If you float you burn
4 As almas costuradas
Notas iniciais
Capítulo IV
As almas costuradas
Histórias românticas sempre deviam possuir uma conclusão infeliz, alguém devia ter escrito uma lei com esses dizeres há muito tempo, e só os escritores conheciam ela. Akaashi desgostava dessas estórias tristes, com enredos mirabolantes e cheias de chances únicas e desperdiçadas, as personagens tão tolas que viam as oportunidades de fazer diferente e simplesmente voltavam a mesmice de uma trama monótona.
No entanto, ele admirava como todas as personagens conseguiam ser tão sinceras em todos os capítulos, onde você sabia o que era aquele sentimento angustiante que atrofiava no peito – ele sabia—, admirou que em um único instante onde um traço de drama vinha à tona e a personagem desmoronava, colocava tudo para fora, libertava-se dos sentimentos que angustiavam no peito no calor do segredo. Ele quis se colocar no lugar da personagem, expor tudo que sentia… Dizer o quanto ele queria ir embora de Majo, queria ser livre daquelas pessoas monótonas que viviam suas vidas sem uma única sílaba de diferença.
Ele não gostava daquela monotonia macabra. Ele queria ir embora, queria um motivo para estar feliz e não cansado de tudo. Quis também, que Bokuto não se prendesse a ele, na esperança de que haveria uma história única para os dois, contudo não havia, isso era uma oferta única e que foi perdida nos dedos trêmulos do passado e não poderia ser reconquistada ou lembrada.
No meio das histórias vividas de Majo, ele descobriu que o amor não era nenhum mar de rosas – quiçá fosse um mimo da maldição –, foi assim que ele temeu pela vida de todos e não gostaria de ver seus amigos morrerem na sua frente de maneiras assombrosas, sem que ele nada pudesse fazer para mudar tal rancor oculto.
Akaashi conhecia muito bem os amigos de Bokuto – não que ele próprio já não fosse um deles, era uma situação complicada de ser explicado, se você pensar bem –; porventura, conhecia muito bem Kuroo Tetsurou. Era um bom garoto, uma pessoa agradável e extrovertida, contudo não tinha o melhor desempenho escolar devido as suas inúmeras faltas, nunca mudava esse costume desagradável. Às vezes, poderiam passar semanas sem vê-lo, sumia e voltava, como bem queria; as pessoas dali poderiam simplesmente denominá-lo como algo semelhante a um servo da bruxa, ou espião, todavia de que serviria tal mentira insolente? Sua fama era algo deveras comum naquela cidade, seus costumes já eram um conhecimento bem compartilhado entre todos.
Não era anormal vê-lo com Bokuto, houvera uma época que ambos eram muitíssimos amigos, atualmente a amizade estava aos cacos, mas ninguém nunca reclamou, então eles se viam algumas vezes. Quando Kuroo ressurgia de seu esconderijo, ficavam uns dias juntos, iam para aula junto de Akaashi e pegavam uma bola de vôlei por aí – sequer jogavam, porém sempre buscavam sua familiaridade como lembrança aos velhos tempos –, e alguns dias depois Kuroo sumia, sem aviso prévio, as suas faltas acumulavam e logo esqueciam de sua existência novamente.
Akaashi não sabia ao certo o que acontecia na vida do garoto, nem Bokuto sabia, e se soubesse provavelmente acabaria lhe dizendo em algum momento. Entretanto existia os famosos boatos que rondavam a cidade, era óbvio que um dia Kuroo Tetsurou e seus sumiços iriam acabar na graça das pessoas, inventaram mil histórias dignas de estorinhas toscas de fantasia! Alguns brincavam que ele devia ser algum adorador da bruxa ou “garoto de recados” da própria, outros simplesmente diziam que ele era um desocupado qualquer, completando com um pensamento bastante medíocre “para que se importar com um sujeitinho como esse?”. Certa vez, Akaashi e Bokuto ouviram de umas senhoras um boato até que convincente (diferente dos anteriores que tiveram o desprazer de escutar): a família de Kuroo.
Sim, levava a crer que o maior problema de sua vida era sua própria família. Poderia ser considerado irônico?
Vivendo afastados das demais casas e construções da cidade, tinham má fama – além de pelo simples fato de ser uma família pobre já era motivo de ser algo a ser evitado, de preferência. E se você puder agir como se eles fossem repugnantes, melhor ainda! –, Majo não era nenhum conto de fadas anormal comparado as outras cidades, além de uma lenda diferente, sejamos francos, quantas lendas inacreditáveis você poderá escutar durante a sua vida?
Ah, é. Isso ainda é uma história romântica.
Akaashi conheceu Tsukishima Kei na escola, nunca trocou muitas palavras com o menino além de um “com licença” ou um “bom dia” puramente prezando a boa e velha educação. Ele deveria ser bastante reservado, afinal não o via com muitas pessoas ao redor, ou era muitíssimo anti-social ou simplesmente abominava aquelas pessoas que iam e vinham pelos corredores da escola ou que você esbarrava na calçada – não é algo muito anormal, quando se vive em uma cidade como Majo, desgostar dos seus vizinhos enxeridos e com uma imaginação fértil era só mais um hábito que você naturalmente irá criar. A importância de Tsukishima em sua vida quase fora nula até vê-lo ao lado de Kuroo.
O prólogo disso tudo resumia-se rapidamente: tornaram-se amigos e, antes que você notasse algo nasceu entre os dois. Uma proximidade? Uma conexão estranha? Ou puramente um sentimento de amizade rotulada como comum? Ninguém soube, a princípio, é claro, quando se mora em uma cidade que as fofocas correm mais rápido que o vento de um tornado você saberia o que era de fato em uma velocidade absurdamente anormal. Entretanto, o prólogo acabou e deu início a verdadeira história dos dois.
— Kuroo! – Akaashi e Bokuto cessaram o passo no instante que o grito ecoou alguns metros da trilha onde estavam. Se olharam em uma troca silenciosa de informações e decidiram conferir o que estava ocorrendo.
O espanto dos dois não foi ver chegar em um matagal aberto próximo ao atalho que levava ao centro da cidade, mas sim ver Kuroo caído no chão e na sua frente um homem mais velho, furioso.
“O que estaria acontecendo ali?” Questionou-se Akaashi intrigado, já Bokuto nem pensou duas vezes, correu para ajudar o amigo. Tsukishima também estava ali, porém sendo segurado por outro homem, parecia a beira das lágrimas, levava a crer que grito de anteriormente fora sua culpa.
— O que vocês fizeram com ele? – Bokuto indagou, amparando Kuroo que tocava uma parte de seu rosto que deveria estar ferida.
— A culpa é dele, querendo ver Kei. – O que segurava Tsukishima respondeu. — A culpa é toda desse desgraçado que vem perturbar nossa paz!
— Deixe-no em paz, irmão! – Grunhiu Tsukishima. — Eu já pedi para não fazer nada com ele…
— E você ficaria longe dele? – O outro interveio. — Esse garoto só lhe traz desgraça, nos traz apenas desgraça.
— Tsukki… – Kuroo gemeu dolorido, devia ter levado um soco de um daqueles dois, ou quem sabe chutes.
— Seu garoto impertinente! A próxima vez que vê-lo perto do meu filho, você vai ver só!
— Você não irá machucá-lo! – Tsukishima exclamou, tentando se soltar, entretanto era em vão, e continuavam a puxá-lo dali. — Kuroo!
— Farei o possível para deixá-lo longe de um garoto que vem de uma família desgraçada! Nem a bruxa os quer, imagine eu! – Finalizaram, e já tinham deixado-os sozinhos.
Akaashi e Bokuto seguiram em silêncio enquanto Kuroo tentava se recompor. Havia sido uma cena e tanto, tiraram algumas conclusões, mas de fato ainda não sabiam a verdade.
— O que foi isso? – Um deles balbuciou enfim.
— A culpa é das nossas famílias… Eu acho – Kuroo respondeu, quando finalmente conseguiu se sentar no chão. — Acho que tem uma inimizade antiga, talvez seja por sermos o lixo daqui, sei lá. Mas eu e Tsukki nos apaixonamos, éramos amigos por pura insistência minha. É estranho, não? Nunca pensei muito nisso, só queria poder vê-lo, mas de jeito nenhum que as nossas famílias deixariam, principalmente a dele que sente apenas aversão e ódio por mim.
— Nós poderíamos ajudá-los. – Bokuto ofereceu no ato. Akaashi reprovou a iniciativa, queria sim ajudá-los, porém o que fariam? Pediriam para as famílias deles aceitar um relacionamento?
— Como? Ao que parece nossa única solução é fugir… Não gostaria de envolvê-los assim em nossos problemas.
— Veremos outra solução mais viável, paciência. – Akaashi respondeu. — Se a fuga for necessário, terão o nosso apoio.
E Bokuto sorriu com toda a confiança que pode.
Porém, fugir era a única solução, e eles sabiam disso.
Alguns dias depois desse incidente “romântico”, tudo voltou ao mesmo caos disfarçado de normalidade. Kuroo voltou mais cedo que o habitual a sua rotina nem um pouco comum, ninguém estranhou, afinal ele era imprevisível nos momentos que queria. Bokuto às vezes dava algumas ideias para um provável plano para os dois, mas nada ia adiante. A sensação de que não tardaria aquele mau momento transformar-se em algo muitíssimo pior não sumia do pacato ânimo de Majo.
— Aqui é seguro? – Kei perguntou. A ideia tinha sido ir para os fundos do colégio, onde estariam livres de qualquer um de seus parentes irritados que tentariam separá-los a todo custo.
— Sim, é – Kuroo respondeu. Aquele momento era raro, há semanas que não conseguiam algum tempo a sós graças a enorme confusão que o relacionamento deles culminou. — Poderemos ficar aqui um bom tempo.
— Isso é bom. – Não era maravilhoso, afinal sequer poderiam estar juntos, faziam algo que ao olhar geral era errado, mas por quê?
— Acho que teremos de fugir… – Kuroo disse.
— Eu sei. – Retrucou. — Ir embora de Majo? Que boa ideia é, estaríamos longe de nossos pais, dessa lenda boba e dessas pessoas estúpidas, eu gosto da ideia de sair daqui.
— Então iremos embora daqui para sempre?
— Para sempre é muito, pensemos apenas no agora – Tsukishima reclamou. — Quando vamos e como? Sairemos correndo com uma trouxinha presa em uma vareta, por acaso?
— É uma boa ideia.
— Você é um mentecapto.
A ideia de fugir era o único acalento que teriam, então por que não segurá-la com todas as forças? Avisaram Bokuto e Akaashi, era incontestável que para manter aquele relacionamento teriam que sair dali ou nunca iriam poder estar juntos. Alguns dias depois tudo estava preparado, inclusive Bokuto e Akaashi iriam acompanhá-los para evitar qualquer falha de um plano tão raso. Iriam para a estação da cidade e partiriam no primeiro trem que saísse de Majo, estariam livres daquela tormenta e viveriam felizes juntos.
Haveria um futuro tão amável para eles afinal?
— Fugir é uma boa ideia, sabe? – Bokuto disse, escorado em um dos portões de ferro sujo dos terrenos próximos. — Deveríamos fazer o mesmo um dia desses.
— E iríamos para onde? Pedir esmola na calçada das grandes cidades?
— Sim, por que não? – Disse. — Poderíamos trabalhar, terminar os estudos, achar um lugar só para nós. Seria maravilhoso.
— Você sonha demais. – Akaashi reclamou. — Estamos aqui só para ajudar Kuroo e Tsukishima a fugir, – Sussurrou as últimas palavras. — E faremos somente isso.
— Eu sei. – Bokuto cochichou junto.
O celular dos dois tocou. Ao pegarem viram mensagens de Kuroo dizendo que o plano tinha fracassado, e que os dois poderiam ir embora antes que fossem emboscados pelos seus familiares. A decepção estampou seus rostos – seria o término daqueles dois? Ou conseguiriam criar um plano B? –, de toda a forma nunca souberam a resposta dessas indagações, despediram-se e cada um foi para casa na esperança que o amanhã fosse melhor.
Mas ele não foi. No dia seguinte a notícia se espalhou rapidamente, a fuga de Kuroo Tetsurou e Tsukishima Kei havia dado certo e eles deviam estar bem longe de Majo, disseram que em vez de irem para a estação cortaram caminho pela floresta da bruxa. Alguns ainda aterrorizados com os antigos acontecimentos afirmaram que os dois deveriam estar mortos, outros deram de ombros, não importava para eles. Seus familiares fizeram buscas, não durou nem duas semanas, estavam sumidos, o que de fato aconteceu ninguém saberia.
Seus corpos foram achados algumas semanas depois, quando o assunto já não era tão interessante. Seus corpos estavam costurados juntos, numa façanha macabra e aterrorizante de ser vista, mesmo que maioria da cidade tenha ido vê-los. Alguns disseram que suas expressões costuradas um ao outro pareciam felizes, como se agora nada pudesse separá-los. Estavam juntos para sempre… Não era a maior felicidade para ambos?
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