I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
15 Girlfriend?
Clara
Abri o imenso closet da Marina e antes de pegar uma peça de roupa pra mim, olhei aquele mar de tecidos por alguns minutos. Marina não era adepta de muitas cores, havia uma peça ou outra verde, azul, roxo... Mas o preto predominava. Talvez porque ela soubesse que aquela cor se destacava em sua pele branca.
– Eu limpei o espelho, depois a gente arruma o resto – disse Flávia me tirando dos devaneios. Suas mãos estavam manchadas de vermelho, mas ela parecia não se importar com aquilo naquele momento.
Assenti e peguei uma blusa de manga ¾ e uma calça de tecido leve que lembrava a calça do Aladin. Sentir aqueles tecidos em meu corpo era como sentir a Marina em mim e eu só queria poder senti-la junto a mim novamente.
Eu nem sabia direito para onde iríamos, mas Deus do céu! Nós íamos para algum lugar, juntas. Recomeçar de onde paramos, escrever nossa história de novo... Não sei...
Minha cabeça parecia a beira de explodir. Pedi à Flávia algum comprimido que aliviasse aquele incômodo e ela não demorou a trazer uma aspirina que engoli a seco.
– Você falou com a mãe dela? – perguntei colocando minhas roupas molhadas numa sacola.
– Liguei! Ela já foi para o hospital.
– Certo. Eu preciso passar em casa para explicar o que aconteceu. Meu celular está ligado, fala pra Vanessa me ligar se tiver qualquer novidade.
– Tudo bem, Clara. Pode ir tranquila que qualquer novidade eu te aviso.
Não me recordo qual era meu grau de intimidade com aquela morena alta de sobrancelhas tão perfeitamente delineadas, mas quando avancei em sua direção com os braços estendidos ela não recuou e me acolheu como se fôssemos velhas amigas.
Quando coloquei os pés na área externa levei um susto.
Havia carros de variadas emissoras em frente a casa. E provavelmente haveria repórteres e câmeras ali.
Senti a Flávia parar atrás de mim. Olhamo-nos e sem saber o que fazer pedi que ela me ajudasse com aquilo. Eu mal havia voltado para a vida da Marina, logo não saberia lidar com o revés da fama.
Pra nossa sorte os portões eram fechados e a polícia ainda se encontrava no local. Um dos policiais veio até nós e disse que daria um jeito naquele “bando de urubus”. Agradeci e sai pelo portão lateral da casa, que pra minha sorte não havia ninguém.
Chamei um táxi para voltar para o Leblon. Não poderia me arriscar a tentar ligar o carro naquela escuridão. Só de pensar que aquele louco do Carlos Eduardo ainda estava perambulando por ai me subiu um arrepio de terror pela espinha.
Quando cheguei ao edifício onde morava desde a adolescência, havia um clima diferente. O porteiro não estava em seu devido lugar e senti como se ali estivesse mais quente que o normal.
Ao abrir a porta da casa da minha irmã coloquei a mão no meu coração que não tinha voltado a bater normalmente desde que havia visto Marina boiando desacordada naquela piscina.
Dei um passo para o lado e o porteiro saiu do apartamento me olhando como se eu precisasse de toda daquela pena que escapava de seus olhos.
– O que... – respirei fundo e esfreguei meus olhos cansados. Dei um espirro e praguejei contra qualquer indício de gripe que estivesse me rondando.
– O que está acontecendo? – perguntei encarando mãe, irmã, sobrinha e empregada – Cadê o Ivan?
– Ele ainda tá dormindo, tia – respondeu Luiza. Ela apertava uma mão na outra parecendo que seus ossos eram de borracha.
– Eu não tenho muito tempo, então vou resumir tudo o que aconteceu quando sai de casa – disse rapidamente recusando-me a sentar quando dona Chica indicou seu lado no sofá.
Todas ficaram horrorizadas com o que ouviram da minha boca e embora já soubessem do desfecho que havia acontecido, pois eu não estava enganada sobre os repórteres, não me interromperam até que anunciei:
– Vou voltar para o hospital e esperar a Marina acordar.
– Filha, você não tem obrigação alguma de ficar de plantão no hospital, quando ela acordar eles ligam pra você avisando, você precisa descansar – disse a minha mãe.
– Não é obrigação alguma mesmo, mãe. É vontade de estar ao lado de alguém que esteve ao meu lado do jeito que pôde enquanto eu estava numa cama de hospital. Vocês acham que só porque eu perdi a memória eu perdi também a capacidade de sentir? Não, não perdi. E quando eu estou perto da Marina eu sinto que há alguma coisa muito forte entre nós. Amor? Não sei, mas eu vou descobrir.
Minha mãe abaixou os olhos e coçou a cabeça bufando em seguida.
– Vocês mentiram pra mim, esconderam quem foi a Marina na minha vida...
– Nós queríamos te proteger – interrompeu-me Helena.
– Não seja ridícula, cara... Me proteger do amor? Da dedicação, da paixão, do tesão...? Que tipo de família é essa que prefere ver um membro presa a uma pessoa agressiva e traidora, a vê-la feliz nos braços de alguém que realmente a ama?
– Clara... – minha mãe suspirou e ainda não conseguia me encarar – Não foi isso que eu sonhei pra você...
– Sem esse discurso completamente sem argumentos, mãe!
Fui até a cozinha e peguei uma maçã, comeria melhor na cantina do hospital quando chegasse lá. Dei um beijo em cada uma das mulheres que estava no sofá, e senti que apenas a mais nova estava ao meu lado. Talvez, justamente por ser a mais nova, Luiza tivesse uma mente mais aberta e menos preconceituosa.
– Amanhã... Hoje – corrigi sacudindo a cabeça – O Ivan não tem escola, só judô, mas não quero ele fora de casa. Assim que a Marina acordar e eu tiver certeza de que ela está bem eu volto e converso com ele. Se puderem, não deixe que ele descubra o que aconteceu assistindo TV. Ele não precisa saber que o pai dele é um monstro. Vou passar em casa para pegar meus remédios, qualquer coisa, eu ligo se vocês quiserem ter notícias da Marina.
– Pode ir tranquila, tia. Eu tomo conta dele – garantiu Luiza me jogando um beijo.
Das outras duas recebi olhares de condenação e mais nenhuma palavra.
Cheguei em casa e fiquei parada no limite entre o exterior e o interior. Estava tudo revirado, como se um furacão tivesse passado apenas ali naquele espaço. Nem me daria ao trabalho de chamar a polícia — de novo — porque eu realmente tinha pressa em voltar para o hospital. Não precisaria ser muito esperto para saber quem havia feito as vezes de furacão.
E nem arrumaria tudo, pois além da pressa em voltar para o hospital, tinha pressa em arrumar a desordem que se instalara na casa da Marina. Era o mínimo que eu poderia fazer depois de tudo que aconteceu.
Fechei os olhos por um segundo e ao abri-los senti que nenhuma lembrança, nenhum momento feliz vivido ali tiraria a amargura e as cenas de crueldade que presenciei a menos de 24h.
Caminhei a passos lentos até o quarto e se tivesse em mãos algum líquido inflamável e uma caixa de fósforos atearia fogo naquela cama onde dormira com o homem que quase havia destruído a pessoa que eu estava aprendendo a amar novamente.
Ao abrir as portas do guarda roupa notei que a parte onde as roupas dele ficavam estava pela metade. Ri da covardia que existia por trás daquele monstro.
Ouvi um barulho vindo da sala e meu coração começou a se debater feito um louco em momento de surto. Respirei fundo e rapidamente duas vezes. Abri a gaveta do criado mudo e peguei uma tesoura que para minha sorte havia sido afiada na semana passada.
Caminhei em silêncio colada as paredes, mas para o meu alívio não havia ninguém. Tranquei a porta da sala, fechei e tranquei as janelas.
Sentei na cama tentando recuperar os sentidos e depois de alguns minutos fui até o guarda roupa pegar meus remédios.
Olhei acima das roupas e vi uma caixa que como tudo que estava ali há um ano, ou menos, eu não conhecia. Apesar da pressa aquilo me chamou a atenção.
Peguei uma cadeira e puxei a caixa. A ansiedade fez com que tudo que estava nela caísse no chão.
Uma flor seca, um pouco despetalada, perdera as pétalas que restavam na queda.
Curiosa desci da cadeira para verificar o que eram aquelas coisas.
Uma flor seca, bilhetes, um guardanapo dobrado.
Peguei a flor amarelada que não soube identificar de que cor era originalmente e a analisei minutos a fio. De repente senti como se tivesse sido sugada para outra dimensão.
FlashbackOn
Após mais um dia intenso de trabalho, enquanto Marina acompanhava as modelos até a saída de sua mansão, Clara deitava-se de bruços no tapete preto e aveludado que servira de cenário para o ensaio.
A morena se sentia esgotada e não era apenas do trabalho que havia exigido o máximo dela àquela tarde e início de noite.
Estava esgotada do casamento que já tinha data para terminar.
Aproveitava o silêncio do estúdio para começar a organizar seu discurso de término quando sentiu lábios tão macios quanto aquele veludo que tocava seu corpo, tocando-lhe as costas nuas.
Clara virou-se de frente e viu Marina posicionando-se sobre ela de modo que seus olhos e seus corpos se encontrassem.
– Cada dia que passa parece que você fica ainda mais bonita – disse Marina bem próxima aos lábios pintados de Clara.
Clara estremeceu sob o corpo esguio da fotógrafa e tocou os lábios lenta e demoradamente.
– E cada dia eu me apaixonou mais por você – retribuiu Clara deslizando os dedos pela pele rosada.
Marina fechou os olhos se permitindo aproveitar cada modificação que acontecia em suas células quando Clara a olhava ou a tocava. Ela rolou para o lado saindo de cima do corpo que a fazia perder todos os sentidos.
– Roubei pra você – disse a fotógrafa entregando à amada uma rosa de um vermelho vivo e intenso.
Os olhos de Clara brilharam e um sorriso bobo se formou em seus lábios.
– Eu amo o seu jeito de me conquistar – declarou-se Clara beijando a rosa e depois beijando Marina.
– Inventarei mil formas para te conquistar se for preciso.
– Não será preciso. O que é seu ninguém pode roubar de mim, de você, de nós. Eu já sou sua Marina.
A fotógrafa, emocionada, puxou Clara para seus braços e a beijou com ardor. As respirações pesadas se encontravam enquanto as mãos que já conheciam tão bem todos os pontos e curvas dos corpos se permitiam ser livres.
– Tenho que te contar uma coisa – disse Clara interrompendo o beijo.
Marina ergueu uma sobrancelha e tirou os óculos.
– É muito importante e eu quero que você nunca se esqueça disso.
– Você está me assustando – disse Marina tentando afastar todas as hipóteses negativas que surgiam em sua mente.
Clara deu um sorriso que não aquietou os pensamentos de Marina.
A fotógrafa prendeu a respiração e se concentrou em Clara como nunca havia feito.
– Eu te amo – declarou-se Clara segurando a mão de Marina junto a sua em seu peito.
– Caralho... Você quer me matar do coração? – perguntou Marina deixando as lágrimas de susto descerem por seu rosto.
– Boba – Clara selou os lábios na testa da fotógrafa e a olhou nos olhos em seguida – Só quero te dar a certeza de que o amor que tenho aqui é seu, só seu.
– Meu amor, minha menina... – disse Marina ainda não acreditando no que ouvira.
A fotógrafa se perguntou quando foi que Clara havia se tornado tão determinada. Gabou-se internamente, pois sabia que tinha uma parcela de culpa naquilo. Ela ansiava por aquelas três palavras que mudavam o destino de qualquer pessoa desde que sentira que o que sentia por Clara ia além de desejo carnal.
– Tá... Agora estou começando a achar que fui precipitada – disse Clara mediante ao silêncio que se estendia.
– De jeito nenhum, dona moça. Eu espero por isso desde sempre e nesse momento estou tão incrédula que não sei o que dizer, apenas: eu também te amo.
Clara e Marina sorriam uma para outra e antes dos lábios, suas almas já haviam se encontrado na noite em que se viram pela primeira vez.
FlashBackOff
Fui jogada para realidade novamente e senti lágrimas quentes querendo descer pelo meu rosto.
Como era estranho aquele jeito de as lembranças aparecerem. Precisaria me acostumar.
Li um dos bilhetes que Marina havia escrito pra mim e o choro veio forte torrencial, alagando meus olhos e quase molhando o papel.
Juntei todas aquelas coisas e guardei de novo na caixa. Peguei meus documentos e meu cartão de crédito. Eu precisava começar a consertar meus danos o mais rápido possível. E o primeiro deles seria indo até uma loja de câmeras fotográficas.
“Qual é o estado de saúde da fotógrafa Marina Meirelles?” “Ela vai sobreviver?” Foi uma das várias perguntas que ouvi em meio à algazarra que estava na porta do hospital quando cheguei.
A minha sorte foi que eles não sabiam que eu era a culpada daquilo tudo, então passei despercebida pela multidão.
Na recepção perguntei por notícias da Marina, mas como eu não era da família, disseram que não poderiam dizer nada.
– Ela é a namorada da Marina, ela pode saber o que quiser – ouvi alguém dizer e ao olhar para o lado vi Vanessa de braços cruzados e um começo de olheiras que se tornariam profundas se ela não dormisse um pouco.
– Obrigada – agradeci. Ela deu de ombros como se aquilo não importasse tanto.
Fomos caminhando até o elevador e enquanto subíamos para o terceiro andar, Vanessa me disse que Marina ainda estava em cirurgia, pois duas costelas haviam sido quebradas, assim como seus três dedos da mão esquerda que já haviam sido operados.
Quando o elevador parou, se Vanessa não tivesse segurado a porta eu teria descido novamente para o térreo. Não consegui sair do lugar. Imaginar pelo o que Marina passou para ter três dedos e duas costelas quebradas me deixou um gosto amargo na garganta e uma dor fantasma nos meus dedos e nas minhas costelas que estavam sadios.
Ela me estendeu a mão e aceitei o convite.
Vanessa passou o braço pelo meu ombro e caminhamos até o corredor onde a mãe da Marina estava. Quando me viu, ela levantou e caminhou na minha direção. Engoli em seco e estava esperando todos os xingamentos existentes saírem de sua boca. Mas ela apenas me olhou com desprezo e disse à Vanessa que buscaria um café.
Nós três ficamos ali, andando de um lado para outro até às cinco horas da manhã quando um médico alto e incrivelmente loiro apareceu abaixando a máscara e tirando sua touca cirúrgica.
Anna saiu na minha frente quase me derrubando e encheu o médico de perguntas.
– Sua filha está bem. A cirurgia foi tranquila e ela não corre nenhum risco. Dependendo de como ela reagir, logo ela vai para o quarto. Podem ir pra casa descansar um pouco – disse o médico se vendo obrigado a abraçar aquela mãe que colocava todo o seu desespero para fora em forma de lágrimas.
Eu e Vanessa suspiramos aliviadas e voltamos a nos sentar.
Ouvi o barulho do elevador parando no andar e por curiosidade tombei a cabeça na direção. Flávia saiu dele e veio até nós. Atualizamos ela do que havia acontecido e ela disse para Vanessa e Anna irem para casa tomar um banho pelo menos, que ela e eu ficaríamos aqui.
Anna se negou dizendo que não deixaria a filha sozinha, pois da última vez que fez isso ela quase foi morta. Seus olhos recaíram sobre mim e eu me encolhi um pouco na cadeira. Já estava me sentindo culpada demais, não precisaria de mais acusações.
Vanessa e Flávia se entreolharam sem nada dizer, eu permaneci sentada de braços cruzados encarando a parede branca que estava descascando.
Acompanhei o relógio dar uma volta inteira. Não consegui pregar os olhos.
Vanessa e Flávia tiraram um cochilo encostadas uma na outra e Anna gastou boa parte do solado de seus sapatos andando de um lado para outro.
Caminhei até a janela e o sol já estava acima dos telhados das casas. Ainda havia carros de emissoras de TV lá embaixo.
Liguei na casa da Helena e Ivan ainda dormia, foi o que a Rosa me disse. Respirei um pouco aliviada.
Então eu comecei a gastar as solas dos meus sapatos. Encostei-me à parede, sentei, levantei, fiquei agachada... E quando ia começar o ciclo, o mesmo médico muito loiro apareceu. Estava tão cansado quanto nós.
– A Marina está na recuperação ainda, mas parece que ela está acordando – disse ele com um sorriso que me fez sorrir também.
– Eu... – dissemos Anna e eu juntas. Nossos olhares se encontraram e eu mordi o lábio inferior.
– Eu queria estar ao lado dela quando ela acordasse – confessei olhando para a mãe da Marina – Mas você é a mãe dela, então...
Anna não me agradeceu, nem coisa parecida. Apenas meneou a cabeça e seguiu o médico.
– Ela está querendo me matar – disse quando Vanessa acordava Flávia e lhe entregava um copo de café.
– Não esquenta, Clara. A Anna é uma boa pessoa, mas é mãe, né? Você sabe muito bem quando mexem com a cria de vocês como vocês ficam.
– É – foi a única coisa que consegui dizer antes de ter certeza que a loira alta e boazuda que estava vindo na minha direção era a mesma a qual havia recebido uma mordida no pescoço da Marina. Foi impossível não descer as sobrancelhas quando ela apareceu.
– Eu estava indo para o trabalho quando ouvi no rádio toda essa história. Ela está bem, né? – perguntou a loira para Vanessa segurando as mãos dela.
– Bem, bem não... Mas ela está viva, acabou de acordar – informou Vanessa.
– Ah! Eu quero vê-la!
– A mãe dela está no quarto agora e depois sou eu quem vai vê-la, se você não se importa – disse eu me levantando – Clara! – apresentei-me estendendo a mão.
– Nós já nos conhecemos, né? Não lembro se nos apresentamos tão formalmente, mas... Maria Carolina. Sou amiga da Marina.
Apertei sua mão e voltei para a cadeira. Ela ia ficar ali a manhã toda? Esperaria que não. Ela estava indo para o trabalho, certo? Não chegaria atrasada.
Eu havia perdido a noção da hora. Já estava claro o suficiente para meus olhos precisarem de óculos escuros. Mas os meus infelizmente não estavam na bolsa, então teria que ostentar aquelas olheiras terríveis.
Olhei no relógio de parede pela milionésima vez e já eram nove horas de uma manhã que parecia eterna. Pela milionésima vez me levantei. Meus músculos reclamaram de minha má postura e quando Anna voltou do pós-operatório eu estava com os braços esticados acima da cabeça ouvindo meus cotovelos estralarem.
– Anna! – ouvi a tal da Maria Carolina dizer.
Elas se abraçaram de uma forma que me deixou... Com ciúmes? Não sei. Talvez.
– Como ela está?
– Ela quer ver você – disse Anna olhando pra mim, mas ainda abraçada à tal da Maria Carolina – Ela não para de chamar por você.
Seu tom de voz era raivoso e frio. Sim, ela estava querendo me matar.
Apenas assenti e olhei para Vanessa que me olhava como se dissesse “não esquenta, não. Isso tudo vai passar”. Confiei nos olhos da ruiva e perguntei à Anna onde Marina estava. Peguei o elevador e subi para o próximo andar.
Abri a porta devagar e duas enfermeiras administravam os remédios que se misturavam ao sangue de Marina. Elas me cumprimentaram com um aceno de cabeça e saíram fechando a porta.
Quando cheguei e vi Marina de perto meus olhos se desesperaram e percorreram todo o corpo dela. Minha respiração começou a ficar irregular e eu tentei controlar a vontade de chorar, mas quando vi já estava enxugando minhas lágrimas.
Senti-me culpada por cada hematoma, cada arranhão e cada curativo que estava no corpo de Marina. Aquilo estava doendo muito em mim também.
Puxei uma cadeira que fez um barulho estridente e sentei bem pertinho dela. A pele que outrora eu vira tão rosada agora estava pálida, amarelada ao redor dos olhos e os cabelos cheios de vida estavam opacos e bagunçados mesmo que presos num rabo de cavalo baixo.
Ela estava dormindo de novo. O sono pós-anestesia vai e volta muitas vezes antes de ir completamente. Porém, quando coloquei minha mão na dela, vi suas pálpebras mexeram devagar e ela virou o rosto para o meu lado. Quando abriu os olhos, eles encontraram os meus e eu abri um sorriso.
Marina
Sinto um calor fora do normal.
Meu lado esquerdo queima e é como se tivessem me arrancado uma costela. Ou duas. Minha cabeça lateja e não consigo fazer movimento algum. Fazer qualquer mínimo movimento com qualquer outra parte do corpo parece uma tarefa sobre humana. O que aconteceu? Onde estou?
Vejo cores brancas por todos os lados e esse colchão é tão diferente do meu. Respiro fundo e a dor se espalha. Quente, latente, incômoda.
Tento mover a mão direita e uma físgada tira meu ar por alguns momentos. Quanta dor uma pessoa pode aguentar? Porque acho que não aguento muitas. Estou confusa, parece que um treminhão passou em cima de mim e ainda deu ré.
Minha mãe acabou de sair daqui e ela não falou nada, apenas tentou acariciar as partes sadias do meu corpo, que pareciam ser nenhuma. Porque tudo doía.
Tentei perguntar, mas minha garganta raspava como se eu tivesse engolido lixas a noite toda.
– Mãe... – chamei sussurrando baixinho – Mãe!
– Oi, oi, minha vida – respondeu ela totalmente em alerta.
– A Clara... Eu quero vê-la – pedi quando ela abaixou a ponto de seu ouvido ficar à altura de meus lábios.
Minha mãe fechou a cara na hora e eu não entendi nada. Ainda estava um pouco zonza por causa da anestesia, talvez fosse isso.
– Ela... – ela engoliu em seco e inspirou de um jeito que eu não conseguiria fazer naquele momento – Ela está lá embaixo.
– Ah... – murmurei sorrindo de um jeito novo, porque até esticar completamente os lábios parecia doer – Chama ela?
E então minha mãe saiu e eu cai no sono novamente.
Senti algo pousar na minha mão que estava toda fodida e girei a cabeça naquela direção. Abri os olhos e aqueles olhos castanhos como os meus sorriram antes mesmo daqueles lábios.
– Oi – eu disse, mas em seguida emudeci. Clara chorava copiosamente em silêncio. Tentava segurar as lágrimas, mas quanto mais tentava, mais água saia daqueles olhos.
Ela tirou a mão da minha com cuidado e foi até o banheiro que ficava ali mesmo no quarto. Ouvi o nariz ser assoado e quando ela voltou o choro parecia ter sido controlado.
Ela afastou a cadeira que estava ao lado da minha cama e enrolou os cabelos colocando-os para trás. De repente senti um novo calor irradiar da ponta do meu dedão até meu último fio de cabelo da nuca quando Clara começou a beijar minha testa, minha bochecha, a ponta do meu nariz, meu queixo.
Seus lábios pousavam com uma delicadeza que deixaria qualquer beija-flor com inveja. Ela beijou meu ombro que estava ralado, beijou minha mão que estava enfaixada, beijou alguns hematomas dos braços, beijou seus dedos que depois foram colocados nas minhas costelas que estavam enfaixadas também.
– Desculpa... – ela pediu ajoelhando-se diante de mim – Por favor, me desculpa, Marina!
E o choro voltou intenso e eu comecei a chorar também quando as coisas começaram a clarear. Agora que o efeito da anestesia parecia ter passado imagens que mais se assemelhavam a um filme de terror começou a pipocar sem autorização na minha mente.
Minhas costelas gritaram quando me lembrei daquele pé me chutando, meus dedos se retesaram quando vi eles sendo esmagados por detrás das minhas pálpebras. Minha câmera... Eu simplesmente cortei o pensamento porque não aguentaria mais me lembrar de cada mísero detalhe.
– Então é verdade...? – perguntei quase sem voz tentando segurar a vontade que meu peito tinha de explodir de dor por segurar o choro.
– Diz que me perdoa, por favor – implorava Clara agora de pé passando os dedos delicadamente pelo meu rosto – Não vou conseguir viver sem o seu perdão.
– Você... Você não tem culpa, meu amor...
– Shh...
Ela colocou os dedos nos meus lábios quando viu o esforço que eu estava fazendo para falar.
Eu beijei os seus dedos e ela debruçou-se sobre mim ainda me pedindo desculpas e me acarinhando.
– Você não tem culpa – repeti.
– Claro que tenho.
– Se você faz tanta questão então... Eu te desculpo, coisinha – disse sorrindo para ver aquela nuvem cinza saía de cima da cabeça de Clara.
– Coisinha – ela repetiu me fazendo rir – Trouxe um presente pra você.
Como eu estava debilitada demais, Clara tirou de trás dela uma sacola de uma loja bastante conhecida no Rio. Tirou da sacola uma caixa que estava com um papel de presente prateado realmente bonito. Ela desatou o laço com destreza. Apoiou uma mão embaixo do pacote enquanto a outra puxava a caixa para cima.
Não pude acreditar no que meus olhos estavam vendo.
– Me senti na obrigação de te dar outra, porque... – ela pensou um pouco e desviou o olhar para o nada antes de retomar sua linha de pensamento – infelizmente a sua já era.
– Ah, Clara... Você não...
– Não precisava?
Acenei com a cabeça em resposta.
– Precisava sim, linda.
Sorri com aquele adjetivo que havia saído tão espontaneamente.
– Nossa ilustre paciente precisa descansar – ouvi o médico que estava cuidando do meu caso dizer.
Fiz careta.
– Eu já estava de saída – disse Clara se afastando e terminando de limpar o que havia de lágrimas.
– Sua namorada pode voltar aqui amanhã, pois a senhorita vai para o quarto!
O anúncio que o médico havia dado foi importante, mas foi o que ele disse antes que me chamou a atenção.
– Namorada? – interpelei.
– É, foi o que a Vanessa disse para me deixarem vir te ver – respondeu Clara corando daquele jeito que eu adorava – Amanhã eu volto, prometo.
Ela me deu um beijo demorado na testa e me olhou tão fundo que a vontade que eu tinha era de agarrá-la ali mesmo e a beijar como há muito eu queria. Mas o que consegui fazer foi usar minha mão boa para tocar a maçã de seu rosto e depois seus lábios. Minha mão boa também foi beijada e colocada sobre seu rosto ainda úmido pelas lágrimas.
A vi saindo pela porta e quando dei por mim minhas pálpebras já estavam se fechando. Talvez o efeito da anestesia só dera um tempo para eu poder saber que a mulher que eu mais amo no mundo estava ali comigo.
Clara
Despedi-me de Vanessa e Flávia entregando a câmera nova para que elas guardassem. A tal da Maria Carolina não estava mais lá. E com a Marina também ela não estaria, pois o médico havia vetado visitas naquele dia. Só no dia seguinte.
Quando sai do hospital ainda havia alguns repórteres ali, mas nada como na hora que eu cheguei.
Ao atravessar a rua Anna estava sentada num banco fumando enquanto seus dedos deslizavam pelo touch de seu celular que deveria ter custado o triplo da câmera que havia dado para Marina. Eu me sentei ao lado dela e ela se quer ergueu os olhos pra mim, mas mesmo assim falei:
– Anna... Preciso ir pra casa. Agora que está tudo bem preciso cuidar e conversar com o meu filho.
Ela deu uma última tragada antes de apagar o cigarro no banco. Levantou-se sem nada dizer e eu me senti um micro-organismo de tão insignificante. Mas ela só havido ido até a lixeira jogar a bituca.
– Você tem certeza que está tudo bem? – disse ela de pé me olhando de cima como seu eu fosse uma criança que acabara de fazer algo muito errado – Minha filha quase foi morta noite passada e você acha que está tudo bem?
– Anna, eu...
Mas ela me interrompeu com um aceno de mão antes de dizer:
– Não, Clara. Não, ok? Vai pra casa cuidar do seu filho que eu vou fazer o mesmo com a minha.
Ela nem esperou que eu tentasse pensar em algo aceitável para dizer. Quando levantei meus olhos ela já tinha desaparecido.
E eu fiquei ali sentada junto da minha culpa que parecia muito mais pesada agora.
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