If I die young

7 Capítulo VII: Crazy Stupid Love


Notas iniciais
Olá! É com imenso carinho que vejo trazer o cap 11! Quem diria que essa fic iria tão longe... o/ obrigada a todos que estão acompanhando s2. Deem uma passadinha no meu perfil ~ estou vendendo alguns mangás, uma wig e outras coisinhas^^ Enjoy!

“Não importa o quão bonita ela seja, uma jaula nunca deixará de ser o que ela é...”

– Reportando... o alvo foi localizado as 10 horas do dia 23 correndo pela ponte principal do centro da cidade. Ele tentou escapar com uma bicicleta roubada e seguiu por 30 metros antes de ser parado; consigo apenas uma mochila. Ah, e ele me deve um cigarro.

No chão, abraçado com sua mochila e o rosto coberto pelo capuz da blusa, Matt lutava com todas as forças para não erguer a cabeça. “Isso não pode estar acontecendo!”

– Dispensado _bufou a mulher de peitos fartos _hey rapazinho, se levante.

– Me deixe ir, você não entende!

– Ah... entendo dos meus milhões, apenas _estalou os lábios num beijo falso _acho que tentou escapar da pessoa errada.

– ...quem te mandou?

– Um loiro babaca.

Os olhos verdes arregalaram, Matt tentou se levantar e investir contra a mulher, mas acabou de volta ao chão pela falta de equilíbrio. Eles não podiam se encontrar, Matt não seria humilhado daquela forma.

– Posso arrumar o dinheiro que quiser, apenas me esconda! Seja como for, até me ver ele não terá certeza do seu plano _disse em súplica.

– Não faço tratos com pessoas ruivas, fique ai quietinho.

O ruivo sentou no chão agora com cautela, alcançou sua mochila que protegia com zelo até então e tirou seu notebook de dentro. Ele tinha poucos minutos para convencer a mulher que a ostentação poderia estar ao seu lado se o ajudasse. Uma rede roubada de internet era mais do que o suficiente para colocar seu plano em ação.

– Veja, posso trabalhar para você durante algumas poucas horas e pegar o que você quiser. Preciso apenas saber o que deseja! Milhões? Isso é ridiculamente pouco.

– ...hacker? _olhou com curiosidade para o outro _por que um menino como você estaria sendo procurado por aquele idiota? Era a pergunta que eu me fazia, mas agora vejo...

– Não, a razão é outra... é algo ridículo, por isso preciso sair daqui o quanto antes _gaguejou inflando os pulmões mais uma vez na tentativa de não perder o controle.

Matt começou seu plano de fuga quando assimilou a ideia de ter que ficar eternamente preso ao lado de alguém lhe dando todo o tipo de sofrimento e tristezas. Estar era uma opção: estar ao lado de Mello, prosseguir juntos para o futuro inevitável e lá no fim, se separar do mesmo numa morte fria sob a cama do hospital. “Realmente não me parece ruim” pensou o ruivo, porém... aquele sentimento incomodo de não querer ver o rosto triste daquela pessoa não o deixava em paz. “Se eu estiver bem, então ele também estará” e dizendo isso resolveu partir para longe.

Bom, não longe exatamente, ficaria por ali mesmo, fingindo estar fazendo a maior das viagens. Passaria por todos os lugares onde sempre quis ir – nada que um notebook não fosse capaz de fazer, certo? Para um hacker, o correio, o photoshop e as informações todas estavam na palma de sua mão.

Ainda corria um pequeno risco do loiro ir atrás de si, claro, por isso sempre que podia mudava sua base para outros lugares, cada vez mais isolado. Mesmo que ele procurasse muito, ainda não o encontraria! E depois julgou suas cartas algo tão convincente que nunca levou a frente a ideia de Mello desconfiar que ainda estava no mesmo país.

Matt, tão ingênuo.

Mello teve apoio de um cientista que prometeu a cura, além da sua teimosia. O ruivo não o faria de trouxa depois de tudo. A equipe de “resgate” de Mello era mais forte do que um hacker sozinho poderia imaginar e logo fora capturado pela mulher de seios fartos e sorriso presunçoso. Foi algo rápido e indolor, enquanto ia até a esquina comprar cigarros alguém agarrou sua cintura, a fuga de bicicleta fora infantil e tediosa para o perseguidor.

Agora, no covil da cobra, ele tentava como medida desesperada se livrar contando com infidelidade da mulher.

– Se liga, se eu te deixar escapar acha mesmo que a minha cabeça vai ficar no meu pescoço tempo o suficiente para gastar tudo isso ai? _disse com tédio _quem está primordialmente atrás de você é Beyond Birthday.

– B... quem?

A resposta fora um chute na porta de entrada.

Claro, o homem queria todo um mistério ficando escondido sob a luz externa no local, mas sabe como é a ansiedade... Beyond pulou para dentro da sala com um sorriso enorme no rosto. Na mão direita uma prancheta, na esquerda um bisturi; Matt conseguiu rastejar alguns centímetros para trás.

– Oh – ho! Minha sorte não é mesmo grande?! Tem o rosto tão bonito.

– ...Dr. B. esse é Mail Jeevas _disse a mulher se afastando consideravelmente do homem.

– L? Quero dizer... B? Quem diabos é você afinal? _gaguejou.

– Ele é gêmeo do Dr. L _foi a vez de uma segunda voz se pronunciar

Matt sentiu a vibração conhecida percorrer seu corpo, mas não teve tempo de reagir, tudo se tornou escuridão.

O desmaio roubou sua consciência por longas horas, o menino fora despertar no meio da madrugada sobre uma cama de hospital, num quarto branco, gelado. Assim que seus olhos focaram no ambiente, percebeu que na verdade era apenas um consultório e aquilo que julgou como cama era apenas uma maca. “Ah legal” pensou em voz alta, chegou a ter uma sinistra ideia de que seus tornozelos estariam presos por correntes, porém era apenas sua imaginação.

Se levantou sem dificuldades, deu alguns passos no escuro em direção a parede até encontrar o interruptor, a claridade, antes pouca, agora dava os detalhes da sala; na mesa relatórios inúteis para si, algumas canetas coloridas, bolacha recheada e uma caderneta. “Dr. Beyond” leu o que julgou ser um nome. Dr. B era o homem que primordialmente estava atrás de si, que pacto dos diabos Mello tinha feito com aquele cara?! Avançou até a porta, trancada.

– Que isso, um jogo de escape?

Ao menos que arrombasse a porta, não teria mesmo como sair daquela sala visto que estavam no quarto andar. Bom, Matt poderia apenas bater e esperar alguém abrir, alguma enfermeira, entretanto estava com os dedos formigando para saber o que tinha naquele computador. Já que tinha sido preso, por que não tirar vantagens disso?

“Degeneração espinocerebelar. Dr. B.

(...) a degeneração se atém à Medula Espinhal, Tronco Encefálico e Cerebelo, ocorrendo a degeneração gradual de tais pontos em grau celular, ou seja, nos neurônios, levando ao impedimento do transporte do impulso elétrico até o Córtex Cerebral, o que causa uma inicial má interpretação e resposta de impulsos elétricos trazidos do Sistema Nervoso Periférico, que geralmente correspondem a impulsos motores, até a total inibição dos membros e o óbito.

Paciente Mail Jeevas, portador da Ataxia Espinocerebelar Tipo III (AEC3). Quadro intermediário, avanço moderado (...).

Matt se deparou com um gráfico complexo, várias linhas coloridas compunham um radar indicando valores e datas diferentes. Se fosse comprar a um jogo, o ruivo diria que seus skils estavam caindo ao invés de aumentar. Ele avançou mais algumas páginas do extenso relatório, a cada linha o médico explicava os detalhes da doença em nível genético/molecular – ficando fora de sua compreensão. Eram cerca de 78 páginas, logo ele desistiu.

Era um misto de esperanças, agradecimento e carinho. Todo esse trabalho para descobrir uma cura e ajudar milhares de pessoas, isso parece bom, não é mesmo? Se sentia feliz por estar fazendo parte daquele plano, ao mesmo tempo com o orgulho ferido por ter sido descoberto. O que iria dizer ao loiro dos olhos azuis quando finalmente se encontrassem? “Eu vou ter sorte se não levar um tiro dele” refletiu sentindo falta de seus preciosos cigarros.

A porta estalou fazendo o mesmo pular da cadeira como reflexo.

– Oh-oh o rapazinho acordou 15 minutos antes do previsto, seu corpo é bem forte. Pode ficar sentado ai, não se preocupe com formalidades.

O ruivo abriu e fechou a boca diversas vezes, a figura do Dr. B, distorcida para o lado das trevas em relação ao Dr. L, o fazia ficar sem reação. O homem entrou na sala buscando por algo em cima da mesa, logo encontrou o pacote de bolacha devorando duas como se sua vida dependesse daquilo. Olhou de canto para o computador alcançando o botão “delete” sem hesitar.

– Não leia isso, é tudo besteira _disse de boca ainda cheia.

– Mas...!

– Você é o paciente, só precisa ficar quietinho quando eu for aplicar meu conhecimento nesse lindo corpinho.

Beyond deu a volta na sala indo até a janela, levantou as cortinas grossas deixando a claridade do poste de luz invadir o local. Suspirou, agora mais tranquilo, mirando os pequenos pontos de luz da cidade.

– Vamos, não posso te deixar aqui para sempre.

– ...eu preciso ir embora _disse sem confiança, foi ignorado.

Ambos saíram da sala direto para o ultimo andar, os aposentos de Matt seriam um quarto de enfermaria pequeno e desajustado, pelo menos por aquela noite; o efeito do sedativo ainda fazia um leve efeito, a adrenalina porém não o deixaria descansar enquanto não se sentisse seguro – e ficar seguro ao lado de Beyond não era uma tarefa fácil. Matt aceitou a toalha e um pijama hospitalar, apesar de ser apenas quarto de enfermaria, ainda era um suíte. Entrou receoso no banheiro desconhecido, tomou uma ducha rápida, colocou o moletom branco e voltou para o aposento, já vazio.

O sonho daquele dia era com um homem baixinho, cabelos alvos e olhos escuros. “Near?” resmungou o ruivo ainda preso em seu inconsciente. Diferente dos seus “sonhos de morte” o menino parecia estar feliz, andava de mãos dadas com alguém que não soube reconhecer de imediato; ele trazia o homem para perto de si. “Quem...?” Matt olhou para o rosto, o sonho distorcido não o deixava reconhecer, mas assim que se aproximou ganhou um abraço apertado.

“Ah... claro, só poderia ser você”.

Mello o abraçava lhe pedindo desculpas, então suas próprias lágrimas começaram a correr pelos cantos dos olhos. Saudades, aquele sentimento incomodo finalmente estava se dispersando. Quando aquilo começou a ser algo tão grande em sua vida? Parando para pensar, se deixou levar por Mello naquele primeiro dia, quando seus olhos se chocaram com o homem de cabelos claros e olhos frios. Um amor que ele não pode barrar, escorregou por entre seus dedos como areia. Mail deveria agradecer por ter o amor verdadeiro? Se ao menos não tivesse tamanha dor em seu coração com aquele corpo inválido...

O abraço logo fora desfeito, Mello se afastou alguns centímetros e se ocupou em acariciar os cabelos cor de fogo do outro, seus lábios se puxaram para um sorriso. “Eu te amo tanto” disse em meio a mais lágrimas. “Não queria me afastar na verdade, mas a razão é a mãe de nossa existência, sem ela nos perdemos em caminhos errados...” se justificou. Mello apenas continuava a sorrir. “Me desculpe... eu... estou...”

– Baaka, não precisa dizer nada, eu te entendendo perfeitamente.

A voz grave fez o ruivo abrir os olhos, assustado. Seus cabelos realmente estavam sendo acariciados por uma mão quente e gentil, seu sono velado por Mello.

– Me... Mel..

O desespero embolou sua garganta o fazendo engasgar, a tosse continua assustou o loiro que tentou ajudar amparando o corpo do outro ainda sobre a cama.

– Hey, se acalme... Matt! _o ruivo respirou fundo algumas vezes e limpou as lágrimas com as costas das mãos _caramba, não me assuste assim.

– ...droga _murmurou escondendo o rosto com os braços.

– Está tudo bem, vamos apenas conversar.

Matt contou em detalhes, alguns divertidos, outros melancólicos, de como passou aquele tempo quando longe do outro. Disse que ficou algum tempo em hotéis, outros em albergues, alguns dias na casa de seu ex-patrão ao lado de Rosa. Imaginou como seria viajar por Singapura, Índia e muitos outros lugares, escolheu as vistas mais lindas para descrever ao amado... fechava os olhos, quando fazia isso via toda a beleza daqueles lugares desconhecidos – elefantes, roupas diferentes, árvores gigantes, construções maravilhosas. Por algumas vezes, acabou se machucando e engasgando com coisas simples, seu corpo doía com o frio; chegou a ser ajudado por desconhecidos várias vezes quando ficava difícil subir no ônibus.

foi alvo de preconceito, má compreensão e descaso; foi acusado de estar bêbado e drogado inúmeras vezes, porém, como bom menino que sempre fora, educado e gentil, apenas sorria e se desculpava.

Quis voltar atrás, todos os dias, todos os minutos, mas o sorriso daquele que insistia em ficar em seu coração era mais precioso do que qualquer adversidade. Protegeria Mello, mesmo que ao seu modo egoísta. Desabafou cada sentimento, se envergonhou por cada passo errado, por fim ficou em silencio.

Silencio que o loiro respeitou, respondeu apenas com um abraço sincero.

Ambos dormiram abraçados na cama desconfortável por algumas horas, Mello fora o primeiro a despertar, ele deveria deixar o outro dormir, mas a ansiedade presente fez os lábios depositarem um beijo de bom dia no rosto pálido do outro.

– ‘Dia _chamou a atenção do ruivo.

– ...’dia _respondeu em meio a um bocejo _...oh vida louca _emendou soltando um longo suspiro.

Foi um bom começo, ambos riram da situação.

Uma semana com muitos exames, alguns doloridos, outros sem nexo para o ruivo, entretanto aos olhos do astuto Beyond, aquilo era a fonte de suas inspirações e esperança de cura. Eles começariam o tratamento imediatamente a base de um composto de nome complicado; Matt não fez questão de gravar o nome, diferente de Mello, claro. Ficava mais tempo no hospital do que em casa, sua vida, antes calma, agora era agitada com muitos enfermeiros, testes, bolas coloridas e potes de geleia. Não era ruim, se distraia com o médico fantasmagórico que por vezes estava animado, por vezes estava melancólico.

Depois de três semanas teve permissão de fazer a visita que mais estava esperando: sua pequena princesa Rosa. Desceu do carro ansioso, fazia bem quase um ano que não a via; suas mãos fecharam com força na alça da sacola de papel.

– Entre! Estávamos a sua espera, olá _cumprimentou Mello.

– Senhor Edgar, como está?! _abraçou o homem corpulento _esse é Mihael.

– Boa tarde _disse o loiro num tom baixo, envergonhado.

– Não façam cerimônia! Entr –

E o pai fora cortado por uma criança doce que correu para os braços daquele que sentiu imensas saudades.

– Uh, então eu acabei indo para a sala da diretoria, mas deu tudo certo, ainda bem! _e a menina parou um segundo para respirar.

– Rosa... _o pai balançou a cabeça de forma negativa _deixe o Matt comer em paz.

– A diretora é uma moça bem bonita, só que tem aqueles olhos que dão medo, sabe? Sabe, Matt, tipo aquelas mulheres dos filmes de ação...

– Claro que sei, que usam óculos e maquiagem roxa! _fez um careta fazendo a menina rir.

– Não, você não sabe de nada, ai, ai...

E Mello observou aquela cena com carinho, qual era a justiça daquele mundo? Tirar a felicidade de uma pessoa que fazia crianças sorrirem, paralisar o corpo pouco a pouco como pagamento de um pecado nunca cometido; da forma mais sofrível possível. “Matt... eu não entendo...”

Depois da visita, apenas duas semanas a frente, o ruivo deve uma piora no seu quadro clinico; ele de repente se levantou e foi direto ao chão: suas pernas pararam de responder, estavam agora em 40% da mobilidade. O passo lento até a janela deixou o homem irritado, era extremamente ruim andar naquela velocidade, pendendo para os lados. “Pareço um bêbado” soltou a respiração pesada ao se apoiar no parapeito.

– Droga, tanto esforço só para fumar perto da janela _estalou a língua e acendeu seu rotineiro Malboro, antes Vermelho, agora Light.

– Mesmo usando os pesos nos tornozelos, fica ruim assim? _perguntou Mello, deitado preguiçosamente na cama.

– Uhum... bom, que seja _deu os ombros.

– ...você não precisa se conformar com tudo.

Matt riu, ele era assim, simples e prático.

– Matt... você tem algum desejo? _perguntou o outro de supetão.

– Pare de dizer essas coisas como se eu fosse morrer amanhã _estalou a língua _...tenho, quero transar.

– Ah ufa, achei que poderia ser outra coisa, de repente se casar.

O ruivo ficou entre rebater com uma piada e levar a sério. Quero dizer, claro que ele queria se casar com Mello, mas era um processo tão complicado que deixou de lado no mesmo instante! Mello percebeu o desconforto, o loiro sabia que Matt não levaria aquilo na brincadeira, porém estava pensando em todos os prós e contras; agarrou a cintura alheia o trazendo lentamente de volta para a cama.

– Quando calhar de dar certo, nós fazemos uma festinha _disse travesso ao ouvido do outro.

Acompanhado de uma mordida sensual no ouvido alheio, veio um par de mãos nos lugares indevidos – e de quebra uma noite de luxuria.

“Ah... bom, ontem ele engasgou na janta... e a sua letra está bem ruim de entender, passou a escrever só com letra de forma. Andar está como antes, cambaleando um pouco, mas a fala está normal... sim, a respiração também.” Mello dava seu relatório diário para Beyond, através de uma ligação rápida entre uma cirurgia e outra; o médico ocupado gostava de ouvir todos os dias a evolução do quadro, nenhum detalhe lhe escapava. “Não dá para cortar o cigarro, é sério, ele é bem viciado... o que?! Ah... uh, o sexo está normal” respondeu com uma porcentagem de vergonha “boa noite, Dr.”

– Hum, pare de dar esses relatórios constrangedores _sorriu com uma xícara de café nas mãos que logo fora oferecida ao outro.

– Apenas rotina, rotina _cantarolou _ei... não está sendo tão ruim quanto pensa –

– Shiu, não diga esse tipo de coisa, realmente não me importo com nenhum dos sintomas, com nenhum tratamento, a única coisa que me importa é sorrirmos juntos.

Mihael ficou em silencio observando o café esfriar pouco a pouco, Matt estava certo, não deveria sofrer pelo outro por coisas que não importavam para ele, sua missão era apenas viver ao seu lado como antes. Parecia tão simples na cabeça de Mail.

O loiro deitou no sofá e alcançou o controle que estava jogado em qualquer lugar no chão, escolheu um filme de terror antigo e estendeu os braços para o outro deitar ao seu lado. Perder tempo assistindo tv era um de seus programas preferidos, podia ficar aconchegado em braços calorosos a noite toda aspirando a felicidade. Chucky fora um filme de sucesso nos anos 80, o boneco deformado foi motivo de medo para muitas crianças que relutavam a ligar a tv ou irem dormir sozinhas; Matt fazia parte desse trauma, até mesmo seu irmão não era corajoso o suficiente para andar pela casa sozinho durante a noite – e em algumas vezes, até durante o dia. Naquela noite fria de quarta-feira, em pleno feriado, o ruivo entrava em nostalgia com o longa metragem.

– Isso é horrível! _comentou o mais novo após um susto, envergonhado por acabar sendo alvo de risos tentou se explicar _muitos traumas infantis com esse maldito boneco!

– Também tive medo... uns 15 anos atrás, claro.

– Apos... aposto que você também ficou morrendo de medo.

The sixth sick sheikh's sixth sheep's sick _disse rapidamente, deixando o outro confuso _repete, The sixth sick sheikh's sixth sheep's sick.

– The sixth sheikh’s se… sixth shipe’s… the sixth…

O ruivo tentou oito vezes e somente conseguiu repetir quando disse lentamente, Mello não teve a maldade de zua-lo, ao invés disso apenas sorriu tristemente e Matt entendeu. Mais um sintoma, dia a dia eles apareciam lentamente, como a escuridão que toma seu lugar na Terra.

A primeira semana de Agosto estava sendo marcada por um homem totalmente tenso sentado numa cadeira branca, num consultório branco de frente para um cara totalmente branco. Nostálgico? Sim, Near novamente vinha se aproximando com uma enorme agulha nas mãos. “Não vai doer quase nada” disse com sua falsa sinceridade; diferente da outra vez, esse seria o começo de um tratamento específico para sua infeliz doença.

“Pode dar certo, pode dar errado _Beyond deu os ombros _nunca temos certeza das coisas que fazemos, sabe, cientistas são assim. A partir de agora você não tem mais escolha, vai ficar bem quietinho pois seu corpo pertence a mim, seu corpo doente irá voltar a responder como antes, fique tranquilo... tranquilo como um inseto na superfície da água: se você começar a se agitar demais vai romper a tensão no liquido e vai ser tragado para o fundo, mas se continuar a equilibrar seu corpo logo levantará voo. Alcance os céus Mail, pessoas com esse dom não deveriam ser como você que se acomoda a tudo e a todos, abra suas asas, deixe as pessoas que não podem te acompanhar presas em suas gaiolas.”

Matt passou dois dias na UTI recebendo o tratamento mais estranho da sua vida: injeções, tomografias, coleta de sangue, mais injeções, algumas brincadeiras com bolas como alvo sua cabeça – isso ele teve a leve impressão que era apenas divertimento do médico – e por fim, outras injeções de cores duvidosas. “Isso ai também é brincadeira dele?” ficou pasmo ao ver uma seringa amarelo berrante nas mãos de Near.

Na madrugada do terceiro dia acordou assustado por um pesadelo desconexo: uma mistura de cadáveres, patins voadores, altura e muito, muito vento. “Que medo de cair... que vontade voar” era o que pensava a cada passo, abaixo de si a cidade como em miniatura, acima o nada. “É como B. disse, eu deveria alcançar o céu, esse é o meu dom”. Matt lembra de ter pulado em direção às nuvens antes de acordar, sentindo sua barriga gelada e o suor escorrendo pelo rosto, levara um susto imenso. O paciente se sentou na cama e procurou o maço de cigarros – liberados pelo médico – acendeu, tragou, soltou todo o ar em seus pulmões para só então fechar os olhos.

Lembrou-se dos dias que apenas se preocupava em descer e subir aquela ladeira enorme sem perder o ar, pensar no dinheiro que receberia no final do mês e que mal era suficiente para comer e pagar o aluguel do barraco imundo. Ruim, sim, foram dias difíceis... entretanto aquilo inspirava uma liberdade infinita: não precisar dar satisfações para ninguém, não tem com quem se preocupar. Mello não fora algo ruim em sua vida, de modo algum pensaria algo assim! O loiro trouxe até àquele medíocre ser humano uma razão para continuar a viver, uma razão para se importar com o mal inevitável: a morte.

Infelizmente, nunca mais poder sentir o ar da comunidade o fazia ficar melancólico de alguma forma. “O que seria a liberdade afinal?” divagou o ruivo antes de apagar o que restava da brasa e voltar a dormir.

– Tsc _o mais alto estalou a língua _por que ‘saporra não funciona nesse ruivo maldito?! _esbravejou jogando algumas folhas no canto da sala.

Near tentava ouvir os batimentos cardíacos de Matt enquanto Mello segurava quase inutilmente seus ombros, o corpo do ruivo começou a tremer de forma violenta depois de receber outra dose do medicamento teste. Beyond estava nervoso, olhava de forma impaciente para os resultados negativos que vinham um atrás do outro, dia após dia.

– Fuck! Não vou perder pra isso _deu a volta na maca e aplicou algo transparente na veia saltada de seu paciente, em poucos segundos o tremor parou e o mesmo desmaiou.

– Matt! _o loiro chamou em vão.

– Keehl, River!... _a ordem parou em sua garganta.

A tão desnecessária barreira que o separava do sucesso.

– Me deixem sozinho por um instante, vou pensar no erro da fórmula _resolveu por fim mudar sua ordem amaciando a voz num tom de cansaço.

Relutantes, os novatos saíram da sala cabisbaixos indo em direção a cafeteria do hospital para alguns minutos de descanso até que Matt acordasse.

As coisas pareciam ir de mal a pior na cabeça do médico: injeções que não funcionavam, músculos que não se contraíam, logo seu paciente deixaria de ter mobilidade e se chegasse à aquele estágio, certamente não haveria mais cura. “Merda! Parecia estar tão perto...” leu pela quinta vez o relatório.

– ...água.

A voz fraca despertou sua atenção, ofereceu ao menino um copo de plástico pela metade que fora aceito com certa dificuldade. Enquanto o ruivo bebia lentamente o liquido límpido, Beyond fitou seus olhos claros pensando em quanto a genética poderia ser generosa as vezes: ao contrario de si, tudo no outro era vivo e cheio de vida; os olhos brilhantes como esmeraldas, cabelos cor de fogo, a pele bronzeada pelo sol forte do lugar onde vivia até meses atrás. Tudo, tudo lhe trazia uma sensação de euforia.

– Obrigado _agradeceu estendendo o braço para devolver o copo.

– Como se sente?

– ...bem _respondeu depois de alguns segundos _só minha cabeça que dói um pouco.

– Pressão alta _bufou.

Matt soltou um risinho que logo foi abafado por suas mãos, sem querer, deixou que o médico percebesse.

– Por que está rindo? Isso ai pode te matar _reclamou deixando seus olhos tom carmesim ficarem aparentes contra a luz.

– Não faça essa cara de gênio do mal! _ergueu os braços se rendendo.

– Você é idiota ou o que?!

O ruivo deu uma audível gargalhada, se endireitou na cama aproveitando para estalar o pescoço e pulsos antes de acender o cigarro costumeiro.

– Beyond, os carneiros também têm problemas?

– ...

apenas olhou para o relatório e em seguida para uma seringa alaranjada sobre a mesa perto de si, talvez fosse hora de aplicar uma dose extra para acabar com o retardo mental que seu paciente acabara de demonstrar.

– Não estou louco! Isso é só o jovem príncipe _e novamente repuxou os lábios para um sorriso sacana _vejo que entende tudo de “Junqueira”, mas nada de livros famosos.

– “Junqueira e Carneiro” é famoso, moleque _esbravejou ameaçando jogar seu maior livro de histologia na direção do mesmo.

– Que seja _deu os ombros _o que eu quero dizer... é que se não tem solução então apenas diga de uma vez. Dar falsas esperanças para ‘ele é pior do que enfrentarmos isso sabendo do fim... é como... dar uma caixa vazia dizendo ter um carneiro dentro.

– Quer a seringa laranja ou a verde?

– É sério! _se sobressaltou ao ver os objetos pontudos perto de si _o pequeno príncipe ganhou um carneiro de seu amigo, dizia ele estar dentro da caixa para que pudesse carrega-lo até seu planeta! Na pressa, esqueceu de lhe dar também uma corda e focinheira para que não comesse sua amiga flor _apesar de hesitante, continuou _então o príncipe deixou que o carneiro continuasse dentro da caixa, mas a verdade é que a caixa estava vazia; uma erva daninha lhe contou sobre a mentira. Se você continuar a dizer que isso pode dar certo, Mello vai continuar se esforçando como um idiota, tratando a esperança como a base de sua vida... quando descobrir que vou morrer de qualquer forma, vai se sentir traído e nunca mais será o mesmo. Apenas diga a ele que a caixa está vazia! Não teria sido melhor o principezinho ter descoberto tal coisa quando ainda na Terra?! Assim não perderia seu tempo cuidando e dando amor a uma caixa... e poderia aliviar seu coração perguntando o por que de tanta falsidade para o próprio amigo.

Ao final do sermão, o moreno apenas inalou a fumaça toxica produzida pelo outro sentindo seu pulmão gritar. O que esperar de uma pessoa como Mail Jeevas? O único que teria o direito de sentir todas as coisas ruins do mundo era o que mais matinha o pé no chão – e agora ainda estava discutindo com seu médico, ética e moral.

Ele estava certo afinal...

Não

Beyond podia sim cura-lo.

– Estou certo que... esse príncipe é apenas uma criança _se recolheu na cadeira _mimado como qualquer príncipe de sua idade poderia ser, inocente como qualquer criança da sua idade poderia ser. Mas estamos no mundo dos adultos agora, se eu não posso mais fingir que existe um carneiro então... que ele venha me cobrar um de verdade! E então eu o trarei, numa bandeja de prata com maçãs e alecrim.

Matt fez uma careta, ele duvidaria que o pequeno príncipe ficaria mais feliz em ver um carneiro de verdade, porém assado.

– Venha Jeevas, temos mais um exame para você ainda hoje. Já aviso que isso me custará muito, então que seja proveitoso, fará tudo o que pedirem a você e vai responder todas as questões com lógica e bom senso.

– Uh, isso está bem tirânico vindo de um médico que me deixa fumar na sala de exames.

– Isso virá de outra pessoa.

ignorou o rosto curioso de seu paciente e continuou a caminhar em direção ao elevador. Ele não entendia muito bem o motivo, mas era impossível colocar seu orgulho diante de uma pessoa como Matt, era como se fosse arrastado pelo vento que fazia com suas asas. Desde o começo teve um inexplicável interesse sobre o garoto, vira nele finalmente uma razão para ter seguido a carreira de médico – bom, não que ele não teria sido capaz de conduzir os experimentos mesmo se formando em qualquer outra coisa – entretanto até aquele momento, tudo o que fizera fora seguir seu irmão na tentativa de vencê-lo, chegou uma hora em sua vida que se perguntou “O que estou fazendo?” preso a um hospital barato, serrando e costurando pessoas para que continuassem a viver... O menino Jeevas foi a primeira pessoa que realmente teve interesse em salvar, começou claro com seus cabelos cor de fogo, como um amor a primeira vista, e agora com seu estranho poder de arrastar tudo a sua volta para uma bolha de felicidade.

Estranho, mas reconfortante.

– Onde estão indo? _perguntou Mello no fim do corredor.

– Ah ótimo, venha comigo Keehl, vou precisar de toda a sua... como se chama, Matt, aquela pessoa cara de pau?

–Se chama, talvez.. Mello?

Matt respondeu bem humorado recebendo um soquinho no ombro como punição.

Notas finais
- Referência a Air Gear e O Pequeno Príncipe / O Jovem Príncipe. Thanks!