If I only could
2 Capítulo 2 - Achamos a garota
— E se eles tiverem mandado reforços? — Miya questionou para sua companhia, um pouco mais a frente.
— Eu destruí o rádio deles antes que tivessem a chance — Janna disse, confiante.
— Aah, esperto!
— Sempre fui — ela abriu um sorriso presunçoso.
A menor revirou os olhos, e tomou a frente para passar pela fresta da porta, parcialmente impedida de abrir mais devido a uma pesada estante do outro lado.
Estavam em uma cidade próxima da base delas, depois de encontrarem um pequeno grupo de soldados da WLF e descobrirem um ponto de encontro secreto no qual guardavam suprimentos e armas para emergências que não era vigiado: uma pequena loja de conveniências com suas janelas preenchidas por tábuas de madeira.
Mas, é claro, não iriam sem antes matá-los. Assim, impediriam que eles pedissem reforços.
Além disso, elas abominavam a WLF.
Elas se dividiram pelo interior do estabelecimento, recolhendo todos os suprimentos que encontravam: comidas, medicamentos e munições.
— Ei, dá uma olhada nisso aqui! — Miya chamou.
A outra apareceu detrás de uma estante, segurando algumas flechas.
— Eu encontrei umas flechas, mas não são... — seu olhar caiu sobre o que a outra segurava, e emitiu um som de surpresa. — Não brinca!
A menor estendeu o rifle de assalto que segurava, e sua companhia no mesmo segundo a pegou, soltando as flechas no chão e assumindo a posição de tiro, experimentando o peso e tamanho da arma.
— Tem munição suficiente? — perguntou, a ponta da arma na direção da porta por onde entraram.
— Não encontrei nenhuma. Já devem ter levado.
— Merda. Seria uma maravilha levar uma dessa com a gente.
— Seria mesmo. Mas seria até meio injusto para o lado deles.
Janna sorriu, e colocou a arma descansando no balcão do caixa.
— Eu vou dar uma olhada no escritório ali atrás, você fica de olho na porta? Para garantir.
Miya assentiu com a cabeça, e a outra continuou com sua busca.
Ela permaneceu ali, procurando por algo que possa ter passado batido. Não demorou para encontrar um pedaço de papel parcialmente sujo e desgastado no chão, embaixo de umas estantes. Por sorte, o que estava escrito ali ainda era visível.
A caligrafia mudava a cada frase, como se fosse um relatório improvisado.
“Limpa feita na última segunda, dia 3. Reportar ao Manny assim que retornar. 3 caixas de munições 7.65mm e 5 garrafas de água. Manutenção dos rifles de assalto para próxima sexta dia 14.”
No verso, havia uma frase escrita em negrito, rabiscada cada letra várias vezes.
“ACHAMOS A GAROTA. RETORNO IMEDIATO A BASE CENTRAL.”
Sem que percebesse, Miya pensava se podia ser alguém que conhecesse, e por que se sentia tão angustiada só de imaginar que poderia ser?
De súbito, ela sentiu um braço a imobilizar no pescoço. Tentou chamar por ajuda, sem sucesso. Dirigiu seu olhar para o espelho côncavo da loja, lhe dando um breve vislumbre da garota que a segurava e da outra que vasculhava o lugar, o revólver em mãos, na procura de mais alguém.
Sua visão estava turva, ou aquela garota tinha duas espadas suspensas uma em cada lado do seu corpo?
Ela se debatia para se soltar, e um tiro ecoou no ambiente.
Janna tinha visto, e já se preparava para atirar com a escopeta de novo.
Miya rapidamente notou que o braço que a segurava se afrouxara, aproveitando a oportunidade para se desvincilhar e puxá-lo para baixo com força, fazendo quem quer que fosse cair.
A imobilizou com o peso do corpo, segurando seus pulsos firmemente. Analisou seu rosto, e na cicatriz que percorria da sobrancelha a mandíbula esquerda. Seu olho do mesmo lado era de um azul leitoso, o outro, da mesma cor do cabelo curto.
— Calma aí, gatinha. Vamos conversar primeiro.
— Não me pareceu que você queria conversar — disse entre dentes.
— Eu não queria mesmo.
Antes que pudesse reagir, a garota impulsionou o joelho contra seu estômago, a fazendo cair ao lado curvada de dor.
Ela escutou a outra se levantando e os passos se distanciando.
— Janna! — chamou, o mais alto que pode.
Se levantou com dificuldade, e sacando a arma que guardava na cintura da calça. Percorreu o mesmo caminho que a intrusa, se deparando com ela apontando o rifle que estava no balcão para Janna, que segurava a outra intrusa, as espadas da mesma no chão, e com a outra mão encostava a pistola na têmpora da garota.
— Abaixa a arma — Janna ordenou.
— Solta ela — rosnou, em mesmo tom ao da outra.
— Você está encurralada — continuou, e seu olhar foi para Miya, que apontava sua arma para a intrusa por trás. — Além disso, esse rifle está sem balas.
A intrusa pareceu se irritar, e apertou o gatilho.
O mesmo emitiu um som de clique.
— Porra! — ela jogou o rifle no chão, e suas mãos foram para cima.
Não era a primeira vez que as duas tinham encontrado outros sobreviventes, e com certeza não seria a última.
Passados alguns minutos, as duas intrusas estavam presas com cordas firmemente trançadas na maçaneta em forma de barra da porta de entrada.
Miya estava escorada em uma das estantes espalhadas no interior da loja, o revólver apontado para as duas. Janna estava ao seu lado, pensando em qual seria sua abordagem.
— Quem são vocês? — perguntou, primeiramente. Ela se aproximou, agachando-se logo a frente delas.
Nenhuma das duas ousou dizer qualquer coisa, em primeira instância. A mais alta estava com seus braços doídos de ficar na mesma posição, e mal podia imaginar como estava a que estava ao seu lado, o nariz sangrando e provavelmente quebrado da briga com aquela que, de repente, parecia interessada.
Seu olhar caiu sobre o arco e a aljava do mesmo descansando aos pés de Miya.
— Por que não usou o arco?
Miya não entendeu, mas não queria deixar isso transparecer.
— Se quiser posso usar ele agora — retrucou.
Janna se cansava de esperar. Impaciente, segurou o queixo da intrusa e virou seu rosto para ela, que tinha um semblante irritado.
— Quem é você?
A intrusa engoliu em seco, e olhou de relance para a companhia, que assentiu levemente com a cabeça.
— Yasmin. E ela é a Esther.
Sahni as analisou por um momento, processando a nova informação.
— Vocês são da WLF? Ou de qualquer outra organização? — continuou.
— Não.
Sem qualquer chance de poder se defender, ela recebeu um soco no estômago. Arfou, sem ar por um segundo, sentindo o movimento dos pulmões doer.
— Ela está falando a verdade! — Esther se pronunciou, sua expressão era de desespero, medo.
— Como eu sei que vocês estão falando a verdade?
— Nós não acreditamos em nada do que eles dizem. Nem eles, nem os Serafitas, nem ninguém. Nenhuma de nós duas se filiou ao Vagalumes quando ainda existia. Somos só nós, por favor.
— E o que fazem sozinhas?
— Eu gostaria de fazer essa mesma pergunta para vocês — Yasmin resmungou, a dor se dissipando aos poucos.
Janna já tinha esperado o suficiente. Agarrou o colarinho do moletom da outra e levantou o punho com a outra mão, pronta para atingí-la para valer.
— J, espera! — ela escutou a voz atrás de si — Eu acredito nelas.
— Eu não. — Ela voltou sua atenção para a intrusa, quando sentiu uma mão em seu ombro.
— Vamos conversar antes. Por favor — seu olhar era de súplica, como se fosse ela quem estava presa naquela maçaneta.
A maior encarou a figura sentada e frágil a sua frente, que a encarava de volta. O olhar de ódio sendo recíproco.
Não disse nada quando se levantou e foi com Miya para um canto da loja.
— Elas não estão mentindo — a menor começou.
— Como você sabe?
— Eu revistei a mochila delas. Não tem nada suspeito. Nenhum colar, amuleto ou coisa assim. Só comida, mantimentos. — Janna descruzou os braços e os apoiou na cintura, sinal de que ela não gostava do que estava ouvindo, mas não iria dizer — São como nós, J. Vamos deixar elas irem.
— Por quê?
— Não tem porquê deixá-las desse jeito para morrer. Vamos dividir os suprimentos e desamarrá-las. Pegamos suas armas e o resto elas dão um jeito.
Ela olhava para baixo, processando o que escutava. Quando encontrou seu olhar com o de Miya, era frio como gelo.
— Você me surpreende. Se não fosse por mim, você já teria morrido — ela deu as costas e sacou a arma, apontando diretamente para a cabeça de Yasmin.
Miya não acreditou no que escutara, e um calor de fúria percorreu seu corpo, ardente o suficiente para ela pegar a arma da mão da maior com agilidade e apontá-la para a mesma que segundos antes estava na posição de ataque.
Agora, ela tinha uma arma apontando para seu coração, e era sua namorada quem estava do outro lado.
— Diga isso novamente e será você quem morrerá.
Sahni pareceu entender o aviso. Seus ombros relaxaram, e ela dera um longo suspiro.
— Tá. Vamos acabar logo com isso.
Elas dividiram os suprimentos conforme podiam, recolhendo as armas das intrusas, incluindo as duas espadas, uma besta, duas facas pequenas, dois revólveres e dois coquetéis molotov.
As mochilas delas prontas, prontamente as soltaram em silêncio. Esther olhava para as duas com o medo se transformando em gratidão, ou pelo menos, simpatia. Yasmin não reagiu, apenas pegou sua bolsa sem olhar para trás e foi na frente.
Miya e Janna as observariam se distanciar da loja, uma arma nas mãos da primeira apontada para elas caso fizessem qualquer coisa imprudente, por comando de Sahni.
Assim que alcançaram 3 metros de distância, Esther parou. A luz do sol iluminando sua pele marrom-clara com o vitiligo.
— Espera. — Ela se virou, as mãos para cima.
— O que está fazendo? — ela pôde ouvir atrás dela.
— Escutem! Nós não temos para onde ir. Viemos para cá justamente porque nossa base pegou fogo. Ataques de Serafitas. Sabem como é.
As duas de dentro da loja a escutavam confusas.
— Podemos ajudar. Yas sabe caçar e eu sei pescar, tem um rio não muito longe daqui. Fazíamos assim para sobreviver até então. Ela é treinada em tiro ao alvo e tem uma mira excelente. Nunca passamos aperto com os infectados. Eu faço manutenção de armas e munições e tenho conhecimento botânico, conheço quais ervas podem ser feitos chás e remédios naturais.
— Esther, vamos agora — ela sentiu uma mão familiar segurar a sua, e recuou.
— Não! — ela nem desviou o olhar das duas figuras que a observavam lá de dentro. — Nós só queremos uma segunda chance, por favor.
Miya olhou com expectativa para a maior ao seu lado. Ela não parecia convencida, mas sabia que não teria nada que faria Kimura mudar de ideia. Respirou fundo, e disse:
— Se vocês fazerem qualquer coisa contra nós, eu não exito um minuto antes de meter uma bala na cabeça de vocês.
Fale com o autor