Identity Crisis
38 C37. Fate does its work
Notas iniciais
Parte 1: Atrás das portas (LupusxLass)
Depois de engajar numa conversa muito longa com Rey sobre vinhos, ambos se despediram no portão com o pobre do mordomo musculoso quase a arrastando. Ela ainda reclamou sobre ter que trabalhar e etecetera, mas entrou na limusine púrpura e deixou-se levar. Lupus pensou sinceramente que não tinha como aquele dia dar errado e voltou animado para a diversão.
Chegando de volta na área da piscina ele se deparou com zero pessoas presentes. Ele olhou para os lados, se perguntando o que estava acontecendo. Nenhum celular na mesa. Ele olhou em direção ao campo e viu algo que talvez fosse melhor não ter visto... o casal ternura se agarrando no meio da grama... SUA grama. Tão descaradamente. E eles nem tinham a decência de conferir se tinha alguém olhando, ou seja, esqueceram completamente de sua existência. Seria mentira dizer que o ciúmes não bateu forte.
— Pelo amor de... — ele bufou, sentindo a irritação levemente batendo. Ele se sentou, se servindo de mais uma dose. Não estava se sentindo suficientemente alcoolizado para aguentar aquilo e esperar quieto. Se tinha uma coisa que ele odiava era se sentir como uma vela, ainda mais por seu melhor amigo, pelo qual já tinha aceitado que possuía certa obsessão.
Porém, alguns minutos se passaram e o casal escapou para o banheiro da piscina uns metros dali. E mesmo assim, nem o perceberam. Lupus se levantou, olhando o céu limpo, as nuvens tímidas tirando a única chance de calor que aquela porção da Europa recebia no ano e decidiu descobrir por que os amigos não haviam voltado ainda.
Lá dentro ele não demorou para achar Jin derrubado na cama novamente, completamente bêbado e Zero sentado no sofá do mesmo quarto, que era para visitas, com o fone de ouvido e jogando Nintendo Switch como uma máquina. Típico. Os dois tinham esse hábito de cansar do pós-rolê muito fácil. Agora, Ryan não estava à vista, nem no banheiro, nem na sacada... Lupus decidiu procurá-lo na cozinha, em algum banheiro comum próximo e nada.
— Onde raios ele está?
Ele se perguntava e logo sua paranoia começou a bater levemente quanto mais ele procurava. O ruivo não era uma pessoa falsa nem perigosa... o que ele poderia estar fazendo andando livremente em sua casa, sem sua presença? Ele não era disso, mas Lupus não conseguia deixar de ter esse tipo de pensamento fatalista.
Foi só depois de um tempo, decidindo voltar, ele desceu as escadas, passando pelos corredores que variavam de estreitos para largos a cada instância. A madeira da mansão parecia até mais quente naquele dia e ele foi se lembrando de diversos momentos na sua segunda infância, em que caminhava descalço naquele chão, indo atrás de Lass.
— Será que ele está com o Lass? — se perguntou, tendo o impulso de voltar para o andar superior. Porém, antes que desse mais um passo, ele ouviu um riso. Ele se encaminhou para a direção que já seguia, encontrando a fresta aberta do quarto de estudos. “Então ele decidiu estudar aqui embaixo hoje.” pensou, fazendo já o movimento para abrir a porta.
— Eu gosto de você, Lass.
Foi como se Lupus tivesse sido petrificado pelo raio de Medusa. Seu corpo imediatamente tenso, seus lábios crispando, a pele arrepiada. Seus dedos na maçaneta travados e gelados. Ele não conseguiu reagir, não com aquele tipo de conversa acontecendo. Seus sentimentos, de repente, envolvidos num turbilhão de confusão, a insegurança, o medo, a vergonha e ciúmes.
— Mas sabe, você não devia estar se preocupando com esse tipo de coisa agora. Você tem um longo caminho aí pela frente e não é hora de se envolver com essas coisas...
— Isso não é verdade...
— Escuta. É normal querer beijar as pessoas e fazer mais coisas com elas, mas olha, você tem um tempo de estudo aí pela frente, vai conhecer muito mais gente do que imagina. Agora, eu e os rapazes estamos nos formando. Cada um de nós vai para alguma empresa em alguma parte do país, até fora... A responsabilidade a partir daqui é que é o foco sabe? Isso não impede de os dois conversarem e de se gostarem. Mas provavelmente... nunca vai passar disso, entende?
O silêncio alguns instantes incomodou o moreno. Ele esperou, confuso com o que estava acontecendo. Lass gostava de Ryan? Ryan gostava de Lass? O que eles estavam fazendo? O que Ryan estava fazendo com seu irmão?
— Eu entendo.
Ryan deu um novo riso e Lupus teve a impressão que talvez ele estivesse tocando em Lass nessa hora. Aquela ânsia... algo em si não estava bem, mas ele dessa vez estava em pleno controle de suas ações.
— Você vai saber lidar com esses problemas, prometo. Sobre o que conversamos, pode ficar tranquilo... Você é normal, garoto. Sentir esses sentimentos e agir impulsivamente faz parte. E pensa só... Você é tão novo, nunca tinha feito nada errado antes... É uma evolução sabe? Às vezes a gente precisa fazer uma besteira para ser mais divertido okay?
Lass riu levemente com aquilo. Mas foi um riso sincero. Um riso relaxado. Lupus se sentia extremamente dividido, sabendo que aquele momento privado dos dois era importante e que ao mesmo tempo ele odiava não ser quem estivesse ali para orientar o garoto. Ele tinha plena compreensão que se não era ele ao lado de Lass, era unicamente por sua culpa. Então o que ele devia fazer?
Enquanto ambos dentro da sala conversavam sobre qualquer bobagem e decidiam sair para comer alguma coisa, Lupus soltou a maçaneta e se afastou alguns metros. Ele também não quis fingir. Ele também queria mostrar que na verdade se importava. Então, ele se encostou ao lado da porta e esperou até que os dois saíssem depois de uns minutos, falando sobre livros, jogos, plantas e sobre o futebol que o albino fugia a todo custo.
A cara de Lass ao vê-lo parado ali se tornou branca, ainda mais branca do que era possível. Aqueles ombros em crescimento não tensionaram, mas Lupus viu a rigidez no caminhar do mais baixo. Os olhos azuis arregalando enormemente. Contudo, a reação de espanto durou apenas uns dois segundos. Assim que Ryan atravessou a porta também, o albino estava altivo novamente, um brilho de coragem e confiança que, definitivamente, surpreenderam positivamente o irmão mais velho.
— Lupus! — Ryan abriu um sorriso enorme ao vê-lo. Num pequeno instante, os olhos verdes demonstraram preocupação, mas Ryan, ele já sabia, era excepcional em ler as situações e se fazer de idiota. Ah sim... ele era honesto sim, um ótimo amigo e muito cuidadoso. Um bobão a maior parte do tempo. Mas no resto, ele fugia de todos os problemas fingindo ser desligado... de certa forma, sentia inveja dele.
— Não tem ninguém lá fora, cara. — Lupus comentou casualmente, dando um sorriso leve para o ruivo e se voltou para o mais baixo — Estava estudando, Lass?
O albino, surpreso, acenou com a cabeça e apontou outra direção.
— Eu vou ir fazer um lanche agora. Depois vou jogar um pouco.
— Beleza. Vou levar um prato de churrasco para você depois então. Você quer?
O albino remexeu a franja, arrumando o óculos rapidamente. Seu olhar normal.
— Okay. Só nada de porco, por favor.
Lupus riu mentalmente, achando graça de como ele ainda respondia dessa forma, sem mais demonstrações de medo em sua presença.
Algo tinha mudado. Ou pelo menos estavam tentando.
Depois disso, quando o albino se despediu de Ryan com um aceno rápido e agradecendo pela ajuda, o ruivo não teve outra escolha a não ser deixá-lo ir.
— E então...? O que vocês estavam fazendo? — Lupus perguntou, voltando a caminhar com o amigo de volta para a parte externa da mansão.
Os olhos verdes mantiveram no caminho e o garoto musculoso deu de ombros levemente.
— Eu estava passando e dei de cara com ele, aí acabei ajudando com a tarefa de biologia. Mas nós conversamos bastante também.
Lupus assentiu com a cabeça, sem saber realmente como continuar o inquérito.
— O Lass é um garoto genial, sabe? — Ryan comentou, dando um leve sorriso. Ele fitou o rapaz mais velho com ar brincalhão. — É melhor você tomar cuidado ou ele vai passar a perna em você na chefia.
O moreno riu de volta, sabendo que o ruivo era a pessoa mais ligeira que conhecia. Claro que ele não iria entrar nos assuntos pessoais, nem que ele estava falando de coisas íntimas com seu irmão, dentro de sua casa, mas deixou quieto, principalmente porque o ruivo não tentou mais nada. Pelo menos ele acreditava que se o ruivo fizesse algo indecente, ele tinha o direito de acabar com ele. Lupus não era santo, sabia, mas um amigo embaixo de seu teto se envolver com seu irmão? Não. Ele não podia aceitar uma coisa dessas.
— E os outros? — Ryan indagou, franzindo a testa.
— Eles estão... Okay eu acho. Não sei se estão de volta. — Lupus continuou, passando os dedos nos cabelos, largando sua irritação para trás. Ou direcionando para outro lugar.
Parte 2: Última vez (LupuxLass)
O casal estava de volta. Normais, porém, suados e com ar de cansaço que eles poderiam facilmente disfarçar como sendo do calor e do esforço do jogo. Ambos compartilhavam um ar óbvio do que tinham estado fazendo – pelo menos para o dono da casa.
Lupus conversou com os dois sobre a comida que precisava continuar rodando já que eles estavam com fome outra vez e aproveitou que Sieghart voltou à grelha para ir montando um prato para Lass.
— Você me disse que não gosta de abacaxi no churrasco... — o moreno franziu a sobrancelha, totalmente confuso com o amigo se servindo de uns pedaços de cima do balcão,.
— Não é pra mim. — Lupus comentou, crispando os lábios. — É pro meu irmão.
A realização do que ele estava dizendo surpreendeu Sieghart. Dio não era muito próximo do Wilde para saber daquilo, porém, somente o fato de Lupus estar comentando casualmente sobre o irmão deixou Sieghart contente.
Por fim, ele voltou para a mansão, deixando Sieghart, o Fiammeggianti e o Woodguard se embebedando de novo. Sem nenhuma ideia do que deveria falar para o mais novo, ele adentrou a casa, seus passos na escada lentos e nervosos, a batida na porta suave e incerta.
A falta de resposta o levou a entrar.
— Lass?
O quarto, iluminado diretamente pela luz da tarde, estava silencioso. A cama mostrando indícios de o albino ter estado ali minutos antes. O jogo no monitor parado, um personagem 3D mexendo, segurando adagas e soltando falas aleatórias de um em um minuto.
O maior se aproximou da escrivaninha a passos lentos, deixando o prato sobre a mesa e mexendo o mouse uma vez para ver a tela se movendo. Ele já tinha deduzido que o mais novo estaria no banho, logo, ele gastaria um tempo ali esperando até que pudesse saciar sua curiosidade.
— Hm... — ele se esticou na poltrona, organizando seus pensamentos, tentando visualizar a conversa e como ele abordaria o problema. Um sentimento conflituoso o tomava, porém, ele não estava com medo de conversar. Era apenas... Ele tinha que fazer a coisa certa.
E não teve muito tempo para pensar em todas as loucuras que estavam querendo passar em sua mente, a porta do banheiro se arrastou levemente, espalhando o aroma suave de sabonete e shampoo, vapor e a figura do albino.
Lass travou na porta e voltou para trás, levando a porta consigo. Lupus o viu sem óculos, os cabelos úmidos e com as pontas arrepiadas, e aquele rosto delicado e não amigável ficando ruborizado.
— Eu... eu preciso de uma toalha. — o garoto falou, escondido atrás da porta, apenas sua face saindo para fora pelo vão.
O moreno, confuso, arregalou os olhos e analisou melhor a situação. Juntando os pontos, ele se levantou, com uma vontade de rir quase o matando.
— Onde que a sua toalha está? — questionou, já se levantando e indo para um dos enormes armários do irmão e mantendo a casualidade.
Lass apontou uma porta alta, botando o braço magro para fora.
— Eu esqueci de pegar antes de entrar.
— Hahah... Estava muito concentrado pensando em algo interessante?
Quando o moreno pegou o tecido fofo branco e foi na direção do mais novo, carregava uma expressão inquisidora. A verdade era que ele estava se mordendo para saber o que foi conversado com Ryan, mas muito provavelmente nunca saberia pelo irmão o que rolou entre os dois, como se conheceram e tudo aquilo.
A face do mais novo se tornou completamente rubra enquanto encarava Lupus nos olhos e, pior, via o significado por trás. Mas ele também não ia contar todas suas intimidades, por mais que o irmão tivesse esse terrível hábito de querer saber de tudo.
— Nada em especial... — respondeu, segurando o tecido, fitando o mais alto. Lupus estava tão perto. Ele encostou no batente, a expressão tranquila, quase como se fosse uma pessoa completamente diferente.
— Certo.
Mas era óbvia a insatisfação do rapaz. Aquela expressão atribulada não enganava o albino,que o conhecia muito bem.
— Okay... Eu vou só... — Lass fechou a porta e não demorou segundos antes de abrir de novo. Seu rosto ainda mais vermelho que antes. — Eu... esqueci de pegar minha troca de roupas. Você pode, talvez... me dar licença para eu me trocar?
Lupus riu com aquilo, não se importando que Lass visse esse seu lado.
— Com vergonha de quê? Se eu já te vi antes...
Um arrepio passou pela espinha do mais novo, suas mãos dobrando fortemente a toalha enquanto sua cara torcia numa expressão afetada.
— I-Isso não importa! Dá licença, Lupus! — exclamou o menino, sua voz quebrando de uma forma hilária. Lass saiu do banheiro, enrolando-se todo na larga toalha, e foi empurrando o irmão mais velho para fora do quarto.
Então, Lupus novamente ficou do outro lado, encostado esperando. Lass, do outro lado, engoliu seco e resolveu falar. Era como se fosse para ser agora. Quando iam ter hora melhor pra falar?
— Aquilo que a gente fez... Eu não devia estar lá naquela hora... Foi tudo culpa minha.
Lupus arregalou os olhos, o arrependimento batendo em seu consciente. Ele não podia continuar sendo um covarde que se escondia atrás do menino por tudo. Lass era só uma criança que tinha tido a má sorte de viver junto com ele, quem não tinha sido capaz de cuidar e proteger as pessoas importantes de sua vida. Tudo por que foi fraco e idiota.
— Não é culpa sua! Eu que... eu deveria apenas ter agido normal. Você nunca teve culpa de nada, Lass.
Lass sentia as emoções fluindo de si, como se tivesse esperado esse momento há tempos. Algo ainda assim, não estava certo. Porque ele sentia essa tristeza?
Lupus virou-se, tomando uma decisão. Ele precisava fazer isso.
— Abre a porta.
O Isolet mordeu os lábios, obedecendo. Porque seu coração parecia que ia saltar de seu peito? Os olhos vinhos do mais velho estavam trêmulos, cheios de emoção que ele nunca havia presenciado antes.
— Me perdoa.
Os dedos se apertaram na madeira, os olhos abaixando. A dor em seu peito parecia consumí-lo, trazendo pequenas lágrimas em seus olhos. E ele soube também como sua pessoa era barata.
Lupus se aproximou um pouco mais, quis tocá-lo, mas não o fez. Ao mesmo tempo, Lass entreabriu os lábios para falar, sua expressão se confundindo com tantas emoções.
— D-Do que... Por que você está se desculpando?! — Lass indagou, sua mente começando a voar para diversas cenas, memórias, os dois sempre em conflito. — Se eu tivesse ficado quieto a gente não teria...
Os olhos azuis não o fitavam. Fitavam um ponto aleatório, preso em seus pensamentos. Aquelas palavras atravessaram o rapaz mais velho, afiadas como faca.
— Lass-
— EU... — a voz do menino quebrou num som choroso, as mãos fechando-se à frente do peito. — Eu não deveria ter...
O mais alto o parou, a mão em seu ombro, algo tão novo tomando seu corpo como um instinto de proteção. Ele o sentiu plenamente, a dor de ver Lass em sofrimento. Ele não queria mais aqueles sentimentos feios atrapalhando a vida de ambos. Ele precisava apenas livrar o irmão dele. Os dois iam ficar bem se o fizesse.
— Eu não pedi desculpas do que fizemos no banheiro. — Lupus disse, sereno e objetivo. Sem emoção.
— Quê? — os olhos azuis subiram e finalmente o encararam, incrédulos.
— Nós dois estávamos juntos naquele momento. Não tem porque pedir desculpa se nós dois acabamos fazendo algo juntos. Não tem como voltar atrás naquilo, Lass.
O menor apertou os dentes, sentindo uma pontada com aquelas palavras. Mas o maior continuou.
— No entanto... aquilo não vai se repetir. Você sabe como eu... Eu ainda não sei o que fazer direito. Não tem como eu ficar perto de você com sentimentos confusos.
— Mas eu pensei que íamos tentar agir normal e nos aproximar.
— “Como irmãos”. Não nos abraçar e masturbar o outro e dizer depois que foi só para aliviar... isso tudo tá indo muito rápido. Eu não posso continuar sendo um filho da puta com você.
— L-Lupus...
— Eu tenho que fazer a coisa certa. Pelo seu bem.
— Você... Do que você está falando?
— Me perdoa. Por tudo o que fiz no passado com você, Lass. Não tem justificativa para os meus atos e não é certo eu tentar agir normal e fingir que nada aconteceu.
O albino piscou, ruborizado. Sentindo-se culpado por não ficar mais emocionado. Agora parecia que o mais velho ia abandoná-lo e ele, de uma forma louca e contraditória, não queria isso.
— Mas-
— Lass. — o mais velho agarrou seus ombros, suspirando fundo. — Eu vou embora do país em breve.
— Q-Quê?!
— Eu vou continuar meus estudos fora daqui. Já tenho especialistas que vão acompanhar meu tratamento também, então não precisa se preocupar.
— Você realmente vai embora?! — Lass soltou as palavras, tão rápido como nunca antes. O desespero de repente batendo. — Mas você não pode me deixar sozinho agora!
Lupus o pegou pela cabeça. Os fios úmidos em seus dedos. Os olhos menos ingênuos, ainda mais interessantes, mais profundos, repletos de uma personalidade incrível.
— Você vai ser ótimo sozinho. Mas eu preciso disso... Para que eu consiga fazer o papel do seu irmão mais velho direito no futuro.
— Você não vai embora... — Lass abaixou a cabeça, sentindo que tudo, absolutamente tudo não tinha explicação. Aquela necessidade de tê-lo ali, um sentimento novo, estava tomando-o, um desespero, uma dor inexplicável.
— Eu estou indo mês que vem. Eu nem contei aos meus amigos ainda. — ele murmurou, acariciando o topo daquela cabeça leve. — Mas nesse tempo, nós não vamos mais nos ver entende?
— N-Não... — o mais novo segurou sua mão.
— A Miriam vai dar conta de tudo. Ela vai começar novos horários e ela vai conversar com você sobre... A terapia.
O menino arregalou os olhos, apertando Lupus.
— Você vai me mandar para o médico?!
O maior respirou fundo.
— Ela vai conversar com você. Mas entenda — nós dois estamos fodidos.
O mais novo balançou a cabeça, algo de raiva começando a surgir. Um pouco do seu orgulho ferido.
— Eu nunca precisei ir em psicólogo antes quando um monte de coisa estava acontecendo. Por que eu iria agora?
O mais velho também, quis ter paciência, mas ele não era a pessoa certa para controlar suas emoções.
— NÓS DOIS vamos para o médico! Você não percebe a merda toda que aconteceu? Eu fiz tanta merda... Eu... — Lupus olhou para o alto, tentando encontrar forças para não quebrar. — Eu não quero que a gente faça tudo errado de novo. Eu pensei tá? Eu refleti! Eu fiquei noites apenas pensando no melhor para nós dois! Como as coisas vão melhorar se a gente está partindo de uma merda pra outra?
— Não foi assim! Foi só-
— Foi sim! Escuta, Lass, eu tenho que... Eu prometi que nunca mais ia te envolver nos meus problemas. Eu quero ser um irmão ideal para você! Eu nunca agi da forma que deveria e me arrependo tanto...
— Mas eu não quero...
— Eu não fui capaz de proteger você. A culpa foi minha. Eu sou o mais velho. O pai pediu para eu cuidar de você e confiou em mim, mas eu menti sobre tudo, as atrocidades que eu fiz... Eu estraguei toda nossa infância...
— Lupus, aquilo não foi sua culpa...
O mais velho o apertou nos ombros um pouco mais, se aproximando.
— A gente precisa encarar o que aconteceu da forma que aconteceu Lass... Eu vou me afastar uns anos, vou colocar a cabeça no lugar. E então, só então, a gente vai poder interagir de novo.
— Não, Lupus-
Tão rapido como aconteceu, tudo tinha terminado. Lass perdeu o agarre nas roupas do maior, que suspirou, tentando não chorar como um bebê na frente do irmãozinho. As costas de Lupus, curvadas, começavam a se afastar. Ele parou um instante.
— Eu vou ficar fora a partir de hoje. Vou continuar indo nas aulas, mas por favor, não fale comigo mais. Vamos nos acostumar a não nos ver de novo.
Lass sentiu o choro começando a vir.
— Você sabe que eu não vou vir correndo por qualquer coisa, mas caso, apenas caso algo muito grave aconteça, me mande mensagem. É claro que eu vou te ajudar. Eu não estou falando que não quero te ver... É que nós precisamos de tempo. A gente tem muito tempo para se acertar ok?
Lass cobriu os olhos, sentindo um pedaço seu indo embora.
— Irmão... — ele chorou baixo, não querendo ver o momento que Lupus saía totalmente de sua vida, deixando-o com toda a carga sozinho.
Lupus apertou os punhos nos bolsos da bermuda, mas se foi, sem mais nenhuma palavra.
Parte 3: Reencontro inesperado (DioxSieg)
— Lupus estava estranho quando fomos embora, não estava?
A pergunta veio de um Dio muito pensativo, surpreendendo o moreno. Sieghart abaixou o olhar, revivendo o momento de minutos atrás, antes de os dois pegarem o carro particular dos Fiammeggianti, dirigido pelo mesmo senhor que Dio chamava de Alfred.
— Animado sem dúvida não estava. — suspirou, cruzando os braços sobre o peito, ainda mais intrigado. — Ele tem passado por alguma situação difícil, disso tenho certeza. Ele têm agido diferente, conversado menos... já apareceu no dormitório muito abalado algumas vezes. Além de que fica pelos cantos lendo uns papéis.
— Sério? Ele nunca fez isso na minha frente.
O moreno balançou a cabeça negativamente.
— Ele não gosta de que os outros cheguem perto ou que saibam como ele está se sentindo... Até comigo a maior parte das vezes. Ele é extremamente reservado.
O mais novo mimetizou o Sieghart, dobrando os braços e murmurando um som de entendimento. Não que ele realmente ligasse para o Wilde ou coisa assim. Tampouco havia ódio para com ele. Acima de tudo, Lupus era muito próximo e uma pessoa importante para seu namorado... ele estava disposto a interagir com ele graças a isso e foi muito clara a forma com que Lupus estava avoado na hora de mandar os amigos embora.
— Ele é bem complicado. — comentou o italiano, suspirando baixo, e voltando os olhos para uma luz que brilhava no bolso de Sieghart. — Seu celular...
O moreno piscou momentaneamente em confusão e puxou o aparelho, apenas para fazer uma careta e desligar.
— Que foi? — Dio indagou, curioso. A face de Sieghart foi divertida e ele disse apenas que era “besteira”, naturalmente deixando de lado.
Assim que os dois começaram um novo assunto, o celular novamente brilhou, contudo, tocando uma música de chamada. Sieghart puxou-o do bolso, com cara de tédio e atendeu, pondo-o na orelha.
— O quê que você quer?... — uma leve pausa ocorreu antes do moreno mudar a postura completamente. — Vô! Desculpa, não foi minha intenção! Não... Eu achei que era outra pessoa.
O moreno deu uma risada acalorada e parou de tensionar os ombros, passando com aquilo umas dicas de como o velho devia ser gente boa. Dio sorriu com aquilo e tentou apenas ouvir, ver como o moreno interagia com a família.
— Mas... agora mesmo? — Sieghart respondeu, confuso, olhando o nada perdido. — Eu estava pensando em ir para-,
O moreno fechou a boca e o Fiammeggianti ouviu em alto e bom tom, a voz poderosa do Sieghart avô, quase gritando com ele na ligação. Sieghart encolheu os ombros e murmurou um “tá bom” preguiçoso e prometeu ir aonde quer que o homem estava exigindo.
Finalizada, ambos se entreolharam, os olhos prata apologéticos e mais lindos do que nunca.
— Posso pedir para mudarmos a rota?
Dio arqueou a sobrancelha, sentindo-se curioso.
XXX
Passado cerca de meia hora de viagem, o que levou o casal a ficar mais aconchegado e conversar sobre vários assuntos, principalmente sobre suas estratégias para o torneio que se aproximava, Alfred direcionou o carro para uma alameda no outro lado da cidade, na qual canteiros de flores curiosas e azuis se estendiam ao longo das largas calçadas. Ao lado destas, a ciclovia por onde pessoas corriam ou praticavam algum outro esporte.
— Uau... — Dio murmurou, olhando por cima do moreno. — Quem fez o design desse lugar está de parabéns.
Sieghart riu com aquilo, mas não falou nada.
O caminho em si não era tão extenso e era possível ver o prédio administrativo de certa distância, escondendo apenas parcialmente o enorme Hotel Blaues, o grande hotel fundado por Eckhart Sieghart. E, ao passo que se aproximavam, a excitação por se aventurar em um novo cenário cada vez mais aumentava para o italiano.
— Escuta, Dio. Meu avô é uma pessoa bem excêntrica, okay? Pode ser que ele esteja já me esperando. Não tenho certeza. Só... não estranha tá legal?
O outro arqueou as sobrancelhas, interessado, e um sorriso brotou em seus lábios ao imaginar um senhorzinho que falava demais e sem papas na língua.
— Está tudo bem, meu pai é um tipo esquisito também, sabe?
— É mesmo?
Os olhos vinho suavizaram no mesmo instante e ele soltou uma risadinha nasal enquanto acariciava a mão do moreno sobre o banco.
— Ele é um falastrão incoveniente e muito chato. Mas acho que a grosseria é pra esconder que ele é um molenga.
Sieghart riu daquilo e conseguiu ver daquela posição a forma gentil com que Alfred olhou pelo retrovisor para o amo. Aparentemente, então, eles tinham uma relação pai e filho ao menos razoável.
— Chegamos, Mestre Dio.
O carro então para em frente a um portal baixo e simples, elegante. As flores, de outra espécie, azuis-escuras, fazendo jus ao nome do hotel. Dali conseguiam ver a rampa e a escadaria firme de pedra, dois ou três lances curtos que levavam às portas giratórias, uma do lado da outra, afastadas por questão de meio metro.
Nenhum deles esperou que Alfred abrisse a porta, já que não gostavam desse tipo de costume. Dio gostaria de ter feito um cavalheirismo com o namorado, porém, Sieghart não tinha um estilo muito paciente com esse tipo de tratamento, então eles apenas saíram e Dio instruiu seu mordomo a deixar o carro com o frentista e aguardar no saguão.
Era por volta das 17h10 quando entraram no edifício, se deparando com um luxo discreto e silencioso. Uma lareira na área de espera, uma cafeteria aconchegante, tons maduros em azul royal e todo tecido em cobre ou tons madeira, letras cursivas e finas nas indicações e poucos letreiros disponíveis.
O recepcionista tinha cabelos pretos e olhos claros. Traços faciais leves e simplicidade no jeito de gesticular.
— Sr. Sieghart, seja bem vindo. — ele cumprimentou com um sorriso leve.
— Florian, é bom te rever. — Sieghart sorriu para ele.
— Igualmente, Senhor.
— E então? Meu avô me chamou aqui, mas não disse para quê.
— Sim, senhor, ele nos intruiu para entregar-lhe a chave de seu quarto. Deixe-me apenas fazer um registro de seus acompanhantes, sim?
Dio tomou um passo à frente e passou os dados para o rapaz, que digitou tudo muito rapidamente no computador, sem ser barulhento ou aparentar apressado. Eficaz, de fato.
— Ele vai ficar comigo no mesmo quarto. — Sieghart apontou para o mais alto, encostando-se no ombro de Dio para falar sobre o balcão. — Pode reservar um quarto próximo para o Sr. Alfred.
— O Sr. Alfred pode permanecer no quarto à frente se não houver problema. — disse Florian, sem muitas delongas.
— Está perfeito.
Foi muito rápido, mas o rapaz, alguns centímetros mais baixo que Sieghart, desceu os olhos em um instante nas vestimentas de verão. Sieghart tinha apenas trocado sua regata por uma camisa de botões, estilo havaiana, preta e verde, enquanto a calça e camisa de Dio tinham secado no sol durante a tarde.
— Os senhores têm acesso a à trocas de vestimentas no closet particular de seus quartos. O Sr. Eck está esperando por vocês na área da piscina.
Sieghart assentiu uma vez com a cabeça e tomou a chave que lhe era oferecida pelo rapaz de cabelo comportado.
— Registro finalizado. — o rapaz sorriu, retomando a postura centralizada. — Os quartos ficam no andar 37.
— Obrigado, Florian.
Os três seguiram então para o elevador, atravessando o enorme saguão e esperaram-no descer.
— Sinceramente, eu não esperava que meu avô fosse inventar uma dessas hoje. Ele disse que ia fazer uma reunião de negócios importante, mas não imaginei que ele ia arrastar o pessoal da empresa para o hotel da família. — suspirou o moreno, observando os números rapidamente caírem.
— Bem, se é assim, você realmente pode dizer que ele é excêntrico. — Dio riu.
— Fazia muito tempo que eu não o via. Ele chegou anteontem, no jantar sabe? Foi bom rever o velho. Ele parece super saudável e continua legal como sempre, diferente do resto.
Os olhos do italiano captaram o sentimento de mágoa na expressão do companheiro, mas logo Sieghart a largou.
Por fim, as portas escuras se abriram, seguido de um toque sonoro delicado e curto. Mas ele não estava vazio. Os três deram espaço para uma jovem moça sair, distraída inicialmente no celular, mas logo ela levantou os olhos. Os olhos azuis celestes, cabelos platinados e longos em um coque mal feito e fios caindo por seus ombros morenos. A pele, Dio arregalou os olhos, escura, parecendo uma amêndoa lisa e brilhante. Ela tinha um corpo... Era incrivelmente linda, mas sobretudo, despojada. Saia azul de praia, top branco cobrindo os seios cheios, proporcionais à sua cintura larga. No umbigo, um piercing prata brilhante. Lábios cereja, fofos.
Foi tudo em um único instante, mas seu sorriso, branco, se abriu de uma forma amável e ela abriu sua expressão como se os conhecesse. Ela abriu os braços.
— Ercnard!!! — ela exclamou, sua voz alta e brilhante como um sol quente. Em um segundo ela estava no elevador, no outro ela estava agarrada totalmente no moreno, seus braços amassando-o pelo pescoço.
Dio sentiu a pele eriçar com aquilo. Todo seu bom humor, tudo o que estava sentindo positivamente, começou a desaparecer quando a bela garota entrou em contato com o corpo de seu namorado. Os peitos amassando-se. Talvez não fosse nada, ele tentou dizer a si mesmo.
— L-Lin! O que você-
Sieghart tentou afastá-la. Ela tirou o rosto de seu pescoço, com aquela expressão de garota levada que dava muitos problemas e puxou a cara do moreno.
Dio teve o impulso de se mover, mas foi tarde demais.
Ver aquilo quase o fez desmoronar. Os lábios de cereja, lindos, nos dele. Sieghart não ficou imóvel nem um segundo antes de virar o rosto sem nenhuma delicadeza. Tão rápido se encostaram, ele os afastou.
O choque fez com que Dio apenas a olhasse incrédulo. Mesmo ele, que era tão livre, nunca tinha tascado um beijo sem fazer algum gesto, um olhar, algo que pedisse permissão para a outra pessoa.
— Você tá maluca?! — Sieghart ralhou com ela, vermelho de raiva.
Ela deu de ombros, olhando-o inocente.
— Que foi??? — ela fez um bico, parecendo não entender o porquê daquela reação.
Sieghart a olhou feio.
— Você não pode chegar assim em mim, Lin! Você sabe disso!
— Afe, é só um beijinho! — ela o fitou chateada, cruzando os braços. — Eu estava com saudade, tá?
Dio apertou o blazer em suas mãos, sentindo que aquilo não era algo que estava pronto para ouvir. Pior ainda, como os dois tinham intimidade daquela forma? Ela parecia ter feito aquilo antes, muitas vezes.
— Peça desculpas. Eu não quero que isso volte a se repetir. — ele disse, firmemente a olhando.
Ela levou os olhos claros do moreno para Dio e dele de volta.
— Desculpa. Da próxima vez eu peço. — ela disse, soltando os braços e parecendo chateada.
— Escuta aqui, não vai ter próxima, Lin.
— ... Nossa, okay. — respondeu ela, com um olhar chateado, mas logo mudou a expressão e ficou à vontade.
O moreno deu um suspiro de cansaço e voltou a apertar o botão do elevador, já que ele tinha fechado e subido para algum outro andar. Aproveitando a espera, ele apontou para a menina, fitando seu companheiro. Mentalmente, Sieghart tremia, pensando o que raios Dio estava pensando daquela interação, pois obviamente eles iriam precisar falar sobre aquilo logo que chegassem no quarto. Dio não aparentava, mas havia algo em seu olhar que o moreno pôde captar. Tranquilo com a situação com certeza ele não estava.
— Dio, essa é Lin Agnecia. — começou, sentindo o ar tenso do mais alto. Talvez para quem não o conhecesse não seria possível identificar as barreiras altas que o rapaz tinha colocado, mas para Sieghart estava tão claro como o dia. E, pior, nunca o tinha visto daquela forma.
O italiano foi mais rápido, estendendo a mão, bem elegantemente como sempre fazia, palma aberta. E ela o fitou apenas um segundo, estranhando o gesto, e logo ela o retribuiu, os lábios volvendo num pequeno sorriso educado. As pontas dos dedos escuros suaves na pele, porém sua estrutura era firme. O maior pensou um segundo, mas conseguia ver que ela não era tão inofensiva como parecia.
— Dio Valico Fiammeggianti. – dizia, enquanto levava as costas da mão feminina aos lábios, depositando um pequeno beijo ali.
— Encantada. — ela respondeu, suavizando o olhar e tomando um ar mais respeitável.
Ao completar o cumprimento ela voltou o olhar para Sieghart, percebendo como o moreno discretamente analisava aquela troca de ambos com uma atenção extra. Era tão óbvio como ele estava nervoso que ela teve vontade de rir.
— Você parece que ficou bem nesse último ano. — disse ela, segurando com as duas mãos uma bolsa de palha pequena e delicada que carregava.
Sieghart não ouviu o sarcasmo que esperava, pois ele realmente não existia. Mesmo quando ambos tinham terminado de uma forma tão desconfortável, ela ainda não possuía qualquer animosidade em relação a si. Talvez esse sempre fora o problema entre eles.
— Sim, melhor do que esperava.
Ela sorriu um pouco mais, tentando esconder uma leve decepção e balançou os sentimentos para longe.
— Isso é bom. Bem, de qualquer forma, fiquei sabendo que seu avô ia viajar de volta para Londres, então eu fiquei doida! Você sabe como ele é, certo? Tive certeza que ele ia retornar ao hotel e fazer maravilhas aqui nessa comida sem graça.
— Ah, eu nem tinha pensado nisso, estava preocupado com outras questões. — Sieghart desviou o olhar, tendo memórias do passado. — Mas é verdade, ele não vai conseguir ficar longe do restaurante.
Ela riu levemente, animando-se.
— E você me disse que ia me levar para algum lugar legal quando eu chegasse. — ela continuou, sem perceber as pupilas de Dio dilatando bem ao seu lado, nem o olhar aguçado que lançou para o moreno.
— Eu disse isso quando você estava comentando sobre vir para a Inglaterra. Por educação.
— Afe, claro que não... Quando você me diz uma coisa eu acredito. Agora vai ter que cumprir a promessa.
O mais velho então suspirou pesadamente, tentando encontrar uma paz interior e a calma necessária para lidar com essa situação. O estresse que o consumia na presença da garota eao mesmo tempo sem poder explicar nada ao namorado estava roendo-o por dentro.
— Não teve nenhuma promessa, Lin. E estou num compromisso muito importante agora ok?
Ela mostrou-se contrariada e franziu a testa para ele.
— Você é impossível, Ercnard. É assim que você faz agora? Fala uma coisa e faz outra?
Naquele momento a tensão se ergueu tão rápido quanto a sujeira sobe no passar do vento. Os olhos azuis celestiais da menina o atravessavam, completamente decepcionada com a sua pessoa. Sieghart não esperava menos, já que ele realmente estava mantendo um contato casual com a ex. Porém, seus sentimentos tinham mudado tanto, ele não queria ter mais nenhum envolvimento e, pior, ela ainda agia como sempre tinha agido. Ela era tão casual. Ela ainda achava que ambos poderiam manter alguma conexão, mesmo quando ela não queria nada com ele realmente.
— Olha, você pode ficar zangada comigo se quiser. Mas eu tenho compromissos importantes agora. — ele respondeu, com a garganta apertada e sentimentos antigos atingindo-o, fazendo-o se lembrar o porquê de ter tido um ano tão péssimo, de como ele tinha se afundado em seus vícios só para esquecer aquela menina.
Ela franziu a testa, crispando os lábios, mas ainda manteve a voz controlada.
— Okay. A gente se fala depois então. — ela respondeu, fazendo um aceno rápido para o italiano e sumindo pelo hall.
Dio destensionou os ombros, contento com a saída da bela moça, porém, intrigado até os cabelos.
“Mas eu não quero assustá-lo com meus ciúmes.” Pensou, fitando Sieghart de uma forma mais suavizada. Estava machucado? Sim. Aquele sentimento de estar sendo traído percorrendo por todo o seu corpo. Contudo, a contradição de sentimentos era curiosa, pois a forma cabisbaixa, o comportamento desajeitado e a face ruborizada do mais velho o deixavam sem ataque.
— O elevador chegou. Vamos subir? — perguntou, distraindo o parceiro por um segundo, torcendo para que sua voz transmitisse seus sentimentos.
— Vamos...
Parte 4: Um sonho chamado “Celus Mare” (DioxSieg)
No instante que se despediram de Alfred, quem evitava observá-los descaradamente – ainda que Dio trocasse olhares com ele quando pensava que Sieghart não estava vendo –, os dois jovens se viraram sem se olhar enquanto o moreno ia abrindo o quarto com o cartão digital. O silêncio mortal.
Dio seguiu o moreno e, ao fechar a porta do quarto atrás de si, Sieghart já tinha se sentado na cama pesadamente.
— Dio, me desculpa, aquilo não era para ter acontecido.
A figura do mais velho sentado não poderia deixá-lo menos preocupado. A expressão em seu rosto de desolação e arrependimento não o permitiram sentir raiva e ciúmes, o que era totalmente injusto. Desde quando ele tinha ficado tão mole por alguém antes?
O italiano apenas suspirou, deixando a maçaneta e caminhando para o companheiro, sentando-se ao seu lado e pegando sua mão.
— Aparentemente vocês tem uma certa história juntos.
— Hah... — ele riu, porém, o sorriso era tão péssimo que Dio desejou não vê-lo nunca mais. — Ela é a minha ex. A que eu tinha comentado antes.
Dio assentiu, acariciando sua mão.
— Olha, eu não estou bravo com você, okay?
Sieghart apertou os lábios e o fitou, ainda meio inseguro, sentindo que tinha uma faca passando em seu peito. Ver o companheiro tão calmo... Ele não sabia se isso era o certo.
— A gente prometeu contar tudo-
Ao passo que as palavras iam deixando sua boca, o toque e vibração do celular os interrompia, deixando o nome de seu avô claros na tela. Sieghart certamente não sentiu alívio, franzindo a testa de uma forma negativa, e seu impulso foi desligar a chamada. Dio foi mais rápido, lendo sua intenção com facilidade e num movimento, tirando o celular do alcance do moreno.
— Nós sempre podemos conversar, Ercnard. Além de que você está muito nervoso agora. Seu avô não vai ficar aqui por muito tempo vai? Liga para ele de volta, ele fez a gentileza de nos convidar.
— T-Tem certeza que a gente não precisa conversar agora sobre a Lin? — indagou, ainda parecendo chocado com tudo.
— É claro. Mas vem cá...
A expressão do moreno suavizou apenas quando o mais alto o convidou, puxando seus braços. Os olhos vinhos, mais uma vez, pareceram dominá-lo, impondo sua vontade. A voz de Dio tomou seus sentidos.
— Eu estou com raiva de ela ter encostado em você. Então eu quero te beijar e apagar tudo o que ela te fez sentir.
Sieghart tremeu dos pés a cabeça, sentindo aquela possessão sobre si resetar seus medos e cobrí-lo de puro embaraço. Ele fechou os olhos, segurando a camisa do mais novo, esperando que ele fizesse o que tinha prometido. E ele fez. Dio o beijou tão delicadamente, desde o canto de seus lábios, tocando-o pelas mãos, convidando-se para abraçá-lo, buscando o moreno com um segundo beijo e esperando que ele o permitisse aprofundá-lo.
Não demorou muito tempo, ambos se afastaram. Dio sorriu de leve.
— Nós conversamos melhor mais tarde, certo? Liga pro seu avô? Ele deve estar esperando.
E de fato o Sieghart-avô estava esperando, muito impaciente aliás, já que o “prato” ia ficar arruinado se eles demorassem mais cinco minutos para aparecerem. Os dois foram se trocar, já sabendo que não tinham muita escolha conforme as opções no closet.
— É na piscina, mas é um restaurante? — Dio indagou, segurando duas opções, uma em cada mão. — Ah... Acho que vou de branco.
— Sinceramente, qualquer um vai ficar ótimo. Eu vou de preto hoje. Quero passar despercebido o máximo possível.
Vestidos, ambos se dirigiram à icônica área chamada “Celus Mare”. Um local de entretenimento extenso com atrações aquáticas e um restaurante estilo “beira-mar” que seu avô amava de paixão e em que comandava a cozinha periodicamente quando ia para Londres (o que era algo e extremamente raro, além de se tornar um evento lendário entre os convidados do hotel).
Lado a lado, os rapazes atraíram os olhares, ainda que não fosse o desejado pelo mais velho. Sieghart ainda não se sentia cem por cento, porém, conseguia disfarçar tudo com um olhar leve e educado. Dio apenas o seguiu, com ar dismissivo para tudo o que estava em volta, dando um ar de “não chegue perto, plebeu”, ainda que ele não se sentisse nenhum pouco assim.
— Ei, aquele homem de marrom naquela mesa no canto do salão, é um associado da empresa do meu avô. O filho dele estuda com a gente e deve estar por aqui hoje. Se ele vier bater papo... — avisou o moreno, falando ao ouvido do mais alto. Dio pôde sentir o aroma do perfume do parceiro, causando-lhe breve prazer.
— Entendi. Pode ficar tranquilo.
— MEU NETO!!!
Sieghart automaticamente encolheu, sentindo os olhares da vastidão de pessoas pelo local, em volta da piscina, pelas mesas da área aberta do restaurante se voltando todos para ele. Ele sorriu minimamente enquanto o velho aparecia pela porta de braços abertos. O rosto vermelho, provavelmente de seu amado álcool. Ele vestia uma camisa toda estampada de diferentes azuis com ondas brancas, bermuda roxa neon e seus acessórios exageradíssimos pratas como sempre. Ele se aproximou com seu corpo enorme e abraçou o garoto pelo pescoço, sumindo com o pobre Ercnard nos bíceps e rindo uma risada tão espalhafatosa que ele parecia mais com um personagem de cartoon. Dio até se sentiu saudoso, sentindo que a energia do homem se igualava com a de seu próprio pai, embora o senso de estilo fosse o completo oposto.
— Seu danado. Eu tive que fazer outro prato porque você demorou tanto para chegar aqui! — ele xingou, largando-o para trás e indo abraçar Dio. — Você que está acompanhando o Ercnard hoje, certo? Não se contenha quando estiver aqui, meu filho. Sendo amigo do meu neto, qualquer filho de Daemon é sempre bem vindo na minha casa.
Dio piscou rapidamente, sentindo o olhar de Sieghart instantaneamente inquisitivo. Aquele velho sabia perfeitamente quem ele era e não tinha medido a língua para falar nenhum pouco.
— Vamos, preparei a mesa de vocês bem perto da fonte.
— Vô, não precisava ter anunciado tão alto, sabe? — Sieghart retrucou, passando os dedos sobre o cabelo, ajeitando os fios rebeldes novamente. Aparentemente, para ambientes de piscina ele sempre estilizava tudo para trás.
— Você e suas frescuras, garoto. E quando assumir a empresa? Como vai lidar com sua imagem, hein?
Sieghart rangeu os dentes, fitando-o feio.
— Você não disse que eu podia escolher o que eu quisesse há um dia?!
— Hm, minha memória está fraca, garoto. Eu devo ter dito algo assim. Ah, sim! Sentem-se, isso mesmo. Gardênia, peça para o Julio liberar os pratos para a gente. — o homem foi falando e sentando os garotos enquanto falava com uma moça de bikini e saída de praia – meio padronizados – que corria atrás do idoso com um pano nas mãos.
Foi então que os dois rapazes pararam para observar o local. Encontravam-se na ala oeste, em uma área aberta, tendo a visão de todo o espaço da piscina e das outras alas, mais afastados e mais no alto, com direito à visão de uma pseudo cachoeira de pedras, junto à parede do prédio, que lembrava muito um despenhadeiro dentro do mar quando se desce para fazer mergulho. A ilusão de que não havia fundo, pedras gigantes e cores variadas de corais ao fundo davam um show oceânico, com o privilégio de observar vida marinha trazida direto da Austrália. Além de tudo, a mesa enorme comportava muitas pessoas, porém, apenas os três se encontravam ali. Tinham toda a privacidade do mundo agora.
— Isso é... — Dio começou a falar, boquiaberto, enquanto se apoiava na borda de madeira da ala suspensa. Se tivesse ali um barco, eles poderiam descer e explorar aquele poço enorme e seria uma experiência mágica.
— Incrível, não é? — Sieghart continuou, apoiando-se ao seu lado.
O idoso deixou os jovens aproveitarem a visão enquanto ia conversar com sua serviçal novamente.
— E você não vem muito aqui? — perguntou o italiano, fitando o moreno, não sabendo onde achava mais interessante olhar, se a paisagem ou seu namorado.
— Não muito. — respondeu baixo, balançando a cabeça. — Quando meu avô não está, alguém da minha família sempre está aqui. Então eu não quero estar, sabe. Às vezes é melhor ficar me ocupando no colégio ou ir pra qualquer boate à noite.
Dio assentiu com aquilo, vendo o avô do companheiro voltando todo animado. Ele gritou desde o fundo.
— Vamos abrir esse apetite com um belo vinho, moleques!
— Vô! — Sieghart resmungou, voltando à mesa e coçando a nuca.
Enquanto sentavam-se, o Fiammeggianti e o Sieghart já iam julgando o prato e o velho já ia servindo as taças com uma animação adolescente.
— Isso aqui, meu neto. — ele estendeu. — Eu encontrei essa belezinha em uma pequena cidade da Sicília. E você não vai encontrar nada igual.
Dio fitou o vinho e não esboçou nenhuma reação, além de não sentir nenhuma intenção por trás vinda do poderoso homem ao lado deles. Ele esperou que o moreno não comentasse, mas aí era pedir muito.
— Você conhece Dio? Já que veio da Itália. — indagou, muito inocentemente.
Dio suspirou por dentro e assentiu.
— É muita coincidência. Esse vinho é produzido em uma das fazendas que minha família toma conta. — explicou, sorrindo levemente. — Realmente, esse é um vinho de altíssima qualidade.
Sieghart arregalou os olhos por um instante. Seu silêncio tomou o espaço apenas o suficiente para que Eckhart começasse a falar sobre o prato magnífico que tinha trazido dessa vez.
— Mas primeiro um brinde.
Os três levantaram as taças e brindaram. Após isso, o velho os distraiu com histórias de pesca e aventuras que havia feito pelo mundo inteiro e Sieghart o entreteve com suas histórias do colégio e seus feitos no esporte principalmente. Dio foi complementando a conversa e conversando aos poucos sobre seu país e sua cultura, que faziam cada vez mais os olhos prateados curiosos. Durante todo aquele tempo ele poderia ter falado mais de si, porém, esteve muito ocupado tentando conquistar o moreno.
“Ainda assim ele começou a gostar de mim”. E ainda assim, ele tinha muita coisa para mudar. Principalmente quando os dois já estavam em um relacionamento sério.
Depois de muitos goles, o velho começou a ficar animado. Ele confirmou com Sieghart sobre a visita no treino aberto de Elesis e também sua partida no final da semana.
E então ele começou a gabar-se, de como o neto era incrível em tudo o que fazia e começou a deixá-lo extremamente sem graça na frente do italiano.
— Garoto, absolutamente ninguém faz ideia, mas para você eu vou contar. Sabia que tudo isso, esse hotel, esse pedaço de barreira de corais, tudo foi baseado num sonho desse pirralho?
Dio arregalou os olhos, genuinamente espantado e encarou o parceiro.
— Como assim... um sonho?
— Bem, tecnicamente, a planta foi elaborada com base nos desenhos que o Ercnard desenhou quando ele tinha cinco anos. Esse moleque vivia sozinho e isolado, então passava um bom tempo desenhando. Um dia ele deu de fazer vários desenhos e falou que tinha sonhado com aquele lugar e daí ele foi incrementando gradualmente. Aquelas reportagens de oceano que ele via só ajudaram para essa imaginação toda e ele aprimorou suas ideias. No final, ele construiu várias partes importantes do hotel.
— Isso é realmente genial! — Dio comentou, olhando para o parceiro, que mal olhava para cima, escondendo a vergonha atrás da taça de vinho.
— Foi uma ideia de criança...
— Ideia de criança! Você tem um dom e sabe disso, pirralho!
Mas de todas as formas, o moreno tentou sair do assunto, tentando fazer o parente trocar de assunto, ainda que estivesse radiante como o dia o quão feliz estava com a admiração e apoio do homem.
O Fiammeggianti apenas apreciou a interação de ambos, contente pelo companheiro ter alguém em sua família em que confiasse.
Depois disso o velho falou sobre os parceiros da empresa que ele precisava constantemente dar atenção ali no hotel e quando não tinha mais nada de vinho, começou a chorar suas mágoas sobre uma moça linda que tinha roubado seu coração.
— Agora sei como você se sentiu com aquela sua namorada, meu neto. Nunca mais deixe uma mulher brincar assim com seu coração ou você vai se arrepender. — ele fungou, o rosto completamente inchado.
— Ai vô, você precisa é parar de beber tanto. — Sieghart riu, dando uns tapas nas costas do senhor e fazer um sinal para Gardênia buscar água para eles.
— Dio, meu garoto. — começou o senhor. — Se puder, cuide do meu neto, para que nenhuma raposa volte a machucar ele de novo.
— V-Vô! — Sieghart balbuciou, tentando fazer o homem parar de falar.
— Eu não estava aqui, mas sua mãe, aquela Erika, me contava tudo. Não pense que eu não sei, garoto. — o velho fungou de novo. — Você é muito novo para desistir de tudo por causa de uma paixão. E seu pai, ele precisa levar um cascudo de novo, para parar de pegar no seu pé. Aquele sem coração!
— Vô... Gardênia, por favor, chame o mordomo dele para levá-lo ao quarto. — Sieghart pedia enquanto batia de leve nas costas do homem, esparramado na mesa. — Ele não pode mais beber hoje. Ele deve ter estado bebendo desde o início do dia.
Dio riu nasalmente.
— Igual a gente?
Sieghart o olhou feio por um instante, preocupado com o que a mulher ali iria achar. Dio deu de ombros, achando graça da situação.
Não muito depois, o mordomo pessoal conseguiu levar o idoso para seu quarto na cobertura e deixou os dois em seu espaço, sozinhos o suficiente para parecer um encontro.
— Q-Quer pedir mais alguma coisa? — Sieghart indagou, meio nervoso agora que estavam sozinhos e a noite já entrava mais escura.
Dio negou levemente e sentou-se mais perto. Ele apoiou o queixo e tomou daquele vinho, tão seco e ao mesmo tempo tão satisfatório. Seu desejo era passar o braço pelo pescoço do outro, trazê-lo para se apoiar em si e ficarem preguiçosos vendo a paisagem. De repente uma ideia passou por sua mente e ele pegou o celular.
— Vamos tirar uma foto juntos?
Sieghart arqueou a sobrancelha, estranhando o pedido.
— Isso não é muito a sua cara, sabe?
— Você pode não ter tido essa impressão antes, mas eu sou bem romântico tá? — ele riu, puxando o moreno para perto. — Vai parecer que somos só amigos, certo?
Aquelas palavras... Ercnard pensou calmamente enquanto o mais alto murmurava sobre o melhor ângulo, sobre a iluminação e tudo. Ele achou divertido que o rapaz conseguisse se animar com coisas tão bestas e sobretudo, se divertir junto a uma pessoa como ele. E quando viu, a câmera estava apontada para os dois, Dio fazendo um gesto bem relaxado e amigável. Quem olhasse não duvidaria que eram apenas ótimos amigos. Só que... ele queria que houvesse essa dúvida. Aos poucos uma coragem ousada ia nascendo em seu coração.
O rosto de Dio se verteu num espanto e extremamente vulnerável. Sieghart apertava seus rostos juntos, abraçando o pescoço do mais alto, os corpos grudados. Seus lábios tocavam a bochecha esquerda do namorado, num meio sorriso desajeitado enquanto o maior segurava o celular no alto.
— Vai, tira logo. — Sieghart murmurou, o rosto cada vez mais ruborizado.
Dio bateu várias fotos naquele mesmo instante, sabendo que sua cara tinha ficado estranha, mas em certo momento seu risinho de felicidade saiu, decidindo qual foto seria a que eles se lembrariam sempre. As memórias voltaram com força dos momentos anteriores daqueles dois dias. A antecipação gradualmente o matando.
— Está muito quente... acho que a gente devia dar um mergulho. — propôs o italiano.
O mais velho o soltou, bebendo uma última vez, apoiando os cotovelos na mesa, seu sorriso envergonhado voltando.
— É... eu acho que a gente poderia resfriar um pouco.
Parte 5: Votos (DioxSieg)
A partir do momento que ambos mergulharam, todo o resto das preocupações pareceram sumir. Um grupo de conhecidos vieram se aproximar para conversar com eles, tendo a atenção usual da parte do casal, e logo mais dispersaram percebendo que os dois herdeiros estavam ali para descontrair.
— Ah, o que eu não daria por uma batida agora. — comentou o moreno enquanto subia da água e apoiava os dois braços na beirada da larga piscina.
Aqui e ali juntavam-se algumas garotas conversando, algumas boias de corpo, mas era tão grande que havia largos espaços entre si. Um ou outro grupo masculino jogavam jogos nas mesas no entorno e a música tocava alta no bar principal. Uma bartender muito famosa fora contratada para o hotel e atraía muitos curiosos além dos inúmeros clientes fiéis. Miho Gu’ngen era por si só uma estrela.
— Álcool e piscina não combinam. — Dio respondeu enquanto se aproximava e o imitava. — Mas claro, eu sempre estou aqui para cuidar de você se realmente quiser beber mais.
Os olhos do rapaz o analisaram alguns segundos, vendo os fios desordenados para trás. O Fiammeggianti pingava água, escorrendo pela clavícula funda e pelo meio do peito protuberante. Sieghart riu e negou rapidamente.
— Não, talvez só um mocktail.
Dio sorriu com aquilo, os dentes brancos e pontiagudos aparecendo levemente. Ele se impulsionou para cima, fazendo o mais velho se afastar. Sieghart foi para fazer o mesmo, mas recebeu uma bola na cabeça.
— Pode deixar que eu busco nossos drinques. Fica aí.
Ele disse, acenou e se afastou, causando um alvoroço nas meninas que se deitavam nas cadeiras de descanso logo à frente. Sieghart girou os olhos, porém, não conteve seus olhos de namorarem a figura do parceiro. O desenho de seu corpo escultural, bem típica de jogador, os cabelos um pouco maiores do que quando tinha chegado no colégio e a escolha tosca de uma sunga branca com listras pequenas e cinzas. Ficava ótimo nele, mas céus... Só ficaria bem nele uma peça daquelas.
Ercnard o observou passar pela nova mesa em que tinham se assentado e vestir seu longo robe de praia negro. Dali ele olhou para a sua direção. Sieghart no impulso, virou o rosto no antebraço, envergonhado por ter sido pego olhando. Ele rangeu os dentes de raiva, sentindo por intuição que o outro estava rindo da sua cara.
O tempo passou e o moreno resolveu ficar à vontade, dando algumas braçadas para se distrair, além de conversar com alguns convidados mais fixos do hotel, que o conheciam há tempos.
E nisso, durante sua discussão sobre os pontos turísticos mais interessantes para se abrir um negócio comercial, o mais novo apareceu na borda, atrás do grupo sentado.
— Ercnard. — chamou ao lado, trazendo toda sua atenção e o de outros três jovens.
— Dio, — sua voz suavizou instantaneamente, seus olhos descendo para o copo redondo nas mãos largas. — Obrigado. Então, esses são uns colegas da época do fundamental, esse é o Han, a namorada dele, a amiga dela e-
Ambas as garotas na água se entreolharam, um rapaz cotovelou o outro. Sieghart ia continuar a apresentá-los, mas quando deu um gole da bebida colorida, seus olhos fecharam-se um instante.
— Uau... Nossa, o que é isso? — o moreno perguntou após um gole de total satisfação, sentindo um calor delicioso em seu rosto. Ele fitou o companheiro, espantado. Dio riu discretamente e bebeu do seu próprio, uma bebida vermelha-sangue.
— Depois te conto. — segredou, chegando mais perto de seu rosto e entregando seu próprio copo. — Experimenta o meu.
Os dois trocaram e Sieghart franziu a testa antes de devolver e dar um sorriso animado:
— É a sua cara? Hahah~
Dio sentiu seu estômago apertando com a reação do rapaz. Era uma pena que eles não pudessem fazer demonstrações de carinho, mas ainda assim ele deu uma cotovelada delicada no braço do moreno, rindo de volta.
— Vocês se dão tão bem, Sieghart, não esperava isso. — comentou o colega sentado bem ao lado.
Dio se inclinou para olhá-lo melhor. Um rapaz alto e de cabelos negros, seus traços eram bem asiáticos e tinha ótima estatura. De repente, ele se recordou de tê-lo visto antes e boas impressões foram relembradas.
— Kosugai Endo. — Dio disse em alto e bom tom, estendendo a mão para o rapaz, sendo bem recebido.
— A última vez que nos vimos foi no evento da Armani.
Dio assentiu, contente por ver alguém conhecido. Ele tocou o ombro do moreno, que via a conversa com curiosidade.
— Foi mesmo. Ercnard, vocês já se conhecem? Nós nos conhecemos de desfiles.
— O mesmo. Ele é um entusiasta, não é mesmo Ken? — Sieghart confirmou. — Minha mãe insistiu para eu acompanhá-la na Fashion Week da Prada.
— Coleção de Inverno do ano retrasado.
O italiano arregalou os olhos, se interessando de repente.
— Eu também fui ver essa coleção. Na época eu estava acompanhando minha amiga Rey.
Com isso, deu-se início a uma longa e animada conversa, causando agitação em todos do grupo, levando-os a sentar-se à mesa e ficarem por lá até bem à noite. Não perceberam a hora passar até serem interrompidos.
— Baby, tá na hora da gente ir deitar. — a menina mais nova murmurou, abraçando o pescoço de Han.
— Nós também precisamos ir... Adoraria ficar, mas... — Endo também falou, apontando sua irmã mais nova, que parecia com muito sono para continuar. — Mais tarde eu tenho um compromisso também.
— É...? — Ercnard indagou, arqueando a sobrancelha. — Que tipo de compromisso?
O rapaz lhe deu um sorrisinho secreto e apontou com os olhos para o outro lado da piscina. Sieghart pensou que estava vendo errado e, ao tentar tirar sua dúvida com o colega este apenas deu de ombros, como que confirmando junto a um olhar sacana. O moreno não comentou nada, mas fitou novamente a pessoa em que Kosugai estava interessado, se tornando pensativo após aquela mínima conversa.
Após algum tempo a sós, o Fiammeggianti lhe trouxe uma nova bebida, sem álcool como a de antes, e sentou-se à sua frente. Os olhos prata estavam fixos, mexendo o canudo demoradamente e um sorriso cansado. Algumas pessoas ainda estavam na ala norte (a da piscina) embora a maioria estivesse conversando nas mesas.
— No que você tá pensando? — indagou, alcançando o pé do rapaz com seus dedos, lhe dando um leve chute.
O outro pôs o copo nos lábios e pensou um pouco, fitando-o com profundidade. O céu sobre suas cabeças escuro, poucas estrelas à vista, mas com uma lua bastante visível. A luz azul índigo da ala oeste se espalhava no alto, causando um efeito misterioso sobre todo o espaço, sereno e cheio de quietude. Dio imaginou como ali deveria ser durante a madrugada.
— Como é sua família, Dio? Seu pai é legal com você?
A pergunta o pegou de surpresa e ao mesmo tempo não. Ambos tinham prometido conversar sobre as coisas importantes quando se vissem novamente. Era certeza que não conseguiriam fazer isso num quarto, só os dois.
A visão de um homem sério e duro apareceu em sua mente. O terno sempre impecável, a voz grave, cabelos sempre alinhados. Ele não era nada parecido com ele. Mas quando se tratava de personalidade... Quando lembrava de sua família sentada à mesa ou na varanda, ou na lareira... o cheiro do seu pai era de tabaco e vinho. Ele adorava contar histórias. Ele sempre fazia birra quando perdia nos jogos. E ele puxava sua orelha na frente de todos, lhe dando poucas palavras. E então, a contraste de tudo, quando o homem passava discretamente, lhe dava uma piscadela, ou um toque no ombro, ou à noite quando sentava com sua prima e ficava se gabando escondido das coisas que Dio fazia ou como ele ia bem na escola. Dio sabia qual era seu maior privilégio naquela vida.
— Ele é o melhor pai de todos. — ele riu, sabendo que nunca teria dito em voz alta para ninguém. Absolutamente ninguém sabia como os dois se amavam tanto, mas ninguém sentia isso quando os via juntos.
Sieghart não soube o que sentiu; se inveja ou orgulho. Mas seu sorriso foi feliz para o companheiro, vendo-o tão sincero sobre algo. Pareceu mesmo que tinha encontrado a pessoa certa, pois aquela felicidade toda, parecia que era transmitida para dentro de si e ele acabava espelhando aqueles sentimentos.
— Você vai adorar conhecer ele. — Dio continuou, apoiando o rosto na mão. — Ele é muito centrado no que faz sabe? Ele odeia deixar trabalhos para trás. Tipo você sabe?
— S-Sério? — Sieghart balbuciou, ficando vermelho com a comparação. Mas Dio apenas continuou, assentindo com a cabeça.
— Ele é um velho durão e você não vai perceber porque ele é muito sutil. Só que todos os subordinados foram integrados à Famiglia por causa da bondade que ele tem. Ele poderia simplesmente ter ignorado a necessidade do povo, mas ele admitiu todos que demonstraram lealdade.
— Parece muito como... Um grande clã ou algo assim? Minha família é composta apenas de parentes sanguíneos, mas é relativamente extensa. — explicou o moreno, mexendo o pé de volta e beliscando o namorado, que fez uma careta e afastou os pés.
— Tem isso também, nossos parentes vivem a maior parte ou na cidade ou em outras partes da Itália. Minha mãe já é falecida há muitos anos, e os parentes dela vivem na Sicília e não são muitos. Eu passo boa parte do tempo lá nas férias, aliás. No resto do ano eu passo em Veneza estudando.
— Mas não é sua cidade é?
— Eu nasci na Sicília e meu pai vive em Veneza. Eu vivo viajando de um lugar para o outro. Ah, mas essa é a primeira vez que estudo fora do país.
Sieghart assoviou e continuou sua própria trajetória desde a Alemanha para Londres. Os dois continuaram as histórias até certo ponto.
— Minha família, Ercnard... — Dio começou, apertando os dedos e murmurando somente para que ele ouvisse. — ... É como se fôssemos meio que uma máfia?
O moreno o fitou como se ele estivesse zoando.
— Você está tirando uma comigo.
— Nós cuidamos de muitos assuntos na cidade. Temos certo envolvimento político, cuidamos de boa parte da desordem social e certa influência no comércio local. Meu pai realmente tem uma rede poderosa na região. Mas não vou entrar em muitos detalhes porque... Bem, é complicado contar isso para as pessoas.
— Bem... — Sieghart parou um instante e repensou. — Acho que você está exagerando certo?
Dio deu de ombros.
— Exagerei um pouco. Mas se você for comigo, conseguiria ver por si mesmo o tipo de coisa que fazemos. Não é nada demais.
— Vocês... Vocês fazem coisas perigosas? — indagou o moreno, sentindo que o choque de realidade estava demorando para bater.
Dio riu, um olhar um pouco escuro demais para seu gosto.
— Se espancar alguns idiotas conta como perigoso, acho que sim. Pode dizer que faço coisas perigosas.
— Dio, você não está falando sério...
— Olha. — Dio coçou a testa, nervoso internamente, sabendo que tinha se empolgado e falado demais. — Não é exatamente desse jeito, mas eu garanto que não é como nos filmes. Quando você for conhecer meu pai, você vai ver... Se você quiser ir, claro.
E após toda aquelas novas, o moreno tentou ignorar a parte em que ele estava morrendo de insegurança e voltava a focar na parte boa.
— Ver seu pai. Mas como isso funcionaria? Nós iríamos como amigos? — a pergunta soou até sofrida. Sieghart abaixou os olhos, sentindo que gradualmente ficava mais exigente. Ele mesmo não conseguia se assumir para os pais, como poderia exigir isso de Dio?
— Iríamos como casal.
Um arrepio passou por sua pele, tirando-o da órbita por um segundo. O moreno mordeu o lábio, sentindo-se desproporcionalmente emocionado com a assertividade do companheiro.
— Mas, isso ia dar certo? — riu de uma forma miserável e perdida, sentindo os olhos pesados. — Eu não posso te apresentar pro meu pai... Ele simplesmente não aceitaria. — o moreno suspirou pesado, sentindo a cabeça doer. — Ele já não me aceita como eu sou... Minha mãe nunca teve coragem de ir contra ele por mim. Já meu avô... você viu como ele é. Eu não acho que ele me humilharia totalmente, mas isso é algo que não consigo garantir...
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Os olhos prata se levantaram impetuosos e em fúria. Ele não sabia de onde vinha, mas aquela mágoa o machucava desde o fundo da alma.
— Eu não vou conseguir viver quieto sobre isso. Eu odeio me sentir assim... Eles vão te odiar e me odiar mais ainda.
Dio sorriu de novo, tomando sua mão, fazendo-o respirar uma vez.
— Mas você tem a Elesis.
O moreno arregalou os olhos, lembrando da prima, de como ela tinha mudado com Lire. E como ela o tinha defendido de Marie, de seu pai, ficado ao seu lado desde crianças mesmo quando ele não a queria mais por perto.
— E seus amigos, certo? Eles não mudaram a maneira de agir com você. E seu time no colégio está do seu lado. Eu estou com você. Se você decidir que não precisamos contar para ninguém, nós podemos simplesmente esconder de todos e eu não vou ligar por nada nesse mundo. Mas se algum dia você quiser encarar quem quer que seja, eu vou estar com você. Estamos juntos nessa certo?
O quão abençoada é uma pessoa que tem um parceiro que o apoia e caminha a seu lado em todos os momentos, bons e ruins? Alguém compreensivo e amável que está disposto a carregar seus medos e depositar seus próprios em prol de um relacionamento honesto.
Ercnard inclinou o corpo sobre a mesa, sentindo seu coração na boca. Seu braço se estendeu como se antes de seu cérebro completar o comando. Num reflexo natural, numa atração magnética causada por uma força divina.
— Dio... — seu lábio já estava abraçando os dele, as palavras em seu idioma nativo escapando naturalmente de sua boca. — Eu te amo...
Só havia os dois ali. Ninguém havia visto. Ninguém tinha ouvido. E ao mesmo tempo todos tinham presenciado e o universo aprovado.
Dio não teve tempo de devolver, sentindo-se tão quente quanto na primeira vez que o viu. Um desejo crescente nublando sua mente da realidade.
— Vou para o quarto. — Ercnard murmurou, pegando seu celular da mesa com uma velocidade incrível e saindo às pressas, quase que fugindo. E sumiu, saindo do local, deixando-o para trás. E era totalmente sua culpa. Ter feito o moreno ser tão... tão irresistivel, adorável, perfeito.
Continua
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