- Eu não acredito! – foi a única coisa que consegui dizer, ao ver aquela cena deplorável.

Lá estava Angela, minha ex-namorada, se agarrando com um cara, na frente do hotel onde eu estava hospedado. Com certeza ela não poderia fazer aquilo dentro do hotel, pois ele tinha classificação cinco estrelas. Isso me custava os olhos da cara, mas aqui eu não sofreria com assédio “paparazzi”.

Voltei pro meu quarto antes que tivesse de ver algo mais deplorável, aquilo já me fazia sofrer. Eu ainda gostava dela, só terminei pelo fato de minhas viagens longas.

Assim que abri a porta, joguei-me na cama, tentando relembrar as coisas boas do dia. O show no festival tinha sido maravilhoso, fiquei emocionado ao ver quantas pessoas cantavam comigo. “É Jared, agora você está realizando seu sonho, as pessoas reconhecem sua banda”, foi o que minha consciência me disse. E realmente era verdade. Eu não queria promover a banda a partir de meu sucesso na carreira de ator, queria que a banda se promovesse a partir de seu próprio mérito.

Esse pensamento povoou tanto minha mente, que tive algumas inspirações. Peguei meu bloco e só então percebi que minha mente estava realmente fértil nos últimos dias, aquele bloco só tinha livre a última folha e eu o comprara há uma semana.

Comecei a escrever, mas percebi que estava chovendo. A chuva não era o pior, mas sim os raios e trovões que vinham junto. Eu tinha medo desde criança, porém, já era hora de superar esse medo...

- Jared, você tem 36 anos, não é mais uma criança. Pare de ter medo de trovões e raios. – falei comigo mesmo.

Mas não adiantou, ouvi mais alguns trovões e me encolhi na cama. Levantei e saí do quarto, não conseguiria ficar ali sozinho na chuva. Caminhei lentamente pro quarto de meu irmão, Shannon. Esperava que ele estivesse acordado e sem ninguém dentro daquele quarto, tudo o que eu menos queria era que alguém mais soubesse do meu medo.

Bati na porta uma única vez, mas ninguém me respondeu. Esperei alguns instantes e nada. Bati um pouco mais forte, dessa vez vieram até a porta.

- Quem é? – aquela voz sonolenta do Shann era tão engraçada...

- Sou eu, Shannon. O Jared.

Ele abriu a porta devagar, eu sabia que ele estava analisando minha face. Sempre fazia isso quando chovia, gostava de sentir o temor no meu rosto.

Eu entrei no quarto e me sentei na beira da cama. Ainda bem que ela era ao lado oposto da janela, não precisava ver aqueles clarões que me agoniavam ainda mais.

Shann se jogou na cama, já estava acostumado, e voltou a ler. Na verdade, ele não lia, só disfarçava com o livro o olhar parado em mim.

- Você ainda não perdeu esse medo, Jared? Tá na hora... Imagina quando você voltar com a Angela, casar com ela... Chega a noite, mas tá chovendo, então você fica com medinho. – ele deu aquele sorriso sarcástico que me dava vontade de pular no pescoço dele.

- Shannon, eu NÃO VOU casar com a Angela. Eu a vi se atracando com um cara na entrada do hotel. Nunca imaginei que ela fosse capaz disso, não na frente do hotel onde EU estou. – eu precisei morder os lábios para não chorar, depois disso.

Ele ficou constrangido por ter tocado no assunto e me ofereceu um abraço. Eu o abracei forte. Ele era meu porto seguro há muito tempo, as turnês nos deixavam longe de casa, era difícil manter contato com nossa mãe. Namoradas eram tão impossíveis quanto o fato anterior. Era com ele que eu conversava, mostrava meus medos... Mas ele era tão fechado, quase não falava de si mesmo pra mim. De qualquer forma, eu o amava, era o melhor irmão que eu poderia ter.

- Shann? – eu perguntei, depois de muito tempo do abraço apertado e ele não falar nada.

- Eu. – ele sorriu. Eu adorava o sorriso daquele chato.

- Ainda tá trovoando... – eu queria que ele fizesse o mesmo que fazia quando nós éramos menores, só isso me acalmava.

Ele soltou o abraço e se se encostou à cabeceira da cama. Eu deitei o rosto no peitoral dele e ele passou a mão pelo meu rosto, acariciando. Ele sempre fazia isso e era o que me tirava o medo, era tão relaxante...

- Não vá dormir, sua criança medrosa.

Levantei o rosto com um susto, realmente já estava quase dormindo. Passei as costas das mãos pelos meus olhos e me virei, deitando na cama. Ele também se deitou, ao meu lado.

- Shann, lembra que quando a gente era criança você ficava me contando histórias quando chovia e eu ia pra sua cama?

- Lembro. Eu poderia contar as histórias mais pavorosas do mundo e você não sentia medo. Mas se um raio ou uma trovoada chegasse aos seus ouvidos, você se enfiava debaixo das cobertas e eu tinha que te acalmar, por pelo menos meia hora. – ele riu.

Antes que eu respondesse ouvi mais um trovão e, por reflexo, encolhi meu corpo. Shannon mais uma vez me abraçou, mas dessa vez ficou brincando com meu cabelo, enrolando nas pontas dos dedos.

Cada segundo que passava eu sentia a respiração dele mais próxima e o abraço se apertando. Mas eu não tinha medo mais, eu confiava nele.

As mãos de Shann desceram do meu cabelo e foram até meu rosto, que foi puxado para perto do rosto dele. Sentindo a respiração de meu irmão tão próxima, não consegui me conter e encostei os lábios nos dele. O beijo durou alguns instantes – com os quais não me importei. Foi calmo, doce... Exatamente como eu imaginei que fosse.

Deitei novamente com o rosto no peitoral dele e nos abraçamos. Shann voltou a brincar com meu cabelo, e com isso não demorou muito para que eu dormisse ali, juntinho dele.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!