I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
28 Fly Away
Notas iniciais
Marina riu com a mão na boca que estava aberta de incredulidade.
Sem entender de onde vinha a graça que fazia a fotógrafa rir, Clara começou a rir também. E as duas se entregaram à uma gargalhada sonora que preenchia todo o quarto de felicidade e fazia seus abdomens doerem.
Aos suspiros, passaram os dedos nos cantos dos olhos retirando as gotinhas de alegria que estavam ali.
– Você é doida, meu amor — disse Clara dando um beijo demorado na bochecha de Marina – Adoravelmente doida.
Marina fez charme e Clara lhe roubou um beijo.
– Você que é — retrucou enquanto buscava fôlego — Livro, amor? Sério?
Clara ficou um pouco desapontada com as perguntas. Pareceu-lhe, de início, que Marina havia tornado seu desejo na coisa mais banal e sem sentido daquele dia.
– Eu não perguntei nesse sentido de ser alguma coisa boba, não, amor... Vem aqui — disse Marina puxando Clara pela cintura — Amei a ideia. Eu nunca teria pensado num jeito melhor de eternizar nossa história do que num livro. Eu amei, estressadinha.
Clara olhou para Marina e desamarrou a expressão abrindo um sorriso.
– Conta o que você tem pensado, quero saber de tudo – pediu Marina enrolando o cabelo e fazendo um coque.
– Eu estava pensando em escrevermos a quatro mãos. Você escreveria desde quando sua exposição foi anunciada no Brasil até o momento que ficou sabendo que eu estava no hospital. E eu continuaria até sei lá, ainda não pensei num final...
– Mas será que não ficaria confuso? — contrapôs a fotógrafa.
E a discussão acerca do livro varou a madrugada e terminou em suspiros e corpos suados assim que a última estrela desapareceu no céu que começava a receber os primeiros raios do sol.
***
– Pelo amor de Deus, coloquem pelo menos uma calcinha depois de passar a madrugada transando, não sou obrigada a ver essa pouca vergonha.
Foi assim que Clara e Marina acordaram certo dia: com Vanessa grasnando em seus ouvidos e pegando os travesseiros do chão para jogar nas duas.
– Vocês estão atrasadas! As modelos já chegaram — avisou a ruiva — E nada de tomarem banho juntas, Clara vai tomar banho lá no meu quarto — brincou.
Clara mostrou o dedo do meio para a ruiva que saiu rindo e fechando a porta. A morena já não se incomodava com Vanessa as encontrando em situação semelhante, já não sentia tanto ciúme da ruiva e mesmo sentindo que poderia passar o tempo que passar, Marina ainda continuaria sendo a ex inesquecível.
Marina agarrou-se à cintura de Clara resmungando e reivindicando mais tempo na cama, mais tempo com a morena que mais uma vez havia deixado seu corpo marcado na noite anterior.
– Levanta, preguiçosa, anda... – chamou Clara acariciando os dedos de Marina que não moveu uma sobrancelha.
E Clara se desvencilhou dos braços apertados e começou a delinear o corpo ainda deitado na cama com a ponta dos dedos. Beijou a testa fazendo os lábios deslizarem até o queixo. A fotógrafa abriu os olhos e sorriu, entregando-se a boca de Clara.
– Acho que encontrei um jeito de você acordar rapidinho – disse Clara nos lábios de Marina.
– Uhum, pode me acordar assim todos os dias, minha delícia – respondeu enfiando as mãos nos cabelos da morena.
E o ensaio foi tranquilo, sem surpresas, sem demora, terminando no tempo certo e deixando fotógrafa e assistentes com o final de tarde livres para fazer o que quiser.
Giselle saiu correndo após o final, pois Luiza já havia se mudado para o apartamento novo que ficava na Barra da Tijuca. E como a sobrinha de Clara havia arranjado um estágio, não dava mais tanto tempo para visitar “as tias” como ela chamava. Logo, ela passava menos tempo com a namorada que achava aquilo um absurdo.
– Estou indo ver a minha namorada porque se eu desmarcar com ela mais uma vez ela pega a primeira enfermeira que ver naquele hospital — disse Vanessa.
– Mas já está assim? Não anda dando assistência, hein? — implicou Clara.
– Assistência é o que mais dou e como dou — replicou rindo.
Após tomar um banho, Vanessa voltou para estúdio recebendo palmas pelo look escolhido e o perfume amadeirado que impregnava o local.
Flávia pegou uma carona, encontraria Maria Carolina no posto 9 de Ipanema.
Clara e Marina se jogaram num tapete branco e felpudo que lembrava a pelagem de um urso polar assim que as meninas saíram. Marina entre as pernas de Clara recebia carinho e beijos.
– Amor! Vou pegar meu notebook, tem umas ideias fervilhando minha mente desde ontem – disse Marina se referindo ao livro.
No dia seguinte a revelação de Clara, Marina descobriu dentro de si uma escritora adormecida. O fato de o dia seguinte ser um sábado ajudou Marina a pensar com calma e a começar a reunir suas ideias. A animação e concentração da fotógrafa deixou Clara com um sorriso no rosto durante o dia todo. Havia entrega da parte das duas, havia interação e isso as deixou no quarto durante todo o dia. Clara era quem saia mais vezes para saber do filho que estava, como sempre, aos cuidados de Anna.
– Porque você acha que eu preciso parar de fumar?
Foi a pergunta que fez Clara e Marina darem um pulo e voltar à realidade. Sempre perdiam a noção do tempo quando escreviam.
Clara ergueu a cabeça e viu a sogra e o filho entrando no estúdio.
– Porque eu acho que isso faz mal — respondeu o menino indo até a mãe e Marina e se enfiando no meio delas.
A fotógrafa salvou o arquivo em word e colocou o notebook sobre o tapete.
– O que vocês estão discutindo? — quis saber Marina olhando para Ivan.
– O Ivan falou que eu preciso parar fumar – respondeu Anna puxando uma cadeira para perto das meninas.
– É filho?
– Ah mãe, isso faz muito mal. O avô do Fernando está no hospital porque fuma desde adolescente e eu não quero que a Anna vá para o hospital por causa disso. Ela é como se fosse minha avó também.
A declaração de Ivan fez um sorriso se esticar nos lábios das três mulheres que estavam ao redor dele.
– Esse menino vai conseguir o que eu, em anos, venho tentando? – perguntou Marina olhando de Ivan para Anna.
– É porque eu sou demais — gabou-se Ivan rindo com as cócegas que a fotógrafa fazia.
Anna ameaçou se levantar, mas voltou a se sentar. Iria para fora se aproximar um pouco mais da morte, já estava procurando o isqueiro no bolso traseiro da calça quando decidiu que a partir daquele momento tentaria dar o primeiro passo a desintoxicação.
– Mãe, precisamos falar com você — anunciou Marina.
– Pode falar bebê.
Ivan começou a rir.
– É que é engraçado a Anna chamando a Marina de bebê — respondeu ele quando recebeu os olhares confusos.
– E o senhor pode subir pra tomar banho – disse Clara bagunçando o cabelo do filho.
Ivan deu um beijo na mãe e saiu correndo.
– Ontem eu e a Clara estávamos conversando e decidimos que você vai ficar responsável pelo centro de estresse pós traumático.
– Mas só se você quiser, Anna. Não conseguimos pensar em outra pessoa para ter essa responsa – completou Clara.
– Nossa! — foi o que Anna disse antes de organizar a novidade mentalmente — Antes de aceitar ou recusar eu posso saber o porquê de vocês terem tomado essa decisão?
Clara e Marina se entreolharam confirmando a decisão que haviam escolhido na noite anterior. Acharam melhor manter segredo sobre o livro para que não se criasse tanta expectativa em torno disso. Contariam quando ele já estivesse em processo de impressão, quando ele deixasse de ser um embrião.
– Nós estamos com um projeto que vai nos tomar um certo tempo e exige muita dedicação, por isso não podemos ficar com duas responsabilidades — respondeu Clara.
– E que projeto é esse?
– Um projeto ultra secreto que só eu e a Clara sabemos por enquanto.
– Hm. Só aceito se eu souber qual é a desse projeto.
– Ah mãe... — resmungou Marina bagunçando a cabeleira.
– To brincando, bebê. É claro que eu aceito e confio em vocês tanto quanto vocês confiam em mim. E desejo profundamente que esse projeto dê certo e ah, uma exigência.
– Uma só? Você é cheia de pedir um milhão de coisas — disse Marina rindo.
– Uma só, engraçadinha. Quando vocês puderem contar eu quero ser a primeira a saber.
– Ah, pode ter certeza que será — disse Clara abraçando a sogra pelo lado direito enquanto Marina a abraçava pelo esquerdo.
– Eu amo vocês, minhas meninas! — declarou Anna dando um beijo em cada uma.
***
Como o livro estava sendo escrito à quatro mãos e Clara já tinha finalizado a sua parte, o processo durou menos tempo do que elas acharam que duraria. Foi um mês intenso e de trabalho árduo, porém prazeroso para ambas.
Clara já havia levado para impressão e as quatrocentas e cinquenta e duas páginas já haviam ganhado o primeiro esboço. Quando a morena chegou com o pacote em mãos causou em Marina uma euforia quase incontrolável.
Era dia de folga e todas estavam na piscina tomando drinks, brincando de serem Cesar Cielo, brincando de nado sincronizado quando Clara apareceu no jardim. E como a fotógrafa já sabia o porquê de ela ter saído, quando a viu, saiu correndo e quase caiu devido aos pés molhados e quase molhou também o original do livro.
– Ficou pronto? – perguntou animadíssima.
– A primeira parte – respondeu Clara no mesmo ritmo, mas muito mais contida – Está impresso, meu amor.
E a morena foi guardar o livro no quarto, ignorando as perguntas que estavam fazendo.
– Você parece que vai explodir de tanta felicidade, gata – disse Maria Carolina quando a fotógrafa voltou para a piscina.
– E eu vou mesmo! Estou ansiosa – confessou.
– O que está acontecendo nessa casa? Achei que eu fosse sua amiga, sua BFF, achei que você me contava tudo, mas agora você e a Clara ficam de segredinho nos cantos, de sorrisinhos – reclamou Vanessa usando um tom cômico de ofendida.
– Quando chegar a hora vocês vão saber – disse Marina.
– Nem eu sei, Vanessa... – disse Ivan dando de ombros e arrancando risadas das meninas.
E naquele dia, elas começariam a ir, literalmente, de porta em porta entregando as cópias do original que haviam feito. Haviam pegado alguns endereços de editoras e tiraram o dia para começar a dar vida ao livro.
– Não sei se eles vão aceitar, amor... História de duas mulheres... Você sabe como as coisas são, ainda mais no mercado editorial – disse Marina colocando os pés no chão pela primeira vez.
– Alguém teria coragem de dizer não para Marina Meirelles? – brincou a morena – Eu sei, amor... Mas temos que tentar, cara. Você sabe quantas entrevistas nós recusamos depois de Angra porque havia muita gente querendo saber e nós que não quisemos continuar com isso. A Daniela Mercury escreveu um livro dela com a Malu e fez o maior sucesso.
– Quem sou eu perto da Daniela Mercury?
– Quem é a Daniela Mercury perto de você? – retrucou Clara olhando Marina daquele jeito que a fazia se sentir uma muralha.
– Boa sorte para nós, então – desejou a fotógrafa cruzando os dedos.
Assim que Marina saiu do carro quando voltaram para casa, ela nem fechou a porta do veículo por medo de batê-la com tanta força que a arrancaria. Clara estava tão triste quanto a fotógrafa, mas conseguia lidar melhor com a frustação do que Marina.
– Filha, está tudo bem? – perguntou Anna quando Marina passou como um furacão pela mãe sem dar boa noite ou um beijo como sempre fazia.
– Ela está nervosa, Anna – explicou Clara.
– Alguma coisa com o projeto de vocês?
Clara limitou a concordar com um gesto de cabeça e subiu para o quarto.
Das dez cópias que haviam tirado do livro, seis haviam voltado para casa. Clara e Marina haviam percorrido das grandes às pequenas editoras e em todas elas a resposta não fora de longe a que esperavam receber. Não que esperavam receber um sim de todas, mas pelo menos um. E nem isso conseguiram.
Das quatro cópias entregues, três não haviam sido nem folheadas. As secretárias pegavam das mãos de Clara e deixavam em cima da mesa ou colocavam, sem a menor discrição, dentro da gaveta.
A única cópia que chegou a ser lida, ainda assim muito por cima, foi na penúltima editora. Praticamente uma edícula de tão pequena. O secretário era fã do trabalho de Marina. Recebeu-as com água e café, pediu que se sentassem e disse o quanto admirava o trabalho da fotógrafa e quanto a admirava por tudo que havia passado.
O excesso de elogios deixou Clara mordida de raiva e ela desejou tomar a cópia das mãos do rapaz e ir embora. Mas ele leu algumas partes e disse que entraria em contato caso fosse aprovada a publicação.
Mas nem aquilo havia animado Marina.
– Calma, amor... A gente pode tentar outras, mandar para algumas editoras de São Paulo – disse Clara tentando confortar a fotógrafa – E pode ser que aquelas saiam da gaveta e vá para as mãos de algum agente.
Marina olhou completamente incrédula.
– Quantos nãos você recebeu antes de ser quem você é? – perguntou Clara em tom de desafio.
– Vários – respondeu de forma cortante.
– Então... Olha onde você chegou. Tenho certeza que você conseguiu isso com o seu trabalho, o seu esforço e não só com esse rosto lindo e esse corpo maravilhoso.
Marina deu um sorriso.
– Calma, amor. Confia em mim, vai dar tudo certo.
Marina deu de ombros como se não restasse outra coisa a não ser esperar.
***
– Seu aniversário está chegando – disse Clara enquanto ela e Marina estavam deitadas no gramado do jardim observando as estrelas que cintilavam no manto negro da noite.
Marina girou o corpo ficando de lado e olhando para a pessoa que a cada dia parecia seduzi-la e conquistá-la ainda mais.
– Você lembrou do dia do meu aniversário e nem me contou, sua bandida? – questionou Marina sorrindo.
– Eu sabia que era em Novembro, mas ainda não lembrava o dia. É dia 25, ou seja, faltam doze dias. Não decidimos o que vamos fazer. Seu primeiro aniversário comigo... Temo que pensar em algo à sua altura.
– Queria um jantar naquele restaurante na Lagoa, sabe? Aquele que tem vista para o mar... Só nós aqui de casa e a Gi com a Lu. Se quiser chamar sua mãe... – sugeriu.
– Não, amor. Quero só eu e você – disse Clara virando-se de lado também – Faz tempo que não temos um tempo só nós duas e outra... – a morena começou a rir.
– Que foi?
– Eu cansei de transar no quarto. Não dá nem pra variar o lugar aqui em casa, sempre tem gente – respondeu gargalhando junto de Marina.
– A sua sinceridade me impressiona, Clara Fernandes. Me Deus! – declarou a fotógrafa dando um beijo na morena.
– Mas agora é sério, amor... Eu quero viajar com você para algum lugar especial, mas você conhece o mundo todo, não tem mais graça — disse Clara com pesar.
– Não conheço o mundo todo, conheço uma parte. O Afeganistão por exemplo eu não conheço — brincou.
Clara riu dando um tapa de leve na fotógrafa que segurou sua mão e beijou com carinho.
– Eu amo a Europa, sabe? — disse a fotógrafa com os olhos tão brilhantes que Clara viu a lua cheia refletidas neles — Poderíamos ir para lá.
– Tenho vontade de conhecer Londres, sei lá... Aquela cidade tem alguma coisa que me cativa.
– Então nós vamos para Londres — sentenciou Marina.
– O aniversário é seu, amor. Você que escolhe pra onde quer ir.
– Então... Eu quero ir pra Londres – confirmou Marina descendo as costas da mão no rosto de Clara e roçando os narizes.
– Vai ser... – tentou dizer Clara, mas os lábios de Marina a interromperam – a melhor viagem... – mais um beijo, mais um suspiro – do mundo.
Marina apenas balançou a cabeça e exigiu mais da boca, da língua e das mãos de Clara que gemia em seus lábios.
O único barulho que se ouvia eram dos beijos, dos aspersores irrigando o jardim e os animais noturnos com sua sinfonia afinada.
Clara rolou para cima da fotógrafa pressionando o corpo por cima do dela, abafando com a boca um gemido mais alto.
– Eu tô ficando molhada, amor – disse Marina quando Clara começou a beijar seu pescoço.
– Tá? Deixa eu conferir – disse no ouvido da fotógrafa provocando um arrepio que a deixou zonza.
Antes de chegar onde desejava, Clara subiu a mão por debaixo da saia longa que Marina vestia, tocando a pele quente da coxa tensionada. Encontrou o tecido da calcinha úmido. O dedo indicador desceu com um pouquinho de força ali e Marina se contorceu. Clara afastou a calcinha para o lado e estava prestes a penetrá-la quando uma voz fez com a morena respirasse fundo e engolisse o palavrão que estava na ponta da língua.
– Mãe! Marina! Vem, jantar – ouviram Ivan chamar lá da escada.
Marina riu com o rosto no pescoço de Clara e tirou a morena de cima de si, mesmo querendo o contrário.
***
– Mas, mãe! Porque eu não posso ir junto? – perguntou Ivan pela décima vez enquanto Clara arrumava as malas.
E a viagem para Londres havia chegado. Na mesma noite, Clara e Marina buscaram na internet hotéis, passeios e passagens. A viagem para a terra da rainha já estava organizada e a ansiedade corroía o casal.
– Porque essa é uma viagem especial, filho. É uma lua de mel.
– E não pode levar filho na lua de mel?
– Pode, mas... – Clara ajoelhou-se em frente a Ivan que estava sentado na cama e pegou nas mãozinhas inquietas do menino – É o aniversário da Marina e a mamãe quer aproveitar esse momento com ela, só nós duas. A mamãe ama você, muito. Você sabe que é a minha vida, mas a mamãe também ama, muito, muito, muito, muito, muito a Marina e quer passar um momento só com ela, juntinhas... Entendeu?
– Hm... Só porque é a Marina e eu também amo ela – respondeu.
– Você sabia que é o meu filho preferido? – brincou Clara.
– Eu sou o único, não vale.
E os dois riram abraçados até Marina chegar e se integrar aquela bagunça.
– Da próxima vez eu posso ir com vocês? – perguntou Ivan deitado no peito de Marina.
– Claro que pode, dá próxima vez nós podemos ir para um lugar muito mais legal – disse a fotógrafa.
– Pra onde? – perguntou o menino curiosíssimo.
– Que tal a Disney? – disse Marina.
– Sério? Eu posso passar o meu aniversário na Disney?
– Claro, se a sua mãe deixar, né?
– Vou pensar no seu caso – disse Clara um pouco séria, mas com um sorriso no canto dos lábios – Agora vai dormir que já está tarde, mocinho.
– Quero dormir aqui essa noite, posso? – perguntou um pouco ressabiado.
– Sim, você pode tudo, meu amor – disse Marina apertando Ivan nos braços.
Clara sorriu tendo certeza que não poderia ter escolhido ninguém melhor que Marina para dividir a vida.
Se tudo corresse como o planejado, Marina iniciaria o dia vinte e cinco de Novembro em terras inglesas. O voo sairia do Rio de Janeiro às quatro horas da tarde.
Vanessa e Mônica acompanharam Anna e Flávia até o aeroporto.
– Anna, por favor! Pega leve nas porcarias com o Ivan – recomendou Clara – E o senhor, obedeça a Anna, tá? Ela vai ficar uma semana mandando e desmandando em você.
– Tá bom, mãe! – respondeu de jeito entediado. Havia ouvido o mesmo sermão desde uma semana antes da viagem.
– Traz o creme da Victoria Secret’s que te falei, Marina. – disse Vanessa.
– Já anotei, coisa implicante – respondeu Marina abraçando a ruiva.
– Façam uma boa viagem e avisem quando chegarem lá – pediu Mônica abraçando Clara e depois Marina.
As duas se despediram das outras duas, Anna se demorando mais no abraço e abençoando nora e filha. Ivan pulou no colo da mãe e a encheu de beijos.
O voo foi chamado e elas foram para a fila.
Dentro do avião, colocaram as bagagens de mãos no bagageiro acima das poltronas e sentaram.
As mãos de Marina suavam e ela logo abotoou o cinto de segurança com firmeza.
– Me dá sua mão – pediu Clara com a sua estendida.
Marina nem perguntou do que se tratava, apenas entrelaçou seus dedos ao dela e respirou fundo.
– São só algumas horas, amor. Fica calma! Daqui a pouco estamos em Lisboa e...
– Vamos ter que pegar outro avião – interrompeu Marina tentando controlar a respiração.
– Sim, vamos pegar outro avião e tudo vai ficar bem.
Na noite em que haviam finalizado a compra das passagens, Clara sentiu como se tivessem lhe roubado o ar dos pulmões. Havia se esquecido como as lembranças chegavam do nada e a deixavam perdida por um instante. E já fazia um tempo que não se lembrava de muita coisa.
Preocupada, Marina notou o silêncio de Clara e os olhos vidrados no nada. Chamou por ela que não respondeu, mas como ela não estava demonstrando nenhuma reação que requeria praticidade, esperou. E então Clara voltou ao presente e disse o que havia se lembrado.
– Lembrei de você me contando que tem medo de avião – disse Clara massageando as têmporas – Pode ficar tranquila que eu não vou soltar sua mão em nenhum momento – garantiu puxando Marina pela mão e fazendo ela se encaixar em seu corpo.
E a promessa implícita foi cumprida. Clara só soltou da mão da fotógrafa na hora de se alimentarem. Durante o resto do trajeto, sua mão suou, ficou dormente, mas Clara não soltou. Estavam unidas de corpo e alma.
Quando as rodas do avião bateram no chão Marina até abriu um sorriso. Era começo de madrugada. Haviam chegado no tempo previsto.
O vento de fim de Outono fez com que elas caminhassem abraçadas até o ônibus que as levaria para o outro lado do aeroporto onde pegariam o avião para Londres.
– Todos os dias da minha vida ao seu lado são maravilhosos, mas esses... Esses serão os melhores – disse Marina beijando Clara.
– Se depender de mim, o seu aniversário será inesquecível.
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