Iguais, porém opostos
23 Como fortuna e infortúnio
Notas iniciais
Aquela era a primeira vez que Bo Ra viajava de avião e, contrariando o que a grande maioria das jovens da sua faixa etária alegaria, ela não tinha a menor vergonha de admitir aquilo. Além de ser inevitável esconder aquele fato de Taehyung — afinal, eles viviam no mesmo quintal e consequentemente sabiam até mesmo quando o outro estava ou não em casa — não havia um porquê para tentar fazê-lo. Apenas nunca tivera um motivo para utilizar o transporte aéreo, isso era tudo. A Coréia do Sul não era um país exatamente de grandes extensões, então qualquer viagem nacional poderia ser facilmente suportada dentro de um ônibus ou de um trem; ainda que a Kang não costumasse viajar dentro do país, também.
Na verdade, ela não se lembrava de ter viajado antes, exceto pela vez na qual fora até o parque arborizado do cartão postal enviado por sua mãe. Ao contrário da família Kim, que fazia viagens longas e custosas em todas as temporadas possíveis do ano, Bo Ra nascera e passara todos os dias de sua vida naquela mesma cidade e naquele mesmo endereço — mas, mesmo assim, aquilo não era de todo um incômodo em sua vida. Sabia que um dia teria a oportunidade de fazer uma boa viagem nacional ou internacional e, assim, criaria muitas memórias para levar consigo pelo resto de sua vida.
Felizmente, aquele dia chegara. E o pacote ainda incluía um acompanhante, o que era melhor do que qualquer coisa que ela poderia imaginar.
Na poltrona ao seu lado, Taehyung não conseguia desviar seus olhos da Kang. No começo ele sentiu-se receoso de que ela se assustasse com a altitude ou não se sentisse bem dentro do avião, mas essa preocupação começou a se desfazer conforme o brilho nos olhos da garota aumentava. Ela manteve-se concentrada na paisagem exibida pela pequena janela da aeronave e continuou assim durante um bom tempo, mesmo que a única coisa visível depois de alguns minutos após a decolagem fosse um mar de nuvens brancas feito deliciosos pedaços de algodão.
Taehyung sorriu sozinho, admirado com aquela cena.
— Eu deveria ter aproveitado a minha primeira viagem de avião assim. — ele comentou bebendo um pouco de água e referindo-se ao estado de euforia dela. — Sinceramente, eu nem me lembro para onde estava indo.
— Suíça. — a Kang emendou no segundo seguinte, ainda fitando a paisagem branca através da pequena janela ao seu lado. — Você foi esquiar nas nossas férias de inverno, se eu não estou enganada.
— Como você sabe disso? — ele indagou, completamente surpreso.
Na verdade, o Kim também sabia de alguns detalhes um tanto específicos sobre a vida de Bo Ra, mas não imaginava que ela compartilhasse dessa característica aparentemente na mesma intensidade que ele. Ela, por sua vez, desviou o olhar da janela diretamente para fitar Taehyung.
Riu.
— O fato de que eu detestava você não anula o de que minha avó é e sempre foi a sua governanta. — respondeu. — Além disso, eu me lembro disso porque fiquei muito irritada com a sua família na época.
— Por que você queria ir conosco, por acaso? — o Kim brincou, quase levando uma cotovelada em resposta.
— Porque mesmo que não houvesse ninguém em casa, a minha avó tinha que ir trabalhar. — um pouco sem jeito, a Kang abaixou o olhar. — Eu queria tanto que ela me levasse para ver o Rio Han congelado naquele ano, que acabei esquecendo que ela estava apenas cumprindo suas obrigações.
Em silêncio, Taehyung fitou a garota durante alguns longos e pensativos segundos. Sempre tivera alguma vaga consciência de que ter a senhora Kang à sua disposição e de sua família durante basicamente todo o dia deveria ter algumas consequências para a mais velha, mas jamais havia parado para imaginar que as mesmas poderiam afetar Bo Ra. Não era como se a família Kim explorasse a idosa, pelo contrário: ela trabalhava confortavelmente e recebia muito bem pelos seus serviços; mas nem tudo se tratava de sua saúde física e mental ou poderia, no fim das contas, ser recompensado com dinheiro.
Afinal, nem toda a fortuna da família Kim poderia comprar certas coisas.
— Desculpe. — ele disse, agora mais sério. Bo Ra o fitou sem entender pelo o que ele se desculpava, o que o fez prosseguir. — Mesmo acreditando que ainda fez muito, minha família, na verdade, tomou muito de você.
E, no fundo, Taehyung não se referia apenas a aspectos como o tempo entre avó e neta que era sempre encurtado pelos Kim ou coisas assim, mas também a outros muito mais delicados e piores — afinal, o próprio nascimento da garota era uma prova do quão obscura aquela família era, isso se ele descrevesse gentilmente o que acontecia dentro das paredes da mansão na qual nascera e crescera. Bo Ra, por sua vez, entendia o que Taehyung estava pensando e lhe dizendo, mas não concordava mais com ele. Chegou sim, um dia, a pensar que a culpa daquilo que acontecera à sua mãe e também com ela era exclusivamente da família Kim, mas seu pensamento havia mudado com o passar do tempo.
Ela não era uma vítima.
Claro, muitas coisas poderiam ter sido evitadas ou melhor resolvidas, mas aqueles eram fatos passados e os quais estavam bem longe do alcance das jovens mãos de Bo Ra. Atualmente, depois de ter vivido mais para poder enxergar sua realidade daquele modo, ela havia se cansado de tentar encontrar culpados ou vítimas; preferia, assim, procurar por soluções e melhores caminhos.
Aquilo era, na verdade, o que algumas pessoas chamavam não de perdoar ou esquecer, mas sim de amadurecer.
— Bem, olhando por esse lado... — ela iniciou, inclinando-se na direção dele com um sorriso travesso. — Você ainda terá que me levar muitas vezes para muitos lugares até quitar a dívida que sua família tem com a minha. Você acha que pode fazer isso?
Não muito intimidado, ele imitou o gesto dela e os aproximou ainda mais. Ainda se sentia culpado, inevitavelmente, mas não havia sequer um pensamento em sua mente capaz de resistir àquela Kang Bo Ra.
— Com prazer. — respondeu o Kim, com um sorriso no canto de sua boca.
Mantendo aquele clima, o restante da viagem correu tranquilamente. Aquele fora um longo voo de mais de dez horas, mas nenhum dos dois ousara reclamar por poderem passar todo aquele tempo juntos e tecnicamente sozinhos; exceto pela senhora ao lado deles, que dormira profundamente por quase sete horas seguidas.
Quando finalmente pousaram, Bo Ra teve dificuldades em acreditar que estava realmente em solo francês. Era uma experiência na qual ela não se imaginara pelos próximos dez anos, no mínimo, e cada gesto vislumbrado da garota ainda dentro do avião encantava cada vez mais o Kim. Ele alcançou com facilidade a bagagem de mão dos dois no compartimento de bagagens e, depois de darem passagem para os mais velhos, conseguiram desembarcar com tranquilidade.
E, então, estavam em Paris.
Cruzaram o portão de desembarque logo em seguida, cada um com sua respectiva mala. Até mesmo o ar daquele aeroporto parecia outro e, reparando em todos aqueles detalhes e pessoas diferentes, Bo Ra não percebeu quando começou a ficar um pouco mais atrás de Taehyung. Quando percebeu, ele desacelerou suas passadas e passou a olhar regularmente para trás, sempre certificando-se de que a vislumbrada Bo Ra ainda o seguia.
Foi quando um corpo menor do que o seu e aparentemente disposto a enforcá-lo encontrou-se com o dele.
— Kim Taehyung, seu irmão mais novo desnaturado!
Era Taeyuna quem abraçava o rapaz sem a menor cerimônia, passando seus braços ao redor de seu pescoço e aplicando uma quantidade considerável de força naquela região. Ela ainda era um tanto intensa, como já era de se esperar, mas desta vez tinha os cabelos mais longos e rosados.
— Pelos céus, você está tentando me matar asfixiado depois de tanto tempo sem nos vermos? — ele indagou, precisando tirá-la de seu pescoço para conseguir respirar livremente.
Ela o analisou dos pés à cabeça e, em seguida, acertou-lhe um tapa no braço.
— Isso é o que você ganha por me deixar morta de curiosidade. — disse, séria. — Quando nos falamos pelo telefone você me disse que tinha uma surpresa muito importante, mas não quis contar o que era. Isso não se faz!
— Se eu contasse, não seria uma surpresa, não acha? — o mais novo retrucou, massageando a área ferida pelos longos dedos da irmã.
Taehyung esperava que a irmã reagisse melhor — vulgo menos agressivamente — quando descobrisse sobre o que aquela tal surpresa realmente se tratava.
Por falar nisso, onde diabos estava ela?
— Você está querendo levar outro tap...
— Unnie?!
Sem conseguir terminar a última palavra de sua ameaça contra o irmão, Taeyuna foi interrompida por uma figura feminina já conhecida sua, que saía de trás de Taehyung com um sorriso brilhante no rosto. Surpresa, seus olhos dobraram de tamanho quando ela avistou Bo Ra e a enorme mala de carrinho que a garota trazia consigo.
— Bo Ra? Bo Ra?! — a mais velha indagava, realmente pasma. — O que você está fazendo aqui? Meu Deus... — ela pausou, fitando o irmão com certo terror em seu rosto. — Você sequestrou ela? Taehyung, toda a polícia da Coréia do Sul deve estar lhe procurando agora! E você ainda teve a audácia de me fazer de cúmplice nisso?
— Essa é a surpresa, noona. — ele interrompeu impaciente o raciocínio atrapalhado da irmã. Tomou a mão livre de Bo Ra, que por sua vez se esforçava para segurar sua risada, e a envolveu na sua. — Nós estamos namorando. Surpresa.
A Kang fitou o rapaz, descrente. Ele havia prometido que contaria aquilo delicadamente. Pelos céus, ela fora muito inocente em ter acreditado na possibilidade de ter um Kim Taehyung mais sensível num momento como aquele.
Já Taeyuna, por outro lado, continuava mais atônita do que nunca.
— Não... — ela disse, encarando os dois jovens.
— Sim. — Taehyung rebateu.
— Não...
Taeyuna continuou pasma, até ouvir o suspiro irritado do Kim mais novo. Bem, ele deveria entender que aquela notícia soava aos ouvidos da irmã mais ou menos tão incrível quanto o fim da guerra entre as Coréias, caso isso viesse a acontecer um dia. Contudo, pela falta de paciência dele e pelas bochechas ruborizadas de Bo Ra, ele estava realmente falando a verdade. Finalmente constatando aquilo, Taeyuna não conteve seus braços e, mesmo que aquilo não fosse humanamente possível, lançou ambos ao redor dos dois e os apertou ao mesmo tempo.
— Até que enfim! — a Kim exclamava enquanto espremia os adolescentes em um longo abraço.
Por que todos continuavam dizendo aquilo quando descobriam sobre o namoro?
— O que diabos você é, um polvo? — Taehyung reclamou, já que a irmã parecia ter a mesma quantidade de braços que o animal tinha de tentáculos.
Taeyuna, por fim, se desvencilhou dos dois.
— Aigoo, você é sempre tão ranzinza comigo. — foi a vez dela reclamar. — Deixe-me aproveitar esse momento em paz, garoto!
Bo Ra, ainda que um tanto calada, não conseguia parar de rir daquela situação. Taeyuna já era uma pessoa divertida por si só, ainda mais quando Taehyung agia como um senhor de idade rancoroso com ela, e a reação dela ao descobrir sobre o namoro dos dois era certamente impagável. O Kim mais novo havia cruzado os braços, agindo como um típico irmão mais novo, mas Taeyuna não dava a mínima para aquele comportamento infante.
— Quando foi que isso aconteceu? Como? — ela iniciou uma interminável sessão de perguntas. — Não, na verdade me poupe de detalhes como o como.
A indiscrição da irmã fez Taehyung se engasgar com a própria saliva e voltou a corar as bochechas de Bo Ra — a garota até pensou em se manifestar, mas achou melhor não o fazer e acabar piorando ainda mais o clima constrangido.
— Você veio de carro, certo? — Taehyung indagou, mudando o tópico da conversa e não esperando uma resposta da mais velha para continuar. — Vamos falando no caminho até o estacionamento.
Aquela fora uma boa jogada, porém ainda era simples demais diante da curiosidade aguçada da Kim. Eles começaram a caminhar pelo saguão do aeroporto na direção do estacionamento subterrâneo, quando Taeyuna espreitou os olhos na direção dos dois mais novos.
— Não que eu não esteja super feliz e animada com a visita, mas vocês realmente vieram até aqui só para me contar isso? Eu sei que sou adorável e tudo mais, mas não tenho certeza se valho umas quinze horas de viagem.
Na verdade, das diversas questões que rodeavam a mente elétrica de Taeyuna, a mais preocupante delas era como os outros tinham reagido àquela notícia, especialmente em casa. Talvez, só talvez, a possibilidade de Taehyung e Bo Ra estarem fugindo de alguma reprovação ou proibição havia passado por sua cabeça e, para poder atormentar os dois com perguntas mais divertidas, ela precisava descartar aquela mais desagradável primeiro.
— Claro que não. — foi Taehyung quem respondeu, deixando ali implícito que a irmã por si só não valia suas preciosas quinze horas. — Eu queria trazer a Bo Ra para conhecer Paris.
Naquela altura da conversa, eles já haviam alcançado o estacionamento. Mesmo sem saber para onde deveria ir, Taehyung seguia na frente e, por isso, Taeyuna não conseguia ver que tipo de expressão o irmão trazia no rosto.
— Mas o casal Kim concordou com isso? — ela indagou, atraindo a atenção de Bo Ra. Na verdade, a garota também não sabia qual era a resposta para aquela pergunta. — Quero dizer, vocês estão aqui, claro, mas não esperava que os dois fossem aceitar isso tão facilmente e...
— Você trocou de carro? Não estou conseguindo achar aquele vermelho.
Taeyuna pensou em repreender o irmão por interrompê-la (novamente), mas o que viu a fez pensar duas vezes. Seu campo de visão era um pouco limitado por estar mais atrás de Taehyung, mas ela ainda pode ver seu pomo-de-adão subir e descer com certa dificuldade. Taehyung estava engolindo em seco, o que só acontecia em uma situação única e extremamente rara: quando ele não podia responder a alguma pergunta. Além disso, ele fingia procurar despreocupadamente o carro da irmã pelo pátio, o que ela sabia ser mentira por Taehyung nunca fazer nada despreocupadamente.
No fim das contas, os irmãos Kim não precisavam de uma palavra sequer para se comunicarem.
— Sim, troquei semana retrasada. — ela respondeu, apressando-se na frente deles. — É aquele branco e grande que está logo ali.
Por hora, os dois haviam se entendido. O que quer que precisassem conversar, o fariam mais tarde e com mais calma.
Já Bo Ra, infelizmente alheia àquela situação, ainda não havia percebido o quanto teria de entender eventualmente.
***
— Como assim começar pelo Museu do Louvre? — Taeyuna indagou, perplexa. — Taehyung, são só dez horas da manhã e você quer ir visitar um museu? Quer que essa seja a primeira coisa que a Bo Ra conheça em Paris?
Sentado no sofá do confortável e bem decorado apartamento da irmã, este localizado na parte mais turística e sofisticada da cidade, Taehyung suspirou pesadamente. Os irmãos tinham gostos extremamente diferentes desde sempre e, por isso, qualquer situação que lhes fizessem escolher algo de preferência mútua virava uma verdadeira guerra.
— Você pode não saber disso, mas muitas pessoas realmente gostam de coisas como história e arte, irmã. Na verdade, é geralmente por isso que elas costumam visitar Paris.
Taehyung já havia preparado todo um cronograma de viagem para os dois antes mesmo de embarcar no avião na Coréia e, por isso, estava disposto a defendê-lo até o fim. Como ele havia previsto, ambos estavam cansados demais por conta do voo para fazerem qualquer coisa que não fosse descansar e, por isso, aquilo era tudo o que tinham feito no dia anterior. O apartamento da Kim mais velha possuía quatro quartos, o que permitiu que cada um fosse instalado confortavelmente e dormisse uma boa noite de sono até o dia seguinte, despertando prontos e cheios de energia para fazerem tudo aquilo que Taehyung pensara e programara.
Isso, claro, se não fosse por um empecilho um tanto persistente chamado Kim Taeyuna.
— Mas não foi por isso que eu vim para Paris. — a mais velha rebateu. — Eu vim pela moda e pela comida, então é isso que eu quero mostrar à Bo Ra.
Bem, Taeyuna sabia que estava sendo um tanto intrometida diante do fato de que aquela deveria ser supostamente uma viagem de casal, mas ela não conseguia evitar de pensar saber o que era o melhor a ser feito.
Talvez, aquilo fosse um mal de família.
Sentada na outra ponta do mesmo sofá onde estava Taehyung, um belo móvel de camurça que combinava muito bem com o restante da decoração moderna do apartamento, Bo Ra assistia àquela discussão de irmãos um tanto incrédula. Era engraçado, claro, em especial o modo como uma mulher de vinte e tantos anos e um jovem já com um pé na maior idade discutiam feito duas crianças bicudas, mas a Kang não estava a fim de ver em Paris o mesmo que crescera vendo: aquela briga interminável entre dois irmãos que, na verdade, só faziam aquilo para não precisarem admitir o quanto gostavam e sentiam falta um do outro.
Antes de se pronunciar, Bo Ra fez uma nota mental constatando que, apesar de ser uma cena cômica para quem assistia pela primeira vez, jamais perderia um tempo precioso como aquele brigando com seu irmão, caso tivesse um.
Caso tivesse um.
— Licença, mas... — Bo Ra pausou, esperando até que ambos a notassem. — Algum dos dois pensou em perguntar para mim o que eu quero fazer?
Naquele momento, o silêncio tomou conta da sala e foi possível ouvir o barulho do trânsito consideravelmente agitado na rua seis andares abaixo deles. A convicção típica dos Kim esvaiu-se quando ambos perceberam, ao mesmo tempo, que faltava uma peça chave para saírem daquele empasse: uma terceira opinião, na verdade aquela que mais importava no momento.
Taeyuna foi a primeira a se manifestar, pigarreando como se subitamente estivesse resfriada.
— Você está certa. — admitiu, balançando a cabeça afirmativamente. — O que você gostaria de fazer, querida?
Finalmente ganhando a oportunidade de pensar sobre aquilo, Bo Ra percebeu que, na verdade, não fazia ideia de por onde gostaria começar a conhecer Paris. Coçou o queixo, pensando, quando a expressão curiosa e cheia de expectativas no rosto de Taehyung lhe deu uma ideia.
Sorriu.
— Quero fazer um pouco de tudo.
Os irmãos se entreolharam, confusos.
Naquele momento, eles não chegaram a imaginar que Bo Ra estava falando literalmente sério.
Assim que ambos concordaram, ela pediu para que se arrumassem e, em seguida, que Taeyuna os levassem até a sua padaria preferida de toda a Paris. A mais velha o fez e, assim que chegaram no local muito acolhedor e relativamente vazio, Bo Ra pediu que cada irmão ordenasse o seu favorito do cardápio para que ela experimentasse.
— Você vai tomar café da manhã duas vezes? — Taehyung indagou, surpreso.
— Eu estou com muita fome, oras. — a Kang respondeu, dando de ombros. — É a sua vez de pedir. Peça para viagem, por favor.
Bo Ra tinha um sorriso travesso no rosto e, por isso, o Kim não acreditava nem um pouco em sua despretensão — mas, novamente, lá estava Kang Bo Ra e a ela ele não conseguia resistir, nem mesmo se quisesse. Fez o que ela lhe pediu, sendo ajudado pelo francês fluente que adquirira depois de alguns anos de aulas particulares do idioma. Pediu um croissant e mais alguns acompanhamentos e, como Taeyuna já havia pedido seu painauraisin, eles puderam seguir viagem para onde quer que Bo Ra quisesse ir.
A garota saiu andando na frente como se já conhecesse a cidade há anos e, vislumbrada com toda a beleza daquelas ruas tão movimentadas e acolhedoras, ela só parou quando encontrou uma pequena loja de utilidades. Os irmãos a seguiam e, consequentemente, também pararam de caminhar. Bo Ra puxou Taehyung animadamente pela manga do suéter preto que ele usava até pararem diante de uma bancada que exibia diversas toalhas decorativas, a grande maioria para mesas.
— Você pode pedir uma dessas para mim? — ela lhe perguntou, apontando para uma quadriculada. — Sabe, eu mesma o faria se o meu francês não fosse tão precário.
Na verdade, a Kang havia tentado algumas aulas virtuais do idioma, mas acabou tendo de escolher entre o curso online e o colégio, em especial naquele último ano. Taehyung estranhou o pedido, mas, conhecendo Bo Ra, ele sabia que de nada adiantaria lhe perguntar o porquê daquilo naquele momento; ela contaria apenas quando aquilo que estivesse preparando se encontrasse completamente pronto. Taeyuna, que vinha logo atrás sem também entender muita coisa, fez questão de pagar pela compra mesmo sem saber para o que a mesma serviria.
Depois disso, Bo Ra finalmente revelou seu destino.
— Bem, agora nós podemos ir até o Louvre. — ela disse, balançando em sua mão direita a sacola com a toalha quadriculada.
Taehyung sorriu, entendendo o que se passava naquela cabecinha mirabolante da namorada.
— O que você pretende fazer no Louvre com toda essa comida e uma toalha, Bo Ra? — foi Taeyuna quem indagou, descrente.
— Um piquenique.
Exatamente como Taehyung esperava.
— Mas querida, é proibido entrar no museu com essa quantidade de comida. — a mais velha explicou rindo.
— Eu sei. — a garota insistiu. — E é por isso que nós vamos fazê-lo do lado de fora, no pátio.
Durante um momento, Taeyuna podia jurar que aquela fora a maior revelação que tivera nos últimos tempos.
— Você fez tudo isso para que nós dois parássemos de brigar, não foi? — ela perguntou, mas não obteve uma resposta direta de uma Kang que repentinamente encontrava-se silenciosa. Taeyuna riu e entrelaçou seu braço no da mais nova, fazendo com que as duas começassem a caminhar juntas. — Você é um gênio, Kang Bo Ra. — sussurrou, fazendo a outra rir. — Nós seremos ótimas cunhadas, com certeza.
— O que vocês estão cochichando aí? — Taehyung indagou ressentido e apressando-se para não ser deixado para trás.
— Por que você está andando tão devagar? — sua irmã rebateu, brincando. — Nós estamos indo para o Louvre, oras! Aquele museu não espera por ninguém.
Aquilo não fazia o menor sentido, já que a estrutura museu geralmente representava algo mais monótono e incapaz de se mover, mas os dois mais jovens resolveram ignorar a lógica e apenas rir. Taeyuna acabou por conduzi-los de metrô até o Louvre, o que foi uma viagem fascinante para Bo Ra, ainda que houvesse metrôs tão sofisticados na Coréia quanto aquele no qual andara.
Não importava o que fosse, fazê-lo em Paris parecia duas vezes mais encantador.
Na estação, ao desembarcarem, Bo Ra sentiu a figura alta de Taehyung aproximar-se dela e, logo, ele estava cobrindo o suave sol daquela manhã ao lado dela. O Kim mais novo ignorou a presença da irmã e segurou a mão da Kang, entrelaçando seus dedos nos dela. Ela o fitou um tanto surpresa, porém, quando encontrou os relaxados olhos do rapaz, sentiu-se mais tranquila. Com eles, Taehyung dizia a ela para não se preocupar, pois ali ninguém ao redor deles sequer notaria o toque.
Com a exceção de Taeyuna que, com um sorriso discreto no rosto, assistiu à cena sem dizer nada.
A sensação de caminhar de mãos dadas com Taehyung sem preocupações era uma das melhores que Bo Ra já havia sentido, sem pensar duas vezes. Não precisava olhar ao redor para procurar por algum mais velho e conservador em potencial, alguém que provavelmente estaria disposto a lhes lançar um olhar reprovador diante de tamanha intimidade que os mais jovens demonstravam ter. Claro, a Kang adorava seu país e provavelmente não escolheria nascer em outro lugar se pudesse fazê-lo, mas isso não significava que não havia algumas mentes por lá que ainda precisavam de um pouco mais de abertura.
Quando finalmente alcançaram o pátio do Museu do Louvre, Bo Ra tomou alguns segundos apenas para admirar a beleza do lugar. A enorme construção de arquitetura antiga parecia um palácio à primeira vista, formando um belo e inusitado contraste com as modernas e brilhantes pirâmides de vidro logo à sua frente no pátio, em especial com a central. A água que rodeava as pirâmides era tão cristalina que refletia não só as mesmas, mas também parte da construção clássica do museu e do céu azulado. Havia ali uma quantidade considerável de pessoas, mas apenas o suficiente para dar ao lugar um ar ainda mais agradável.
Se o museu já esbanjava toda aquela beleza por fora, Bo Ra imaginava como seriam os salões interiores.
— Eu nunca me canso dessa vista. Não é só o museu em si, mas todo o conjunto. — Taehyung disse, ainda ao seu lado. Seu tom de voz era calmo, porém igualmente admirado. — É lindo.
— Sim, é incrível. — Bo Ra concordou, acompanhando o sorriso quadrado do Kim.
— Linda, realmente. — foi a vez de Taeyuna dizer, mas ela trazia algo a mais em sua voz. — Mas eu estou morrendo de fome. Eu realmente espero não ser presa por isso, mas vou estender essa toalha por aqui mesmo.
Bo Ra riu e a ajudou a esticar a toalha num canto do pátio um pouco mais afastado do museu, onde uma família também fazia um piquenique, enquanto Taehyung limitou-se a segurar o café da manhã, sem saber o que fazer. Nenhum guarda pareceu incomodar-se com a presença deles, então os três puderam relaxar ao perceberem que não estavam fazendo nada ilegal ou do tipo.
Ainda satisfeita com a sua própria ideia, a Kang arrumou a comida sobre a toalha e eles se sentaram. Ela experimentou tudo o que havia ali, sendo um prato mais gostoso que o outro. Sentado de frente para ela e com as pernas esticadas para fora da toalha, Taehyung admirava o sorriso singelo e inocente da namorada em silêncio. Ele não conseguia evitar de pensar na imensurável sorte que tinha por ter Bo Ra bem ali, ao seu lado.
Na verdade, havia duas coisas nas quais Taehyung não acreditava, mas que estavam ambas ali presentes naquele momento apenas para provar, mais uma vez, que ele ainda mantinha alguns preceitos errôneos: fortuna e perfeição. A primeira porque, para o sempre calculista e observador Kim Taehyung, nada na vida tratava-se de sorte ou azar; acontecimentos eram apenas consequências de ações, fossem aquelas suas ou de terceiros. E, em segundo, o garoto jamais havia considerado algo perfeito. Qualquer que fosse o momento, a pessoa ou até mesmo objeto, sempre havia uma falha e essa jamais passava despercebida aos olhos do rapaz.
E então, agora, lá estava ele, sentindo-se o ser humano mais sortudo do mundo diante de um momento tão perfeito.
Aquele era o primeiro piquenique que fazia em sua vida, algo que poderia ser relativamente pequeno e irrelevante, se não fosse por estar acompanhado das duas pessoas que mais gostava e admirava naquele mundo. As únicas duas que amava. Com esse pensamento em mente, fitou os cabelos rosados e bagunçados de sua irmã e, em seguida, o brilho nos olhos de Bo Ra enquanto ela encarava encantada o Louvre.
Naquele momento, sem preocupações ou medo, o Kim sentiu como se nenhum infortúnio no mundo fosse capaz de estragar sua felicidade.
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