Idiotas vinculados

12 Nós temos uma pessima viagem de trem


Notas iniciais
Eu realmente gostava quando meu amigo escrevia os títulos dos capítulos. Enfim, boa leitura

Chicago não era tão impressionante assim para mim, mas Henry insistiu em que deveríamos ver um pouco mais da cidade principalmente o Lago Michigan, então fizemos um pouco de tur.

Visitamos o Cloud Gate, o Museum of Science and Industry. Resolvemos que o Zoo era uma péssima ideia, não queríamos outro banho de água de bebedouro. Fiquei triste por não termos muito tempo para visitar o The Field Museum. Cheguei a pensar em abandonar Henry na cidade ou jogá-lo na água quando chegamos ao Lago Michigan.

Olhei para Mari, depois para Henry e sorri enquanto esfregava as mãos, mas Mari me cutucou.

– Olha. — ela apontou com o queixo para Henry

Abortei a ideia quando vi o fazendo algum tipo de prece, acho que para Poseidon. Imaginei que um deus grego de uns 12 metros de altura fosse sair do lago e nos das três passagens para a Califórnia, mas nada disso aconteceu.

Ainda ficamos um tempo no lago descansando e comendo uns cachorros quentes enquanto observávamos as famílias que visitavam o local. Sempre me dava uma pontada no estomago quando via famílias assim, juntas e felizes, não era nada como inveja, só era ruim por que eu sabia que nunca iria ter um dia de passeio assim.

Olhei de relance para meus companheiros de viagem, tanto Henry quanto Mari mantinham uma expressão de melancolia e raiva no rosto, eu podia ver o quanto isso os afetava, tudo isso, não só as famílias ao redor, mas o fato de sermos semideuses. Eu podia realmente entender o porquê de Mari culpar Henry pelo Zoo e por tudo mais depois ver as expressões deles, para mim o acampamento tinha sido a oportunidade de fazer parte de um grupo onde de certa forma eu faço falta, para eles era como ser arrancado da família, não importava se a vida com a família deles se resumia a uma mãe que tentava fazer de tudo para que o filho não se sentisse um completo pirado ou um irmão que fazia o papel de pai e mãe por falta dos dois, ainda era melhor do que ser arrancado dela sem a menor expectativa de voltar em segurança para entrar em um mundo aonde até mesmo ir ao shopping pode fazer você se tornar o lanchinho de algum monstro.

– Seria legal ter uma irmãzinha. — Henry disse sorrindo em direção a uma menininha que brincava de bola com um garoto que devia ter a nossa idade, eles saíram correndo disputando aos chutes uma bola laranja e o garoto obviamente deixava a pequena ganhar a disputa, os dois eram tão parecidos com ela que ficava impossível não dizer que eles eram irmãos.

– Poseidon não tem filhas. — eu o cortei.

– Na verdade acho que ele teve. Eu lembro mais ou menos de uma historia. — Mari me corrigiu.

– Não, véi. — fiquei olhando para ela balançando a cabeça negativamente enquanto ela tentava lembrar.

– Só acho que seria legal menos masculinidade no chalé 3. — Henry parecia estar realmente feliz olhando a cena.

– Não me leve a mal, mas nem você nem o Brandon são MÁSCULOS. — Gesticulei tentando mostrar os músculos e comecei a rir.

Mari pensou um pouco antes de concordar comigo.

– Ela tem razão. — disse balançando a cabeça positivamente.

Henry fez uma careta e protestou, mas ignorei e comecei a rir mais alto.

– Tá legal. — ele falou. — Já chega vamos embora logo.

Ele levantou e começou a andar, Mari murmurou um "Acho que alguém não gostou da brincadeira" e nós o seguimos.

Quando chegamos à estação percebi que seria um pouco mais difícil do que eu tinha imaginado pegarmos um trem sem sermos notados e se fossemos pego eu não queria dar explicações nenhuma de como vim parar em Chicago com duas outras crianças.

Os orfanatos geralmente emitem um comunicado quando uma criança desaparece. As regras mudam de idade para idade, mas geralmente se voce é pego pela policia e esta sendo caçado pelo orfanato fica bem mais difícil fugir novamente. Além de que não sei se a nossa antiga escola tinha percebido que tínhamos desaparecido no meio de um passeio escolar.

Eu já tinha uma extensa lista de passagens pela policia devido as minhas frequentes fugas. Se me pegassem dessa vez muito provavelmente o governo me mandaria para alguma instituição para crianças problemáticas. Resumindo, tínhamos que passar despercebidos.

– Preciso ir ao banheiro. — Henry decretou assim que chegamos á estação da cidade.

– Eu preciso beber água. — Mari disse.

– Tudo bem, vou dar uma olhada nos horários dos trens.

Nos dividimos e fui diretamente na bilheteria. Com certeza não tinha dinheiro para as três passagens e o próximo trem para Califórnia sairia em menos de uma hora. Sentei em um dos bancos da estação, observando distraidamente o fluxo de pessoas. Estava vagando com centenas de pensamentos — que iam de surf em ônibus ao tipo de armas usadas nas Cruzadas — quando uma mulher sentou ao meu lado no banco.

– Essas passagens hoje em dia estão um roubo não é mesmo? — me impressionei dela estar falando comigo considerando que parte da barra da minha camiseta laranja estava chamuscada e rasgada no ombro, tinha certeza que meu cabelo estava uma bagunça e minha calça estava folgada, eu parecia uma criança de rua prestes a roubar alguém. Acenei com a cabeça. — Voce vai para a Califórnia?

Achei estranha a sua pergunta, olhei diretamente para ela. Devo admitir que ela era incrível. Tinha a pele branca, cabelo preto amarrados em um rabo de cavalo usava jeans e um moletom de Harvard, tinha um livro em mãos e carregava outro na bolsa. Era impressionante como apesar de estar vestida de maneira simples ela era notável. Não conseguia ler o titulo do livro, mas vi que a capa era vermelha e tinha um pássaro desenhado preso a uma roda.

– Hã... Sim. — não achei necessidade de mentir para ela. Minha pele formigava de certa maneira, mas ela não era um monstro, não sentia a mesma coisa que senti quando vi o gigante lestrigão.

– São Francisco é uma péssima escolha já Los Angeles pelo contrario... — ela sorria enquanto falava. — Bom é claro que depende do que esta procurando.

– Tem algum trem daqui que vai para Harvard? — tenho o dom de falar coisas sem sentido em momentos inoportunos.

– Isso? — ela puxou a blusa. — É apenas uma boa recordação de muito tempo atrás.

Tive a impressão que "muito tempo atrás" queria dizer muito, muito tempo atrás, mas a ideia me pareceu absurda a principio já que ela não aparentava ter mais que vinte e cinco anos.

– É que voce me parece bem inteligente. — falei tentando não voltar no assunto da viagem.

– E voce bem forte, para uma garota tão nova.

– Grande coisa. — resmunguei. — Até mesmo a força se curva a sabedoria. — Já deu pra ver o quanto eu amo ser filha de Ares, né?

– Voce tem razão, no entanto conheço alguém que odiaria ouvir voce falando isso. — ela riu.

Olhei para ela franzindo a testa com curiosidade.

– A sabedoria está em saber usar todas as ferramentas e dons que tem. — ela se levantou. — Meu trem já vai sair. Boa sorte. — ela sorriu e se foi.

Fiquei olhando ela partir até perdê-la de vista na multidão. Olhei para baixo e para o meu lado do banco e fiquei surpresa em ver que no lugar em que a moça estava sentada tinha três passagens para Los Angeles e eu sabia que ela as tinha deixado para nós. Como? Não sei, simplesmente sabia.

Peguei os bilhetes e corri pelo saguão em direção aos banheiros, trombei com Henry na euforia e nós dois quase caímos no chão.

– Calma. — Mari apareceu ao meu lado. — Pra que tudo isso?

– Por isso. — mostrei as passagens para os dois e os vi fechar a cara. — Que foi? — perguntei sem entender.

– Onde voce conseguiu isso? — Mari estava séria.

– Com uma mulher no banco da estação. — respondi inocente.

– Jessie é muito feio roubar. — Henry pôs a mão em meu ombro.

Bati no braço dele e chutei sua canela.

– Eu sei disso. Eu não roubei isso de ninguém. — respondi ficando vermelha de raiva.

– Então como conseguiu as passagens? — ela ainda me olhava séria.

– Eu já disse, com uma mulher. Ela sentou do meu lado do banco e começou a conversar comigo e quando ela foi embora deixou as passagens.

– E voce não tentou devolver? — Henry estava abaixado esfregando a canela com a cara feia para mim.

– Ela já tinha ido. — meus amigos não acreditaram muito em mim.

– Ah, se voce diz. — Eles ainda me olhavam diferente.

– Eu posso ser muitas coisas, mas nunca precisei roubar de ninguém.

Bufei de ódio sem acreditar que eles não confiavam em mim, mas decidi não ir fundo na discussão por isso.

– É melhor a gente ir. O trem sai em alguns minutos. — Disse por fim.

Entramos no trem e fomos direto para os nossos lugares, nossos bancos ficavam de frente um para o outro, seja quem fosse a mulher misteriosa que tinha me deixado as passagens ela tinha pensado em tudo.

Descobri que não ia gostar nem um pouco da viagem assim que o trem começou a andar, mesmo que rodasse macio sobre os trilhos senti enjoo com o suave balanço do trem.

Henry e eu nos sentamos lado a lado e começamos a conversar sobre nada em particular. Conheci Henry pouco tempo antes da confusão que nos levou ao acampamento então acredito que éramos mais descontraídos um com o outro do que com nossa companheira de missão. Fizemos mais algumas brincadeiras e dessa vez Mari resolveu entrar na conversa.

Comecei a me sentir mais enjoada depois de algumas horas então resolvi andar um passeio no trem, precisava me distrair um pouco antes que eu puxasse a alavanca de freio de emergência, pulasse do trem e fosse correndo até Los Angeles.

Andei até me perder (sim eu sou do tipo de pessoa que consegue se perder dentro de um trem) por sorte meu mal estar passou logo o que fez meu humor melhorar consideravelmente.

Estava tentando encontrar meu assento quando encontrei com a mulher desconhecida no vagão bar. Ela usava óculos coloridos agora alem da calça jeans e do moletom vermelho escuro e lia um livro de capa azul com um pássaro desenhado (que reconheci sendo o mesmo do outro livro, mas dessa vez ele estava livre). Fiquei tentada a me aproximar e conversar com ela então fiquei alguns minutos parada perto da parede decidindo se ia ou não até a mesa, em algum momento ela me viu. Ela acenou para que eu fosse até a sua mesa, ainda estava na duvida se deveria ir quando me peguei sentando a sua frente.

– Olá de novo. — ela sorriu.

– O-oi. — Gaguejei.

– Vejo que decidiu seu destino. — ela tomou um gole de chocolate quente de sua caneca.

– Eu não... Voce... — de alguma maneira eu estava sem palavras. Sentia poder emanando dela e isso me deixava perdida e eufórica ao mesmo tempo.

– Uma xícara? Talvez esteja com fome. — ela acenou para o garçom que me trouxe uma xícara de chocolate quente com muito chantili e um misto quente.

– Voce deixou aquelas passagens para mim. — consegui limpar a garganta e dizer. — Por quê? — Perguntei.

– Não sei do que fala. — ela negou.

– Tá me chamando de burra? — perguntei com meu ar divertido.

Eu não sou muito educada as vezes e isso é um dos motivos de eu me meter em encrencas, não meço minhas palavras e às vezes passo dos limites.

Ela levantou uma sobrancelha.

– É claro que não. Diga-me sua teoria.

Pensei por um instante, realmente não fazia sentido, mesmo assim as passagens estavam lá quando ela se foi, nós estávamos no trem, tínhamos um destino e ela também. Ela havia me ajudado eu só não sabia o porquê.

Dei uma mordida no meu sanduíche ocasionalmente, podia sentir seus olhos em mim, foi então que me lembrei da minha última conversa com James.

– Voce é uma deusa grega. — falei.

– É muito gentil da sua parte. — ela falou, seus olhos sorriam travessos.

– Não foi um elogio. — retruquei. — Eu quis dizer que voce é uma deusa de verdade como... Como meu pai. — as ultimas palavras saíram quase como um sussurro.

Ela olhou com curiosidade para mim.

– E qual delas voce acha que eu sou?

– Eu não sei. — respondi. Ela pareceu desapontada. — Por que está nos ajudando?

– Veja bem... — ela tomou outro gole de chocolate quente. — Os deuses têm muito interesse nas missões que os semideuses realizam para eles.

– Pra eles... — murmurei.

– Sim e é muito importante que vocês tenham êxito na sua busca. — seus olhos azuis agora brilhavam. Mas eles não eram realmente azuis pareciam mudar de cor.

– Por quê? — perguntei. Aquela conversa não fazia o menor sentido.

– Bem, os interesses são distintos. — ela começou a mexer em sua bolsa. Puxou um telefone e leu uma mensagem. Seus olhos antes azuis agora estavam ficando cinza como o céu se transformando em tempestade. — Eu tenho que ir.

– Atena. – falei para mim mesma em uma espécie de transe.

Ela se virou pra mim e sorriu.

– Eu estive esperando para te conhecer por muitos anos. – seus olhos cinza fixos em mim, mas não era uma ameaça, não senti assim. Ela se levantou.

– Espera. O que? — eu pulei do banco.

– Adeus, Jessie. E boa sorte em achar o que procura. — ela começou a andar e desapareceu antes que eu pudesse segui-la.

Eu não tinha conseguido descobrir nada de importante com a conversa, então resolvi terminar meu chocolate quente e voltar para meus onde amigos estavam.

Estava andando pelo trem, prestando atenção em algumas aranhas andando no teto e pensando em quanto chiclete devia ter debaixo dos assentos do trem quando esbarrei em um garoto (desconfio que ando esbarrando demais nas pessoas, só desconfio). Eu olhei para cima, pois ele era um pouco mais alto que eu.

– Desculpe, eu estava olhando umas aranhas ali.

– Tudo bem... Aranhas? Onde? — ele olhou para os lados agitado e colocou as mãos na mochila.

– Não, elas já foram.

Ele tinha medo de aranhas, tive vontade de rir, mas achei que não seria uma boa ideia. Vai que ele resolvia brigar por causa disso, eu não posso ser expulsa do trem.

– Eu sou Mason. Qual seu nome?

Ele devia ser uns dois anos mais velhos que eu e era bonito de verdade, tinha um sorriso confiante, era loiro magro e forte, seus olhos eram cinza esverdeados que me lembravam os olhos de Atena. Usava um suéter com corujinhas desenhadas em alguns pontos e calças jeans.

Seu nome? — ele questionou de novo e eu percebi que fiquei admirando-o e me esqueci de falar (isso também acontece com frequência).

– Jessie. — respondi muito provavelmente ficando vermelha.

– Bonito nome. — Mason disse.

– Hã, obrigado o seu também. — respondi.

– Então Jessie... Voce me parece bem legal, quer tomar um refrigerante comigo?

Achei a proposta estranha, pois não estou acostumada com as pessoas serem gentis comigo.

– Eu adoraria, mas... — eu realmente não sabia o que responder.

Mexi inquieta e minha camiseta laranja do acampamento meio sangue apareceu por debaixo da minha jaqueta, Mason a estudou por um momento e disse:

– Tudo bem, acho que voce esta um pouco ocupada com alguma coisa. Quem sabe outro dia. — ele sorriu e deu um tapinha de leve no meu braço de forma bem gentil. — Quem sabe não nos vimos por ai novamente. Até Jessie e boa sorte.

Fiquei por alguns minutos no mesmo lugar atordoada. Pensei em todos os "Boa sorte" que tinha ouvido nos últimos dias e conclui que primeiro: devia ter ouvido mais nessa ultima semana que na minha vida inteira, segundo: para me desejarem tanta sorte eu devia estar mesmo ferrada.

Sai do meu transe quando percebi que um dos funcionários da lanchonete do trem me olhava com muita curiosidade enquanto limpava as mesas. Voltei depressa para a cabine que Henry, Mari e eu dividíamos.

– Do que vocês estão falando? — perguntei, não iria prestar muita atenção na verdade, mas queria parecer interessada e principalmente não demonstrar que eu estava desinteressada.

– Estávamos falando que já estamos viajando á três dias sem realmente saber para onde devemos ir nem por onde começar a procurar.

Não me lembrava de ter visto Mari se exaltar muitas vezes, mas sempre que ela se exaltava era da dar medo em qualquer um. Por esse motivo Henry parecia desconfortável. Sentei ao lado dele e recebi um olhar de agradecimento.

Sempre que os deixava sozinho por muito imaginava se quando voltasse os dois teriam mandado um ao outro para o Tártaro. Esperava que isso mudasse com o tempo porque não o tipo apaziguador, aposto o que quiser que se eles saíssem no tapa, principalmente por coisas inúteis que eles discutiam, a minha primeira reação seria rir histericamente da briga ou comprar pipoca para assistir.

– Ao que tudo indica temos que ir para Los Angeles. — disse naturalmente.

– Deve ser lá que está o Pomo. — Henry concluiu.

E por acaso voce já foi para Los Angeles? Isso não é grande coisa, não é como se fossemos descer na cidade e receber o Pomo de presente do prefeito.

Imaginei a cena e comecei a rir quase que imediatamente, ela me olhou como se eu devesse preparar meu funeral ali mesmo.

– Isso não tem graça. Além do mais estou desconfiada que tem um monstro nesse trem.

Meu sorriso sumiu.

– Eu senti alguma coisa estranha, mas achei que estava imaginando coisas. — Henry falava com um pouco mais de segurança.

– Devia estar mesmo. — Mari retrucou.

– Ei! — ele protestou.

– Talvez ele tenha sentido. — dei de ombros.

– Voce confia nele? — ela era incrédula em qualquer coisa sobre ele. — Foi culpa de ele nos metermos nisso lá no inicio. — dei de ombros novamente.

– Não foi não! Não fui eu quem nos meteu nessa missão.

– Quem explodiu o bebedouro?

– Não fiz aquilo por que eu quis.

Eles estavam brigando.

– Mas fez! — Mari quase berrou.

Comecei a rir da briga, mas meu sorriso sumiu quando senti um perigo por perto.

– Ei parem com isso! — gritei.

Qualquer um do acampamento diria que gritar com dois filhos dos três grandes teria sido uma péssima ideia, mas eu não dava à mínima. Não tinha medo de nenhum dos dois não importava o quanto poderoso eles fossem ou o quanto Mari parecia assustadora enquanto olhava para mim.

– Estão sentindo isso?

Os dois pararam de me olhar como se eu fosse virar presunto por alguns instantes.

– Uma presença ruim. — Mari concluiu.

– Mas parece longe.

– Não Henry, está aqui, mas encoberta. — Mari olhava ao redor.

– Como um disfarce, talvez? — agora era ele que olhava.

– Pode ser. Um dos atendentes da lanchonete estava me olhando com muita curiosidade. — falei.

– Pode ser ele então, devemos ficam atentos. — Mari finalmente parecia menos assustadora.

– Ou atacar.

– Temos que ficar escondidos e observar não podem sair atacando qualquer um assim e se não for ele?

– E se for? Vamos ficar quietos e esperar ele nos atacar? — Henry estava pronto para começar a briga novamente. — Jessie! — ele exigiu.

– Eu acho que ela tem razão. — disse distraída.

– Espera ai. O que? Desde quando voce — ele apontou para mim — se recusa a entrar numa briga.

– Desde que o cara pode ser um mortal.

– Voce não se importou com isso lá na lanchonete. — ele jogou na minha cara.

Respirei fundo umas três vezes antes de responder.

– Henry voce fica muito nervosinho perto de mim e eu acho melhor voce se controlar. — minha primeira atitude seria jogar na cara dele que ele tinha perdido e feio para o gigante ou dar um soco na cara dele, mas achei mais prudente não por lenha no fogo. Se nós três brigássemos agora o monstro provavelmente iria nos encontrar e ai...

Henry pulou do banco e foi tomar um ar.

– Nervosinho... — Mari brincou.

– Ele só não gosta muito de ser contrariado. — dei de ombros.

Passamos mais algumas horas sentadas sozinhas no trem antes dele voltar. Contei para Mari a conversa com a deusa, ela apenas ouviu franziu as sobrancelhas e ficou pensando o que me fez quase me arrepender de ter contado. Quando voltou Henry parecia apreensivo como se fossemos roubar um banco.

– Que foi? — perguntei.

– O cara do bar tá me seguindo.

– Voce não foi provocar o cara, não é? — Mari levantou olhando para onde ele tinha vindo.

– Não, eu só fui observar. — ele se defendeu.

– Sei... – Mari foi interrompida.

– Crianças. — um dos guardas do trem chegou até nossos acentos. — Poderiam vir comigo, por favor?

Ele era rígido como se andasse com um cabo de vassoura amarrado as costas e falava com um sotaque engraçado. O que mais me chamou atenção foram seus olhos bicolores.

– Nós não fizemos nada de errado. — disparei.

– Claro que não. — o guarda retrucou. Apenas venham.

Nos levantamos relutantes enquanto ele retirava nossas mochilas do compartimento acima dos acentos.

– Só observando, né? — Mari sussurrou enquanto andávamos pelos vagões e Henry lhe devolveu uma careta.

– É uma mutação genética. — falei distraída enquanto seguíamos o guarda pelos corredores dos vagões do trem. Por onde passávamos as pessoas olhavam para nós e cochichavam — Se chama heterocromia.

– O que? — Henry franziu a testa para mim.

– Os olhos dele, são bicolores. — respondi calma. — É uma mutação genética.

– Não é hora para aula de genética. — Mari repreendeu.

O cabo de vassoura com pernas nos levou até o último compartimento do trem que para nossa infelicidade estava vazio. Havia apenas uns botijões de gás no fim do vagão e perto de nós além dos botijões um velho fogão enferrujado. Provavelmente o lugar era usado como vagão de carga. O guarda foi para o fim da sala.

– E então para onde estão indo crianças?

– Vocês adultos são muito curiosos. Não é da conta de vocês. — Mari se encaminhou a porta de dava acesso aos outros vagões do trem, a porta que estava entreaberta de repente se fechou com um estrondo.

Ela deu um pulo para trás.

– Aquilo é... — comecei a falar.

– Um espinho. — Henry completou por mim.

– Eu perguntei onde vocês estão indo. – cada silaba parecia com um chocalho de cascavel.

– Que tipo de monstro é voce? — falei.

– Ah, vocês querem conversar?

– Uma mantícora. — Mari concluiu pulando ao nosso lado e puxando uma faca. A lâmina negra fez o guarda-monstro recuar.

– Achei que elas fossem mais feias. — disse.

– O que quer com a gente? — Mari indagou.

Devo dizer que ela não é realmente intimidadora, baixinha, cabelo ruivo, cara de nerd, alguns diriam que ela é até fofinha, mas ela tem essa aura sinistra ao redor dela que em momentos de raiva dão um brilho assustador ao seu olhar. Por isso não é muito esperto bater de frente com ela.

– A questão é: o que vocês estão planejando?

– Como eu disse não é da sua conta. — Mari retrucou.

Tão rápido ela terminou de falar uma de suas facas foi lançada. Acertaria bem na testa do monstro se outros espinhos não tivessem sidos lançados em resposta.

O primeiro rebateu a faca no meio do ar, o segundo passou voando pelo rosto dela deixando uma fina linha de sangue por onde tinha passado. O terceiro e o quarto acertaram Henry e eu, no braço de Henry e no meu ombro.

Senti uma dor incrível explodir em meu ombro, tive vontade de desmaiar. A mantícora sibilou alegremente, imaginei que aquilo era um sorriso á la monstro com rabo de escorpião. Ele se acomodou sentado em um dos bancos no final do trem e cruzou as mãos abaixo do queixo. Mari parecia uma estátua de tão imóvel que tinha ficado.

– Sentem-se. — a mantícora ordenou.

Nenhum de nós se moveu. Os olhos do monstro brilharam e outra rajada de espinhos nos atingiu.

– Eu disse para sentarem! — o monstro gritou.

Nos sentamos involuntariamente devido aos espinhos, fiquei presa pelos espinhos na altura da costela do ombro já machucado e da panturrilha. Sentia como se minha pele estivesse derretendo em toda área ao redor de onde os espinhos tinham me arranhado. A dor se concentrava mais forte do lado direito do meu corpo, ali um espinho grande tinha rasgado a pele e se alojado entre as costelas quase me atravessando.

Henry emitiu em ganido ao meu lado e tive que conter o espanto quando olhei para ele. Ele estava preso ao meu lado com espinhos na altura da barriga e dos braços, alguns outros arranhões eram visíveis mais o que me fez assustar foi o enorme espinho cravado por debaixo da pele do seu braço esquerdo. Ele parecia ao ponto de chorar, mas eu não sabia se era de dor ou de raiva.

O monstro se levantou e começou a dar um discurso sobre como ele sempre foi subestimado pelos outros monstros, como tinha sido submetido pelos heróis na última guerra dos titãs contra os deuses. Achei que seria interessante saber mais sobre esse assunto, mas a dor nas minhas costelas estava me deixando louca. Pesquei apenas algumas palavras do discurso como: Percy Jackson, filha de Atena, Caçadora de Ártemis e Ofiotauro (essa última parecia mais um xingamento para mim). Conhecia por alto o nome Percy Jackson, parece que ele era um irmão mais velho do Henry e que era um grande herói do acampamento.

– Se aquela maldita filha de Zeus tivesse... – ele não teve tempo de terminar a frase.

Mari tinha acabado de libertar um de seus braços e cravar uma faca bem entre as clavículas do monstro. A mantícora urrou de raiva e dor. Ela lançou um único espinho, mas tão certeiro que teria atravessado o rosto de Mari de Henry não tivesse o desviado com sua espada. De alguma maneira simplesmente incrível Henry tinha conseguido se libertar dos espinhos. Ele mantinha o braço esquerdo colado contra o peito e avançou contra o monstro.

– Mari. — dei um grito esganiçado.

Ela estava paralisada em choque.

– Mari! — gritei novamente e me joguei contra o ombro dela.

Os espinhos que a prendiam rasgaram suas roupas. Senti a fina camada de o meu ombro esquerdo romper devido ao espinho cravado nela, mas não tive tempo de sentir a dor. Ela olhou para mim depois de se recuperar do choque.

– Ajude Henry. — mais gemi de dor do que falei.

Henry de alguma forma estava a todo vapor lutando espada contra calda de escorpião. Ele pulava, rolava para longe dos espinhos, estocava, cortava para todos os lados. A adrenalina no corpo dele provavelmente o tinha livrado da dor. Mari pulou do acento depois de estudar por alguns segundos a cena. Ela imediatamente correu até monstro e juntos os dois começaram a encurralá-lo.

De repente a mantícora fez um movimento com a calda como um chicote e jogou os dois no chão perto de mim. O monstro tremeu e começou a se transformar. Em pouco tempo pude ver sua forma real. Tinha o corpo de um leão, a cauda era rija e se parecia mesmo com a de um escorpião não fosse pelo fato que lançava espinhos e o rosto era humano, mas disforme com presas e pelos.

– Semideuses insolentes. Eu vou ensiná-los a não me subestimar. — a mantícora rugiu enquanto se transformava.

Percebi um cheiro de gás no ambiente, era fraco, porém nítido. Eu tinha conseguido me soltar dos espinhos com muita dificuldade e tinha quase certeza que não estava em condições de lutar. A mantícora deu mais um rugido quando terminou de se transformar, uma rajada de espinhos voou em nossa direção, eram tantos que eu não conseguia contar. Sem pensar muito me joguei sentada de modo desajeitado do chão entre Henry e Mari e invoquei um escudo para nos proteger, meus amigos se encolheram atrás de mim. Sentia enquanto a rajada batia e ricocheteava no meu escudo criando algumas faíscas.

De alguma forma uma faísca atingiu os botijões de gás no fundo do vagão apenas uns metros de nós. Uma explosão não muito grande aconteceu sacudindo as linhas do trem e mandando parte da parede do nosso vagão pelos ares, deixando um buraco e nos desprendendo dos outros vagões, mas ainda continuamos andando devido à velocidade que estávamos. Fomos jogados com força o chão com violência, felizmente protegidos por um dos bancos do trem. Outra rajada nos atingiu depois de nós quatro nos recuperarmos da explosão. No meio do ataque o escudo começou a amassar mesmo sendo de bronze celestial ele não duraria muito tempo.

– Cortem aquela maldita cauda. — sussurrei.

– É fácil falar. Difícil fazer. — Mari retrucou quase rosnando.

– Eu vou. — o olhar de Henry determinado estava fixo no monstro.

Um espinho arranhou o braço de Mari e ela deu um gritinho. Normalmente os filhos de Ares tinham certa imunidade maior à dor, isso faz com que eles tenham um melhor desempenho em uma batalha. Mesmo assim tudo o que eu queria fazer era me enrolar em posição fetal e ficar ali mesmo. Sentia que meus pulmões não queria fazer o trabalho deles, mas não tive tempo de reclamar.

– Vamos! — ela decretou enquanto me empurrava para frente.

Continuei a frente com o escudo levantado apesar de começar a ficar difícil respirar. Henry pulou para frente quando chegamos perto o suficiente ele estocou no pescoço de leão fazendo o corte jorrar sangue dourado, o monstro que elevou a cauda depois rebateu para baixo como uma clava destruindo o chão do trem aos pés de Henry.

Mari gritou "Hei" e o monstro se virou para nós. Ela se jogou de lado jogando facas, parece que só tinha a intenção de distrair a mantícora o que deu certo. O monstro se virou e ergueu a cauda novamente. Ela puxou uma nova faca, não achei que ela devesse encará-lo assim, mas ela não se mexeu, o monstro começou a descer a cauda para mais um golpe, ela não se mexia.

Pulei na sua frente, entre ela e a mantícora, com o escudo levantado tentando nos proteger, o impacto da calda me jogou no chão com força, meu escudo já era, agora era só uma pilha furada e retorcida de bronze. Henry aproveitou a deixa a desceu a espada na cauda da mantícora cortando-a no meio.

O monstro começou a se debater quicando como uma bola de pinball nos bancos ao redor até vir direto para nós. Ele nos deu uma espécie de tapa com a garra de leão tão forte que foi forte o suficiente para lançar Henry, Mari (que estava tentando me levantar) e eu pelo buraco aberto antes na antiga parede do trem, fomos sugados para fora do trem em movimento.

A última coisa que eu fiz antes de descer morro abaixo rolando incontrolavelmente batendo entre os pinheiros, as raízes e pedras, foi jogar uma lança na direção do monstro, a lâmina cortou a barriga a mantícora a transformando em pó. Perdi a consciência em algum lugar no meio da queda.