If you float you burn
6 Não, expressa negação
Notas iniciais
Capítulo VI
Não, expressa negação
Vejamos, a história de hoje é sobre um casal. Outro? Bem, sim, outro. Como todas as histórias que venho transmitindo – à minha maneira, é claro, eu seria péssimo eu contá-las da forma "normal" –, essa também é um pequeno fragmento do epílogo que Majo veio a conhecer, e de certa forma, eu também.
Assustador, não?
Eu não gosto dessa história, toda ela, sabe? Tantas pessoas inocentes envolvidas, um final estúpido e algo tão incerto que causaria náuseas em qualquer um. Contudo essa é a única história que sei e, vivenciei, infelizmente. Dessa vez, foi sobre dois garotos, deviam estar em alguma turma inferior a minha… Raramente eu os via, porém as belíssimas fofocas de Majo não deixavam a desejar. Em nenhum aspecto, digo. Pasme com minha ironia.
Kageyama e Hinata são como aqueles casais que você sempre vê, seja aos sorrisos ou as brigas. Eventualmente eram apenas brigas que você poderia vivenciar entre os dois – porventura era apenas uma das inúmeras flores cheias de espinhos venenosos que alguma família bondosa havia feito questão de jogar em cima dos dois –, inclusive essa deve ser a melhor parte da história, e eu espero que você esteja sentado:
Chamaremos nossas boas crianças de "depravados", "devassos" ou quem sabe o inconfundível e sempre útil: "podre". Não poderiam aceitar os relacionamentos libidinosos de suas crianças, preocupadíssimos com a bruxa e também com sua boa fama numa minúscula cidade como é Majo. Até sinto inveja desse puro teatrinho… A realidade é tão entediante que as mentiras se tornam consideravelmente atraentes.
Os sorrisos dessa relação, enfim, eram o amor puro que sentiam um pelo o outro. Quiçá fosse algo da idade, quem sabe daqui uns dois anos já estivessem separados e com um novo rumo em suas agitadas vidas? Tudo seria mais fácil, com certeza, é claro, se não existissem os "poréns" que não pus anteriormente nesse parágrafo. "Vamos brigar por causa daquela coisinha laranja que vive ao seu lado, Tobio?" ou "você terá que terminar com ele, imediatamente, é inaceitável!". Ele sabia, e vocês deviam se acalmar, Kageyama sabia muitíssimo bem o quanto vocês odiavam aquele relacionamento.
Algo tão simples e inocente, e mesmo assim tão odiado que poderiam comparar com o amor que existia ali. Era repulsivo, de certa forma. Havia algo de errado? O término precoce era realmente necessário? Ou apenas um capricho de uma boa família prezando os bons costumes? Não gostaria de jogar lenha numa fogueira demasiadamente despreparada, retiro minhas palavras, essa história não merece minhas opiniões infames. Diria até que merece bons elogios e lembranças açucaradas, contudo não sou tão íntimo assim para compartilhar ideias tão informais (e também ocultar a veracidade por trás dela).
— Eles brigaram de novo? – A garota à minha frente inclinou-se para a esquerda, onde outra garota, provavelmente sua amiga repetiu o ato.
— Acho que sim – A outra também cochichou. — Todo dia é isso… É tão embaraçoso!
— Parecem dois cães brigando por comida – Reclamou, sua voz estava um pouco alterada. — Os dois andam insuportáveis, alguém devia fazer algo logo!
Akaashi suspirou. Aquela aula já era uma interminável tortura de palavras que não conseguiam entrar em sua cabeça e agora aquelas duas conversavam sobre, bem, sabe-se lá quem! Provavelmente Bokuto devia estar devidamente informado sobre tal assunto, então saberia em breve, a contragosto também, afinal por que motivos gostaria de saber fofocas compartilhadas no meio de uma aula chata?
Sem opções, concentrou-se apenas em sua lapiseira e na folha em branco de seu caderno – e quem sabe nas palavras sonolentas do professor que já não aguentava-se em pé de tanto tédio.
— Como foi seu dia? – Bokuto perguntou, assim que encontraram-se fora do colégio.
— Normal – Emitiu um resmungo, como se pedisse para continuar falando, e logo emendou. — Tinham umas garotas comentando sobre alguém estar brigando… Você sabe o que é?
— Curioso, você? Estou até surpreso! – Bokuto riu. — Elas deviam estar falando de Kageyama e Hinata, eles estão no primeiro ano, se bem me lembro. São namorados e vivem brigando, chega ao ponto de ser irritante.
— Ah, parecem cheios de energia então – Akaashi comentou. — Entretanto, acho que não devia chamar outra pessoa de irritante… Principalmente você…
— Ei! Me chamou de irritante agora?
— Você que entendeu assim. – Negou. — Não posso fazer muito se você diz ser irritante.
— Tão persuasivo. – Choramingou, derrotado.
— Por que você continua se negando a terminar comigo? – O ruivo sequer olhou para trás, onde Kageyama o seguia. — Já está se tornando insuportável.
— Cala a boca – Retrucou curto e grosso, era uma deixa perfeita para uma nova briga. — Eu nunca afirmei que gostaria de desmantelar nosso namoro… E realmente eu não quero, e ninguém mudará minha ideia.
— Não tenho tanta certeza sobre isso. – Reprimiu os lábios. Amar parecia complicado demais para si, bem, um dia ele estava livre como uma borboleta recém saída do casulo e noutro estava "nos braços" de Kageyama Tobio, completamente encantado com o outro adolescente, como num conto de fadas de livros infantis. — Seus pais tentarão fazer algo sobre isso, não quero encrencá-lo novamente e nem encarar aquelas caras iradas novamente.
— É uma opção minha, tu bem sabe.
— É minha também. – O vento soprava seus cabelos alaranjados. — Como posso lhe amar tanto e saber que só trago mal para você e sua família? Eles me odeiam e talvez com razão-
— Nem diz uma coisa assim, Hinata, seu idiota!
— Eu só tentei ajudar! – Defendeu-se. — Essa não é uma situação da qual eu gostaria de estar, sabia? – Um biquinho já tinha se formado entre seus lábios.
— Eu sei. – A cor azul do céu lhe causava náuseas, porque? Eu também não sabia. — Se ninguém aceitar isso… O que faremos?
— Um ponto final é o bastante?
— Só isso?
— "Fazermos nossas próprias escolhas ou decisões é meramente uma ilusão, estamos presos em correntes da própria ignorância." — Certamente que Hinata leu isso em algum livro, afinal ele era o tipo de pessoa que sequer saberia elaborar meia frase. — Eu devo ter escutado isso em algum lugar… E também, não é como se fôssemos embora com uma trouxinha amarrada em um galho, com essa cidade acabaríamos mortos de alguma forma esquisita. – Gesticulava, deixando suas palavras mais leves, de certa forma funcionava, o desespero não subiu como deveria em suas cabeças.
Kageyama gostou da ideia. Mas tudo que Hinata lhe deu como resposta foi uma careta engraçada – que na verdade era puro medo. Devia pensar como seria morrer nas garras de uma história fictícia ou, quem sabe, vítima do ódio culminante que corria perto de sua alma.
— E se nós fôssemos?
— Aonde?
— Não sei… Ir embora daqui já é o suficiente.
— Fugir não é a solução para nossos problemas… Essa é a sua decisão final?
— É. – Não parecia de todo mal fugir. Porém, Hinata não gostaria de sair de Majo, fugir daqueles inúmeros problemas não era o que ele realmente queria… Entretanto parecia impossível encarar sua vida, ou o que seja que ela havia se transformado.
Era tão complicado assim?
— Eu não quero. – Admitiu. — Mas sei que vou me arrepender caso não aceitar isso.
— Então nós vamos?
— Eu realmente queria te odiar, Tobio! – Hinata reclamou, enquanto o outro parecia tão feliz.
De fato era felicidade.
Akaashi não sabia a razão de estar ali. Encarando aquela barbaridade – na verdade, havia mais barbaridades que ele sequer imaginou assistir de camarote, e nunca, nunca mesmo, deixou-se surpreender com tudo aquilo –, Bokuto estava tão incrédulo ao seu lado. Ah, sendo franco, grande maioria de Majo estava ali, tão surpreendida quanto.
Não se faça de bobo, todo mundo já sabe o que aconteceu. E seu palpite são que Hinata e Kageyama morreram, não é? Vou deixar um mistério aqui, e sim eles morreram, trágico não?
Onde todos se encontravam era na frente da floresta da bruxa, na frente de todos o corpo de Hinata, faltava-lhe pele, parecia que ela havia sido arrancada, como se alguém tivesse comido, haviam flores (aquelas tão comuns que se vê crescendo por aí despreocupadamente) em seu cabelos, na sua boca, nos lugares que faltavam carne. E, para completar sua exposição macabra, ele estava enforcado.
Alguém gritou, aos prantos, provavelmente era a família do garoto. O pânico silencioso, e quando Bokuto puxou Akaashi para longe dali, o adolescente soube que o dia mal havia começado.
E antes que pudessem acalmar alguém que havia presenciado o corpo de Hinata, haviam encontrado o corpo de Kageyama, uma cena tão horrenda quanto a primeira. Estava lá, na entrada da cidade, para quem quisesse ver, dessa vez, não havia uma cena de enforcamento. Porém não deixaram a desejar no toque de crueldade, o corpo havia sido esquartejado, como eu poderia explicar? Parecia que ele fora desmembrado e logo depois costurado, uma réplica de causar arrepios do que um dia foi o corpo de Kageyama.
Outra família desamparada. Como uma história feliz e com uma moral no final, todo mundo se uniu – é claro, unidos no desespero e mais profundo medo –, ânsia de se livrar daquela má sorte sombria. E como uma repetição comum, o crime não tinha suspeitos, nada. Nenhuma explicação além da fuga que deu errado.
Ninguém poderia fugir daquele inferno, afinal?
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