Time can bring you down

Time can bend your knees

Time can break your heart

Have you begging please

Begging please”

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–Ei, Arthur, o que é isso que você tá cantando?

–Sei lá, ouvi na rádio. Mas eu gosto dessa música, a letra é muito boa.

–Não é meio triste?

–Sei lá.-O inglês deu de ombros, continuando a organizar os livros enquanto Alfred apenas o observava.-Mas eu gosto. Acho que pode ser até minha música preferida.

–Certeza?

–É...

–Eu sei a letra de cor. Quer que eu cante pra você, Arthie?

–Não, Alfred, sua voz é horrível. Guarde pra quando eu estiver morrendo, ok? Então eu deixo você cantar algo assim.-Arthur riu.


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“Você tem que entender o que aconteceu depois que me separei de Arthur aquela segunda vez. Resumindo, eu voltei para os Estados Unidos para fazer meu último filme. Eu nem tinha feito 50 anos (ainda tinha bem menos do que isso) e já me cansava de toda aquela rotina. Eu era bilionário, minha vida estava feita e tudo começou a perder o interesse, ou melhor, a capacidade de me interessar. Nenhum filme me chamava a atenção, nenhuma peça, nada. Por isso digo que “Apologias” foi meu último filme. Não foi tão bom nem tão genial, mas foi o único (e último) que me atraiu o interesse.


Apologias é um nome engraçado, sabe, funciona como “desculpas”, mas quase ninguém usa.


De qualquer forma, foi pouco depois do final das filmagens que eu conheci sua avó. Ela era uma das assistentes de filmagens e ficava toda sem jeito quando eu chegava perto. Tinha uns cabelos cacheados, meio gordinha, mas sabe, ela tinha olhos muito verdes. Muito, muito verdes. Eu odeio admitir mas foram aqueles olhos que me chamaram a atenção. Eles sempre me soaram muito agradáveis e familiares até que eu percebesse, alguns anos depois, quando nos casamos, que era justamente porque Arthur tinha olhos parecidos com aqueles. Ainda assim, Arthur tinha olhos muito mais vívidos, mais verdes, mais penetrantes. Muito mais bonitos, como verdadeiras esmeraldas. Sua avó nunca soube disso e o casamento seguiu bem. Eu gostava dela, ela me amava, éramos ricos e tínhamos uma vida plenamente confortável em Nova York. Não digo que fui “feliz” porque foi mais como se estivesse dormindo. Não foi ruim, claro que não, mas extremamente bom também não foi.


Sua mãe nasceu alguns anos depois, uma menina realmente adorável, que eu amava muito. Durante os anos que se seguiram, cerca de 12, eu fui pai e marido, tentando ser atencioso ao máximo, tentando não machucar mais ninguém, embora, nos dias de chuva, ligar para a Londres e perguntar por um certo inglês fosse terrivelmente tentador. Por que eu jamais entrei com contato, você pergunta? Porque eu ainda estava com medo. Porque tudo tinha se complicado demais para que uma simples ligação resolvesse algo, e até mesmo se eu fosse até Londres, eu sentia que nada poderia ser feito.


E era assim que eu pensava, e eu estava determinado a mofar daquele jeito, naquela vida simples, realmente como uma planta satisfeita mofando ao canto.


Mas o destino, claro, resolveu acabar com tudo de vez.


Eu tinha 45 anos. Arthur deveria ter 48, e éramos praticamente velhos, adultos, na meia-idade. Eu já tinha alguns cabelos brancos (embora, ainda bem, jamais tenha sido calvo) e só não estava pior porque tinha me obrigado a ir para a academia todos os dias. De qualquer forma, veja como aconteceu. Estava meio fria aquele final de manhã e meu carro tinha ido para a oficina, e como estava apressado porque tinha que buscar Anne no colégio e era bastante perto, fui a pé.


E estava indo tudo bem, eu andava na calçada de mãos dadas com a minha filha, levando sua pequena mochila nas costas, contando sobre os professores quando de repente eu esbarro em alguém.

Foi assim, não estou inventando, apenas acho muito “engraçado” senão doloroso essa do destino sempre nos juntar da forma mais ao acaso possível. Não sei que desculpa ele teria, mas eu estava olhando para o chão, pensativo sobre o carro quando esbarrei nele.


Ele se virou e pediu desculpas, mas paralisou. E eu também. E Anne ficou sem entender, ainda inocente demais para compreender tudo que aquele súbito silêncio significava, mas educada demais para interrompê-lo.


Estava frio mas muito ensolarado. Arthur vestia um terno de corte fino, sapatos devidamente polidos e um sobretudo por cima de tudo. Ele sempre se vestiu bem. Os cabelos ainda desarrumados demais, embora meio grisalhos, mais charmoso, com algumas marcas no rosto, mas a estatura pequena e a face meio infantil lhe concediam uma aparência mais jovem.


Mas os olhos continuavam verdes, brilhantes, chamativos, belos. Esmeraldas. Ele olhava para mim com a boca meio aberta, surpreso, e o tempo parecia ter parado para nós dois. O vento. Frio, o sol, quente, e Anne ainda segurando minha mão, sem entender.


Até que o celular de Arthur começou a tocar e ele atendeu (e por acaso ou não, era o mesmo celular que eu lhe dera tantos anos antes, pouco depois de nós nos conhecermos).


–Alô? Alfred, já estou chegando. Não, filo, espere só mais um pouco, ok? Papai te ama. Até.-E desligou então, voltando a erguer o olhar para mim.


–Seu filho?-Eu perguntei.-Alfred?


–É, seu nome.-Arthur respondeu, limpando a garganta momentaneamente.


Um silêncio se formou no ar depois de alguns instantes. Eu estava surpreso demais para falar alguma coisa, meio acuado também, e Arthur... Bem, Arthur tinha uma expressão difícil de se ler, entre a dor e a alegria.


–Sua filha?-Ele perguntou então, olhando para Anne, que se escondeu atrás de mim rapidamente.


–É sim, se chama Anne.-Me virei para ela então, dando um sorriso.-Filha, por que você não vai brincar ali só um pouco, hm? O papai não vai demorar.-Eu apontei para um parquinho não muito distante, e depois de me olhar por alguns segundos, foi, me deixando sozinho com Arthur.


–Você se casou?-Ele perguntou, olhando para mim com uma aparente indiferença. Mas apenas aparente.


–Sim, há uns 15 anos. E você?


–Há 10, apenas.


–E você está bem?


–Sim. Vendi a livraria para uma empresa grande e vim... Para cá ajeitar umas coisas. Alfred, meu filho, está esperando por mim no hotel. Diz que acha os Estados Unidos um lugar... Fascinante.


–Entendo... E quantos anos ele tem?


–7 anos.


Eu suspirei, coçando os cabelos enquanto via Anne brincar no parquinho mais adiante. Toda aquela conversa era uma fachada barata. Eu mantinha o controle mas meu coração batia absurdamente rápido, e o que eu mais queria fazer era pedir desculpas por ter sido tão estúpido. E saber se ele ainda me amava, se ainda tínhamos chance porque dessa vez eu queria, dessa vez eu era maduro o bastante, dessa vez daria certo, mas aí... Eu era casado, e Arthur também. Ambos tínhamos filhos, família, além de que como ele poderia vir a me querer depois de tudo que fiz? Ele me perdoara e o que eu fizera? Jogara fora seu perdão, fugindo na manhã seguinte por medo.


E no entanto, era só ele que conseguia fazer meu coração bater rápido daquela forma, só ele me deixava inquieto, curioso, ávido. Só ele. E como se ele lesse meus pensamentos, disse:


–Sabe, eu ainda amo você.-Atraiu meu olhar ao falar a frase.-Eu nunca vou deixar de amar você, é uma dor e um fardo com que já me acostumei. Se era isso que ia perguntar, pronto, não precisa mais, já pode ir embora, como fez da última vez. Nós dois temos uma vida agora, e somos casados e tudo o mais.


–Arthur, dessa vez eu estou falando sério. Dessa vez, nós...-Eu tentei. Eu realmente tentei, eu queria consertar, eu queria, eu daria tudo de mim para consertar o que um dia tinha sido “nós”.


–Alfred, você já me deu esperanças demais, e eu cansei de passar horas pensando como seria se você tivesse sido menos egoísta, não, como seria sido se eu, na época, fosse menos estúpido.


–Arthur, eu sei que não tem desculpas para o que fiz, mas...-Eu tentei de novo.


–Alfred, já chega. Não dá. Acabou. Não tem mais chances, você desperdiçou todas. Olhe para nós, estamos velhos, temos filhos, eu nem vivo neste continente e você nem me ama. Você transformou minha vida num inferno, lembra? Foi você que acabou comigo, mas pelo resto de amor próprio que eu tenho, digo que acabou. Chega.


–Arthur, espere...

–Não sei que maldição é essa que carrego comigo para encontrar logo você no meio da rua.-Arthur riu, cheio de mágoa.-E é sempre assim, sempre inesperado. Ou será que é você que me persegue apenas para me ver infeliz? Já não basta tudo?


–Arthur, me escute, por favor.-Eu engoli em seco.-Eu sei que fui muito egoísta mas eu quero consertar, eu quero...


–Não, eu já disse, chega. Olha, estamos em público, meu filho está esperando por mim e eu preciso ir...


–Me desculpe!-Eu exclamei de uma vez, um pouco alto demais.


Arthur engoliu em seco, mas logo a expressão antes meio surpresa passou para uma irritada, enfurecida, mas com outras coisas que não consegui identificar.


–Desculpas para quê?!-Ele exclamou de volta então, atraindo alguns olhares.-Nada que você diga vai mudar o que eu passei! Não tem mais jeito! Não há mais tempo! Acabou! Acabou quando você sumiu naquela manhã! Eu pensei que estivesse tudo bem, eu pensei que você ia ficar, que iríamos em frente, que porque eu perdoei você, você iria ficar, que eu poderia confiar em você, mas você desapareceu! Eu estava bem até com o fato de que você poderia não me amar, eu estava disposto a fazer o que fosse necessário, droga!-Ele voltou a exclamar, a voz um tanto mais rouca.-Alfred, eu fiquei tão feliz, tão feliz, e você jogou toda a minha felicidade na lama! Mas você pensou em mim?! Claro que não! Você foi um maldito filho da puta egoísta e egocêntrico, que nunca sequer tentou entrar em contato depois que foi embora sabe-se lá o porquê! E eu deveria odiar você, eu deveria sentir raiva, mas nem isso você me permite! A felicidade você me tirou, a raiva você me tirou, agora vai me tirar o quê?! Me faça um favor e me tire essa dor também porque ela foi a única coisa que você me deixou!


Eu fiquei completamente mudo na hora, consciente do monstro que eu era. Tão vil eu fui. Tão egoísta, tão egocêntrico, tão individualista, estúpido, idiota, infantil. Tão literalmente ruim que o mínimo que eu poderia fazer por Arthur era manter distância.


Mas, novamente, eu quis machucá-lo ao querer ficar com ele, ao tentar pedir desculpas, ao tentar consertar as coisas. Meu Deus, perceba o quão miserável era eu. Acho que até hoje ainda pago por todo mal que fiz a Arthur, eu mereço.


Ele levou uma das mãos ao rosto, cobrindo-o enquanto eu via algumas lágrimas lhe escaparem dos olhos. Se eu pudesse, choraria também, teria chorado naquele momento junto com ele, teria pedido desculpas milhões de vezes, não para que eu pudesse dormir melhor a noite, mas por causa dele. Eu resolvi mudar quando já era tarde demais, mas ainda assim, resolvi.


Estendi a mão para tirar a que cobria seu rosto, vendo sua face avermelhada pelo choro baixo, contido, discreto. É claro que ele não queria chorar.


–Desculpe-me, Arthur, eu sinto muito. É tudo que eu posso dizer além de que eu finalmente percebi que amo você, e que eu cometi erros e mais erros que não possuem desculpa. Você está certo, e eu, errado. Por isso, eu peço apenas que me perdoe. Eu não irei mais atrás de você, e se por acaso nos encontramos na rua mais uma vez, vou ignorá-lo. Desculpe-me.


Eu o soltei então, recuando devagar e chamando Anne com um gesto. Ela voltou, segurou minha mão e olhou para Arthur e depois para mim de uma forma suspeita.


–Papai, não posso mais brincar no parquinho?


–Não, minha filha. É hora de ir.-Eu respondei, erguendo o olhar para Arthur, um sorriso truste no rosto enquanto ele me fitava com um olhar morto.-Adeus, Arthur;


Ele assentiu.


Então, pela primeira vez na minha vida, eu não esperei o destino agir, eu fiz. Eu, sempre egoísta, insisti. Insisti e paguei pelas consequências. Eu tirei do bolso um dos meus carões particulares e o deixei cair no chão, tendo o endereço do meu trabalho e o telefone. Esse foi, de longe, o maior erro da minha vida.


Fui embora com Anne sem olhar para, sem saber se Arthur tinha visto o cartão, sem saber se eu tinha alguma chance de ser feliz.


Deixei Anne em casa e passei o resto do dia no meu trabalho, um escritório, perto do centro da cidade, numa área bastante movimentada. Eu chamava de “trabalho” mas eu não fazia nada lá, usava apenas como um refúgio quando cansava de viver; Sabe, se eu não tivesse sido ator, teria sido bombeiro ou policial, e teria um escritório apenas para mim.


Eu, no fundo no fundo, esperava que Arthur, para o próprio bem dele, não aparecesse. Em parte, eu queria que ele tivesse visto o cartão, que ele soubesse como me encontrar, mas em outra parte, não queria.


Por volta das dez da noite, começou a chover. Acho que acabei sendo ator porque minha vida sempre foi cheia de cenas dignas de cinema. E como todas as cenas tristes, naquela noite, realmente começou a chover uma chuva tão forte que alguns segundos nela deixaria qualquer um encharcado. Onze, doze horas da noite noite e Arthur não tinha aparecido.


Eu realmente, pelo menos a minha parte boa, esperei que ele não viesse Eu me levantei, fui até a porta, deixei meu escritório, indo embora. Estava de costas para a rua quando meu celular começou a tocar, eu protegido da chuva pela fachada do escritório.


É preciso que eu descreva tudo perfeitamente bem para que você entenda como tudo ocorreu. Chovia forte, os carros passavam em alta velocidade, eu estava na calçada. Quase não ouvi o celular por causa do barulho da chuva. Como eu não percebi na hora, não sei, porque o que é um filme senão uma cópia da vida real, seja ela muito mais futurista, mágica ou melhor em todos os aspectos? Tudo ali – a chuva, os carros, o barulho, a noite – contribuía para aquela cena com apenas um desfecho possível. E não era romântico, o final, não com um beijo na chuva, não, claro que não.


Claro que não, eu não merecia aquilo, não, eu merecia algo infinitamente pior, eu merecia o próprio inferno recaindo sobre mim. E foi o que aconteceu.


Eu atendi o celular (se me lembro bem, o toque ainda era “Tears in Heaven”) sem olhar o visor, sem querer saber quem era. Achei que poderia ser Melody, minha esposa na época, perguntando onde eu estava e quando iria voltar, ou até algum diretor que quisesse insistir para que eu voltasse a atuar.


Mas não era.


Era Arthur.


–Alfred... Eu não quero. Não adianta. Chega.-Ele disse pelo telefone. Eu me virei, olhando em volta, e lá o vi, na calçada do outro lado da rua, encharcado, com a mesma roupa de horas e horas antes, o celular no ouvido, olhando para mim. Os cabelos costumeiramente rebeldes estavam colados em sua testa e sobretudo deveria pesar bastante em seus ombros. Ele parecia estar chorando, mas não sei se era a chuva combinada com a minha imaginação. Ele parecia estar chorando.


–Arthur, espere. Arthur, eu amo você, dessa vez eu quero, dessa vez...-Eu tentei.


–Mas eu não quero mais, Alfred. Chega, por favor, chega. Mesmo que... Tivesse como, nunca daria certo. Chega de me machucar.-Ele disse pelo telefone, do outro lado da rua ainda. Tinha que falar alguns tons mais alto por causa da chuva forte.


–Não, há um jeito, sempre há!-Eu gritei. Os carros ainda passavam, rápidos.


–E houve! Houveram vários! Mas você não quis e agora chega, chega!


–Então por que você veio até aqui sabendo o que eu diria?! Você também quer, você ainda tem esperança, nós podemos dar um jeito e ir em frente! Eu sei que errei e errei muuto mas eu peço perdão e sinto muito!


–E o que me garante que você não vai embora de novo?!-Ele exclamou, olhando para mim além da chuva, exasperado, encharcado, a voz tremida e rouca.-Não! Chega! Eu amo você mas não aguento mais chorar por sua causa, não aguento! Amar você me traz mais dor do que qualquer facilidade! Adeus, Alfred, e fique longe!


Ele então desligou o celular e me deu as costas.


Eu podia tê-lo deixado ir, era o mínimo que eu podia fazer, porque estava chovendo e a cena era perfeita, eu já sentia o que ia acontecer, porque tudo apontava para aquele desfecho final, de alguma forma, de algum jeito.


Ele estava indo embora na chuva. Eu fui atrás, corri, tentei alcançá-lo, egoísta como eu era, para convencê-lo uma última vez de que havia esperança para nós dois. Mas estava chovendo muito forte, os carros passavam rápidos, e avancei na rua, desesperado demais para olhar para os lados, desesperado demais para qualquer coisa.


Veio um carro e estava chovendo. Eu atravessei a rua, e o carro ia bater em mim, mas, infelizmente, desviou. A pista molhada fez o carro derrapar. Toneladas de ferro sem controle deslizando por um chão encharcado. Arthur estava de costas, não teve tempo para reagir, para se afastar, para qualquer coisa. O carro bateu nele.


Foi tudo... Muito rápido. E ainda assim, apesar da chuva e daquele borrão de imagens que foi, para mim tudo tinha sido extremamente claro, de uma forma tão dolorosa que fiquei segundos sem reação. Eu parei, recapitulei. O carro tinha vindo em minha direção, deu uma curva para se desviar, a pista estava molhada, derrapou, perdeu o controle e bateu em nele. Bateu em Arthur. Bateu nele com tanta força que o jogou contra uma parede de uma loja a mais de 10 metros, contra o concreto frio.


Eu... Corri para ajudá-lo. Ele respirava com tanta dificuldade, um corte enorme na altura da cabeça, sangue saindo pelos lábios, as roupas bem rasgadas. Eu me joguei no chão encharcado enquanto pessoas que antes passavam se aglomeravam em nossa volta. Eu o abracei, sem muita força por temer lhe machucar, colocando-o sobre meu colo. Alguém chamou uma ambulância. Segurei seu rosto, mas minhas mãos tremiam. Os olhos dele estavam estavam frios, desfocados, meio distantes. Eu engasguei e comecei a chorar de uma forma tão copiosa como jamais tinha chorado em toda minha vida.


Porque eu já sabia que ele ia morrer ali, por minha causa, tudo por minha causa.


–Alfred...-Ele murmurou bem baixo. Tinha um sorriso no rosto quase todo sujo de sangue, e eu continuei a abraçá-lo enquanto soluçava.


–Arthur, Arthur, espera, p-por favor, v-vai ficar tudo bem, você vai ver, você vai sair dessa, por favor, eu amo você vai ficar tudo bem eu te amo te amo tanto me perdoe a ambulância já está chegando, aguente mais um pouco, por favor por favor!-Eu exclamei quase sem qualquer pausa, desesperado demais para falar.

–Sabe o que é... E-Eu lembrei d-daquela tarde...-Ele murmurou, cuspindo sangue com força. Continuava a sorrir.-V-Você se lembra...?


–N-Não, Arthur, não vamos pensar nisso, vamos, shhh, pare de falar, vai ficar tudo bem, você vai ver, não fale, tá? Só respire...


–É-É tarde d-demais para nós dois, m-mas... Eu q-queria ouvir você cantar... V-Você se lembra? “Guarde pra quando eu estiver morrendo, ok?”...? Então, e-estou morrrendo... A-Ande, seu americano i-idiota, a-antes que eu...


–N-NÃO, NÃO ESTÁ, VOCÊ VAI FICAR BEM, DROGA, ARTHIE, DROGA, NÃO...!-Eu exclamei, o abraçando com mais força. É claro que eu lembrara. Nós tínhamos brigado tanto naquele dia, e eu rira tanto. Eu devia ter ficado com ele, eu devia ter ficado com Arthur que, apesar do jeito ranzinza e irritado, sempre me fazia rir, de uma forma ou de outra.

–V-Vai, Alfred... Canta...


Engoli em seco, olhando em seus olhos, afagando de leve seu rosto empapado em sangue agora. A chuva, mesmo caindo forte, parecia não ser capaz de tirar aquela cor rubra do seu rosto. Ele ainda sorria. Eu segurei sua mão então, engolindo em seco novamente.


–W-Would you m-my name... I-If I s-saw you in heaven...?W-Would you be the s-same, if I saw y-you in heaven...?-Eu comecei a cantar, mas chorava tanto que a voz saía totalmente destoada, quebrada, tremida, em desespero.-I-I m-must be strong... A-And carry on... 'Cause I k-know I d-dont belong... Here in... Heaven...


Ele continuou a sorrir, soltando a minha mão devagar.


–N-Não, Arthur, Arthur, não vá, nós vamos ficar bem fique com os olhos abertos por favor eu finalmente percebi eu finalmente me dei conta do que era mais importante para mim eu aprendi a fazer chá por você eu eu eu aprendi a tocar violino e guitarra e e e e nós vamos viajar pra bem longe só eu e você nós vamos ficar juntos nós vamos ser felizes nós vamos...


Mas o sorriso foi diminuindo devagar enquanto eu me curvava sobre ele, abraçando-o com mais força, chorando alto.


–S-Sabe, Alfred... E-Eu amei v-você até... O final...


E os olhos dele ficaram totalmente sem foco enquanto eu me afastava para fitar seu rosto, mordendo os lábios com tanta força que logo eles sangraram. Eu me tremia todo, e chorava tanto que só me tremia mais ainda.


W-Would you hold my h-hand... I-If I saw y-you in heaven...? Would y-you help me stand... If I-I saw you i-in H-Heaven...?-Eu continuei a cantar, continuei a abraçá-lo. Aquela fora a última vez. A última vez que eu escutara sua voz, que eu vira seu sorriso, que eu sentira a pele quente. A ambulância chegou minutos depois, mas eu continuava a cantar, sem pausas, e quando terminava, voltava a recomeçar a música.-I'll f-find m-my way... Through n-night and d-day... 'Cause I know I j-just cant stay... Here in... Heaven...


Os médicos tiveram que me sedar porque eu não queria soltar Arthur, porque eles queriam tirá-lo de mim, mas eu não queria deixá-lo ir, não, eu o queria comigo pelo menos por mais um pouco. Mas eles não compreendiam aquilo. O dono do carro que bateu em Arthur fugiu. Eu fui para o hospital sedado. Acordei dois dias depois. Não fui ao enterro dele, não consegui.


De noite, eu ainda começava a cantar, sozinho, enquanto chorava:


Beyond the d-dark... There's peace... Im sure... And I know there'll be n-no more... T-Tears in... Heaven...


Eu não voltei para casa também. Fugi, sem dar explicações. Comprei uma casa em Miami e com o resto do meu dinheiro, vivi sozinho. Eu abandonei a minha família, abandonei minha esposa, abandonei Anne, deixei tudo para trás porque eu não seria capaz de encará-las. Não era capaz sequer de me manter vivo, imagine de cuidar de uma família. Não, eu, covardemente egoísta, mais uma vez, fugi.


Um terço do meu dinheiro, porém, eu dei à família de Arthur. Não tive contato nenhum com eles, apenas contratei um advogado para que ele encontrasse em contato com eles e dei. Eu teria dado todo o dinheiro, mas do que restara, dividi na metade e mandei entregar à minha esposa. Não sei o que ela fez com esse dinheiro, e pouco me importa.


Com o que me sobrou, usei para viver, e ainda assim, ainda era tanto dinheiro que eu poderia comprar iates e mais iates que não me faltaria. Se eu não tivesse sido tão egoísta justamente por querer aquele dinheiro, Arthur poderia estar vivo. Poderia estar comigo.


Foram muitas as noites em que eu pensei em me matar. Mas não seria justo. Manhã após manhã, eu me levantava e vivia, sofrendo, sabendo que tinha que pagar por todos os meus erros justamente lidando com aquela dor e aquela culpa todos os dias. Ainda a sinto bem no meu coração, ou no buraco que antes era ele.”


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Alfred, já velho, sorriu muito triste, cheio de lágrimas nos olhos.


–Agora você sabe por que eu sumi daquela forma, deixando minha família para trás e aparecendo só muitos anos depois. Mas não foi só isso. Passei todos aqueles anos em Miami, até que você veio morar comigo, lembra? Mas, sabe, há uns 3 anos atrás, eu voltei a Londres, quando descobri a doença que eu tinha. E fui ao cemitério. E lá estava a lápide dizendo “Arthur Kirkland”. Meu amor, meu fardo para todo o sempre. Eu abandonei minha família porque não tinha como encará-los, mas se quer uma razão ainda pior, eu tenho: Ninguém nunca soube de nada disso, mas agora eu lhe digo que não voltei porque não quis ficar perto de uma família que me amava tão pouco quando eu comparava ao tanto que Arthur chegou a me amar. Naquela noite chuvosa, quase todo eu morreu junto com ele.


Elizabeth emudeceu, os olhos já cheios de lágrimas.


–E este é o fim.-Alfred continuou.-Arthur está morto. Minha família me odeia. Minha conta bancária ainda tem dinheiro aos montes, e para que me serviu? Para nada. Mas você se lembra que, lá no começo, eu disse que não sabia se tinha amado Arthur ou não? Pois é. Eu realmente o amei, só que tarde demais. Elizabeth, minha neta, nunca jogue fora qualquer coisa ou alguém que lhe dê amor, mesmo que no começo você não sinta nada. O amor existe, é lindo e dói, e é relativo para cada pessoa. Mas é sempre bom e melhor do que qualquer coisa.

Alfred sorriu, devagar, tocando o rosto da neta com certa dificuldade. Ela desabou no choro, abraçando o avô, fungando.


–Está tudo bem... Eu vou morrer, já perdi tudo o que tinha. Você ainda é jovem. Ande, vá atrás do seu namorado, e o ame enquanto puder. Se realmente o ama, o priorize. Vá, eu vou ficar, finalmente, bem.-Ele deu um sorriso triste.


Elizabeth engoliu em seco, assentiu, e de forma muito hesitante, parou no arco da porta do quarto. Mas Alfred tinha tudo no olhar, e dizia “está tudo bem”. E ela saiu, deixando o americano sozinho, fitando o teto. As enfermeiras deveriam estar ocupadas, mas estava ficando difícil de respirar, e o corpo todo doía. Ah, como gostaria de uma dose de morfina agora.


–Está ficando até difícil de enxergar... Hey, Arthie, estou indo visitar você, ou acha que vou direto para o Inferno?-Riu baixo, tossindo alto. Não demorou a sentir o cheiro de sangue.-Será que você conseguiria se apaixonar por um velho que nem eu, Arthie?-E voltou a sorrir.


Voltou a tossir, os lençóis brancos sujos de sangue.


Mas obrigou-se a sorrir, porque se tinha que ir, iria de bom humor. Com todo o bom humor que ainda conseguia ter.


Would you know my name... If I saw you in Heaven? Would you be the same... If I saw you in Heaven?-Começou a cantar. Quando os médicos chegaram, avisados pelas máquinas sobre a parada cardíaca, Alfred sorria. Tinha os olhos fechados, mas sorria, o corpo já frio.


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–Hm? Ah, Alfred, não é?

–...Eu te conheço. Seu nome é...

–Claro que conhece. Eu estive... Esperando por você.

–Arthur?

–Arthur. Você se lembra, afinal.-Sorriu.

–Asas legais.

–Não seja idiota. Ande, segure minha mão.

–Meu Deus, que sobrancelhas são essas?

–Não enche, Alfred. Anda, segura logo na minha mão.

–Só se for para nunca mais soltar.


Fim.


Notas finais
EEEEE ESSE É O FINAL ♥33 Bate aqui se você chorou com isso, bem vindo(a) ao clube ♥
De qualquer forma, sabe o que é, que eu tenho um fetiche por reviews, então se você mandar, acharay muito bom ♥
Obrigada por ter lido até aqui e espero sinceramente que tenha gostado ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!