foi um livro que eu li numa época difícil, considerando que eu tenho várias, li o livro após ver o filme que também assisti em um dia complicado. Sei que corri atrás desse livro e o encontrei em uma livraria em São Paulo, um dia antes de dormir em um aeroporto. Li nessas horas em que estava lá. Gostaria de dizer que não, mas eu e Craig somos os mesmos em tantos aspectos que eu não sei nem explicar e eu e Noelle tomamos atitudes diferentes na vida para os mesmos acontecimentos, e a mesma atitude por diferentes motivos - sei que não estou fazendo um bom trabalho em explicar, mas River Song diria "spoilers...". Acredito que não posso sair por aí dando depoimentos de como é viver uma vida com uma mental illness ou mental disorder, porque nunca tive coragem de dar aquele passo que procura o diagnóstico por medo, mas sei o que é encontrar conforto em uma leitura. Bem, essa nota é para explicar porque - mesmo que ninguém leia - estou publicando uma fic de It's Kind of a Funny Story. Beijos sz

Craig passou os dedos sobre o relevo das cicatrizes de seu rosto, agora ela parecia não estremecer mais ao seu toque e resistia a necessidade de empurrar sua mão, delicadamente ou não. Não gostava que lhe apontassem o quão bonita era ou como os cortes pouco tinham afetado sua beleza jovial tão angelical, que não era a garota horrorosa que acreditava ser. Era estranho saber que as pessoas realmente faziam esse tipo de comentário.

A mãe dela pensava nas cirurgias que poderia fazer para aliviar as marcas dos riscos que fizera por conta própria.

– O que foi mãe? Não gostou da nova decoração? – Costumava repetir sempre que a via ao telefone com os cirurgiões plásticos que a cobrariam algo parecido com o valor anual de uma faculdade comunitária.

Não precisava disso. As cicatrizes eram parte de Noelle e Craig esperava que quando a tocasse ela soubesse que ele a via por completo.

Aquela era Noelle e ela sentia que as pessoas não a compreendiam e, como poderiam? Poucos deles teriam a coragem de encontrar um objeto cortante, como a tesoura que usara, e simplesmente forçá-lo contra sua pele. Poucas pessoas sabiam da sensação de alívio misturado a culpa que esse simples ato trazia. Culpa de saber que está fazendo algo errado e destrutivo a si mesma, algo que não faria novamente; culpa de saber que se em algum momento seu cérebro mostrasse que existiam outras soluções menos drásticas, não teria marcas no rosto. E o alívio de saber que existia uma dor diferente da que sentia para sanar, de saber que tudo mudaria e jamais a veriam do mesmo jeito. Era o que queria: que nunca mais a vissem como objeto.

Diriam que não se tratava de audácia, sim de covardia. Entretanto, Noelle sabia que covardia era fingir que tudo estava bem até que não estivesse, era deixar alguém que não devia tocar seu rosto, seu corpo e por fim seu espírito. Deixar com que a perturbassem, com que a desmoronassem.

O mundo é um lugar maldito. Pensava nisso todos os dias, menos quando olhava para Craig: o garoto que se internou numa clínica porque estava prestes a se matar. As vezes conjecturava se pensaria nisso ao invés de simplesmente fazê-lo: pular da ponte. E não era uma batalha de egos "meu problema é maior que o seu", como poderia ser? Quantas pessoas se veriam na mesma situação e ao invés de sucumbir ao desejo constante de morrer encontraria a vontade de viver?

Ela o entendia. Ele a entendia, mesmo que não soubesse de tudo o que havia para saber.

Agora ele era um garoto que desenhava mapas de partes descobertas de seu corpo até seu cérebro. Um garoto que a via nua, porém não a olhava da maneira estupidamente hormonal que todos os outros fizeram até agora. Ele a desejava, porém sempre era mais que isso. Craig era um garoto sempre nervoso, sempre hesitante no que dizer, mas sempre ali.

– Poderíamos seguir daqui para a Califórnia. – Noelle pensava que ele estava concentrado no décimo sétimo mapa que fazia de seu cérebro quando seu tom de voz a surpreendeu, porém ele mal conseguia ver outra coisa além do sol refletido na íris de seus olhos coloridos. Até sua arte parecia estúpida diante da presença dela.

Queria leva-la dali, via seu corpo em um daqueles trajes de banho, seu sorriso e talvez um chapéu que faria uma sombra bonita em seu rosto alvo e delicado. Gostaria de levá-la a praia, a festivais de música e ao fim do universo se ela o quisesse.

– Por que iríamos a Califórnia? – Ela perguntou, de bruços na toalha esticada no gramado do Central Park. Era realmente bonito no início do outono, já que ainda não estava frio o suficiente para se cobrirem de casacos, porém existia uma brisa suave que tornava o ato de "ficar junto" irresistível.

– Por que não? — Craig indagou com um sorriso, deslizando os dedos por suas costas sobre o sueter azul que usava com frequência desde que Craig dissera que lhe acentuava a cor dos olhos.

Não torcia para que ele dissesse o quão linda ela era, apenas que continuasse reparando nos pequenos detalhes que a faziam mais ela que qualquer beleza que diziam que tinha. Aspirava que continuasse propondo voltas ao mundo e visitas ao Palácio de Buckingham, talvez ao Atacama no mês de julho. Ansiava que continuasse querendo vê-la. Vestida ou não.

– As pessoas da Califórnia são muito felizes. – Girou os olhos e virou-se para ele.

Magrelo, alto e esquisito. Possuía um rosto de nerd que lhe era natural, seus cabelos tão negros que pareciam tingidos. Tinha a impressão de que ele sempre sabia de algo que ela não sabia e isso a divertia mais do que ele achava que deveria. Ela gostava de como seus jeans escuros contrastavam com as camisetas coloridas demais que sua mãe insistia que vestisse (talvez achasse que camisetas amarelo-ovo funcionavam mais que Zoloft no combate à depressão) e como ele se sentia rebelde com um sorriso bobo quando a desafiava colocando uma camisa jeans por cima.

– Acho que não nos misturaríamos direito então. — Pareceu ponderar, encostando a cabeça a dela, olhando-a de soslaio enquanto fingia admirar o céu.

Estava ensolarado, poucas nuvens o cobriam e nenhum pássaro barulhento desafiava a gravidade cantando e se aventurando a destruir a calma e a paz do casal. Por baixo do suéter, ela usava um vestido que lhe exibia as panturrilhas e um tanto de suas coxas, sobretudo quando se mexia para encará-lo.

– Se bem que se eu morasse sob o céu cinzento de Londres ou debaixo dos bancos do Central Park, contanto que com você, seria mais sorridente que as pessoas da Califórnia inteira. – Ele sorriu e ela viu que era genuíno.

Era difícil pensar em um longo prazo quando eram dois navios muito próximos ao naufrágio a qualquer momento. Quando eram dois trens que poderiam ou não se colidirem no caminho ou simplesmente voarem de um precipício. Era horrível pensar nisso quando ele sonhava em pular da ponte do Brooklyn (as vezes da de São Francisco também) em noites difíceis.

Contudo, era difícil imaginar um futuro sem Craig: aquele que tocava suas cicatrizes internas e externas. Sem medo, sem repulsa.

Pensou em dizer aquilo a ele. Pensou que talvez não fizesse bem a ansiedade dele depositar seu futuro em suas costas, pensou na ausência de coragem em finalmente dizer que há meses, desde que saíram da ala psiquiátrica de adultos, ele funcionava melhor que qualquer antidepressivo que vinha tomando.

Estava certa de que diria que o amava em algum momento, antes que o amor adolescente deixasse de ser eterno.

– Talvez devêssemos nos mudar para um palácio de gelo na Islândia. – Sugeriu com um sorriso que ele sabia ser de puro amor.

– Por quê? — Perguntou, com a testa colada na dela.

– Por que não? — Encostou os lábios nos dele, que ouviu todos os fogos de artifício e baterias de bandas marciais, agudos de Freddy Mercury e aquela leve sensação de dormência combinada a euforia que sentira desde o primeiro dia.

– Porque gosto dos seus vestidos de verão e das suas camisetas infames. – Craig respondeu simplesmente, fazendo-a rir. Era um som que ele adorava, ainda que adorasse tudo que lhe fosse proveniente. Gostava de ser o motivo dessas risadas. – Escute, Ellie...

Era a única pessoa no mundo a chama-la de “Ellie”. Ainda achava estranho, porém num nível fofo. Como se Ellie fosse uma nova Noelle, com quem seria interessante rir e fazer piqueniques no parque, inclusive namorar.

Gostava de ser Ellie.

– Sim. – Respondeu finalmente, ele roçou mais uma vez os lábios nos dela.

– Você gosta de música?

Ela riu e o socou no ombro de leve, lembrando-se de quando ele a chamou para sair pela primeira vez. Notando seus olhos pensativos, a abraçou até que o corpo dela rolasse para cima do seu.

– Porque eu gosto de você como eu gosto de respirar. – Falou sem tirar os olhos dos dela que abriu o sorriso do tamanho do mundo.

Era difícil para Craig descrever o que sentia quando ela o beijava múltiplas vezes. Porém uma das palavras era: normal, finalmente. Alguém inteiro enfim, e não era porque como peças de quebra-cabeças de manicômio eles se completavam, mas sim porque ela controlava os químicos do seu cérebro com facilidade naquela sequência conhecida: fogos de artificio, baterias de bandas marciais, agudos de Freddy Mercury e a sensação de dormência combinada a euforia.

E mesmo que alguns dias fossem mais complicados que os outros, mesmo que transitassem de Zoloft para Xanax, que tivessem que aprender a lidar com todas as desordens de suas mentes; a maior loucura seria não se amarem, não atravessarem a cidade de bicicleta para se encontrarem, não se beijarem nas primeiras e possíveis oportunidades e não se darem as mãos nos momentos que sabiam que seriam difíceis, porque um não poderia curar o outro, quem poderia? Contudo, isso não queria dizer que não podiam ser a felicidade um do outro.

Poderiam ser o que valesse a pena.

Notas finais
Se você chegou até aqui, obrigada :)Me diz o que achou!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!