If I were dead
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O caminho de volta para a cidade foi longo. Longo até demais... nós costumávamos pegar a barca porque assim era mais rápido, mas hoje eu não fiz isso pois não estava indo apenas trabalhar, eu estava indo para casa. Sofia e eu finalmente estávamos voltando.
É uma sensação tão boa poder falar que estamos voltando para casa, nossa casa. Eu sentia falta do meu cantinho, sei que eu que escolhi sair de lá, mas bastou eu colocar o pé para fora para entender quanta falta sentiria daquele lugar; eu precisei sair para compreender que aquilo era o que eu queria, minha casa, minha filhas... e minha esposa. Valia a pena brigar por isso.
– Mama. — Sofia me chama do banco de trás onde estava sentada em sua cadeirinha. — Brincar com a Zola? — Era assim que Sofia se referia a creche do hospital. Ela e Zola haviam se tornado grandes amigas, primeiramente cheguei a pensar que não daria muito certo, porque afinal o que se pode esperar quando duas crianças pequenas passando muito tempo juntas é brigas, choros e gritarias, mas isso não aconteceu com as duas; se tornaram grandes amigas assim como seus pais.
Mark teria adorado ver isso... e tenho certeza de que ele só deixaria Sofia casar com Bailey quando crescessem. Oh Mark... eu pude sentir meus olhos lacrimejarem conforme penso em meu melhor amigo. Por favor, me dê forças hoje.
– Mama! — Sofia disse mais alto dessa vez, um tanto impaciente por eu não ter lhe dado uma resposta ainda.
– Sim, Sofia, você vai brincar com a Zola, mas antes nós vamos ver a mamãe, tudo bem?
Um pequeno gritinho escapa os lábios de minha filha enquanto ela joga seus braços no ar em comemoração, feliz por estar indo ver Arizona. Confesso que aquela situação colocou um sorriso em meu rosto.
A estrada parecia estar mais longa do que de costume, mas finalmente chegamos ao nosso prédio por volta das cinco da manhã. Para ser sincera, se pensarmos bem, depois de acordar às 3 da manhã, ter um surto de pânico, fazer as malas e dirigir até que chegamos em um tempo razoável. Acho que tive a sensação do caminho ser longo porque ainda estava muito agitada por causa do pensamento horrível que Meredith colocou em minha cabeça.
Estacionei o carro na garagem e abri a porta, deixando as bolsas na mala do carro, peguei Sofia e tranquei o carro antes de seguir para a entrada do prédio. Quando eu entrei no elevador com Sofia sentada em meus quadris eu pude sentir meu corpo começar a tremer; meus nervos piorando cada vez que passávamos do um andar e nosso destino se aproximava. Quando as portas abriram e um 'ding' pôde ser ouvido, eu respirei fundo e saí da caixa de metal indo em direção a porta azul do apartamento 502... de minha casa. Eu tinha minhas chaves em meu bolso, mas decidi que era melhor tocar a campainha.
Foi estranho tocar a campainha da minha própria casa, mas como Arizona não sabia que eu estava vindo achei melhor tocar do que dar um susto na loira. Não obtendo resposta, bati na porta uma... duas... três vezes e nada.
– Arizoa? — Chamei. Eu sei que era muito cedo e ela provavelmente estaria dormindo, mas mesmo assim senti a necessidade de perguntar. — Você está aí?
Nenhuma resposta veio do outro lado da porta e eu pude sentir meu coração começar a bater mais rápido conforme imagens de meu terrível pesadelo começaram a passar em minha cabeça. Todas as imagens estavam ali: Arizona morta na nossa cama com uma caixa vazia de comprimidos ao lado, Arizona morta no chão da cozinha e, como em meu pesadelo, Arizona sangrando e quebrada no box do banheiro.
Respirei fundo e coloquei Sofia no chão. Ela olhou pra mim com uma cara curiosa mas fingi que não havia percebido. Ela tem três anos, ela não precisava saber porque sua mãe estava surtando no meio do corredor. Respirando fundo novamente, me ajoelho para que eu possa olhar minha filha nos olhos e para ter certeza de que ela estava prestando atenção.
– Sofia, mama vai entrar e eu preciso que você faça algo para mim. Pode me ajudar? — Ela apenas balança a cabeça positivamente. — Tudo bem, a mamãe quer brincar de pique esconde com a gente e é nossa vez de procurar, então você precisa fechar os olhos até eu dizer que você pode abrir, entendeu? — Parecia estúpido, mas foi a melhor maneira que encontrei de fazer com que Sofia ficasse de olhos fechados quando entrássemos em casa. Eu sei que provavelmente estava sendo idiota, mas tinha uma pequena parte de mim que estava com medo do que poderíamos achar dentro do apartamento e conforme as imagens de meu pesadelo repassavam em minha cabeça tudo que consegui pensar foi que eu não queria que minha filha visse sua mãe morta, jogada no chão. — Você pode fazer isso? Pode fazer isso pra mim? — Ela balança a cabeça novamente. — Boa menina!
Pego minha chave em meu bolso e coloco Sofia em meu colo de novo. — Tudo bem, meu amor, hora de brincar. Feche seus olhos sem espiar, senão a mamãe vai ficar muito brava com a gente e não queremos isso, queremos?
Um não bem baixinho saiu dos lábios da menina e eu sorri, colocando um beijo em sua bochecha, ela estava pronta para entrar na brincadeira.
– Tudo bem, então, vamos lá! — Digo abrindo a porta e entrando na sala.
O apartamento estava um pouco bagunçado, apesar de Arizona ser bem organizada no trabalho, em casa não era bem assim que acontecia. Eu olhei rapidamente para a pilha de lençóis e um travesseiro que estavam sobre o sofá antes de ir para o primeiro local de maior medo, a cozinha.
Nada.
Já um pouco aliviada vou até o banheiro passando pelo quarto vazio e também não há nada lá dentro. Graças a Deus! Digo aliviada. Ela não estar esticada em nenhum canto da casa... era um bom sinal, certo?
– Sofia, pode abrir seus olhos. — Digo para a menina que se manteve fiel a sua promessa de não abrir os olhos. — A mamãe não está aqui, acredita? Ela está se escondendo muito bem!
Uma vez que seus pezinhos encostaram no chão, ela me olha com seus grandes olhos castanhos. — Quarto? — Aparentemente ela não estava mais interessada em nosso joguinho agora que sabia que Arizona não estava aqui.
– Claro, meu amor, pode ir pro seu quarto. — Digo enquanto me jogo na cama e vejo minha filha sair correndo em direção a seu quarto, se havia uma coisa que Sofia gostava mais do que dormir e brincar com a Zola, era seu quarto.
Me deito completamente na cama deixando um pequeno grito sair de minha boca quando minha cabeça bate direto no colchão e não em meus confortáveis travesseiros. Sentando de novo, olho em volta e não os encontro. Onde meus travesseiros foram parar? E foi naquele exato momento que reparei que a cama estava feita e parecia que ninguém havia dormido ali há dias, talvez até semanas. Observando minha aliança e meu colar com o pendante de coração que eu havia deixado em cima da cama quando saí de casa eu pude sentir meus olhos lacrimejarem, mas pego os objetos e os coloco em meu bolso antes que eu me permitisse desabar. O engraçado era que os travesseiros de Arizona estavam na cama... e foi a partir desta percepção que finalmente me toquei, me levantei da cama e fui em direção a sala onde me deparei de novo com a cama improvisada no sofá.
As lágrimas que de certa forma eu havia manejado agora já escorriam por meu rosto quando me dou conta de que aqueles travesseiros eram os meus, ela havia usado meus travesseiros invés dos dela... por mais que aquilo aquecesse meu coração, isto ainda não respondia onde Arizona estava.
Me sento no sofá e pego o lençol que ali estava e o observo por alguns momentos pensando, tentando descobrir onde Arizona poderia estar e o primeiro lugar que me vem a cabeça é seu escritório, me lembro de uma vez ela me dizer que aquele lugar era seu porto seguro, onde ela podia ir xingar ou chorar quando quisesse e sem que ninguém percebesse.
– Sofia! — Chamei minha filha quando me levantei do sofá. — Vamos lá, está na hora de ir brincar com a Sola. — A menina saiu correndo de seu quarto ao escutar minhas palavras. — Vai com calma, mocinha, não queremos cair, queremos? — Eu a aviso quando ela quase cai e se segura em minhas pernas.
Eu a pego no colo novamente e começo a andar para fora de minha casa vazia, quando paro na porta e olho para trás eu sinto meu coração apertar. Foi assim que ela se sentiu? Foi assim que ela se sentiu quando veio para casa e descobriu que eu havia a deixado levando nossa filha comigo? Eu balanço minha cabeça tentando me desfazer daquele sentimento angustiante e dou um passo a frente fechando a porta e indo em direção ao elevador, pronta para encontrar minha esposa.
0000
Neste momento me encontro no hospital indo em direção ao andar da pediatria. Já deixei Sofia na creche mais uma vez agradecida por eles abrirem tão cedo, espero que meu anjinho consiga dormir mais um pouco antes de seu longo dia ao lado de Zola.
Sem Sofia para me distrair eu não consigo parar de pensar no que eu ia dizer para Arizona agora que eu percebia que minhas palavras nesses últimos meses mais o que eu fiz na festa realmente a haviam machucado, mas eu também não podia deixar de pensar no fato que ela havia me machucado também. A traição foi algo que eu tenho certeza que nunca irei esquecer, eu estava tentando, não esquecer, mas sim talvez dar-lhe uma segunda chance e aí... quem sabe eu não conseguiria perdoar? Sou uma pessoa que acredita em segunda chance... esse não seria a segunda chance de Arizona, ela teve esta oportunidade quando voltou da África e aí ela ficou, ela se dispôs a construir uma vida comigo, Sofia e, de certa forma, Mark. Talvez aquilo tenha nos deixado quites e hoje seria sua segunda chance de verdade.
Respiro fundo. Estou confusa, cansada e machucada. Talvez eu não esteja pensando nisso da maneira certa, talvez eu não esteja agindo de maneira racional, mas eu cansei de pensar.
Consigo sentir os olhos das enfermeiras em cima da mim quando me aproximo da porta da sala de Arizona. Agora eu entendo o que Arizona quis dizer sobre as pessoas encarando... realmente era irritante. Escolhendo ignorar por agora as pessoas ali me julgando, respiro fundo e bato na porta.
Nada.
Tento de novo, porém mais uma vez tudo que obtenho é silêncio. Que merda, Arizona, por que você não abre a porcaria da porta.
– Vocês sabem se ela está aqui? — Pergunto as enfermeiras que continuavam a me olhar.
– Provavelmente ela deve ter passado a noite aí... de novo. — Uma das enfermeiras respondeu e pude sentir meu estômago revirar. Como assim ela passou a noite no escritório? Ela não estava se matando de trabalhar, estava?
Percebendo que eu não conseguiria nenhuma resposta ficando ali apenas pensando, pego meu telefone e digito o número que eu já conhecia há muito tempo. Eu conseguia escutar o celular tocar do outro lado da porta e isso me deu mais um pouco de esperança de ela estar ali dentro, Arizona carrega o telefone para tudo quanto é canto.
Segurei a respiração até que depois do sexto ou sétimo toque escuto um "click". — Alô. — Ela diz com uma voz cansada.
– Graças a Deus você atendeu. — Respondo finalmente respirando normalmente.
– Callie? — Ela diz ficando um pouco mais alerta. — O que foi? Aconteceu alguma coisa com a Sofia?
Naquele momento eu não sabia como me sentir; feliz por ela ser tão apaixonada por nossa filha, ou triste porque ela pensa que o único motivo pelo qual eu falaria com ela seria uma emergência.
– Pode abrir a porta, por favor? — Peço.
– Como? — Ela pergunta confusa, deixando um bocejo sair de sua boca.
– A porta... do seu escritório. — Digo com uma pequena risada.
Sem dar nenhuma resposta ela apenas desliga o telefone, que me pega de surpresa, mas só até eu ouvir barulhos vindos de dentro da sala seguidos da porta sendo aberta. Colocando minha cabeça para dentro da sala com cuidado eu a vejo sentada no sofá que ficava perto da porta. — Posso entrar? — Pergunto enquanto estudo sua fisionomia. Ela estava apenas de pijama e uma blusa simples, seu cabelo estava bagunçado e sua prótese estava encostada do outro lado do sofá.
Em resposta ela apenas se curvou e esticando seu braço o máximo que pôde ela abriu mais a porta. Entrei na sala com cuidado, fechando a porta atrás de mim. Me encostando na porta crio coragem e olho pra ela novamente.
– O que você está fazendo aqui? — Ela ainda tinha uma voz de sono.
– Eu fui pra casa, mas você não estava lá, então concluí que você estivesse aqui. — Respondo com um pequeno sorriso sem graça.
– Você o quê? — Ela pergunta, levantando suas sobrancelhas em surpresa. — Você foi... pra casa?
– Um... é, eu fui. — Respondo.
Depois de uma longa pausa na qual Arizona apenas me observava, ela se ajeita no sofá e retira o lençol que estava ali em cima me dando espaço para sentar.
– O que você foi fazer lá? Precisou pegar mais roupas pra Sofia?
– Não, na verdade... — Comecei devagar enquanto me sentava do seu lado, mais perto do que ela esperava julgando por sua expressão. — Eu fui ver como você estava... eu tive um pressentimento estranho e... queria saber se você estava bem.
Novamente o silêncio toma conta da sala, silêncio têm sido um fator bem frequente em minhas conversas com Arizona, o que realmente tornava a situação estranha, porque me sentia como se estivesse conversando com um estranho.
– Será que dá pra gente parar com isso? — Ela pergunta. — Eu estou cansada disso... eu... cansei. Sei que é minha culpa, mas não consigo ter esse tipo de conversa com você porque quando a gente se fala eu... me sinto estranha porque... não é como se eu estivesse falando com minha... esposa. — Ela diz a última palavra devagar, não tendo tanta certeza se ainda podia se referir a mim daquela forma.
Respiro fundo enquanto a olho nos olhos. — Acho que não tem como a gente evitar... você estava certa quando disse que as coisas entre a gente não seriam mais as mesma... nunca mais. — Nesse ponto ela me dá um sorriso fraco. — Nós não podemos negar isso, você estava completamente certa.
– Eu sei. — Ela diz com uma voz triste. — O quê que a gente vai fazer, Calliope? — Sinto meu coração palpitar quando ela me chama daquele jeito, mas acho que ela nem percebeu como havia me chamado, pois continuou falando. — A gente vai apenas continuar fingindo que não significamos nada uma pra outra? Que a única coisa que existe entre nós é nosso laço com Sofia? — Ela fez uma pausa para ter certeza de que eu estava a acompanhando. — Continuar fingindo que não sentimos falta uma da outra? — Levanto minha sobrancelha surpresa com suas últimas palavras. — Ou... talvez você não esteja fingindo. — Ela diz abaixando a cabeça e olhando para suas mãos. — Você falou para várias pessoas que eu havia morrido e isso me faz pensar se era isso que você realmente queria. Que eu realmente estivesse morta.
Fale com o autor