I'll Never Give Up Of You
8 O Mundo Inferior
Notas iniciais
Lá estávamos nós, no Mundo Inferior. Aquele lugar era... Bom, escuro. E, sinceramente, me dava medo.
Eu já havia ido lá antes. Em uma caçada, estávamos perseguindo um cão infernal, e a maior parte das caçadoras conseguiu alcançá-lo e tocar nele assim que o monstro se tele transportou pelas sombras. Nós o flechamos assim que ele saiu de lá, matando-o.
Nós demoramos um ou dois dias para sairmos do Hades, não sei ao certo. O tempo é complicado ali embaixo.
Enfim, desembarcamos em frente ao palácio de Hades. O palácio era no ponto mais alto do submundo, e dava para ver quase todo o extenso mundo embaixo da terra.
Consegui avistar, ao longe, os Campos de Punição. Meu olhar se arrastou para lá apenas por causa dos gritos, ouvidos há quilômetros de distância. Do outro lado, vi os Campos Elíseos. Ah, os calmos Elíseos. Gostaria de ir para lá quando eu morresse. E entre os dois campos, estavam os Asfódelos. Tá aí um lugar que eu não gostaria de ir.
Ao longe, aproximadamente a uns dois dias de caminhada contínua erguia-se um castelo mediano, com paredes roxas e uma aura brilhante emanando da construção: o castelo de Hécate.
– É pra lá que temos que ir – apontei para o castelo da deusa, e recebi um olhar nervoso de Percy.
– Thalia... – o moreno disse, se aproximando – Tem certeza? Olhe – ele fez o possível caminho mais rápido com o dedo, pelo ar – Para chegarmos mais rápido até lá, seria pelos Campos Asfódelos.
– Os Asfódelos não são um bom lugar para pessoas vivas – Nico disse, atraindo os olhares para ele – Eles nos deixam desesperados. O silêncio é tanto que nossos ouvidos produzem zumbidos para afastar a falha da audição. E isso acaba enlouquecendo as pessoas com o desespero.
– Então é só falarmos enquanto andamos – Jack disse, balançando os ombros, como se aquela solução fosse a melhor. E, naquele caso, era mesmo.
– E teríamos assunto suficiente para percorrer esse campo gigantesco? – Annabeth disse, indicando o terreno a nossa frente com um dos braços.
– Bem, podemos contar nossas histórias – sugeri, e pude ver que Nico ficou um pouco desconcertado – ou nossas missões, acontecimentos marcantes de nossa vida. Vai ser um bom passatempo, além de ser uma oportunidade de nos conhecermos melhor.
Todos concordaram, mas Nico permaneceu calado, dando de ombros. Estranhei aquilo, mas começamos nossa longa caminhada.
– Ah, sério que vamos ter que andar isso tudo? – disse Jack, estranhamente preguiçoso – Hey, Nico, não pode nos levar pelas sombras até lá?
– Hey, Jack, energia não dá em árvore – ele respondeu, friamente – Se eu não estivesse tão cansado, já teria levado, não acha?
– Tá, desculpa – ele disse, levantando as mãos em sinal de rendimento – Estressadinho – sussurrou.
Nico revirou os olhos e tomou à dianteira, como se quisesse se afastar daquilo.
– Ok, ainda dá pra ouvir o barulho do rio daqui – concluiu Percy, atento – Não precisamos nos preocupar com sons ainda.
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Vinte minutos de caminhada. Já havíamos entrado nos Campos Asfódelos e o barulho do rio insistia ser audível. Pelos meus cálculos não estávamos nem perto da metade do extenso campo.
– Ok, não aguento mais – Nico disse, sentando-se ao meio dos espíritos – Mais um passo e caio morto.
O menino pegou a mochila preta que carregava e puxou uma garrafinha com água dali de dentro. Deu três goles e guardou-a novamente. Seu olhar desviou para uma solitária árvore que se erguia a uns cinquenta metros. Uma garota de pele escura e de cabelos cheios, com no máximo 13 anos, estava sentada ali, olhado para o nada.
– Sigam caminhada – Nico disse, sem desgrudar os olhos negros da garota – Eu encontro vocês o mais rápido que eu conseguir.
Ele se levantou ainda um pouco fraco, e foi até a menina. Nós seguimos andando, sem nos preocuparmos com o comportamento estranho do filho de Hades.
E foi aí que o zumbido começou.
– Vocês também estão ouvindo um zumbido? – Jack disse, sem parar de caminhar.
– Eu estava até você começar a falar – Annabeth respondeu, nervosamente – Foi o zumbido que Nico mencionou?
– Comecemos a falar, então! – falei, um pouco alto – Quem começa a narrar alguma história?
– Eu começo – voluntariou-se Jack. Ele pigarreou e pôs-se a falar:
“Um pouco antes de Daven, meu sátiro, chegar e me levar para o Acampamento, eu havia posto fogo em uma casa abandonada. Foi aterrador.”
“Neste dia, eu estava com meus dois melhores amigos correndo por uma rua de Nova Jersey que era bem antiga. Não me lembro ao certo que rua era, afinal, nós estávamos correndo.”
“Não, não era de um monstro, Annabeth. Era de um grupo de garotos, cada um com, no mínimo, 16 anos. Nós estávamos jogando pedrinhas em um muro, e uma dessas pedrinhas acertou o carro do possível líder dos brutamontes, o que acabou enfurecendo a todos.”
“Então, nós estávamos correndo. Josh, um dos meus amigos, tropeçou e caiu com tudo no asfalto, se arranhando nos braços, joelhos, pernas e rosto. Kyle e eu paramos e fomos ajudar Josh, que estava bem esfolado. Foi nessa que eles nos alcançaram.”
“Um dos garotos pegou uma pedra e jogou na barriga de Kyle. Nem deu tempo de ele desviar. Quando vimos, Kyle já estava no chão, ajoelhado, tentando resgatar o ar, enquanto Josh tentava se recuperar do tombo que levou. Só restava eu de pé.”
“Depois que Kyle caiu no chão, sem ar, uma raiva súbita preencheu meu interior. Não, aquilo não iria sair barato.”
“Quando vi, um raio já caía entre os demais garotos, fazendo-os darem pulos para os lados, se dispersando. Logo depois, um raio caiu na casa ao lado que, graças aos deuses, estava abandonada. O edifício, rapidamente, entrou em chamas. Aquilo foi realmente assustador.”
“Graças a aqueles raios, os garotos ficaram com medo de o fogo se alastrar e saíram dali o mais rápido possível, levando a vingança com eles.”
“Levei Josh ao pronto-socorro assim que vi que Kyle já estava melhor, pois não é todo mundo que aguenta uma pedrada no estômago, não é? Enfim, uma semana depois, Daven chegou, mas isso já é outra história.”
Não entendi muito bem o porquê de Percy e Annabeth aplaudirem Jack, mas entrei na onda deles e aplaudi-o também. Foi uma história boa.
– Minha vez, então – eu disse, depois que os aplausos cessaram.
Narrei uma de minhas histórias de quando estava na Caçada de Ártemis, com um pouco de saudades na voz. Não posso negar, foram ótimos os anos que passei com milady, mas teriam sido ainda melhores se não pensasse em Luke vinte e quatro horas por dia.
Ficamos assim, contando histórias até cansarmos de andar. Já deveria ter se passado um dia, pois já estávamos esgotados. Resolvemos acampar ali, perto de outra solitária árvore nascida nos campos torturantemente quietos.
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Mais um dia se passou. Mais histórias foram contadas, e logo já ouvíamos o barulho de outro rio, que, nós sabíamos, era o que passava ao redor do castelo de Hécate.
– Bem, acho que estamos chegando – Annabeth disse, finalizando uma de suas outras mil histórias – Conseguem ouvir o som de outro rio? Com certeza é o que passa perto do castelo.
– É sim, Annie – Percy disse – É ele mesmo.
Mais uns minutos de caminhada, desta vez em silêncio, e pudemos ver o castelo de Hécate.
Sentei-me, exasperada, e bebi um gole d’água. Mal acreditava que veria meu Luke de novo. Preparar-me-ia para isso.
Coloquei a garrafa d’água nas mãos de Jack e corri o mais rápido que consegui, até a beirada do terreno de Hécate, onde bati em um campo de força invisível e caí, desmaiada.
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