If the world was ending... Don't look up!
1 If the world was ending... Don't look up!
Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=7AibF6pGM_4
E no filme Don't look Up (disponível no Netflix)
A música é ótima... se não conhece vai lá ver! ;)
Júlia e JP se conheceram na faculdade. Ele estava no programa de Belas Artes e ela Ciências Astronômicas. Desde a primeira saída, num barzinho point dos alunos daquele campus, a química havia sido incrível e não demorou até que eles decidissem dar uma chance ao novo sentimento.
Apesar de cada vez mais curtos, por conta das responsabilidades acadêmicas e de trabalho, os momentos juntos eram sensacionais e eles aproveitavam cada minuto de folga para curtirem um ao outro.
Pegando-os despreparados, no final do último período, a fatídica escolha entre amor e carreira precisou ser feita e não poderia ter sido mais difícil.
Júlia, que sonhava fazer uma grande descoberta científica antes de ter cabelos brancos, foi aceita em um projeto de pesquisa pioneiro de monitoramento espacial. A chance perfeita de descobrir coisas estranhas no espaço, como brincava JP.
Já ele, artista talentoso que cantava, escrevia e sonhava produzir seus próprios álbuns e ser referência em produção para jovens artistas em ascensão, também recebeu sua chance: um amigo que estava tendo sucesso no ramo financeiro queria investir nele, ajudá-lo a montar sua própria gravadora com tudo que precisasse para descobrir novos talentos e desenvolvê-los.
Era maravilhoso, o pontapé que precisavam para subir mais um degrau em direção aos seus sonhos. O problema era a distância. Júlia apenas mudaria de campus, enquanto JP precisaria mudar de estado, para assumir sua oportunidade onde o mercado era mais forte e as chances de sucesso eram maiores. Era a exigência de seu investidor.
Nenhum dos dois queria abrir mão do relacionamento que tinham. Era um amor leve, bonito, que ficava mais forte a cada dia. Um admirava e apoiava o outro e exatamente por isso, quando chegou no final daquela turbulenta semana e precisavam decidir e dar respostas sobre o que fariam, escolheram o caminho mais difícil: seguirem seus sonhos separados.
Não foi nada fácil. Já estavam muito apegados um ao outro. Júlia não tinha mais família, romperam com ela quando a mesma decidiu seguir o próprio caminho e não o planejado pelos pais. JP era órfão, cresceu em lares provisórios até completar 18 anos e ter que se virar sozinho. Eram apenas os dois e alguns poucos amigos. Como seguir caminhos diferentes, agora que se encontraram?
— Nós vamos manter contato, né? Sei que você vai estar super ocupada vasculhando o espaço, mas quando tiver um tempinho, podemos nos falar?
— É claro que sim. Ainda quero ser a primeira a receber a prévia do seu 1 álbum. Somos melhores amigos, além de tudo…
— E eu ainda quero ser o primeiro a saber quando fizer a sua grande descoberta. Tenho certeza de que não vai demorar. Você vai fazer história na ciência, como sempre sonhou!
— E você vai ser um grande artista. Quero ingressos pros seus shows, todos. Você é incrivelmente talentoso, o sucesso é certo.
— Vai dar tudo certo para nós dois, não é? Isso que estamos fazendo… vai valer a pena, Júlia, não vai?
— Vai sim. E se não der, ainda teremos um ao outro. A gente se encontra e começa sonhos novos.
Estavam muito emocionados quando se despediram no aeroporto. JP estava embarcando para o outro lado do país. Quando seu vôo foi chamado, se beijaram e abraçaram. Lágrimas descendo descontroladamente de seus olhos. Antes de ir, fizeram uma última promessa:
— Ju, se descobrir alguma coisa vindo destruir a gente, você vai me dizer? Pode parecer idiota, mas... eu quero estar com você, caso isso aconteça, ok? Me liga e eu volto correndo.
— Não é idiota, mas espero que você nunca tenha que voltar por isso. Vamos nos encontrar de novo em bons momentos, você vai ver. Seja feliz, JP, seja o artista que você nasceu para ser! Eu te amo!
— Até logo, Júlia. Eu te amo!
O tempo passou a correr estranho depois daquela despedida. Eles se esforçaram para manter contato. Pelo menos uma vez na semana faziam chamada de vídeo para contar tudo que estava acontecendo, mandavam mensagens, mas não era a mesma coisa. A saudade era imensa. Os ponteiros do relógio giravam a toda velocidade e mesmo assim, nunca chegava o momento de se reencontrarem.
A rotina de estudos e trabalho ficava cada vez mais pesada, os momentos em que conseguiam se falar cada vez mais escassos.
Júlia estava conquistando seu espaço na comunidade científica. Em poucos meses no estudo já havia mostrado o quanto era competente e dedicada. Já possuía artigos publicados em grandes revistas científicas, sobre seus estudos espaciais. Ainda não eram sua grande descoberta, mas estava no caminho.
JP também não estava perdendo tempo. Estava com tudo encaminhado para o lançamento de seu primeiro álbum. Os singles que havia lançado estavam fazendo sucesso, a merch vendia bem e tudo indicava que seu debut seria com o pé direito.
Como prometeram, JP recebeu os artigos de Júlia em primeira mão, antes mesmo de serem oficialmente publicados. Ele não entendia nada sobre aquilo, mas fez questão de reservar um tempo para ligar, fazer perguntas, parabenizar e mostrar o quanto se importava com ela.
Do outro lado, Júlia não tirava mais do corpo a camisa e o moletom que JP a enviou, seus primeiros itens de merch, junto com a demo do álbum que seria lançado em algumas semanas. Assim que os primeiros singles foram liberados, ela teve certeza de que seria sucesso, eram muitos bons. Depois de ouvir o álbum, ficou obcecada. Passou a ser o seu top 1. Ela conversou com ele por horas depois de ouvir. Estava tão encantada com tudo que ouviu criado e cantado por ele que não podia ser diferente. Precisava pelo menos tentar mostrar o quanto havia amado cada música e o quanto estava orgulhosa dele.
A saudade era imensa, mas estavam focados em suas carreiras. Teriam seu momento quando chegasse a hora.
Júlia passava cada vez mais tempo no laboratório. Havia identificado algumas movimentações estranhas no espaço, mas ainda não era capaz de dizer o que significavam. Sentia que podia ser essa a sua chance, então passava cada minuto a mais que podia tentando desvendar, junto com sua equipe.
JP vivia uma loucura naquele momento. O lançamento de seu álbum foi um sucesso enorme e agora ele tinha uma agenda cheia de entrevistas, visitas a estações de rádio e publicidade. Estava preparando tudo para finalmente anunciar seus primeiros shows.
A comunicação entre eles foi se perdendo mais um pouco. A saudade era insana. Era mais fácil ignorar... focar no motivo de estarem separados, não estavam preparados para lidar com o buraco que a distância havia criado.
A verdade era que ninguém estava preparado para o que viria a seguir.
— JP, JP! Graças a deus, você atendeu! Você não vai acreditar! Preciso dizer algo urgente!
— Júlia! Você está bem? o que está acontecendo?
Era mais do que nítido o desespero na voz dela. O que deixou JP imediatamente em alerta.
— Lembra do que prometemos antes de você ir embarcar? Lembra o que me pediu?
— Como eu poderia esquecer? Você tem certeza?
— Mas certeza do que gostaria. Vamos morrer, JP... vamos todos morrer.
— Ju... você prometeu que nos reencontraríamos em bons momentos. Eu ia anunciar meu primeiro show na semana que vem. Já tinha seu ingresso, passagens e hospedagem reservados. Seria o nosso primeiro bom momento em muito tempo...
— Eu lembro o que disse... mas aconteceu. Essa foi a minha grande descoberta, afinal. É um cometa, maior que o Monte Everest... estava escondido na sombra do sol e o vimos tarde demais. Temos cerca de 2 meses até o impacto.
— Eu... nem sei o que dizer. Esse deveria ser o momento mais feliz da sua vida. Não posso nem imaginar como se sente. O que vai acontecer agora? Digo, com as pessoas... não tem nada a ser feito?
— Infelizmente não... viajo hoje ainda para a capital. Teremos uma reunião com o presidente. Mas a agência espacial nacional já sabe, fizemos uma videoconferência. Nem se juntarmos toda a força espacial do mundo conseguiríamos desviar a rota ou fragmentar esse cometa, ele é muito grande e denso. Não temos tempo suficiente para criar nada capaz de evitar seu impacto.
— Uau. Isso é... extremamente chocante. Preciso de um minuto aqui para processar, acho que vou ter uma crise de pânico. Mas... minha promessa está de pé.
Não deu tempo de Julia responder, a chamada havia sido interrompida do outro lado. Ela o conhecia, sabia que ele ia procurar um lugar para sentar, tomar um copo de água e tentar regular a respiração. Era seu mecanismo de autorregulação, como ele mesmo dizia. Ela entendia. Não é todo dia que se recebe uma ligação avisando que o planeta vai ser destruído e todos vão morrer. Ela mesma já havia passado pelo momento do surto.
Quando finalmente encontrou o que era a movimentação estranha, passou o dia e a noite fazendo e refazendo cálculos com seus orientadores e colegas de equipe. Quando puderam confirmar do que se tratava, ela ficou fora de si. Deitou no chão do laboratório em posição fetal e chorou como nunca.
Sua grande descoberta era a porra de um cometa que ia causar o fim do mundo.
Passada a crise, recompôs-se como pode. Sua equipe não estava muito diferente, cada um lidando como podia. Começaram então a lidar com as decorrências da descoberta.
Já na capital, Julia conheceu a casa presidencial e ela mesma — junto ao principal orientador — apresentou tudo sobre o cometa na conferência internacional com as autoridades políticas e espaciais de todo o mundo. Eles precisavam decidir o que fazer com as pessoas.
Do outro lado, JP só conseguia pensar em como tudo estava perdido. Como tudo o que viveram e todas as batalhas que lutaram haviam sido completamente em vão. Morreriam ser ver nada do que planejaram acontecer. Mais ou menos. Júlia conseguiu o que tanto sonhou. Ele a praguejou, odiou que ela tenha sido tão competente vasculhando a infinitude do céu que tenha encontrado justamente um cometa assassino. Ele esperava que sua grande descoberta fosse uma estrela super diferente... adoraria ver uma estrela com o nome dela. Ou um novo planeta com possibilidade de habitação. E então, se sentiu mal por ela. O que ela estava passando deveria ser a mais devastadora das experiências. Ele deveria ser o seu ponto de conforto.
Uma semana depois, o grande anúncio foi feito. Uma mega transmissão simultânea em todo o planeta. E durante os próximos 5 dias, todos os dias, haveria essa mesma transmissão com a presença da agora Dr.ª Julia Michaels e sua equipe para explicar tudo que sabiam sobre o cometa e o motivo de não terem alternativas.
Os dias que se seguiram não foram nada fáceis. As pessoas estavam destruídas. Tentando de alguma forma se programar para o último dia de suas vidas enquanto viviam intensamente o tempo que restava. O tempo final, após revisão por vários outros cientistas, estava mais preciso. Grandes telões foram colocados nas cidades, para que as pessoas pudessem acompanhar em tempo real o avanço do cometa Michaels.
Julia foi obrigada a cumprir uma exaustiva agenda político-científica, ainda não estava oficialmente liberada para cuidar do seu próprio fim de vida. Enquanto isso JP acompanhava as notícias e corria trabalhando intensamente para que conseguisse montar seu primeiro e último show em tempo. Ele pensava que as pessoas precisavam disso. De um momento de distração, de diversão... e que não podia simplesmente explodir sem antes mostrar de verdade ao mundo quem ele era. Eles mal conseguiram se falar nesse período.
Não foi surpresa quando Júlia recebeu um bilhete escrito à mão junto a uma passagem de avião e um endereço de hotel. Ela sabia que ele não desistiria do show, mesmo que ele fosse acontecer há apenas 2 semanas do fim do mundo.
Ele decidiu fazer seu show sem toda a parafernália de efeitos, luzes, etc. queria algo simples e que fosse significativo. Seria apenas ele, um violão, um piano, o equipamento de som e surpreendentemente, um equipamento de gravação de última geração, que Julia conseguiu. Seu show seria transmitido no mundo todo, nos telões da contagem regressiva. Era seu presente para ele e uma forma de compartilhar algo bom com as pessoas. Depois de anunciar uma catástrofe, sentia que devia isso ao mundo também.
Foi maravilhoso. Ela não se arrependeu nem um minuto de ter fugido do seu posto de monitoramento no laboratório da capital e viajado até outro estado para estar no show. Seu lugar foi reservado no palco mesmo, onde estaria mais perto de JP. O show foi sensacional. Ele era sensacional. Cada música trazia uma emoção única, ele cantava com o coração e era claro o quanto ele era talentoso e estava 100% envolvido. Ele não citou seu nome, mas mandou um recadinho “indireto” para ela e depois cantou uma música inédita, escrita especialmente para ela. Uma declaração de amor cantada.
Depois de finalizado o show, se encontraram no hotel combinado. Passaram a noite juntos, tentando matar um pouco da saudade que sentiam um do outro e fazendo planos para o fim do mundo.
— JP, o que acha de terminarmos isso onde tudo começou?
— Acho uma ótima ideia, mas não tenho mais acesso ao meu antigo quarto.
— Eu consegui as chaves do meu de volta há algumas semanas. Tenho pensado nisso desde que fui pra capital.
— É isso, então... estaremos lá, juntos. Ainda não acredito que isso vai mesmo acontecer. Eu te odiei um pouco, naquele dia... quando me contou...
— Pode acreditar, eu também me odiei... nada disso importa mais. Só que você está aqui agora e estará comigo lá, quando tudo acontecer, não é? Quando mundo estiver acabando, você vai estar comigo?
— É claro que vou. Estarei lá, te abraçando bem forte, não vou soltar por nada. Todo o resto vai ser irrelevante, só o que vai importar é eu e você, juntos.
E foi exatamente assim que aconteceu. 2 semanas depois, cerca de 3 horas antes do previsto, o cometa já estava tão próximo da atmosfera que podia ser claramente visto a olho de qualquer parte do mundo. Era uma estrutura enorme e flamejante que vinha a toda velocidade. Todos sabiam o que significava.
JP e Julia estavam caminhando de volta pro alojamento, depois de terem ido ao mercado mais próximo pegar um pacote de café. Era sua bebida preferida e eles decidiram que mereciam um último gole juntos.
— Olha lá, já está tão perto... eu nunca pensei que veria um fenômeno como esse assim... triste que vai ser a primeira e última vez. O mundo está mesmo acabando.
— Não olha pra cima, JP. Não olha mais... não podemos desestabilizar agora. Só... vamos chegar em casa.
Preparam o café juntos. Bem forte, com caramelo e chantilly. Do jeitinho que faziam quando estavam mal e precisavam de um momento de conforto e carinho. Beberam devagar enquanto conversaram sobre o tempo que passaram separados, contando detalhes que um havia perdido da vida do outro. Seria um momento normal, se não fosse o primeiro tremor para lembrá-los o que realmente estava acontecendo.
O cometa Michaels entrou veloz e implacável na atmosfera terrestre. No local do impacto a destruição foi imediata. No restante do mundo, o apocalipse foi irradiado. Terremotos cataclísmicos, ondas monstruosas, vulcões ejetando lava fumegante a quilômetros de distância...
Júlia e JP estavam deitados na cama, abraçados. O tremor que começou leve, aumentava a intensidade. As luzes se apagaram. Ele a apertava tão forte em seus braços que seus músculos doíam e ela mal podia respirar. Mas eles não ligavam. Só importava que eles estavam juntos naquele momento. Eles não precisariam mais dizer adeus.
Nada restou.
Notas finais
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