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1 Capítulo único
Notas iniciais
Eu não estou louco. Não estou. Sei que não estou. E poderia repetir e reler que não estou alucinando, ou em choque, ou num sonho mil vezes, mas não adianta. Não consigo acreditar.
Preciso escrever porque em algumas horas terei que sair desse quarto, e os jornalistas, meus colegas de trabalho, as redes sociais e a polícia vão me perguntar o que diabos aconteceu com você, e pela segunda vez tudo que eu tenho é um “Não sei” patético.
Eu tinha dezesseis anos quando tudo aconteceu, lembra? Estudava numa escola normal, tinha amigos comuns, nossa família era enorme e unida. Cresci brincando e brigando com você e todos os nossos primos. Mas o mais próximo, tanto em idade quanto em amizade, era você, Guilherme. Éramos como irmãos em casas diferentes, e sempre soube ser grato pelo destino que permitiu que um dos meus melhores amigos fosse também filho da minha tia.
Quando eu voltei pra casa naquela quinta-feira de março, não entendi o alvoroço. Metade dos nossos tios andava de um lado para o outro, um deles gritava ao telefone com alguém, indignado por ainda não terem notícias, sua mãe chorava num canto, rodeada pela minha mãe e outros irmãos.
Todas as possibilidades ruins passaram na minha cabeça, mas antes que eu pudesse abrir a boca ou mesmo soltar a mochila, tia Irene correu até mim, me segurou pelos ombros e gritou:
— Você viu o Guilherme hoje, Eduardo? Estava com ele?
Meu Deus, o que tinha acontecido contigo? Acenei devagar que não.
— A turma dele saiu mais cedo, ele disse que iria jogar com os…
E nunca completei a frase. Ela fez um som que eu nunca tinha ouvido uma pessoa fazer, o que me arrepiou até os ossos. Se eu não estivesse congelado no lugar, ela teria caído de cara no chão. A segurei automaticamente, e finalmente caí em mim e a abracei com firmeza. Mesmo mais baixa que eu, ela era bem pesada, e logo todo mundo me ajudava a deitá-la no quarto, e o barulho ficava ainda maior.
— Mãe, o que está acontecendo aqui?
Nunca vi minha mãe tão séria. — Filho, o Gui desapareceu. Não atende o celular. Sua tia chegou há uma hora, preocupadíssima. Como você ligou minutos antes dizendo que estava saindo do cursinho, não adiantaria nada eu ligar. Já tem bastante gente preocupada aqui.
Minha mãe pareceu um pouco aborrecida com a zorra que estava nossa casa. Também, com todos os anos de prática como recepcionista de uma emergência psiquiátrica estadual, não seria uma crise como aquela que a faria perder o controle. Olhar pra ela tão calma me fez voltar a pensar, e eu joguei as apostilas no chão e revirei a mochila atrás do telefone.
Bruno. Era do seu grupo de RPG, primo, nunca ficava fora de uma partida. Se você esteve jogando, ele saberia onde.
“Este telefone encontra-se fora da área de cobertura…” Ainda tentei outras duas vezes. Nada. Nem o Landau, nem o Ari. Tentei o telefone da casa do Ari, e o telefone mal chamou quando um homem angustiado pareceu arrancar o fone do gancho.
— Ari? É você, filho?
— Não. É Eduardo, um amigo dele.
— Você sabe onde ele está? Ele foi pra escola?
— Não sei onde ele está, senhor. Espere um minuto — disse, vendo a mímica da minha mãe. — Vou passar o telefone pra minha mãe.
Conforme as horas e os telefonemas foram acontecendo, o choque foi se espalhando como uma doença: Você e todos os seus amigos desapareceram. Saíram da aula e sumiram completamente. A polícia, os especialistas que deram entrevistas, os repórteres dos jornais: Ninguém sabia explicar o desaparecimento de cinco pessoas de uma vez. Serial killer? Culto satânico? Acidente?
Investigadores vieram, trouxeram cães farejadores, reviraram a cidade inteira, e cada um que já conversou com algum dos cinco teve que responder as mesmas dezenas de perguntas vez após vez. Não, Guilherme não usava drogas. Não, ele não tinha problemas em casa. Sim, ele tinha uma garota que gostava dele, mas ela também não sabe onde ele se meteu.
Se passaram semanas. A preocupação da mídia virou curiosidade, e mesmo ela desapareceu. A polícia não tinha mais novidades. E vieram os meses, depois os anos, e nem uma notícia. Houve uma missa em sua memória, a coisa mais triste da qual participei na vida. A tia se separou, e nenhuma reunião de família teve a mesma graça. Aos poucos, só aparecia nos feriados e no aniversário dos meus avós.
Terminei o colégio, prestei vestibular, entrei na faculdade de medicina. Comecei aquela corrida insana de trabalhos, provas e uma quantidade de matéria que nem a vida inteira seria suficiente pra aprender. Uma noite, eu bebia com meus colegas perto da faculdade, até que alguém comentou como o ano tinha passado depressa.
Era vinte de outubro, e logo o semestre acabaria. Foi como um banho de água gelada perceber que o seu aniversário foi no dia anterior e eu não lembrei. Quando eu parei de lembrar? Não conseguia precisar quando você tinha virado uma história do passado. Uma história espinhosa e incômoda, que me atingia nas horas mais inoportunas, ou nas horas de insônia nos plantões noturnos, quando eu imaginava como teria sido sua vida, se durasse mais que curtos dezesseis anos.
Ah, Guilherme, eu tinha tanta certeza que você estava morto. Eu queria que estivesse. Porque o luto era melhor que a raiva de ver nossa família rachada por sua causa, olhar pra sua mãe e saber que ela ainda te procurava nos rostos que passavam. De imaginar outro motivo bom o suficiente pra sua ausência repentina e absoluta. Nunca um telefonema. Nenhum sinal. Nem mesmo um corpo.
Você se tornou algo interrompido, pior mesmo que um final ruim. E entre a decepção e a aceitação se passou uma década. Nunca falei a seu respeito pra Ana. Ela viu uma das muitas fotos de nós dois e me perguntou quem era o menino ao meu lado. “Um primo. Faz tempo que não sei dele.” Respondi antes de perceber como era absurdo não saber de você.
(Também não te falei da Ana, não foi? O namoro acabou dois anos atrás, história complicada)
O acidente no jornal não chamou minha atenção. Já tinha sangue suficiente pra me preocupar no trabalho, preferia não lidar com as tragédias cotidianas fora dele. Mas o Davi, seu colega de turma do colégio, virou jornalista. E me acordou às seis da manhã de um sábado pra dizer que o mendigo atropelado do noticiário tinha, além de uma perna quebrada e diversos danos internos, seu nome e sua idade.
Liguei para um colega de faculdade que trabalhava naquele setor e uma hora depois eu ganhava duas multas por excesso de velocidade a caminho do hospital público. Meu Deus, eu nem sei dizer como eu cheguei lá, tão desnorteado estava. Tanto tempo e tantos enganos, eu não sabia mais como me sentir quando cheguei ao lado da sua maca.
Ver seus olhos brilharem ao me reconhecer … Que embaixo de todos aqueles curativos era mesmo você, retornado do além-túmulo… Tentei de verdade não chorar enquanto avisava minha mãe. Foi como se dez anos de perguntas e tristeza sumissem, perdidas na celebração do seu retorno. Na casa da tia parecia Carnaval.
Só você não participava da euforia. Agora, quando penso nisso, lembro do seu olhar perdido. Das respostas curtas, transformadas num silêncio soturno ao saber que nenhum dos outros tinha sido encontrado.
Me desculpe, Guilherme. Eu queria ter percebido. Você queria ser deixado em paz, mas a mídia, a polícia, os pais dos seus amigos e nossos tios, todos eles queriam fazer mais uma pergunta, mais um vídeo, mais uma teoria.
Principalmente a polícia. Onde estavam seus amigos? Quem levou a todos? Como você voltou? Porque só você voltou? Com o caso reaberto e uma única testemunha, eles insistiram tanto.
Pois todos sabíamos que você lembrava mais do que dizia, Guilherme. O pai do Ari e do Alex, principalmente. Suas respostas vagas o deixavam irritadíssimo, e ouvi-lo resmungar que talvez você fosse responsável pelo sumiço dos outros foi demais para a tia. Ela deu um tapa nele que deu pra ouvir de onde você dormia.
Ela me contou, e claro, alguém filmou e repassou para Deus e o mundo inteiro. Disse que você pegou as muletas e se intrometeu na discussão, com fixador externo e tudo. Ele, no meio da dor e da frustração, tentou te atacar. E nos segundos seguintes, era você sobre ele, o sufocando e socando com força. Era o sangue dele nas suas mãos quando a segurança te arrancou dali.
Mais matérias, especialistas e teorias. Seria você o responsável? Um louco violento, disse o pai do Ari, e nunca ajudou ele dar entrevistas com o olho inchado e curativos, como se o idiota fosse a vítima. A internet se dividiu, seus pais contrataram um advogado, mas graças a Deus ficou bem claro nas filmagens que ele voou no seu pescoço, então você não foi muito crucificado ou processado. Você foi pra casa, e conseguia irritar todos, advogado, policiais, parentes e sua mãe com seu silêncio.
Estresse pós-traumático, disse o psiquiatra. Pra ele você também não se explicou. Não saía do quarto nem explicava nada, sozinho naquele mundo de silêncio autoimposto.
Numa folga ou outra, eu aparecia, e você sempre parecia normal. Desde que eu não perguntasse sobre o passado, você conversava e ria, como todo mundo, saíamos pra caminhar de vez em quando. Eu me sentia bem com você, e me divertia e intrigava suas reações às mudanças. Onde você esteve, numa ilha remota? Como você nunca tinha visto um smartphone antes de eu te mostrar o meu? Como nem sabia o que era Facebook?
Aonde você foi? Aqui sozinho, diante do computador, escrevo tudo tentando entender, juntar o que você me disse com tudo que não disse, e essa pergunta é a única que resta. Então eu dou voltas, procurando algo nas conversas, e tenho a sensação de que tenho a resposta. Está diante de mim, numa língua que eu não entendo. Que ninguém além de você, Landau, Ari, Bruno ou Alex entenderia.
Então a ironia da coisa toda me atinge, e sei que não quero ter a resposta. Foi a consciência de tudo que acabou com você, Guilherme, e não posso ter o mesmo destino. Você voltou depois de tanto, mas já não conhecia o mundo, e ele não te reconheceu.
Chegou o Natal. O primeiro com toda a família reunida, e acho que nossa vó faria e prometeria qualquer coisa pra te ter lá. Tia Irene parecia abatida, e te seguia com os olhos como se temesse que você desaparecesse no ar. Sem querer, eu a ouvi pedindo conselhos a minha mãe. Você não estava se adaptando bem, ela dizia. Andava olhando pros lados, como se fosse perseguido, tinha manias estranhas, já não queria entrar na faculdade. Você pensava seriamente, ela completava num espanto só, em se tornar sapateiro, pedreiro, talvez um agricultor.
— Faça agronomia, eu disse a ele. Ou Veterinária. Ele nunca gostou do campo, mas agora parece que toda a cidade o incomoda. “Tem barulho demais, fumaça demais”, ele diz. Como ele vai sustentar uma família plantando pepino, Alice? Como ele vai conseguir um emprego sem sequer um curso técnico? Acha que eu devo mesmo me mudar pro interior?
Minha mãe, como sempre, ouvia com cuidado. Talvez fosse hora de voltar ao psiquiatra, sugeriu. Mudar algum remédio poderia ajudar. Me afastei enquanto sua mãe resistia à ideia. Você não era louco, insistia. Quando voltei, Beto e Hugo já tinham bebido um pouco, e riam enquanto você acompanhava com educação.
— Gui, você não deveria beber.
— Essa coisa rala nem devia se chamar cerveja, mas é melhor que esse negócio que você está bebendo.
Olhei pra meu copo de refrigerante. — O que tem ele?
— Isso aí tem sabor de quê?
— Noz de cola, acho.
— Você já viu alguma? Que sabor tem? — e me apontou, como se eu provasse um ponto. — É o que eu estava dizendo: Bebem qualquer porcaria que nem sabem de onde veio, comem o que te dizem que é comida, vivem amontoados e pensam que isso é o único jeito certo de viver. Todos loucos, eu digo.
— Chega mais, Edu. Vai beber também? — Neguei com a cabeça.
— Tô dirigindo, caras. E você também, Beto. Pelo menos bebe pouco dessa vez. Amanhã estou de plantão, e não quero te assistir curar ressaca.
— Que nada. Eu dirijo melhor assim. — E foi assim, entre besteiras e música ruim, que minhas preocupações foram embora. Era só uma fase, todos nós ficaríamos bem. O psiquiatra poderia te ajudar, você ficaria melhor e todo mundo voltaria à vida normal.
Nunca soube como aquilo realmente aconteceu. Sei que quando eu voltei, você parecia um zumbi. A tia chorava, explicando que não teve outro jeito, que você delirava de um mundo mágico, que falava numa língua estranha e pareceu fora de si quando ela insistiu que nada daquilo era verdade.
O resto da família ficou preocupada com vocês dois e suspeitamos que ela estava te dando remédios a mais, mas nunca pude provar. Era deprimente ver você transformado num robô, e tia Irene orbitar ao seu redor. Não foi certo o que ela te fez, a tia precisava de ajuda também, talvez agora ela entenda e procure terapia.
Precisei parar uns minutos. Estou só, ninguém jamais vai ler isso, posso escrever com sinceridade: Não sei se alguma qualidade de tratamento ou de medicação a fará ficar bem de novo. O que você fez foi uma puta sacanagem, Guilherme. Entendo, nem posso dizer que não tinha raiva do jeito como as coisas estavam acontecendo, mas porra! Estou furioso contigo! E sinto culpa por ter tanta raiva, e mais raiva por você ter passado por todos nós como uma maldita bomba atômica. Por que fez isso com ela, seu idiota egoísta? Por que voltou só pra explodir de novo, e reduzir todo mundo a escombros e corações partidos mais uma vez??
Seria melhor que você nunca tivesse voltado. Nós sentiríamos sua falta de vez em quando, eu pensaria em você aqui e ali, e a vida seguiria. Não estaria aqui como um idiota, escrevendo e pensando sem parar no meio da madrugada, quando sei que tenho que acordar e sair pro trabalho em três horas. Tentando entender como tudo aconteceu, porque diabos ninguém viu (sendo honesto: Por que eu não vi), o que faço com a última coisa que você me disse.
Com a lembrança da sua expressão decidida, um atleta olímpico antes do salto. O que eu faço disso, Guilherme?
Você obedecia, não levantava a voz, estava meio sonolento o tempo todo. Agora eu estava lá toda semana, tentando convencer sua mãe a te levar de volta ao médico. Você precisava diminuir a medicação, de um psicólogo.
— Ele não quer voltar, Edu. Não consigo convencê-lo a voltar, e não vou chamar a polícia novamente pra isso. Agora ele está calmo, não fala mais coisas sem sentido, mais algumas semanas e ele volta a ser o Guilherme que nós conhecemos.
Calmo!? Eu queria gritar, isso não é calma! Ele está tão chapado de medicação que está babando! Como a senhora pode não ver isso? Minha mãe me aconselhava a não me meter mais, contudo eu não conseguia deixar pra lá.
Quando eu cheguei, na semana seguinte, Tia Irene tinha o rosto vermelho e um prato de comida na mão, e abriu a porta pra mim como se o Super-homem tivesse chegado.
— Graças a Deus! Eduardo, meu filho, era justamente você que eu precisava ver!
— O que aconteceu, tia? Tem alguém passando mal? Espera, vou buscar meu-
— Guilherme não come há dois dias. Toma os remédios, bebe água e mais nada. Disse que volta a comer e vai ao médico e tudo o mais que eu pedir, se antes puder conversar com você.
— Conversar.
— Só conversar. Você faria isso por mim?
— Claro, tia. Vou até lá conversar com ele.
Bati na porta. Se eu estava com medo? Claro. Mas quando ouvi a chave girar, entrei assim mesmo. Ouvir a porta trancando atrás de mim me deu arrepios, mas fingi que não. Porque minha tia estava me trancando no quarto com você?
Você sentou-se na borda da cama, curvado e apático. Lembro que fiquei incomodado. Mesmo lento, tinha algo diferente. Me sentei ao seu lado na cama e continuei calado, te esperando falar.
— Mãe... sozinho. Preciso falar com ele a sós. — Então também ouvi os passos leves se afastando da porta.
— Guilherme, você precisa parar com isso. Se você não voltar a comer, ela vai te internar.
— Ela vai me levar ao psiquiatra amanhã. Ouvi muito uma palavra essa semana… “interdição”. Você tem razão, esses celulares com internet são bem úteis. Em outras palavras, como uma criança. Sem autonomia, sem poder de escolha.
— Gui, não é fácil assim. É preciso um laudo, uma ação judicial…
— Contei a verdade a ela. Então ela disse tudo ao psiquiatra e passei dois meses me sentindo um zumbi. Sei o que aconteceu, mas não é suficiente.
Então olhei com mais atenção. A postura estava ereta, a expressão alerta como sempre. Pela primeira vez, olhei além do rapaz que conheci e vi um homem com cicatrizes e tatuagens de símbolos obscuros, pouco mais baixo que eu, as marcas de sol ainda desaparecendo da pele morena.
— Você não está tomando os remédios, está?
Vi um pouco de humor nos olhos fazer aquele estranho parecer meu amigo de infância. — Claro que sim. Estou preso aqui há meses, seria impossível enganar minha mãe esse tempo todo. Sabia que se você toma aqueles remédios desgraçados tempo suficiente, eles não fazem mais tanto efeito?
— Sou médico, cara, tenho que saber essas coisas. Essas medicações às vezes causam tolerância. Mas você é um ator bom pra cacete, me pareceu mesmo dopado. Agora fala sério: Por que você queria falar comigo, Guilherme?
Ele ficou com o olhar perdido um bom tempo antes de sussurrar:
— Você me acha louco?
A pergunta ficou ali, pairando entre nós. Tudo o que eu queria era responder não, mas como? — Prometo te escutar, primo. Mas você não me parece ter uma doença mental.
— Em outras palavras, não sabe se pode acreditar em mim.
— Não, não sei.
E mais segundos ecoando no quarto. A noite estava fresca, e você apontou com a cabeça a janela. — Tenho grades na janela e na porta, acredita? Não era bem o que eu sonhava encontrar. Ou a polícia pensando que eu sequestrei e matei todo mundo. Ou minha mãe com a certeza que eu sou completamente doido porque joguei RPG demais ou uso drogas.
— A polícia não — Ele me interrompeu, brusco.
— Eles só não têm como provar, mas têm certeza que eu matei todos eles. Mas sem provas, nem corpos, nem confissão, eles não tem nada. Já me disseram isso. Que quando encontrarem os corpos, vou ficar trancado pra sempre. O que é quase engraçado, porque eu já estou preso pela vida inteira, ao que parece. Estou velho demais pra virar um mentiroso.
— Não dá pra contar a verdade?
— Eu sei que não sou louco. Não imaginei tudo aquilo. Sei que não.
— Tudo aquilo o quê, Guilherme? O que realmente aconteceu com vocês?
— Fomos levados pra outro mundo. Magia.
Você estava absolutamente sério, primo. Fiquei esperando você explicar, mas não pude esconder meu espanto.
— Outro mundo por magia...? — Ah. Então foi isso que assustou a tia.
— Sim. Tipo Nárnia, Oz... Chamávamos de Reino entre nós, mas o nome do planeta na língua local significa “Primeira das Terras.” O jogo estava normal, então houve um ruído como um furacão e a próxima coisa que lembro é de nós cinco, a mesa e as mochilas no meio de uma sala de pedra, e um sujeito feliz falando numa língua que parecia uma mistura de turco com alemão.
“Foi o mago que nos invocou. Depois de muita mímica e um item de tradução, conseguimos nos entender. Éramos heróis de uma profecia que anunciava que somente guerreiros de outra dimensão seriam capazes de derrotar Orochi.”
Você resmungou um monte de coisas em outra língua, e com certeza eram xingamentos. — O sujeito era amigável, e nos entregou informação e armas mágicas. Se eu soubesse quem era ele, teria enfiado-lhe uma flecha no olho assim que tivesse a chance. Mas nenhum de nós soube, até ser tarde demais.
— Jovens de outro mundo com armas mágicas pra derrotar um vilão. Você sabe com o quê essa história parece, não é?
— Claro que sei, Edu, assistimos aquilo mil vezes. Sim, um monte de clichês, mas não teve montanha-russa, unicórnio anão e Orochi não era um cara esquisito num pesadelo voador. Deus, eu daria os dois braços pra que ele fosse só um mago num pesadelo voador.
Olhou pra minha cara de espanto. — Sim, a espécie daquele monstro preto é essa. Selvagens, carnívoros e voam. Uma dor de cabeça.
“Eu tinha um arco recurvo, e claro que o nome dele era Hank. Todos nós ganhamos algum tipo, e levamos tempo pra saber como usá-los. Aprendemos bem, e passamos o que, uns quatro anos? Tentando impedir o despertar de Orochi. O que nós não sabíamos é que ele despertaria de qualquer jeito. Mesmo sem o Urames... quero dizer, o Alex, achamos que seria possível. Tínhamos exércitos nos apoiando, até mesmo dragões, Landau era muito bom em magia, enfim... um erro crasso.”
— Porque sem o Alex?
— Morto. Afogado por um polvo gigante, oito anos atrás. Ari herdou a lança, mas nunca se adaptou bem a ela. Aí o Orochi despertou. Imagine uma droga de cruza entre um tarrasque e uma hidra.
— O tarrasque?
Até eu, que não joguei muita fantasia medieval, sabia o que era o tarrasque. Criatura reptiliana, bestial e quase invulnerável, arrasava cidades inteiras por semanas até voltar a dormir.
— Sim. Os deuses estavam de muito mau humor. Oito cabeças, quase invencível, rápido e mortífero como o diabo. Pareceu feliz com a recepção. Matou metade dos seres vivos em oito quilômetros em algumas horas e fugiu antes que fizéssemos sequer um arranhão naquela carapaça. Começamos uma perseguição que durou meses. Os reis humanos chamaram seus exércitos de volta, um dos dragões morreu combatendo-o e no fim erámos somente nós quatro tentando conter o monstro. Ele destruiu um continente inteiro antes que pudéssemos encurralá-lo.
“Mas conseguimos. Ele estava menos invencível, e queria voltar a dormir, mas não conseguia. Lutamos, fizemos o impossível, e abrimos caminho pro Landau fazer a magia que acabaria com o demônio. Ele fez, o monstro avançou em nós, tudo explodiu e eu fui arremessado de volta. Contra um carro. Não sei se os outros sobreviveram.”
— Guilherme... Essa história é...
— Impossível? Alucinação? Minha mãe disse isso. Eu mostrei as cicatrizes, respondi perguntas, até falei na língua local. Agora tomo remédios suficientes pra derrubar um búfalo e estou trancado como um criminoso. Tudo isso por excesso de imaginação. — Terminou amargurado.
Guilherme, você acreditava naquilo. Cria cem por cento naquilo. E eu... A verdade é que tudo era fantástico demais. Mas as cicatrizes, marcas de sol, o sotaque estranho, as tatuagens numa língua que nenhum site de linguística sabia identificar... Também não sabia explicar aquilo.
— Você e minha mãe acham mesmo que eu conseguiria inventar uma década inteira de memórias, duas línguas diferentes e me encher de cicatrizes sozinho? Que tipo de doença me deixou tão inteligente assim?
— Mas... Esse outro mundo...
— Pergunte ao advogado. Quando me recusei a dizer onde eu estava, ele me pediu alguma coisa pra que ele pudesse me ajudar. Eu disse a ele “Procure. Nossos celulares, identidades, fotos. Você não vai encontrar nenhum traço de nós cinco em qualquer lugar em todo esse tempo.” Ele não achou. Nenhum de nós estava nesse planeta, Eduardo. Por favor, acredita em mim. Pelo menos você precisa acreditar.
Era impossível. Inaceitável. Além de extraordinário.
Também era a única explicação.
Me vi aturdido, balançando a cabeça num sim.
— Tá bom. Por mais bizarra que seja, pode ser verdade. E agora?
Seu sorriso era cansado, e você fechou os olhos de um jeito tão aliviado. — Não repita isso pra ninguém, Edu. Não preciso de um companheiro de cela. Agora eu vou corrigir esse erro.
— Qual?
— Esse mundo já não é o meu e o dos rapazes. Não tem nada pra nós aqui.
Aquilo magoou um pouco, cara. — Cara, você tem seus pais. Eu ainda sou seu amigo. Aqui é a sua casa.
Você olhava pra uma tatuagem intrincada no braço esquerdo, ignorando meus argumentos. — Não, não mais. Você sabe disso. Eu preciso sair daqui, e me recuso a inventar uma história mesquinha pra parecer normal. Mas agradeço por ouvir. Agora vou cumprir minha promessa.
Te abracei, e você me apertou de volta. Parte de mim queria que você aceitasse ajuda, e que pudesse se ajustar novamente. Estava feliz por te ter de volta.
A outra já não tinha certeza. Nunca gostei de pássaros em gaiolas, e era assim que você se sentia, não é? Qualquer que fosse esse outro mundo, você era mais feliz lá.
— Fica bem, primo.
— Vou ficar.
Tinha tantas coisas pra dizer, mas foi só o que saiu. Se eu tivesse dito o quanto me importava, será que alguma coisa teria sido diferente? Se falasse da falta que você faz, teria ficado? Me soltei, e você sentou de novo na cama, voltando àquele ar indiferente quando sua mãe finalmente abriu a porta. Vi com o canto do olho ela te assistir comer. Céus, aquilo era deprimente. Quando você terminou, nós dois saímos, ela me agradeceu mais uma vez e fui embora.
No dia seguinte, a polícia me ligou. Você estava trancado no quarto, não respondia a ninguém e queriam minha ajuda pra te acalmar quando arrombassem a porta. Expliquei tudo para o chefe do plantão, graças a Deus fui liberado e corri de volta pra sua casa. Avisei minha mãe no caminho, e ela me encontraria lá.
As viaturas na frente da sua casa foram um dejá-vu imenso e nauseante. Um socorrista do SAMU atendia sua mãe, enquanto os policiais tentavam derrubar a porta, sem sucesso. Te chamei, e nada. Quando conseguiram, eu seguia logo atrás deles pra tentar falar com você, pensando o pior e amaldiçoando minha incompetência. Afastados os móveis que barricavam a porta, dois policiais entraram com cuidado e todos nós ouvimos quando um deles falou, perplexo:
— Está vazio, senhor.
O comandante da viatura olhou pra mim, me perguntando que tipo de brincadeira era aquela:
— Está vendo alguma outra saída? Talvez o telhado?
Pancadas no teto. — Não, senhor. A janela é gradeada, o quarto tem laje de concreto. Não tem mais ninguém aqui, senhor.
Fomos autorizados a entrar. Você tinha desaparecido mais uma vez. Sua mãe foi socorrida, todos os veículos foram embora e eu fiquei com um enigma nas mãos.
Mais uma vez, todo o mundo está te procurando, Guilherme. A polícia me fez diversas perguntas, e eu só posso repetir que não sei como aconteceu, ou como você fugiu. Dizer o quê? Que magia te levou de volta a um mundo de castelos e dragões? Eles querem algo que possam entender, e isso eu não tenho.
Você não me deixou respostas, não é? Só segredos e mais perguntas. Como eu lido com isso? Como consolar seus pais sabendo o quanto é inútil te procurar? Não estão nesse mundo, nenhum de vocês, e não retornarão outra vez.
O céu está clareando na janela, e logo eu terei que tomar um banho, trabalhar e fingir que não sei nada. Que tenho esperança, quando estou triste, confuso, magoado... Com tanta raiva. Tão imensamente aliviado que você escapou. Porque você não é louco, Guilherme, e eu também não sou.
Ainda não.
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