Ignorância

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Bom, só espero que achem meu conto legal :3

O momento se aproximava. O grande casamento seria realizado dentro de meia hora, no máximo. Tudo estava pronto: as damas de honra estavam ajeitando suas pequenas coroas; as floristas estavam despejando as pétalas de rosas dentro das cestinhas; o Padre arrumava sua túnica. Toda a decoração estava esplêndida. O perfume das rosas vermelhas preenchia a Igreja tornando-a mais alegre e ainda mais receptível. E à medida que todos os cidadãos da cidadezinha Santa Teresinha de Jesus chegavam, os organizadores da decoração e os funcionários da Igreja ficavam ainda mais aflitos e ansiosos ao esperar pelo grande momento.

Quando o local sagrado estava quase cheio, o noivo finalmente chegara. Lucas Rodrigues vestia um fino smoking de cor branca e sapatos sociais combinando. Era um homem de pouco mais de vinte e cinco anos de cabelos escuros e olhos de um castanho claro e descendente de africanos. Era esbelto e educado. Vinha de uma família respeitada e possuidora de grandes riquezas, por isso era desejado pela maioria das moças da cidade. Mas somente duas mulheres em toda sua vida conseguiram seu coração, de fato: sua noiva e a falecida irmã mais velha da mesma.

Ele subiu ao altar e pôs-se ao lado de seu pai. O mesmo acariciou o ombro do filho e sorriu passando confiança. Lucas retribuiu o sorriso que saiu repleto de nervosismo. O jovem, enfim, unir-se-ia com a mulher que ama. Estava satisfeito e aliviado com a decisão importante que tomara. Finalmente seria feliz.

Então, todos os convidados se levantaram. A noiva havia chegado. Primeiro entraram os padrinhos e as madrinhas, todos os oito casais com sorrisos alegres nos rostos, seguidos pelo casal de noivinhos com roupas idênticas a dos noivos. Em seguida, a florista entrou jogando suas pétalas de rosas vermelhas no tapete dourado da Igreja. A marcha nupcial começou e a noiva apareceu na porta à vista de todos. Alexandra Estevão sorriu caminhando em direção ao altar. Seu vestido de cor branca caía-lhe perfeitamente e seu cabelo ruivo natural armado em um coque bagunçado combinado com sua pele branca realçavam seus olhos verdes discretos.

Alexandra era uma moça de vinte e dois anos de idade dócil e educada que encontrara o amor em Lucas, o primeiro e único homem de sua vida. Ela o amara desde pequena; não por ser possuidor de riquezas nem por ser o homem mais bonito de toda Santa Terezinha de Jesus, ela o amara porque sempre se encantou por sua personalidade. Por isso, a noiva sempre achou que o merecesse e que deveria ter seu amor, nem que para isso ela tivesse que tê-lo a força.

Lucas estendeu a mão e a pegou ajudando Alexandra a subir os degraus do altar. Ele deu-lhe um pequeno beijo na testa depois que ela entregou seu buquê para sua mãe. Então, Alexandra olhou-o no fundo dos olhos castanhos de Lucas e soube naquele momento que aquilo era o que ela mais queria no mundo. Não se arrependeria de ter feito tudo que fez se tivesse a plena certeza de que olharia para aqueles mesmos olhos todos os dias de manhã quando acordasse.

O padre começou a cerimônia de casamento, mas Alexandra e Lucas não desgrudaram os olhos um do outro. Ambos estavam felizes em concretizar esse desejo e fazê-lo eterno. Quando chegou a hora dos votos, disseram palavras bonitas e juras de amor eterno. Tudo estava perfeito, nada poderia estragar aquele momento.

Ao receberem as alianças, o padre sorriu e juntou mais as mãos dos noivos com as suas.

“Lucas Rodrigues, você aceita Alexandra Estevão como sua legítima esposa para amá-la e respeitá-la em todos os dias da sua vida?”

Lucas riu fraco.

“Aceito”

“E você, Alexandra Estevão, aceita Lucas Rodrigues como seu legítimo esposo para amá-lo e respeitá-lo em todos os dias da sua vida?”

Alexandra respirou fundo. A hora tão esperada era aquela. Ela iria unir-se com seu amado oficialmente em poucos segundos. Não podia conter a felicidade, então desatou a debulhar-se em lágrimas de alegria.

E quando pronunciaria o famoso “aceito”, as portas da Igreja se abriram de uma vez com força bruta fazendo os buquês de rosas vermelhas pertos dos assentos caírem em efeito dominó, um seguido do outro. Todos os convidados se assustaram e amontoaram-se em um canto. Alexandra jogou-se nos braços de Lucas e o mesmo a segurou com força. Um vento forte invadiu a Igreja e derrubou o resto das flores e dos ornamentos.

“O que foi isso?”, Alexandra perguntou ainda assustada.

“Não faço a mínima ideia...”, disse um convidado próximo do casal.

A Igreja inteira estava mergulhada em um terrível silêncio. Então, o som de passos pesados e calmos ecoou pelas paredes imensas. Uma figura sinistra caminhou lentamente pelo que sobrou do tapete dourado e parou subitamente. Estava de cabeça baixa e braços estendidos como se não possuíssem movimento, além de se apresentar descalça. Usava um vestido branco sujo e cheio de partes rasgadas e o cabelo negro caía sobre a face escondendo-a completamente. Parecia ser uma mulher que acabara de cair de um prédio de quinze andares e sobrevivera; e conseguia ser tão estranha que aterrorizava qualquer um que se aproximasse.

A mulher bizarra ergueu sua cabeça lentamente; quando seu rosto estava visível, todos recuaram um passo. O rosto era praticamente desfigurado. Era branco como cera e havia machucados profundos os quais deixavam os ossos a mostra. Ela não possuía olhos, eram apenas cavidades vazias e negras ocupando as órbitas. Mas o que a tornava ainda mais sinistra era seu sorriso maligno que nunca deixava seu rosto, os lábios arroxeados puxados para o lado revelando seus dentes negros a tornavam um pouco demoníaca.

Todos da Igreja estavam encolhidos de medo. Nunca haviam visto nada igual. Aquela criatura sinistra exalava uma aula maligna que poderia ser sentida até mesmo pelos descrentes. Procurava por algo e não pararia até cumprir seu destino, só assim poderia descansar em paz.

Então, em um simples movimento rápido, a criatura abriu a boca e soltou um berro assustador avançando velozmente em direção à noiva. Alexandra não teve tempo de reagir e a mulher conseguiu agarrar a cauda de seu vestido fazendo-a cair e ser arrastada pela Igreja. A noiva gritava e esperneava à procura de Lucas, mas o mesmo ainda estava em estado de choque. Logo recuperou a consciência e foi atrás de sua amada. Quando pegou sua mão, a criatura voltou-se para ele e o empurrou grunhindo ferozmente em direção a ele.

“Não. Você não vai atrapalhar minha vingança!”, disse a aberração. Sua voz era demoníaca. Parecia uma mistura de trovão com o som agudo de uma placa de ferro sendo arrastada pelo concreto. “Minha irmã tem de pagar...”

Lucas se levantou atordoado.

“Irmã?”, perguntou a si mesmo e voltou-se para a criatura, “Bárbara está morta!”

“Não, não estou morta.”, a criatura gargalhou, “Não descansarei enquanto fizer minha irmã pagar por tudo que me fez, Lucas meu amor”

“O que está dizendo?”, Lucas berrou incrédulo.

“Estou dizendo a verdade!”, rebateu Bárbara, “Mas não temos tempo para relembrar o passado agora. Apenas espere, amor. Logo voltarei para você!”

E então, Bárbara voltou a arrastar Alexandra, porém no pequeno intervalo de tempo em que ela se dispersou ao falar com o antigo noivo, a irmã mais nova conseguiu livrar-se rapidamente do enlace mortal da criatura. Ao recompor-se, atirou um vaso de flores pesado em direção à irmã morta.

“Morra de vez!”, gritou com lágrimas de raiva nos olhos.

O vaso quebrou-se completamente no corpo de Bárbara, porém não a retardou. Ela continuou se aproximando com seu sorriso maligno plantado nos lábios, de uma forma tão rápida que ninguém jamais conseguiria. Alexandra correu para além dos bancos, a fim de fugir da irmã vingativa, entretanto não obteve resultados satisfatórios. Bárbara tornou a agarrar a cauda longa do vestido de noiva, mas desta vez rasgando-o junto à barra da saia. Estava vidrada de fúria, nada a pararia. Iria fazer o que desejava de forma profunda: se vingar amargamente da irmã mais nova mimada.

Mas Alexandra não era idiota. Ela correu com seu vestido transformado em farrapos em direção às imensas esculturas de anjos que enfeitavam a entrada da Igreja e esperou escondida até que Bárbara a alcançasse. Agarrou a ponta forte do galho de uma árvore plantada nos jardins do Santuário transformando-a em uma estaca. Não sabia como se matava de uma vez mortos-vivos, mas tinha que tentar tudo que lhe viesse à mente. Assim que Bárbara chegou, Alexandra se jogou em cima da irmã tentando de todas as formas lhe atravessar a estaca no coração. Mas a criatura possuía uma força sobre-humana e ao invés de sofrer as investidas, apenas recuava e voltava as ameaças iminentes de Alexandra contra ela mesma.

Por fim, jogou o corpo da irmã mais nova longe e agarrou uma das fileiras dos bancos coletivos da Igreja. Bárbara aproximou-se de Alexandra e quando iria jogar seu objeto mortal na irmã para finalmente concretizar sua vingança, foi impedida por um Lucas esbaforido e tomado por uma súbita onda de coragem, o qual fez uma chave de braço na antiga noiva desejando prender-lhe o ar. Mas Bárbara já estava morta, ela não poderia morrer por falhas respiratórias.

Quando a criatura soltou-se e voltou-se para ele com a mesma estaca de Alexandra, Lucas soube o quanto fora estúpido em ficar contra a morta-viva.

“Por quê?”, Bárbara berrava enquanto se aproximava com a estaca entrelaçada em suas mãos, “Você era para ser meu, mas Alexandra o tirou de mim!”

A voz aterrorizante estava chorosa, como se tivessem ousado tirar de um demônio tudo que ele mais amava em sua existência.

“O que está dizendo, Bárbara?”, perguntou Lucas hesitante, “Se é você mesma a Bárbara que conheci, diga-me: por que está fazendo isso tudo?”

“Por amor...”, começou apertando mais a estaca, “Por vingança...”

“Vingança de quê?”, estendeu os braços, “Você está morta, Bárbara!”

“Eu estive morta, mas renasci...”, explicou rangendo os dentes, “Renasci do ódio, renasci para cumprir meus objetivos mais sombrios!”

“Como renasceu?”

Bárbara gargalhou.

“Assim como Deus existe e tem piedade dos fiéis, o demônio também está à espreita e ajuda a todos aqueles que o procuram!”, revelou Bárbara triunfante.

Lucas arregalou os olhos.

“Assim que caí naquele precipício, cheguei à terra pedregosa ainda viva. Eu sabia quem havia me assassinado e também sabia que a culpada tinha de pagar com a vida, do mesmo modo que paguei.”, continuou, “Então, eu o procurei clamando por Satanás e agora ele vive em mim. E ele irá fazer tudo que eu mandar... tudo para fazer justiça da pior forma possível!”

Enquanto Bárbara berrava com toda sua angústia, sombras negras a envolviam. Elas esvaiam-se dela própria formando seu escudo pessoal, tomando sua forma e demonstrando que eram fiéis a ela. Lucas observava aquilo tudo com tamanha incredulidade. Sempre fora um católico fiel, mas nunca de fato acreditara em demônios e anjos lutando pelo bem e pelo mal. E agora estava ali, vendo sua antiga noiva tomada por um demônio porque sua maior vontade na hora de sua morte era vingar-se de seu assassino cruel.

“E sabe qual é a melhor parte? Passei a amar essa sensação de poder. O demônio faz o que eu mando, ele me obedece. E eu irei fazê-la pagar por tudo que me fez nem que eu leve a vida dela inteira. Eu a farei sofrer!”, Bárbara discursou expulsando toda mágoa que havia dentro de seu ser. Ela gargalhava de forma demoníaca, envolvida por todos os seus poderes mais perversos. Era o seu momento, o momento que esperava com ansiedade desde o momento em que fora assassinada.

“Mas quem lhe assassinou, de fato? De quem irá se vingar?”, Lucas perguntou ainda mergulhado em suas dúvidas.

Desde que a antiga noiva morrera em um acidente de carro, tentava ao máximo não falar de tal assunto perturbador. Tocou sua vida e acabou apaixonando-se pela irmã mais velha da única mulher que já amara. Já havia se conformado, pode até dizer que foi feliz em alguns momentos. Mas agora Bárbara voltou e com ela todas as perguntas e sentimentos mais atordoantes voltaram junto com ela. Precisava saber da verdade, a verdade que ninguém nunca soube.

Bárbara voltou e pegou Alexandra pelos cabelos. A noiva de Lucas gritava e esperneava de dor deixando-o louco. Não poderia nem ao menos ajuda-la. Não até que tudo aquilo terminasse.

“Ela...”, começou Bárbara, “Sua querida noiva é minha assassina!”

A antiga noiva puxou o cabelo de Alexandra erguendo seu corpo junto ao dela, face a face.

“Ela... que sempre fora uma invejosa e uma mimada. Nunca se contentou com o que tinha. Por isso quis o que eu possuía...”, ela disse olhando o rosto da irmã mais nova com desprezo e logo depois ela berrou com ódio, “Justo eu. Logo eu. Que nunca pedi mais do que eu tinha, mas mesmo assim ganhei tudo que almejava.”

Lucas arqueou uma sobrancelha, duvidoso.

“Está enlouquecendo!”, berrou, “Alexandra nunca faria mal a uma mosca!”

“Está muito enganado, Lucas meu amor!”, revelou Bárbara, “Essa imprestável nunca soube ser humilde. Eu tinha você, eu tinha o carinho de nossos pais, eu tinha coisas lindas... e ela roubou tudo de mim. Fez-me ser a pior filha de todas através de armações, surrupiou todas as minhas joias e saiu esbanjando tudo que era meu e por último tirou-me a vida no dia do nosso casamento.”

A essa hora, Alexandra já gritava ainda mais alto e chorava feito uma criança.

“Era o dia mais feliz da minha vida. Eu te amava, Lucas, mas ela te tirou de mim. Finalmente seríamos felizes juntos, tínhamos planos... mas ela nunca pensou em mim, sempre pensou nela e sua vidinha de falsas aparências. E ela fez. Ela me matou. E tenho plena certeza de que não se arrepende, afinal tem agora a vida que eu tinha!”, continuou Bárbara.

Lucas fitava as duas irmãs completamente perdido. O tom de voz de Bárbara era sincero e angustiante, falava como se houvesse praticado o discurso várias vezes ao dia para finalmente agarrar uma oportunidade de dizê-lo com unhas e dentes. Ele queria acreditar nela e estava conseguindo. E o desespero de Alexandra apenas comprovava que ela estava sofrendo ao ver a verdade ser transmitida a ele. Alexandra de fato fez tudo aquilo. Ela estava se mostrando sua face invejosa e mimada que havia por trás da máscara da garotinha dócil e delicada. Alexandra sabia que ele jamais a perdoaria. E se ela ao menos saísse com vida depois desse encontro, ele não conseguiria olhar nos olhos verdes dela novamente. E nem teria razões para isso.

“Ela não merece essa vida. Por isso, estou aqui. Vim fazer justiça. Vim libertar você dessa maldição, meu amor. E vim libertar-me também.”, disse Bárbara dando um sorriso amigável que Lucas reconheceu no mesmo instante. Era o mesmo sorriso que a antiga noiva dava e o que ele mais amava, “Alexandra tem que pagar...”

E dito isso, ajeitou a estaca e enfiou no estômago de Alexandra arrastando o pedaço de madeira pela barriga da mesma fazendo-a gritar de dor. A expressão no rosto vazio e demoníaco de Bárbara era de dor e de inferioridade, como se estivesse sentindo novamente o mesmo que sentiu quando estava morrendo. E com isso, Lucas percebeu naquele instante que a irmã mais velha ainda possuía certo tipo de afeto pela mais nova, mas que fora apagado de vez no momento seguinte.

O corpo sem vida de Alexandra foi jogado ao chão e Bárbara caminhou lentamente em direção a Lucas. Ela levou sua mão boa e acariciou o rosto do antigo noivo como se revivesse cada momento que passaram juntos. Lucas sentiu o mesmo toque delicado e gentil da amada como se fosse a mesma ainda viva de dez meses atrás. E depois de alguns segundos, inclinando-se, Bárbara deu-lhe um pequeno beijo de despedida nos lábios de Lucas enquanto seu corpo se tornava cinzas sendo levadas pelo vento.

Notas finais
Se gostarem, deixem reviews me dizendo porque :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!