Identidades Indefinidas, Um Mesmo Coração

7 Capítulo 7 - Trocando Ferimentos Com Uma Estranha


Kuroumaru nadou pelo que deviam ter sido várias horas. No que ele estava pensando ao mergulhar no mar daquele jeito quando fugiu da sede da UQ Holder? Deveria ter pego um buggy aquático. Mas ele não tinha acesso às chaves. E não estava pensando em nada quando mergulhou. Mal lembrou de pegar sua espada antes de mergulhar, por pura força do hábito. Aquele mar era imenso… quanto tempo demoraria para ele chegar em terra firme? E se ele se afogasse ali? Bem, graças a regeneração de sua imortalidade, seus pulmões provavelmente se curariam rapidamente e ele apenas voltaria a nadar. Mas realmente faria diferença se ele se afogasse ali e morresse de verdade?

Ele não tinha mais para onde voltar. A única família que lhe restava era seu irmão mais velho, e ele o desprezava por causa do corpo que tinha. Os outros membros de seu Clã também o odiavam por causa disso. E não podia mais voltar para a sede da UQ Holder, não depois daquilo. Não conseguiria suportar ver Touta e Yukihime juntos. Touta nem se dignou a dar uma resposta a ele, estava muito claro como o garoto se sentia em relação ao que Kuroumaru era. Provavelmente sentia nojo do corpo amaldiçoado que ele tinha, e devia odiá-lo por nutrir tais sentimentos por ele. Kuroumaru também não tinha mais para onde ir. Não fazia diferença se ele iria se afogar ali ou não.

Estava tão perdido nesses pensamentos depressivos que surpreendeu-se ao notar que tinha chegado em terra firme. Em uma praia, mais especificamente. A essa altura, já tinha anoitecido, e o lugar estava completamente deserto. Ele estava encharcado da cabeça aos pés, é claro. Depois de se certificar de que não havia ninguém por perto, ele tirou as roupas ensopadas e as torceu, fazendo um jato de água escorrer delas. Pensando bem, aquele lugar devia ser perto de onde Karin e os outros tinham ido cumprir sua missão. Ele não podia ficar muito tempo lá, não queria encontrá-los. Precisaria encontrar algum lugar afastado para passar a noite, talvez uma floresta onde pudesse acampar…

— Não deveria andar por aí sem roupas, mocinha. Ou algum pervertido pode te atacar.
— Eu não sou mulher! — Kuroumaru gritou e atacou por reflexo na direção de onde tinha vindo a voz desconhecida.

A pessoa que o tinha provocado conseguiu se abaixar a tempo de se esquivar da espada dele. Quando se levantou, Kuroumaru viu que era uma garota, mais velha do que ele, porém mais nova do que Yukihime. Devia ter uns 18 anos. Tinha longos cabelos negros e olhos castanhos, e exibia um sorriso irritante, como se quisesse provocá-lo. Vestia uma blusa laranja com babados por cima de um top branco e uma saia muito curta para o frio que estava fazendo.

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— Não é mulher? — ela repetiu confusa — Mas você não tem… ah — ela interrompeu-se — Que raridade. Não esperava encontrar um membro do Clã de corvo Yata pessoalmente.
— Você… sabe sobre nós…? — Kuroumaru estava tão chocado que por um momento esqueceu que ainda estava sem roupas. Quem era aquela mulher afinal? Não tinha sequer ouvido ela se aproximar… e ela ainda sabia sobre o clã dele?
— Sei que o seu clã existe. E sobre a condição fisiológica peculiar de vocês — ela deu de ombros — Mas você ainda é menor de idade, pelo que posso ver — ela exibiu aquele sorriso irritante de novo. Kuroumaru resmungou alguma coisa e começou a se vestir apressadamente — Então, você já decidiu o que quer se tornar? Homem? Mulher?
— Eu quero ser homem! — ele respondeu mais alto do que o necessário, visto que só haviam eles dois na praia.
— Certo, certo — ela riu — Desculpe pela confusão de antes, rapaz.
— Você… parece encarar muito bem tudo isso — Kuroumaru reparou.
— Como assim?
— A maioria das pessoas costumam repudiar pessoas como eu, que não possuem um gênero definido. Quando não sentem nojo, agem como se eu fosse alguma espécie de atração de circo — Kuroumaru respondeu, desviando os olhos para a areia da praia — Mas você está agindo como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Eu deveria sentir nojo? — ela parecia estar perguntando aquilo seriamente — Quero dizer, existe uma porção de tipos de imortalidades diferentes hoje em dia, o seu caso é só mais uma das muitas que existem, não é? Digo, suponho que você seja imortal. Geralmente as pessoas do seu clã são.
— Sim, eu sou — ele confirmou, mal prestando atenção no que estava falando. Não conseguia acreditar naquilo… existia mesmo uma pessoa no mundo capaz de lidar tão bem assim com sua condição? Aquilo sim era impressionante. Seria tão bom se Touta agisse dessa forma… — Gostaria que mais pessoas pensassem como você…
— Ah, é mesmo. Até outros imortais não gostam do seu tipo de imortalidade, não é? — a garota lembrou — Nem as pessoas do seu Clã?
— Fui banido do meu Clã por causa disso — ele murmurou.
— Lamento — ela encarou a areia — Então era por isso que estava tão deprimido?
— Como assim?
— Bem, quando te vi, você estava com uma cara de quem estava tão triste a ponto de querer morrer — a garota comentou como quem fala do tempo — Exceto que você é imortal, então você não pode. Que ironia cruel, né?
— Eu estava tão mal assim? — Kuroumaru apontou para o próprio rosto. Não imaginou que estaria assim tão na cara.
— Estava péssimo. A propósito, ainda está.
— Eu já superei essa história com o meu Clã, não se preocupe.
— Então o que aconteceu?
— Meu mundo inteiro desabou de uma só vez, nada de mais… — Kuroumaru forçou um sorriso — Tentei seguir um conselho dos meus amigos, mas o resultado foi o oposto do que eu esperava. Então eu acabei vindo parar aqui.
— Você fugiu de casa? — ela indagou. Quando o garoto voltou-se para encará-la, a mulher sorriu e acrescentou — Eu fiz a mesma coisa. Por isso estou aqui. Que coincidência, né?
— Estou começando a achar que não é coincidência…
— Sabe, às vezes pode ser melhor conversar com um estranho sobre seus problemas do que com seus amigos — ela ignorou o comentário dele e se sentou. Começou a construir um castelo de areia enquanto falava — Seus amigos já acompanharam o desenrolar dos seus problemas de perto e possuem uma opinião própria já formada. Eles podem estar ou do seu lado ou do lado da pessoa que está te fazendo sofrer. Mas eu não faço a menor ideia do que você está passando. Não te conheço. Nem a você, nem nenhum dos seus amigos, nem a raiz dos seus problemas. Por isso talvez seja melhor conversar com uma pessoa estranha às vezes, nem que seja só para desabafar — ela concluiu, enquanto terminava de construir seu castelo de areia, que mais parecia uma caverna oca e torta de um lado — Bom, é só a minha opinião. Você não tem que me dizer nada se não quiser, é claro.
— Eu acho que não tenho nada melhor para fazer — Kuroumaru sentou-se ao lado dela, abraçando os próprios joelhos.

Então ele contou. Sobre tudo o que tinha acontecido até hoje. Não fazia mais sentido esconder o motivo de ter sido expulso de seu Clã, mas não mencionou o nome Evangeline A.K. McDowell, nem o de nenhum de seus amigos, nem o de Touta, e nem o seu próprio. Ocultou o máximo de fatos possíveis e se focou apenas no principal: seus sentimentos não-correspondidos por Touta. Não sabia quem era aquela mulher, mas ela tinha razão. Desabafar com um estranho, que não podia julgá-lo, realmente fazia bem. Parecia que o peso em seu coração havia diminuído um pouco.

— Puxa, você sofreu bastante — a garota comentou quando ele terminou — É incrível que tenha conseguido passar por tudo isso sozinho durante tanto tempo.
— Eu não estava sozinho. Meus amigos me apoiaram quando descobriram que eu estava apaixonado — Kuroumaru lembrou.
— Mas, pelo que você me disse, suas amigas queriam que você se tornasse mulher para que você pudesse ficar com esse garoto, não é? — ela recordou — E você quer ser homem quando virar adulto.
— Isso mesmo — ele confirmou — Inclusive, uma delas mencionou que, embora eu seja um bom espadachim, não tenho paixão pela luta. E o garoto de quem eu gosto… ele admira homens com paixão. Minha amiga disse que eu não conseguiria me aproximar dele por causa disso. Porque não tenho paixão pela espada. E disse que seria melhor eu me tornar uma mulher. Que eu certamente seria bonita…
— Entendo o ponto de vista delas — a mulher comentou — Quando se fala de casais, as pessoas geralmente pensam automaticamente em um homem e uma mulher. Mas, rapaz, será que você nunca ouviu falar em casais gays? Isso é muito comum hoje em dia. Você pode muito bem continuar sendo um homem e namorar esse garoto.
— Sim, meu amigo também mencionou essa possibilidade, e ela era a minha última esperança… mas não adianta. Ele jamais se interessaria por outro homem.
— Sério? Depois de ele ter te agarrado na maior cara de pau quando pensava que você era um homem, você ainda acha que ele não se interessa por garotos? Ah, qual é, rapaz! — ela começou a rir.
— Não precisa falar desse jeito! — Kuroumaru exclamou, ruborizando. Droga, não devia ter contado essa parte para uma completa estranha — Eu já te expliquei. Depois que eu contei a verdade para ele, deu tudo errado. Ele nem falou mais comigo. Tudo bem que fomos interrompidos, mas mesmo assim… eu o vi junto com outra mulher. Ele… no fim das contas, gosta mesmo de mulheres.
— A mulher que você mencionou não é a mãe de criação dele? — a garota perguntou — Entendo que ele a ame, e tem que amar mesmo, mas seria de forma maternal. Tem certeza de que não interpretou mal a cena quando viu os dois juntos?
— Claro que não — Kuroumaru respondeu — Ele mesmo disse que já se sentiu confuso em relação aos sentimentos que nutre por ela, que não sabia se eram maternais ou se estava apaixonado…
— E talvez quem esteja se confundindo agora seja você.
— Não estou me confundindo — Kuroumaru respondeu — Ele gosta dela, eu sei. Eu sempre soube… mas quis me iludir. Quis pensar que tinha alguma chance com ele, só porque existe a possibilidade de eu me tornar uma mulher. Eu disse isso a ele. Disse que me tornaria uma mulher, se isso o deixasse feliz e o fizesse ficar comigo… mas não adiantou nada.
— Isso foi um grande erro.
— O que?
— Você não deveria ter que mudar quem você é de forma tão radical pela pessoa que você ama — a garota o encarou como se estivesse lhe dando bronca — Se esse garoto gosta mesmo de você, então ele deve te aceitar como você é. Com o seu corpo sem gênero definido. E como o futuro homem que você quer se tornar. Se não for assim, então ele não te merece.
— Mas isso… é impossível — Kuroumaru encarou os próprios pés — Eu quero me tornar homem, desde a minha primeira lembrança sei que desejo isso. Mas também quero ficar com ele. Só que ele jamais me aceitaria como um homem, seria mais fácil se eu fosse uma mulher… eu não posso ter as duas coisas.
— E por que não? — ela perguntou e Kuroumaru a encarou novamente — Rapaz, você parece já ter sofrido bastante na vida. Então, por que abdicar de algo tão importante para você agora? Só vai te fazer sofrer ainda mais. Ficar com a pessoa que você ama ou com o gênero que você escolheu ter? Por que você precisa escolher? Por que você não pode ter os dois? Seja mais egoísta!
— Ser mais egoísta? — Kuroumaru repetiu, e em seguida deixou escapar uma risada — Esse é um péssimo conselho, sabia?
— Finalmente você sorriu — ela comentou. Tinha razão. Kuroumaru tinha sorrido pela primeira vez naquele tinha e nem sequer tinha notado — Pode até ser um péssimo conselho, mas não vai me dizer que você não quer ter as duas coisas?
— É claro que eu quero — ele respondeu — Mas isso parece impossível.
— Não é impossível. Você pode sim manter o gênero que escolheu ter e ainda assim se apaixonar por alguém do mesmo gênero — ela disse — Não estou dizendo isso apenas para tentar te animar. Estou dizendo isso porque sei que é verdade.
— Como assim? — Kuroumaru a encarou desconfiado — Você… já viu isso acontecer?

A mulher se levantou de repente e sorriu diante dele. Aquele mesmo sorriso irritante de quem está tentando provocar uma confusão.

— Se você me derrotar eu te conto — ela respondeu — Vamos lutar.
— Lutar? — Kuroumaru se levantou também — Então esse era o seu objetivo desde o começo, não é? Lutar comigo.
— Claro que não. Estou aqui porque fugi de casa, eu já te disse — a mulher respondeu — Te encontrar aqui foi apenas uma coincidência.
— Está me parecendo coincidência demais — ele falou desconfiado — Você não me disse porque fugiu de casa, por sinal.
— Se você me derrotar, eu te conto — ela respondeu, sem tirar aquele sorriso irritante do rosto — Respondo qualquer pergunta que você tiver se me derrotar.
— Isso não é justo — Kuroumaru reclamou — Te contei um monte de coisas sobre mim, mas não sei nada sobre você.
— Basta me derrotar para saber o que quiser sobre mim. Ou esta com medo de perder para uma garota? — ela perguntou, fazendo o garoto lhe lançar um olhar irritado — Você também mencionou que sua amiga tinha dito que você não tinha paixão pela luta. Que só luta por obrigação, mas que não gosta de usar a espada, e que por isso seria melhor você se tornar uma garota, não é? Posso te ensinar a ter essa tal paixão pela luta. É só lutar comigo.
— Muito bem. Se insiste tanto, aceito seu desafio — Kuroumaru suspirou.
— Ótimo! — ela exclamou — Só tenho uma condição: Nada de arrancar membros do corpo durante a luta. Tudo bem para você?
— Tudo bem, mas… por que isso agora? — ele indagou — Podemos nos regenerar em pouco tempo afinal…
— É que dói muito — ela deu de ombros, ainda sorrindo — Ah, já entendi! Você estava planejando arrancar meus baços e pernas logo no início da luta para poder ganhar mais rápido, não é? Trapaceiro!
— Não! É claro que não! — Kuroumaru apressou-se a dizer — Tudo bem, sem arrancar membros do corpo. Combinado — ele concordou. Notou então que a mulher estava desarmada. Pegou seu par de espadas e estendeu uma para ela — Aqui, pode usar uma.
— É muita gentileza sua, mas eu não sei manejar uma espada — a garota respondeu, surpresa com a generosidade dele — Isso só iria me atrapalhar.
— O que?
— Não faço ideia de como se usa uma espada — ela repetiu — Já tentei aprender uma vez, mas sou uma negação para isso. Usar uma espada durante uma luta só iria me atrapalhar.
— Mas não posso lutar contra alguém desarmada…
— Não se preocupe, tenho meu próprio jeito de lutar. Funciona assim.

A mulher mal terminou a frase e de repente já estava a poucos centímetros de Kuroumaru, com uma das mãos em seu pescoço, apertando-o com força. Kuroumaru não viu quando ela tinha chegado tão perto. Também não imaginava que aquela garota de aparência tão frágil poderia ter tanta força. Seu olhar tinha mudado também. O sorriso irritante desapareceu e seu olhar estava mais sério e mais perigoso. Era o mesmo olhar que ele mesmo exibia quando estava caçando uma presa em suas antigas missões para o Clã.

— Viu? Não subestime seu oponente apenas porque ele aparenta ser uma garota frágil desarmada — ela falou com toda a calma do mundo enquanto apertava o pescoço de Kuroumaru com mais força, erguendo-o do chão até seus pés balançarem no ar — As aparências enganam, rapaz.
— Eu sei disso… melhor do que ninguém — Kuroumaru a atacou com a espada que tinha desembainhado, acertando o braço da garota de raspão e obrigando-a a soltá-lo. A mulher recuou e, enquanto ele respirava ofegante, tentando recuperar o ar em seus pulmões, pensava em como poderia derrotá-la. Ela não usava nenhum tipo de arma. Teria que vencê-la em uma luta corpo-a-corpo. Mas não sabia qual era o tipo de imortalidade dela, então teria que ter muita cautela. Aquela garota podia estar guardando algum trunfo na manga.
— Então você conseguiu escapar. Muito bom! Não teria graça se você tivesse sido derrotado só com aquilo — a garota o elogiou. Ela lambeu o sangue que escorria do ferimento em seu braço, fazendo o sangramento parar.

E então ela fez de novo. Se aproximou de repente e, quando Kuroumaru deu por si, ela estava ainda mais próxima do que antes. Uma das mãos estava em seu ombro e a outra o segurava pelo rosto.

— Você ficou muito fofo quando fez aquela cara de assustado quando eu te peguei de surpresa, sabia? — a garota estava se aproximando mais. Céus, o que ela estava fazendo? Ela propôs uma luta mas, se continuasse se aproximando desse jeito, iria acabar por beijá-lo! — Posso entender porque aquele garoto gosta tanto de você — ela aumentou o aperto no ombro de Kuroumaru, e também segurou o rosto dele com mais força, até suas unhas arranharem-lhe a face — Você é mesmo uma graça. E muito… muito ingênuo!

O disfarce se desfez. Um instante ela estava tentando seduzir Kuroumaru, e no instante depois ela acertou um forte chute no estômago dele, derrubando-o no chão. Antes que o garoto entendesse o que estava acontecendo, ela se ajoelhou em cima dele, prendendo-o no chão com o próprio corpo, e acertou mais uma série de chutes em seu estômago, levantando apenas quando tinha ficado sem fôlego.

Kuroumaru conseguiu se levantar com algum esforço e recuou para longe dela, ofegando. Mas o que raios tinha sido aquilo afinal?! Aquela mulher era forte, com certeza, mas ele nunca tinha visto ninguém usar esse tipo de ataque antes.

— Mas o que… você pensa… que está fazendo?! — ele perguntou sem fôlego.
— Te dando uma surra? — ela arriscou.
— Estou me referindo ao que você fez antes! — Kuroumaru exclamou. Seu rosto ainda estava levemente corado — Você tentou me beijar!
— Ah, então você caiu mesmo nessa? Sinceramente, estava em dúvida se iria ou não funcionar com você — a garota riu — Aquilo foi só uma distração. Geralmente, quando eu me aproximo muito de algum homem assim durante uma batalha, ele fica bastante surpreso, a ponto de perder a concentração na luta e baixar a guarda. E é aí que eu aproveito e ataco.
— Isso é golpe baixo — Kuroumaru reprovou depois de entender a estratégia dela.
— Não, isso é estratégia de guerra — a garota corrigiu — Golpe baixo é acertar um chute entre as pernas de um homem. Mas não adianta usar isso contra você, não é?
— Graças aos céus ainda não — Kuroumaru estremeceu ao ouvir aquilo — Mas isso não vale! Pare de jogar sujo!
— Você tem que usar tudo o que estiver ao seu alcance se quiser vencer uma batalha, rapaz, aprenda isso — a mulher respondeu — E isso não vale apenas para lutas. Também vale para esse conflito amoroso que você está vivendo.

Ela voltou a atacá-lo com uma nova série de chutes, mas dessa vez Kuroumaru estava preparado. Contra-atacou com a espada, desferindo golpes mais precisos a medida que se acostumava com o estilo de luta da garota. Percebeu que ela atacava mais com as pernas e sempre desviava dos ataques dele. Quando não conseguia desviar, bloqueava a lâmina com os próprios braços, sem se importar com a dor de ter a pele rasgada pela lâmina de sua espada. Parecia apenas tentar tomar cuidado para não ferir o rosto. A mulher já estava com os braços encharcados de sangue, a blusa rasgada em um dos ombros, mas continuava desferindo chutes violentos contra ele. Quando conseguiu encontrar uma brecha, ela voltou a atacá-lo com uma nova série de chutes enquanto falava.

— Sabe por que sua amiga disse que você não tem paixão pela luta? Porque te falta motivação para lutar. Ou pelo menos algum sentimento muito forte — ela dizia como quem fala do tempo enquanto o atacava — A maioria das pessoas lutam porque querem proteger algo ou alguém. Mas sabe qual outro sentimento também é muito forte? Ódio — ela disse — Você não odeia os membros do seu antigo Clã pelo modo como te trataram a sua vida inteira? Não tem vontade de se vingar deles por terem te ridicularizado durante todo esse tempo em que você viveu junto deles? Aposto como você gostaria de dar uma lição neles, fazê-los pagar por terem te humilhado durante anos. Afinal, você não tem culpa de ter nascido com esse corpo amaldiçoado. Que você também odeia, por sinal. Você odeia o seu próprio corpo, não é? Você não é nem homem e nem mulher e se odeia por isso.
— Cale a boca… — Kuroumaru rosnou entre os dentes — Eu sei disso muito bem, não preciso que você me diga essas coisas.
— Tem certeza? — a garota insistiu — Você sempre ignorou esse ódio dentro de você, mas eu sei que ele está aí dentro, se acumulando aos poucos… e quando ele explodir, não vai ter ninguém que o segure — ela continuava atacando, mas agora Kuroumaru tinha começado a revidar — Não é apenas os membros do seu antigo Clã e o seu próprio corpo que você odeia, não é? Aquele seu amigo, que te interrompeu justamente na hora em que o garoto de quem você gosta deveria te dar uma resposta e te dizer como se sente em relação a você… você também ficou com raiva dele quando isso aconteceu, não é? Não ficou com vontade de bater nele, ou de xingá-lo pelo menos? — ela perguntou, e tinha acertado em cheio. Kuroumaru tinha desejado coisa pior na verdade.
— Eu disse para calar a boca! — o garoto repetiu, dessa vez atacando com mais força. A garota não conseguiu mais contra-atacar. Precisou recuar, agora mal conseguia se defender dos ataques dele.
— Mas quem você mais deve odiar — embora estivesse muito ferida e coberta de sangue, ela continuou falando — Deve ser aquela mulher que você pensa que tem um caso com o garoto que você ama. Você deve odiá-la do fundo do seu coração, não é? Afinal, ela o criou como se fosse um filho, e ainda assim os dois estão vivendo um romance? Como ela pode se atrever a roubá-lo de você? Não… na verdade, quem você mais deve odiar é a si mesmo. Porque você não teve coragem de lutar pelo homem que ama e, ao invés disso, fugiu de casa como um covarde e acabou vindo parar aqui, em uma praia deserta e lutando com uma completa estranha.
— JÁ CHEGA!

Antes que percebesse o que tinha feito, Kuroumaru já a tinha apunhalado com a espada. A lâmina tinha atravessado o corpo da garota, que permaneceu de pé, encarando-o imóvel por alguns instantes. E então ela sorriu, ao mesmo tempo em que um filete de sangue escorria pelo canto da boca.

— Você encontrou sua motivação — ela murmurou — O ódio geralmente serve para provocar nossos inimigos… deixá-los de cabeça quente e abrir uma brecha para atacá-los. É mais um dos meus "golpes baixos" — a mulher riu fracamente — Mas também serve para aumentar nossa própria força, se você souber canalizá-lo para o caminho certo. Todos temos sentimentos positivos e negativos dentro de nós. Você estava deixando que os seus sentimentos negativos te consumissem… tristeza, desespero, solidão, e ódio de si mesmo… é impossível deixar de possuir sentimentos negativos, mas não significa que você não possa usá-los a seu favor. Eu queria te ensinar isso. Funcionou comigo. Não deixe que seus sentimentos negativos te consumam, rapaz… afinal, você quer proteger o seu relacionamento com esse garoto que você gosta, então… quando estiver lutando… lembre de todas essas coisas que você odeia porque te fizeram sofrer e as direcione para o motivo de você estar lutando. Para proteger… aquele g-garoto… — ela desabou nos braços de Kuroumaru, que a encarava incrédulo, tanto pelas palavras da mulher quanto pelo seu estado físico.

Ele retirou a espada de dentro de seu corpo, fazendo com que ela soltasse um gemido de dor, e a deitou na areia da praia. Só agora tinha reparado que seus próprios ferimentos tinham se curado, mas os dela não. Suas roupas pareciam trapos e ela estava ensopada de sangue.

— Ei, o que aconteceu? — ele indagou — Por que seus ferimentos não estão se curando?
— Eu não te contei antes? — ela disse como quem fala do tempo — Eu não sou imortal.

Notas finais
Olá pessoal! A história tomou um rumo um tanto inesperado, não? Quem será essa mulher que o Kuroumaru encontrou? E por que será que ela está ajudando ele? Algum palpite? Comentem aí, quero saber as opiniões de vocês! o/ Aqui está a imagem dela: http://s1151.photobucket.com/user/teffy-chan88/media/Seitokai-Yakuindomo-Shino-Amakusa-1080x1920_zpsfgogwrto.jpg.html Deixem reviews por favor e façam uma autora feliz!!! *o*