If I only could
1 Capítulo 1 - Sasha Lynch
Não foi fácil vê-la morrer.
Não foi fácil virar as costas e correr, fingindo, por meses, que aquilo não tinha me afetado.
Zah estava morta, e eu tinha sido mordido.
Por que não morri com ela?
Acordei com um susto. Eu não vinha tendo boas noites de sono em meses. Permanecer sempre em alerta estava me afetando até quando eu deveria descansar.
Por instinto, cocei meu ombro esquerdo. A ferida estava cicatrizada, mas ainda encostava ali na esperança que ela desaparecesse.
Notei a luz do sol passando pelas persianas do escritório.
Enfim, tinha amanhecido. A noite parecia ter durado uma eternidade.
Me levantei do chão que me serviu de cama e ajeitei a mochila desgastada nas costas, nem me importando mais com a sujeira de sangue seco e poeira no moletom e na calça.
Minha mão direita inconscientemente desceu no bolso da frente da calça, onde eu guardava uma pistola 9mm. Um revólver sem munição e mais alguns outros equipamentos estavam guardados, eu não os usaria com tanta frequência afinal.
O bom da baixa estatura é que era mais fácil ser furtivo. Tanto para os zumbis quanto para as pessoas.
Honestamente, acho elas tão piores quanto as criaturas.
Analisei o corredor pela janela da sala antes de sair. Eu estava em uma escola primária, um dos únicos lugares mais limpos por dentro do bairro. Adentrei o escritório da diretoria para dormir, considerando a parte mais bem protegida do lugar.
O corredor parecia limpo, então abri a porta devagar, observando ambos os lados a cada passo. Eu havia escutado estalos no dia anterior, e havia uma grande possibilidade dos estaladores mal terem se movido no decorrer da noite.
Cada passo era muito bem calculado. Um mísero deslize e poderia acabar em tragédia.
Eu não tinha um bom motivo para viver, mas também não tinha um bom motivo para morrer.
E hoje não seria diferente.
Os corredores pareciam vazios. Paredes repletas de armários em tom de vermelho sangue, provavelmente de outra cor em uma outra vida, eram a única coisa que eu via.
Eu senti um arrepio percorrer meu corpo, e automaticamente saquei a arma em posição de defesa. Eu poderia estar sendo paranoico, mas antes isso do que ser convencido e acabar com uma bala na cabeça ou pior.
Comecei a olhar para todos os lados, todos os quatro corredores que me cercavam, sem sucesso. Eu estava numa encruzilhada. Ao mesmo tempo perfeita para enxergar alguém, mas exposto demais para alguém me ver.
Meus batimentos e minha respiração eram tudo que eu conseguia ouvir pelo minuto seguinte, até minha atenção se voltar para um vulto em movimento no final de um dos corredores, que davam para a saída da construção.
Aquele não era um vulto qualquer.
Era um vulto humano.
Corri atrás dele sem me importar em atrair atenção indesejada de infectados. Eu precisava saber o que ele queria ali, e por que decidira fugir quando o vi.
No meio da corrida, um barulho estridente começou. Tive que parar para tampar os ouvidos. Era um som alto demais para distinguir o que era.
A não ser que...
O desgraçado tinha acionado o alarme de incêndio, para atrair atenção no interior da escola.
Para atrair atenção para mim.
Era um plano arriscado, visto que se ele não corresse a tempo eu ou os infectados poderiam alcançá-lo, e eu realmente desejava que fosse eu.
Respirei fundo, e voltei a correr. Eu já conseguia ouvir alguns gritos, gemidos e estalos atrás de mim, mas seria perda de tempo olhar para trás.
Então eu só corri.
Quando abri uma das portas duplas da entrada da escola que não estavam preenchidas com tábuas de madeira, a fechei no instante seguinte que passei por ela e coloquei o peso do meu corpo contra ela. Não ajudaria de muito, mas retardaria a velocidade dos infectados para que eu tivesse mais chances de fugir.
Encontrar o vulto não seria uma opção agora.
Em segundos, meu objetivo tinha mudado.
Bem-vinde ao mundo pós-apocalíptico.
Assim que eu senti o choque do peso de um estalador do outro lado, comecei a traçar meu plano, a rota na minha cabeça. Havia uma caminhonete abandonada no estacionamento não muito longe dali, eu poderia usar ela de barreira enquanto disparava contra alguns e corria, ganhando algum tempo.
Quando eu estava certo dos passos, um tiro passou raspando na minha cabeça e atingiu o estalador de dentro.
E eu congelei. Tinha alguém me observando. Seria o vulto? Qual seria o sentido nele acionar o alarme e gastar munição com os infectados?
Escutei outro tiro, e esse atingiu o corredor que tentava se escalar por cima do corpo do estalador morto para me alcançar. Era agora ou nunca.
Corri em direção a caminhonete, do lado que eu sabia que ficaria contra o atirador e os infectados. Um campo de visão perfeito.
Antes que eu pudesse reestabelecer minha respiração e olhar para trás, escutei um tinido de metal atingindo o chão de cimento.
Uma granada.
Em milissegundos, uma explosão fez todo o meu redor tremer. Minhas mãos foram aos meus ouvidos tempo suficiente antes que minha audição ficasse prejudicada por um curto período de tempo, suficiente para ficar vulnerável e receber outro ataque.
O atirador tinha levado todos os zumbis aos ares.
Eu tinha duas alternativas agora: correr e deixar minha vida à mercê da sorte e não levar um tiro, ou continuar ali esperando que ele se aproximasse e acabasse comigo também, segurando a pistola como se fizesse algum efeito contra a espingarda.
Escutei um movimento à minha direita, e imediatamente direcionei a arma e coloquei o dedo no gatilho. Um movimento brusco e eu dispararia sem pestanejar.
— Eu não vou atirar em você — escutei uma voz abafada, não muito distante.
Não me mexi.
— Tem sorte de eu estar passando por perto — continuou. Escutei um som de coisas sendo largadas no chão, incluindo algumas metálicas.
Decidi ficar de pé, a arma a postos na minha mão. Assim que saí da cobertura da caminhonete, uma figura com macacão militar, um lenço que cobria seu rosto da ponte do nariz para baixo, e todo seu equipamento estava nos seus pés, as mãos erguidas em rendição.
— Não sou eu quem queria te machucar.
— Quem é você? — minhas mãos estavam estáticas, prontas para disparar — O que quer dizer com “quem queria me machucar”?
— Meu nome é Kislin — retirou o lenço do rosto, mostrando a aparência com traços chineses — Eu ouvi o alarme e percebi que você estava correndo atrás de alguém antes dos infectados aparecerem. Não é a primeira vez que a vejo por aqui.
— Quem é ela?
— Eu não sei o nome. Ela e mais uma garota costumam andar juntas. Eu já as vi matarem Serafitas, soldados da WLF e outros nômades. Ninguém consegue pará-las.
— E o que você está fazendo aqui?
— Não acha que está fazendo perguntas demais? O que eu ganho com isso?
— Sou eu quem está segurando uma arma apontada para sua cabeça.
Elu suspirou.
— Estou aqui porque tenho uma pendência para resolver. Melhor assim?
Ponderei. Acredito que era o suficiente. Não ficaria ali por muito tempo de qualquer maneira. Não era problema meu.
— Certo — me abaixei e comecei a vasculhar sua mochila.
— Ei, o que está fazendo? — elu se abaixou a minha frente — Espera. Podemos trabalhar juntes.
— Não estou afim — respondi, ríspido, e continuei procurando por suprimentos, encontrando algumas comidas enlatadas e munições.
— Por favor. Você poderia ter morrido minutos atrás.
— Isso não é problema seu — me levantei, satisfeito com o que pegara e colocara na minha mochila e me virei, pronto para continuar meu caminho.
— Espera! Eu te respondi três perguntas, eu ainda tenho duas a fazer.
— Eu não lembro de estar participando desse jogo.
Elu ignorou.
— Você chegou a ver uma garota, mais ou menos da sua idade, de cabelo preto médio e feições japonesas? O nome dela é Miya. Estou procurando por ela.
— Tem a ver com a sua pendência aqui? — perguntei, sem me virar.
— Sim — respondeu, baixo.
— Não. Não a vi — comecei a caminhar na direção oposta.
— Qual é o seu nome? — elu voltou a erguer a voz.
Não entendi o porquê do interesse. Com sorte, nunca nos veríamos de novo.
— Sasha. Sasha Lynch.
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