I'll Protect You
3 Capítulo 02 - Miss You
— Argh, desde quando cozinhar se tornou algo tão complexo? — Eu murmurei para o livro de receitas italianas, varias imagens de pratos deliciosos em cada pagina. Dava água na boca, o único problema é que eu não sabia cozinhar um risoto ou coisa do gênero. De maneira que fique bom, eu já tentei, confie em mim. Deslizei os dedos sobre as letras, acompanhando a leitura.
Francamente, não poderiam fazer algo mais simples? “Basta adicionar ¾ de água fervente e esperar três minutos para ficar pronto.” Mas, em vez disso, aqueles malditos comedores de massa preferem coisas como: “Pique as ervas ate que fiquem finas, então, adicione junto do molho branco que acabara de preparar na panela e refogue por cinco minutos.”
Eu amo comida italiana, na verdade, amo qualquer culinária desde que seja boa. E eles sabem como agradar meu paladar...
Eu virei para a próxima pagina, deslizando os olhos sobre uma interessante receita de risoto, me ajeitando sob o colchão confortável da minha cama. O refrão de uma de minhas musicas favoritas –Simpaty for the Devil- ecoou ao meu lado, eu rapidamente agarrei o celular, encarando o identificador de chamadas um segundo antes de atender.
— Mãe?
— Haya-chan! — A voz animada que poderia pertencer apenas a loura chiou do outro lado da linha. — Eu liguei tarde, por acaso? Estava estudando?
— Não, apenas tentando descobrir o que eu quero para o jantar.
Ela riu: — O livro de receitas italianas? — Advinhou, honestamente, como ela faz isso?! — Tente não explodir nada, eu realmente gostaria de fazer o meu café quando estiver em casa, e não em um hospital.
Revirei os olhos, mesmo ela estando do outro lado do globo. — Eu sempre achei que o Havaí tivesse um dos melhores cafés do mundo, não?
— E tem. — Suspirou. — Mas não é a mesma coisa de estar com a minha filha.
— Acho que uma suíte de hotel seria melhor do que aqui em casa.
A modelo riu novamente. — Eu amo a vista da janela, Amy trabalhou muito pela reserva!
Eu comprimi o celular contra meu ombro, me deitando de lado e encarando a parede creme do meu quarto, com alguns posters colados, dando vida e cor a ela. — Então, como foi seu dia?
— Bem... — Começou, eu podia ver sua expressão radiante. — Fomos surfar em uma praia linda, Waipio Valley. Ah, querida, as ondas estavam perfeitas! E, alias, tinham muitos garotos interessantes da sua idade ali-...
— Mãe, tente não me fazer um casamento arranjado com um havaiano qualquer. — Ela riu do outro lado quando eu a repreendi.
Ela sempre tentava me empurrar pro primeiro garoto bonito que visse, eu passei muita envergonha quando ela me apresentou um colega de trabalho com quem fez sessão de fotos. Ele sequer falava a nossa língua e estava tão confuso e envergonhado quanto eu.
— Fez sessão de fotos?
— Não, é amanhã. Vamos ir para as montanhas, Hoku’ula, se não me engano.
Eu sorri quando ela se atrapalhou um pouco para falar o nome do lugar: — Tem certeza de que é isso? Parece estranho.
— Realmente. — Rimos. — Ah, eles são muito agradáveis e alegres, me lembra um pouco o Brasil...Exceto por aquele calor infernal.
— Ah, eu sinto falta de viajar com você... — Mesmo que os mares nos dividissem, eu podia sentir todo o conforto de sua risada e seu bom-humor.
— Oh, Kazehaya, eu tenho que desligar.
— O que?! — Protestei. — Não pode falar mais um pouquinho?
— Sinto muito, amanha eu tenho um almoço com pessoas importantes.
Mordi o lábio inferior, abafando um suspiro de frustração. — Ok...Tchau.
— Eu vou ligar assim que tiver um tempinho, não se preocupe. — Disse em um tom maternal.
“Tempinho”. Ela vive ocupada, e quanto tempo dura um “tempinho”? Quanto eu vou ter que esperar?! Um “tempinho” pode ser amanhã, daqui uma semana ou talvez daqui a anos! Esse “tempinho” doí tanto quanto uma “eternidade”.
— Eu te amo, mãe.
— Também te amo, boa noite! — Ela se despediu.
Com um pequeno clique eu encerrei a chamada.
A modelo loira era sempre muito calma, francamente, é ocupada demais para alguém com um humor tão pacifico.
Já que é extremamente raro se ver uma mulher loira e japonesa pura – e muito, muito bonita- ela se tornou conhecida pelo mundo. Agora, ela faz viagens fantásticas aos cantos mais belos da Terra, conhece pessoas importantes, e tem suas fotos em milhares de capas de revistas de moda. Agora, sua viagem para o Havaí vai durar pelo menos seis meses.
Bem, foi o que me disseram quando fomos para a Europa, e acabamos ficando três ou quatro anos lá.
Ela não me levava nas viagens, portanto, minha avó cuidava de mim ou eu ficava sozinha mesmo. Minha única companhia, sem ser Kiku ou Yamamoto, na escola, era um panda de pelúcia que eu carregava o tempo inteiro em casa, Ame.
Agora que eu cresci, moro sozinha. Não que me importe, a loura paga as contas, ela deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Joguei meu celular ao lado, que pulou um pouco por causa das molas antes de pousar ao lado do livro.
Essa casa é tão vazia sem ela...
———
Na manhã seguinte, eu sorria orgulhosa para o despertador azul-violeta no criado-mudo. Eu acordei com praticamente uma hora de sobra para me aprontar para a escola, uma meta que eu me desafiei a cumprir ontem a noite. De modo que eu não entre para a lista: “Mordidos ate a morte por Hibari”.
Me sentei no lençol desnorteado, bocejei, esticando os braços em vitória sobre o demônio. Peguei o uniforme feminino no armário. Apenas por ter tempo de sobra, me preparei com perfeição.
Minha mão direita agarrou a maçaneta da porta, eu ruborizei quando vi um certo rapaz moreno ao abri-la.
Era Takeshi e sua casualidade, as mãos nos bolsos. — Bom dia, Haya-chan!
— Bom dia, Taka-kun, precisa de alguma coisa? — Abri um sorriso.
— Eu estava passando por aqui e pensei em te acompanhar! — Riu-se.
Levantei uma sobrancelha, afastando a febre repentina. — Claro...
— Ótimo!
Eu tranquei a porta de madeira escura, conversando com meu amigo durante todo o percurso para a escola. Ele colocara sua mochila a tira colo, e andava despreocupado. Meu destino era muito bem conhecido, 30 ou 20 minutos de caminhada, passando por uma rua larga ate chegar a escola. Normalmente, eu resmungaria internamente de Hibari, lembrando do dia de ontem, mas a presença do mais alto sempre me deixava alegre.
— Taka-kun, vai ir ao treino hoje?
— Sim! Pode ir assistir depois da aula, por favor?
Eu imediatamente quis deixar uma confirmação sair de meus lábios, mas nada acontece como planejamos. Minha voz tornou-se meio abatida em um murmúrio:
— Eu adoraria...Mas, Hibari me deixou na detenção hoje.
Olhando para cima, seus orbes de chocolate tinham um olhar compreensivo, ele abriu um sorriso triste. — Ah, entendo... Bem, de qualquer forma, tenho certeza de que vai ser bom para você!
Encarei-o em descrença. Bom?! O que aquele idiota traz de bom? Hematomas?
Yamamoto riu novamente, dando-me um tapinha amigável nas costas. — Fico feliz que pensa do mesmo jeito!
O que eu via nos –belos- olhos de chocolate era pura inocência. Mesmo depois de anos, mesmo depois dele se tornar muito mais alto do que eu e formar uma boa estatura...Tudo o que eu via eram os mesmos olhos do pequeno Yamamoto que eu conheci quando tinha apenas 5 anos.
–--
Ao chegar na sala de aula, esperamos por Tsuna, Gokudera, ou Kiku. Enquanto eles não chegavam, apenas conversamos um pouco:
— Ainda vai bem em matemática?
Ele sorriu nervoso. — Pra falar a verdade eu-...
Antes que ele pudesse completar a frase, e eu identificar o atacante, estava sendo violentamente puxada para longe do moreno.
— Ei!
— Ola! — Como sempre, Kiku estava sorridente, uma mão envolta de meu braço esquerdo.
— O-o que foi isso? — Perguntei, um vestígio de raiva na minha voz quando me livrei de suas garras.
— Eu iria apenas perguntar se vai ir para minha casa depois da aula...
— Existem outros meios de se ter minha atenção, Kiku.
— Talvez eu tenha vindo saber se você e Yamamoto sairão juntinhos depois da aula... — Confessou, com uma piscadela sugestiva.
Revirei os olhos, um rubor se formou no meu rosto quando me sentei, alisando a saia. — E-eu não posso sair hoje para lugar nenhum, tenho detenção.
— De novo? Mesmo? — Kiku continuava em pé, pronta para ir o mais rápido o possível para seu lugar, duas mesas antes do rapaz de cabelos prateados.
— Ele me odeia... — Suspirei, carregada de rancor pelo demônio.
— Hibari?
Eu assenti. — Ele apenas me colocou em detenção, os garotos não.
— O que?! — Exclamou, ganhando olhares curiosos de nossos colegas de classe: — Fez o que para conseguir isso?!
— ... — Suspirei novamente, derrotada. — Não tenho a mínima ideia!
Antes que pudesse aproveitar mais a companhia da loura, o sinal tocou, anunciando o inicio da primeira aula. Kiku disparou como um raio para o seu lugar, quase tropeçando no meio do caminho e esbarrando em Gokudera, que esbravejou irritado para a garota ruborizada.
Ela realmente gostava do prateado, francamente.
Na segunda aula, historia, eu não pude deixar de reparar em uma coisa: Hibari estava fazendo sua ronda do lado de fora, cruzando o gramado verde de sua amada escola.
“Ele não tem aula? Simplesmente ameaça os professores para que lhe passem de ano ou coisa do tipo?” Deduzi enquanto assistia o Presidente do Comitê Disciplinar.
“Por que agir dessa maneira com todo mundo? Seu orgulho é frustrante. Proteja a escola, e mate seus alunos se fizerem algo contra as regras. Bela logica.”
Seus orbes metálicos – e particularmente únicos- me disseram tudo o que sentia por apenas um olhar ontem: Repulsa, antipatia, e claro, disciplina.
Se minha mãe, se não fosse modelo, e talvez um pouco mais inteligente, poderia se tornar alguém famosa por dar bons conselhos amorosos ou deduções. Ela dizia que, podemos dizer como a pessoa é apenas pelo andar. Hibari, no caso, era orgulhoso, autoritário. Seus passos em linha reta, já que ninguém ousaria entrar em seu caminho, grandes e firmes em direção ao seu destino.
Seu destino era uma grande arvore, ele olhou para os lados antes de se deitar na grama, usando os braços como se fosse um travesseiro confortável e fechou os olhos. Gradualmente, eu pude ver sua carranca sumir de seus lábios e tornar-se entreaberta, seus olhos, sempre irritados e ameaçadores, não fariam mal a ninguém estando tão tranquilos quando fechados.
Dizem que para tudo tem uma primeira vez. E pela minha primeira, eu vi seu rosto relaxar por completo, ou parecer em um estado de felicidade. Poderiam considera-lo bonito se Hibari dormisse o dia inteiro, se não machucasse os outros. Eu poderia considera-lo, o que nunca seria o caso...
— Saitou! Por Deus, já lhe chamei três vezes!
Eu pulei em minha cadeira, encontrando-me com um olhar irritado do professor de historia. Seus braços cruzados sob o peito e os pés batendo impacientemente no chão.
— Apreciando a vista, eu presumo?
Eu corei quando lembrei-me de que estava olhando o demônio, e quase considerando-o bonito.
— Sensei, desculpe.
— Tenho certeza de que se arrepende. Agora, Saitou-san, tenha o prazer de fazer todas as questões que eu mandei a dez minutos, quando começou a sonhar acordada. — Ordenou.
— Q-quantos exercícios eu perdi? — Meus olhos se arregalaram.
Ele folheou inúmeras paginas do meu livro: — Todos estes.
Pude ver Kiku enviando-me um sorriso triste por cima do ombro.
— Bem, acho que terá muito o que fazer na detenção, Saitou.
Tinha um tom autoritário, e ao mesmo tempo zombava de mim. Eu não poderia fazer nada contra um professor, apenas me daria mais problemas, então, derrotada eu assenti ruborizada e o resto da turma riu.
— Agora, por favor, preste atenção. — Com isso, ele partiu de volta para o quadro negro.
Suspirei profundamente, irritada, encarei o demônio adormecido: — “Até mesmo dormindo você me causa problemas!”
Espera, ele sorriu?!
–-
— Bem, te vejo amanha, Takeshi. — Me despedi do rapaz moreno.
Ele deu-me um tapinha amigável nas costas e sorriu: — Tudo bem, aposto que ele não vai te machucar.
Murmurei: — Claro, apenas fisicamente e psicologicamente, tirando isso sairei ilesa.
— Haha, Boa sorte! — Ele acenou, eu retribui a despedida e continuei o meu caminho. Passando por um corredor, vazio, eu pude sentir uma mão agarrar gentilmente meu ombro direito.
— Saitou-san?
Olhei por cima dos ombros, e encontrei-me com um homem alto e de ombros largos, ele tinha um penteado estranho, como se fosse um torpedo e um ramo de grama entre os dentes.
— Sim...?
O estranho inclinou-se brevemente em uma reverencia: — Meu nome é Tetsuya, Kusakabe, fui enviado por meu chefe para lhe escoltar ate a detenção.
Eu levantei uma sobrancelha: — O local foi mudado?
— Sim, vamos? Kyo-san fica muito irritado com quem chega atrasado.
Eu assenti lentamente para o homem alto, e então o segui. Kusakabe...De jeito nenhum uma pessoa simpática, doce e agradável, pudesse trabalhar para Hibari Kyouya.
— Para onde, exatamente?
— Para a sede do Comitê, Hibari anda meio cansado, então ele realmente não quer sair.
Ainda tinham alguns alunos no corredor, provavelmente indo para seus clubes, suas vozes sussurravam palavras que eu não pude decifrar, eles seguiam-nos com os olhos. Kusakabe parecia não se importar.
Depois de um pequeno passeio pela escola, chegamos em um corredor silencioso, era como se mesmo o vento tivesse medo de perturba-lo. Paramos em frente a um par de portas duplas com uma placa acima que dizia “Recepção”. Kusakabe estendeu a mão antes que eu cometesse o grave erro de bater na porta educadamente.
— Apenas um aviso: Eu ficaria o mais quieto o possível enquanto ele dorme. — Sussurrou, humilde, não como ordem ou ameaça, e sim uma gentileza. Antes que eu pudesse assentir, ele abriu a porta.
O quarto era realmente agradável, para ser sincera, uma grande escrivaninha de carvalho escuro, o ambiente era iluminado apenas por uma fileira de janelas cobertas por cortinas verdes. Dois confortáveis sofás combinando, um em cada extremo do fofo carpete creme, uma mesa de centro escura no meio.
Embora que, a característica mais notável do quarto era Hibari dormindo no sofá.
Olhando por cima dos ombros, eu pude ver que a porta fora fechada. Kusakabe era mesmo silencioso, afinal. Meus olhos se arregalaram quando eu investiguei cada centímetro da sala, sem a mínima ideia do que fazer comigo mesma. Ao longe, avistei um papel branco sobre a superfície de madeira.
“Saitou, comece a trabalhar a partir da primeira pilha de papeis que esta na mesa, se me acordar eu vou te morder até a morte.”
Fitei a escrivaninha extremamente organizada, encontrando-me com tais papeis mencionados, lendo o primeiro documento e me acomodando na cadeira o mais silenciosamente o possível. Eu até mesmo prendia a respiração.
Inicialmente, achei que fossem apenas exercícios, textos, ou coisa do tipo, eu estava redondamente errada. Hibari dera-me quatro montanhas cheias de relatórios, falando sobre o financeiro do comitê, horários, e toneladas de obrigações que eram dele.
Encarei o moreno, calmamente dormindo. Ele estava cansado demais para fazer seu próprio trabalho.
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