If I Die Young
13 Tour pelas ruas de Notting Hill
Notas iniciais
Varias pessoas estavam reunidas ali naquela manha, lotando uma das ruas mais famosas de Notting Hill, todos a fim de aproveitar a enorme feira de rua que estava armada em Portobello Road. Os comerciantes e suas tendas tomavam os dois lados da rua, e era quase impossível passar por uma delas e não ficar maravilhado por alguns instantes.
Eles caminhavam pela Portobello de braço dados, explorando todos os pequenos detalhes daquele lugar, indo a fundo em todas as lojas e tendas. Elena simplesmente ficou extasiada com todas as antiguidades que predominavam o lugar. Livros do tempo de Camões e Dante Alighiere estavam a mostra nas prateleiras, joias belíssimas que mais pareciam da realeza expostas nas vitrines, moveis que lembravam os tempos vitorianos onde o barroco dominavam as casas e estabelecimentos de épocas passadas sendo exibidos em toda a rua.
_ Voltei! – Damon surgiu ao seu lado, fazendo Elena tirar sua atenção do exemplar de uma das primeiras edições de Orgulho e Preconceito, voltando o seu olhar para Damon, o fitando confusa.
_ Eu sinceramente nem havia percebido que tinha saído do meu lado... – Elena deu de ombros, culposa e voltou o seu olhar para o livro de folhas amareladas – Aonde foi?
_ Primeiro obrigado pela consideração com a minha pessoa... – Damon falou cinicamente ofendido, arrancando uma risada audível de Elena – Segundo, e respondendo a sua pergunta, eu estava comprando algo, e não, eu não vou te falar o que é, e nem pra quem... Eventualmente você vai descobrir, então...
_ Quem é que está guardando segredos um do outro agora?
Elena perguntou deixando o livro de lado e com as mãos na cintura, visivelmente incomodada pelas palavras de Damon. Ele mantinha um sorriso bobo em seus lábios enquanto a fitava, que não combinava com os sarcásticos e cínicos que ele costumava usar em situações como essa. Aquele sorriso estranhamente adorável, que emanava amor, carinho, e submissão, subiu até seus olhos, fazendo o azul de suas pedras preciosas brilharem mais intensamente. Elena levantou uma das sobrancelhas perplexa, lembrando-se de todos os filmes, livros, séries e novelas que já assistiu e leu em sua vida, e aquilo se encaixava perfeitamente com a descrição de um sorriso apaixonado...
Elena cortou o seu raciocínio antes que ele chegasse a um caminho sem volta. Meneou sua cabeça, negando a si mesma a mistura de desespero e angustia que esmagava seu peito, desviou o seu olhar do de Damon, e foi em direção a vendedora simpática que a havia atendido inicialmente, pagou o exemplar de Orgulho e Preconceito que tinha em mãos, e saiu dali, sem ao menos referir a palavra a Damon. Mesmo sem sua permissão, sua mente se afundava seus pensamentos. Damon apaixonado... Por quem? Quando isso aconteceu? Por que ela não foi capaz de perceber? E por que maldição seu peito queimava em aflição?
_ Elena? – Damon estalou os dedos na frente do rosto de Elena, chamando sua atenção.
_ Hã? – Elena voltou seu olhar para Damon, que estava sentado a sua frente, ela não sabia como chegou ali, mas eles estavam sentados em uma lanchonete, Damon tomando um gole de sua cerveja enquanto esperava alguma reação de Elena – Desculpa Damon, estava um pouco distraída...
_ Um pouco? Serio Elena? – Damon perguntou cínico – Você nem tocou no seu sanduiche...
_ Eu pedi sanduiche? – Elena sussurrou para si mesma, olhando confusa para o apetitoso hambúrguer a sua frente acompanhado de fritas.
_ Pediu... – Damon a olhou perplexo – Tem alguma coisa errada com você? Você esta assim desde quando eu te encontrei naquele sebo, aconteceu alguma coisa enquanto eu não estava com você?
_ Não, nada aconteceu não se preocupe... – Elena meneou a cabeça ainda um pouco avoada enquanto comia uma das fritas de seu prato – Acho que a noite mal dormida finalmente esta cobrando seu preço...
_ Acho que melhor nós voltarmos...
_ Não! – Elena disse exaltada, interrompendo Damon antes que ele cogitasse voltar para aquele quarto de hotel. Tudo que ela não precisava agora era espaço e tempo para pensar em todas as maluquices que seu cérebro lhe impunha naquele momento, para ela, quanto mais tempo manter seu pensamento ocupado, melhor. Elena recuou um pouco a exaltação, e disse mais calma – Quero dizer, não quero ir agora... Ainda está cedo, e tem alguns lugares que eu gostaria de visitar em Notting Hill...
_ Não sei... – Damon disse confuso e pensativo – Você parece exausta, desse jeito você vai acabar ficando doente...
_ Damon... – Elena desviou seu olhar do de Damon por alguns instantes, engolindo o bolo que se formou em sua garganta, respirando fundo antes de continuar a falar – Eu não... Eu não vou ficar pior do que já estou...
_ Elena... – Damon disse hesitante.
_ É só uma noite mal dormida... – Elena segurou a mão de Damon sobre a mesa, olhando o nos olhos. Um sorriso complacente brincava em seus lábios. – Não significa que eu vou morrer, pelo menos não hoje...
_ Ok, se você acha que esta disposta pra continuar o passeio... – Damon apertou os dedos de Elena nos seus, sorrindo de lado – Termina de comer para irmos então...
***
Eles visitaram boa parte de Notting Hill, conhecendo os locais onde ocorreram as gravações de um dos filmes preferidos de Elena, como o Coronet Cinema onde a Julia Roberts e o Hugh Grant, interpretando Anna e William, tiveram um dos seus encontros durante o filme. Eles também passaram pela porta azul, entrada para a casa de William. Eles passaram pela 142, da Portobello Road, onde se localizava, durante o longa metragem, a pequena livraria de William Thacker, e que algum tempo havia sido transformada em uma loja de sapatos, porém, um pouco mais abaixo, eles encontraram a livraria na qual os produtores se inspiraram para dar vida a Travel Bookshop.
A Notting Hill Bookshop era pequena em tamanho, contrastando radicalmente com o numero e variedade de livros de viagens que havia ali. Países que Elena nunca havia se quer ouvido falar lotavam as prateleiras do lugar, e Elena folheava alguns dos exemplares, maravilhada e boquiaberta com as fotografias e registros que ali havia. A cada livro que Elena olhava, era como se houvesse feito uma pequena viagem, e era o que realmente aquele lugar passava. Aquele pequeno espaço rodeado por livros de viagens era como ter o mundo todo em um só lugar, e isso era magnífico.
_ Já encontrei o que queria... – Damon falou chamando a atenção de Elena que estava com os olhos vidrados nas fotografias de um guia turístico da Turquia — Vai levar alguma coisa?
_ Não, acho que não... – Elena fechou o livro e o colocou de volta na prateleira – e você?
_ Um guia turístico dos lugares mais badalados de Paris... – Damon disse com um sorriso cativante enquanto mostrava o exemplar em suas mãos – Nossa próxima parada!
O movimento pelas ruas de Notting Hill havia diminuído relativamente, o fim da tarde estava chegando, a noite se aproximava e as pessoas iam se dissipando aos poucos voltando para suas casas. Damon e Elena caminhavam pelas calçadas do bairro, conversando sobre coisas fúteis e banais, muitas vezes eles gargalhavam sem motivo, apenas para ver os risos ecoarem pela rua quase vazia. A mente de Elena já não a perturbava tanto, e a presença de Damon lhe dava energia para continuar caminhando e sorrindo.
Damon puxou Elena pela mão que não estava lotada pelas sacolas de compras, a levando por um caminho aberto feito com pequenos tijolos até chegarem a um parque. O lugar era único, e a luz que o inicio do por do sol emitia fazia tudo ficar mais especial possível. Damon a direcionou em meio a grama levemente alaranjada pelo fim de tarde, a fazendo sentar em um banco comunitário, que estava muito bem localizado de frente para o espetáculo.
Rapidamente as manchas alaranjadas que predominavam no céu foram desaparecendo dando lugar ao azul claro, e que logo foi escurecendo, dando mais ênfase nas estrelas que brilhavam no manto escuro que cobria a todos naquele lugar. Elena observava aquela obra de arte viva com os olhos cheios de lagrimas, aquele foi uma das coisas mais bonitas que ela havia visto em todo o seu tempo de vida, e enchia seu coração de paz.
_ Não é a coisa mais perfeita que você já viu? – Elena perguntou com a voz entrecortada e emocionada, fitando o fim do espetáculo.
_ Sem duvida alguma... – Damon respondeu avidamente, porém não era no por do sol onde ele mantinha seu olhar – É realmente perfeito...
_ Obrigada, Damon... – Elena voltou seu olhar para Damon, com uma feição alegre em seu rosto banhado por algumas poucas lagrimas– Obrigada por ser um ótimo amigo, por estar sempre comigo, e por me acompanhar nessa viagem de ultima hora... Obrigada por me trazer aqui...
_ Não precisa me agradecer... – Damon a abraçou de lado, beijando o topo da cabeça de Elena quando a mesma apoiou a cabeça no ombro de Damon. — Eu sempre estive aqui por você, e é assim que sempre vai ser...
Elena olhou para o parque onde estavam, e pela primeira vez desde que chegaram ali, ela deu-se conta de que não eram os únicos por aquelas bandas. Havia algumas pessoas fazendo suas caminhadas noturnas, outras apenas sentadas nos bancos aproveitando o ar fresco que vinha das arvores por ali perto, crianças brincavam de pega-pega enquanto seus pais as vigiavam de longe com sorrisos enormes em seus rostos, fitando aquelas crianças como se fosse o bem mais precioso de suas vidas. Elena fechou seus olhos tentando espantar as lembranças conturbadas de seu sonho, porém era quase impossível naquele ambiente, e quase que de imediatamente, a mente de Elena foi inundada pelas memórias, e ela pode reviver seu sonho novamente, como se ainda estivesse dentro dele.
Imagens turvas de um futuro que Elena jamais poderia ter invadiram sua cabeça durante a noite, a fazendo ansiar por algo que ela já não poderia ter. Uma casa no subúrbio, um anel de noivado, um casamento, um filho em seu ventre, sua barriga a cada dia maior enquanto seu filho crescia dentro de si... Ela conseguia ver novamente o semblante daquele garotinho de cabelos escuros e olhos claros como o céu de uma manha de verão que surgiu em seus sonhos durante a noite. Alguns poucos segundos com ele no mundo dos sonhos, e ela já o sentia como seu. Seu filho...
E quando a luz da consciência ameaçou tira-lo de seus braços, Elena lutou com todas as suas forças, mas não era suficiente. Ela chorava, gritava, suplicava para que Morpheus a deixasse ficar com ele por pelo menos mais alguns momentos, mas a consciência e a razão lhe tomaram e quando deu por si ela estava nos braços de Damon, e ela não o sentia mais perto de si. Elena mais uma vez caiu em seu pranto, seu coração dolorido pela perda de algo que ela jamais teve, ou terá.
_ Vamos, já esta ficando tarde. Amanha bem cedo temos que está em um voo para Paris... – Damon disse enquanto acariciava o ombro de Elena.
_ Claro... — Elena se levantou e ficou a esperar enquanto Damon se encarregava de pegar as sacolas, quando sentiu algo lhe tocar os pés. Olhou para baixo, encontrando o que havia batido em sua bota de couro preta. Ela agachou e pegou a bola vermelha de futebol, ao mesmo tempo em que um menininho de uns seis anos, que se aproximava correndo a alcançou.
_ Desculpe senhorita, não queríamos acerta-la com a bola – O garoto de cabelos ruivos e sardas que cobriam as bochechas disse educadamente em seu sotaque adoravelmente britânico – Poderia me devolver a bola?
_ Claro, só por que foi muito educado... – Elena agachou-se novamente, ficando da altura do garoto a sua frente que mantinha um sorriso, com alguns dentes faltando, em seus lábios – Aqui está... E cuidado pra não acertar mais ninguém...
_ Vou ter, prometo! Obrigado!
Elena ficou ali a observar o menininho acenar para ela enquanto voltava correndo para brincar com seus outros amigos. Uma lagrima escorreu por seu rosto, ainda triste pelo garotinho de seus sonhos não passar de apenas um sonho bobo. Ela limpou a lágrima solitária e voltou ao seu olhar para Damon, que já estava pronto. Elena segurou a mão que Damon mantinha estendida para ela, e ambos se encaminharam para o hotel, Elena com o sorriso do garoto ruivo em sua cabeça e Damon pensava avidamente em seus planos, e em sua cabeça ele iniciava uma contagem regressiva para a chegada em Paris. Assim que chegassem lá, ele se encontraria com ela no hotel, e eles poderiam prosseguir com o combinado. A única coisa que o preocupava, era a reação de Elena, e a única coisa que ele esperava, era que ela concordasse.
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