I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
5 Do you remember?
Notas iniciais
– Eu quero ver a Clara – disse eu levantando e indo até a cômoda pegar minha bolsa.
– Toda a família dela deve estar lá, Marina – disse Vanessa.
– Eu quero vê-la, Van. Preciso olhar pra ela. Ela precisa saber que eu estive lá por ela e com ela todo esse tempo – rebati irritada.
– A Vanessa tem razão, Marina. Não vai rolar. Nem a Chica pode entrar.
– Porra! Por que vocês estão dificultando as coisas?
– Não somos nós que estamos dificultando as coisas – disse Vanessa parada diante de mim – É você que não quer enxergar, pelo menos uma vez, depois desse tempo todo, que se antes não estava fácil, não é agora que vai ficar. Marina, cadê a sua razão quando se precisa dela? Caralho! Como você está frágil. Nunca te vi assim.
– Nunca me viu assim, porque eu nunca amei assim! – gritei completamente desnorteada – Eu fiquei três meses sonhando que ela acordava. Tive pesadelos terríveis com ela morta. Fiquei dias sem dormir pensando em tudo isso. EU QUASE PERDI A MULHER QUE EU AMO!
– Você esperou três meses. Consegue esperar mais um pouco? O pior já passou.
E então percebi que a área de cobertura havia voltado. Meu celular começou a tocar desesperadamente. Várias mensagens chegavam. Fui correndo até ele.
Mônica havia me ligado mais de quinze vezes na tarde anterior. E havia mais cinco ligações naquela manhã. Apaguei os avisos de chamadas recebidas e quando fui bloquear a tela do celular, ele começou a tocar. Era a Mônica.
– A Clara acordou, Marina! – disse ela antes de qualquer cumprimento.
– Eu sei... A Giselle me contou. Mas e agora, Mônica? Como ela está?
– Agora você vai precisar de mais um pouco de paciência. Não tem previsão de quando ela vai ter alta. A Clara ainda está respirando com os aparelhos, a traqueostomia foi retirada agora pouco. Ela está fraca, mas responde a comandos simples. A família dela está acampada aqui, mas assim que tiver uma brecha eu te ligo.
– Por favor – supliquei – Eu preciso tanto vê-la.
– Tentarei te manter informada todos os dias. Agora preciso desligar.
– Mônica?
– Oi!
– Cuida dela! Diga que eu a amo.
– Pode deixar, cuidarei sim.
Eu não sabia o que sentir naquele momento. Era uma mistura de felicidade e agonia. Quanto tempo mais eu deveria esperar?
– Quais são as novidades dessa novela mexicana? – perguntou Vanessa assim que desliguei.
– Esperar, esperar e esperar.
***
Já fazia mais de três semanas que Clara havia acordado.
Enquanto fico no compasso da espera me jogo de cabeça no trabalho. Mas não por inteira; minha maior parte está lá com ela.
Fui visitá-la todas as noites enquanto a Chica, o Cadu e a Helena se revezavam para dormir no hospital. Aproveitava quando um deles ia para casa tomar banho e entrava sorrateiramente no quarto, me sentia como um ladrão quando ia assaltar alguma casa.
Ainda não havia visto seus olhos abertos. Mônica me disse que a medicação é forte, então Clara dormia a noite toda. Ela ainda sente muitas dores, às vezes eles aplicam uma pequena dose de morfina para que ela possa descansar sem reclamar. Queria um pouco disso para amenizar a minha dor também.
No lugar daquela cânula que saia da garganta dela agora resta apenas uma fina cicatriz. A máscara de oxigênio foi substituída por outra cânula.
Eu conversava com ela, contava as novidades, ria e chorava... Mas quando eu colocava minha mão na mão dela e sentia seu calor me coração se acalmava. E eu sabia que ela sentia a minha presença ali, muito mais do que antes.
A pele dela já tinha ganhado um pouco de cor. Mas nada que chegasse perto daquele bronzeado invejável.
Todas as vezes que eu me despedia dela, selava meus lábios em sua testa e repetia apenas para nós duas “eu amo você”. E então eu passava na capela da igreja e pedia para que Deus e sua tropa fizesse com o tempo passasse o mais rápido possível.
Eu que nunca fui muito ligada a religião e esse tipo de coisa, me vi de joelhos pedindo com toda força que me era permitida para que a Clara voltasse logo para mim.
E eu sabia que ela voltaria.
***
E Clara esperava tanto quanto Marina.
Cada progresso na sua recuperação era comemorado com palmas e beijos de sua família que estava praticamente 24h com ela.
Clara reagia bem a fisioterapia, e já recebia alimentos mais consistentes pela sonda. Chica e Cadu eram os que mais se revezavam para passar a noite no hospital, só trocavam o posto com outro membro da família quando o corpo já não aguentava mais aquela cadeira desconfortável que ficava ao lado da cama de Clara.
Quando completou um mês da recuperação, Clara já conversava quase que completamente, mas ainda se sentia cansada e os exercícios da fisioterapia fortaleciam os músculos, mas a deixavam exausta.
As visitas foram liberadas por Cadu. Exceto uma.
– Se uma tal de Marina Meirelles aparecer para visitar a Clara, você não deixa ela entrar, combinado? Ela é a causadora disso tudo – disse Cadu para a recepcionista.
Mal sabia ele que com ou sem autorização Marina ia visitar a amada sempre que podia. Mas naquela semana o estúdio estava transbordando pessoas e Marina pôde visitar Clara apenas uma vez. Logo não conseguiu ver os olhos castanhos que tanto sentia saudade, nem ouvir a voz que lhe soava como música aos ouvidos.
Dr. Carlos estava no quarto conversando com Clara, Cadu e Chica.
Dizia que a recuperação de Clara estava atendendo as expectativas e que se ela continuasse no mesmo ritmo em menos tempo do que era previsto estaria em casa.
Uma batida tímida foi dada à porta e Ivan colocou a cabeça no espaço entreaberto. Clara abriu os braços e Ivan correu, mas Cadu o conteve no meio do caminho, pedindo que fosse com calma, pois agora teria todo o tempo do mundo para aproveitar a mãe.
– Meu bichinho, que saudade de você! Que saudade! – disse Clara abraçada ao filho e dando beijos em seus cabelos dourados.
– Achei que nunca mais fosse te ver, mãe. Não me abandona mais, por favor.
Clara sentiu uma lágrima fina escorrer até sua bochecha e sorriu, segurando o rosto do filho entre as mãos.
– Eu nunca mais vou te abandonar, meu amor. Nunca mais. Você veio com quem se o seu pai e a sua avó chegaram cedo?
– Vim com o Ricardo.
– Com quem?
Cadu e Chica se entreolharam.
– O Ricardo, meu amor. – respondeu Chica dando um sorriso.
– Eu entendi que ele veio com o Ricardo, mãe. Mas não sei quem é esse cara.
– Clara, isso não tem graça – repreendeu Chica.
– Não estou entendendo nada... Doutor? – chamou Cadu.
– Clara, qual a sua última lembrança? – perguntou o médico tirando o bloco de anotações e caneta do bolso.
Clara apertou o botão que levantava a cabeceira da cama e ficou sentada, as mãos sobre o colo.
– Eu buscando o Ivan na escola, porque?
– Você se lembra do mês?
– Abril...? É. Abril. Foi no dia em que a minha sobrinha fez aniversário. Lembro que no mesmo dia ela deu uma festa à fantasia.
Chica sentiu as pernas bambas. A festa à fantasia mencionada realmente havia acontecido em Abril. Mas do ano anterior.
– Do dia do acidente, você não se lembra de nada?
Os olhos de Clara começaram a transbordar e um desespero começou a esmagar seu peito. A cabeça doía na tentativa de se lembrar como foi que fora parar numa cama de hospital.
– Me deem um minuto – pediu Carlos saindo do quarto.
O médico bipou o neurologista responsável. E em menos de cinco minutos Henrique estava ao seu lado.
– Você não se preocupou em perguntar isso antes, Carlos? Eu deixei você responsável pela paciente, você deveria ter tomado todos esses cuidados – Henrique estava exaltado.
– Eu sei, Henrique. Desculpe-me por isso. A paciente está se comunicando não tem muito tempo. Só os familiares vieram visitá-la. E você fez todos os exames neurológicos, será que não deixou passar nada?
– Na última tomografia tudo estava em ordem – Henrique coçou a barbicha e depois passou a mão nos cabelos – Vou pedir uma nova CT.
Carlos voltou para o quarto. O bloco e a caneta ainda nas mãos e Henrique nos seus calcanhares.
Clara fechou a cara quando viu Henrique se aproximar. Não gostou da presença de mais um médico ali. Não estava gostando do andamento daquela consulta.
– Bom dia, Clara. Podemos conversar um pouco, só eu e você? – perguntou Henrique olhando ao redor.
Chica e Cadu assentiram entendendo o recado.
Chica pegou Ivan pela mão e antes de sair perguntou bem próximo ao ouvido de Carlos:
– A Clara... Ela perdeu a memória, não é?
– Não podemos concluir nada sem um exame mais aprofundado. Pedi uma nova tomografia para um novo diagnóstico. O cérebro dela pode estar ainda um pouco inchado, ela está se recuperando e é normal essa confusão.
Chica não ficou muito convencida com a resposta. Mas aceitou.
Agora Clara estava diante apenas de Henrique e Carlos.
– O que está acontecendo? Quem é esse tal de Ricardo? – perguntou Clara incomodada.
– Antes de responder às suas perguntas, preciso saber: Você não se lembra de como se acidentou? – perguntou Henrique.
E então Cadu prendeu a respiração. Ele estava atrás da porta, acompanhando o desenrolar da conversa.
Clara não poderia se lembrar de como havia se acidentado. Não poderia lembrar do motivo que a fez correr nos degraus da escada. Não poderia se lembrar do motivo que culminou naquela tragédia.
– Não... Não lembro de nada, droga! – gritou Clara colocando as mãos no rosto e chorando copiosamente – O que aconteceu comigo? Porque eu não lembro de como vim parar aqui?
– Vou refazer o pedido de CT, pode deixar a família entrar. Vamos resolver isso, Clara. Fica calma – garantiu Henrique.
Assim que o neurologista saiu da sala, Chica e Cadu entraram. Ivan havia ficado do lado de fora com Ricardo.
– Esse Ricardo está ai? – perguntou Dr. Carlos para Chica em particular.
– Ele está lá fora – respondeu Chica aflita.
– Peça para ele entrar, por favor.
Quando Ricardo apontou na porta Chica o abraçou pela cintura e o apertou. Assustado, ele envolveu a mãe de Clara em seus braços e perguntou o que estava acontecendo. Chica não conseguiu responder.
O abraço foi desfeito e Ricardo se aproximou da cama de Clara.
– Graças a Deus e a essa equipe médica temos você de volta, Clara – disse Ricardo dando um beijo nos cabelos de Clara em seguida.
Clara tentou se esquivar, mas aceitou o carinho.
– Clara, você sabe quem é esse homem?
– Como assim? É claro que...
– Deixa ela responder, por favor – interrompeu o médico com a mão em riste na direção de Ricardo.
– Não... – respondeu Clara com a voz embargada– Eu não lembro quem é ele, eu não lembro como eu me vim parar aqui. Eu não lembro de nada.
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