Identity

5 Capítulo 4 — Maré


Notas iniciais
Eu sei, eu sei gente que um mês é muito tempo, mas estou de volta. Finalmente de volta e agora é pra ficar.

Pov. Cheryl Blossom

É engraçado como ás vezes você nem percebe que está com fome até alguém te oferecer comida. Esse era exatamente meu caso, não queria aceitar aquela maçã, mas quando me conformei e a comi pude sentir meu estômago agradecendo a Jughead. Não sei como não percebi antes que precisava comer...

— Sabe, Cheryl, você não precisa comer rápido desse jeito. Não vou tirar a maçã de você... — sem deixar a fruta de lado dou um sorriso irônico pra ele.

— Como se eu fosse permitir.

— Como se você precisasse permitir.— ele responde e eu caio na gargalhada. Que merda é essa que está acontecendo? Jug me acompanha e por um segundo eu esqueço do resto do mundo, de todos os meus problemas e preocupações constantes. Infelizmente essa sensação foge muito rápido e quando me dou conta já não sorrio mais. Me sinto miseravelmente triste como se nada no mundo pudesse me tirar desse desespero e lamento constante.

Ás vezes me sinto carregada por uma maré, não tenho escolhas reais, só sou levada de hora em hora, de dia a dia, onde os outros dizem que eu deveria estar. Não sei porquê ainda estou aqui, porque me dou trabalho de viver quando na verdade não faço ideia do que estou fazendo com a minha vida...

— Vamos começar nosso trabalho? — Jug pergunta me despertando do meu transe.

— Claro... O que você sabe até agora sobre o crime?

Calmamente Jughead me explica que ele sabe muito pouco sobre o que aconteceu. Pelo o que foi narrado por Archie e o restante das testemunhas, um homem encapuzado entrou no Pop’s na manhã de domingo, sua intenção aparente era assaltar a lanchonete, sendo o pobre Fred apenas um efeito colateral de tudo isso.

Não precisamos discutir muito para chegarmos a conclusão de que não parecia um assalto. Todas as testemunhas confirmaram que Fred Andrews não representava ameaça ao assaltante. Por que então o bandido escolheu atirar nele ao invés de no funcionário que forneceria a ele o dinheiro? Também ao que parece o meliante não levou uma quantidade significativa de dinheiro, tudo isso junto leva a uma tentativa de assassinato, mas quem poderia querer matar Fred?

Tento ser bem racional e aos poucos criamos uma lista de possíveis suspeitos:

Hermione Lodge (Sócia da vítima)

Mary Andrews (Mãe do Archie)

Algum ex-funcionário demitido por ele

Essa é só uma lista preliminar, mas já fico feliz. Me sinto útil, pensar no caso é como uma poção do esquecimento, enquanto discuto com Jug quem teria mais motivos de matá-lo toda a minha dor fica esquecida.

— Acho que fizemos um bom trabalho para um primeiro dia. Preciso ir. — fala Jughead interrompendo nosso trabalho depois de olhar a hora.

— Posso saber para aonde você vai? — pergunto sem muito pensar no assunto. A verdade é que não quero ficar sozinha.

— Desde quando é do seu interesse? — questiona ele.

— Não precisa responder. Não é da minha conta.

— Vou visitar o Fred e sair com a Betty depois. Eu teria te convidado se você não estivesse escondendo sua presença... Tudo bem por você eu sair? — questiona ele e seu tom de preocupação é tão claro e patético que sinto raiva. Por que o único sentimento que desperto nas pessoas é pena?

— Desde quando eu me importo com o que você faz? Não é como se nós fossemos amigos ou algo assim — respondo grosseiramente e me arrependo assim que falo. Jug não merece esse tratamento.

— Achei que fossemos amigos depois de ontem. Eu me importo, Cheryl, realmente me importo. Pensei que já soubesse.

— Obrigada, Jug, de verdade por ontem e por hoje, mas não somos amigos. Não se esqueça disso.

— Entendi, não precisa ser grossa. Eu só estava tentando ser seu amigo, te ajudar de alguma maneira, mas se você não quer. Se prefere se submeter a essa solidão à toa. A escolha é sua...

— Como se fosse realmente uma escolha...

— E não é? Eu deixei de lado todo nosso passado pra te ajudar, mas você prefere me afastar e eu não tenho como ajudar quem não quer ajuda.— Jughead sai do quarto e sozinha eu imagino como a conversa poderia ter terminado. Queria dizer tantas coisas, queria gritar para que ele não desistisse de mim ainda, que lutasse só um pouco mais, porém não consegui.

Por mais que eu tentasse minha voz não saía, minha parte danificada é mais forte que a normal e quando ela está no controle nada nem ninguém consegue comandá-la. Me odeio por ser tão fraca, por não conseguir nem pedir ajuda.

— Nada, Jug, não há nada mais a ser feito de qualquer modo. Nada que pudesse realmente fazer diferença. — digo quando sei que ele já está longe demais para me ouvir. Deitada na minha cama espero que o tempo passe. A mesma parte minha que grita constantemente sobre a minha inutilidade ainda está sob controle. Como um monstro ela me amedronta e grita para que eu faça algo, qualquer coisa para mudar essa merda de vida. Corro para o banheiro mesmo sabendo que alguém pode chegar, deve ter alguma gilete lá.

No banheiro, com a porta trancada e uma gilete barata, que encontrei na gaveta, eu começo. Minha coxa já está cheia de cicatrizes, olho para ela por um bom tempo para cada marca feia e excruciante e sinto ainda mais raiva. Quando vou conseguir superar tudo isso?

Não aguento mais estar sozinha o tempo todo, não aguento mais encontrar pequenos consolos, que no fim das contas só aumentam meu sofrimento depois. Por mais que Jug tente ser meu amigo nunca vai ser de verdade, como ninguém nunca foi.

Serei para sempre a filha imperfeita, não amada e rejeitada. A menina que ninguém quer ter por perto, um lixo de pessoa, odiada ou ignorada por todos, tão covarde que não tem coragem nem de acabar com a própria vida.

Me odeio, eu me odeio mais do que tudo, mas do que todos. Não mereço a amizade de Jug, os bons tratos de Karen ou até mesmo a simpatia de George. Eu deveria ter morrido no lugar do Jason, teria evitado tanto sofrimento pra tanta gente. Eu queria poder pedir perdão para minha mãe, não foi justo ter que me suportar, não foi justo para ninguém que conviveu comigo na escola.

Olho novamente para minha coxa, chego a aproximar a gilete da minha pele, mas no último momento desisto. Vejo os meus pulsos limpos, sem nenhuma cicatriz e faço um corte horizontal no direito.

— Desculpa, JayJay, desculpa, mas você sabe que eu mereço isso. Preciso disso...— sussurro sabendo que se Jason estivesse vendo estaria muito desapontado. Ele me fez jurar anos atrás que eu pararia com isso, o que eu cumpri por dois longos anos mesmo sendo difícil. Agora simplesmente não posso parar, é minha culpa Jason ter morrido, é minha culpa toda a vida dos Blossom ter sido arruinada.

A dor física interrompe todos os meus pensamentos degradantes, me desligo de todo o resto do mundo, só restando eu, a lâmina e meu sangue escorrendo. Sinto como se a dor fosse embora junto com o sangue que escorre pela pia.

Conforme os minutos passam o desespero se dissipa, me sinto mais leve e mais disposta a dar continuidade ao dia. Limpo tudo ao meu redor, inclusive o mais recente corte, que eu cubro com um esparadrapo e volto para o meu quarto.

Com uma blusa de mangas longas desço as escadas em busca do computador que Karen disse que eu poderia usar se quisesse. Me sinto aliviada com menos peso sobre as minhas costas, mas não seria certo dizer que não estou triste por ter caído nesse velho hábito de novo.

Além de trair a promessa que fiz a Jason, me sinto enjoada devo ser realmente louca se a única coisa que realmente me faz me sentir melhor é me machucar. Passo o restante do dia no facebook e na internet tentando me distrair, mas nada adianta. Não por muito tempo e é aí que eu resolvo sair de casa.

Vago pelas ruas do bairro por algumas hora sem saber exatamente o que estou procurando. Já está escuro e eu sei que já deveria ter voltado pra casa, porém confesso que já não sei o caminho de volta. Já devo ter passado por essa rua umas três vezes, mas nada parece conhecido. Onde é que fui parar?

Só consigo pensar que ótimo, Cheryl, muito bem. Se perdendo no seu segundo dia na foster family, Karen vai ficar bem feliz de te ver chegando super tarde. Não tenho nem um celular pra entrar em contato com o Jug, que merda eu faço agora? Pensei quando entrei na mesma rua pela milésima vez. Estou chorando de novo, não sou capaz nem de encontrar o caminho de casa sozinha...

— Posso te ajudar? Já te vi passar por aqui umas mil vezes... — estava prestes a dizer que não precisava quando percebi de quem se tratava.

— George?

— Cheryl? O que está fazendo por aqui?— pronunciou ele rindo.

— Você não sabe como estou feliz em revê-lo. Não faço ideia de como voltar pra casa...— digo ainda nervosa.

— Calma, calma. Para início de conversa onde é que você mora? Não chegamos a esse tópico mais cedo...

— Eu moro com o Jug, sou a nova foster sister dele. Não sei se ele comentou— respondo pela primeira vez sem nenhum tipo de vergonha. A única coisa que quero é voltar pra casa.

— Posso te levar em casa, não fica longe daqui.

— Eu agradeceria muito. — andando nós seguimos por uma das ruas que eu tinha entrado milhões de vezes e em algumas outras que eu não conhecia. George, como de manhã, passou grande parte do caminho tagarelando sobre o bairro e como não se perder nele. Uma aula, que eu deveria ter prestado atenção, mas que não prestei só para variar um pouco.

— Chegamos.— juro que não levamos nem cinco minutos, não consigo expressar minha vergonha. Como puder ser tão idiota?

— Eu estava perto então. Que vergonha...— disse escondendo o rosto e me afastando dele.

— Você é nova no bairro e bem não é como se nós tivéssemos várias placas aqui para ajudar os moradores. Quando me mudei pra cá também não conseguia voltar pra casa sozinho — disse ele enquanto me puxou de volta para mais perto dele.

— Você só está dizendo isso para me animar...

— É, é verdade, sempre morei aqui, você me pegou, mas veja pelo lado bom. Pudemos nos ver de novo.— falou ele perto demais. Normalmente eu me sentiria incomodada, mas levando em consideração o restante do dia. Uma distração viria a calhar.

— É, isso é. — falei ofegante tentando ignorar a proximidade dele. Sua mão está no meu cabelo e sua boca perto de mais da minha orelha.

— Você é linda, sabia? Não parei de pensar em você o dia todo... — instintivamente busco por sua boca, deixando claro o que eu quero.

Ele me beija com desejo e eu correspondo o máximo que posso esperando que ele me toque do jeito que preciso ser tocada, o que não acontece. Suas mãos permanecem na minha nunca e eu gentilmente as puxo mais pra baixo pros meus seios e depois para minhas coxas, esperando que ele entenda aonde que eu quero que ele ponha as mãos...

— Hey, hey, o que vocês pensam que estão fazendo? Karen pode chegar a qualquer momento. Cheryl pra dentro...— Grita Jughead do lado de dentro da porta.

— Você não é meu pai.

— Entra antes que eu te arraste pra dentro. — a voz dele é tão séria que eu nem me despeço de George só entro em casa. Me sentindo de novo um lixo humano, nada funciona, nada é suficiente.

Escuto o início de uma discussão entre Jughead e George, porém não presto atenção. Tenho problemas o suficiente sozinha...

Notas finais
Reviews?? Espero que vocês tenham gostado Se alguém quiser dar sugestões e/ou dicas não se acanhem! Ps: O Ministério da Saúde adverte ser leitor fantasma pode fazer mal a saúde da autora. Comentem sem moderação!