Identidades Indefinidas, Um Mesmo Coração
5 Capítulo 5 - A Verdade Dói
Uma vez que fora proibido de participar do torneio, e não havia chances de fugir de casa novamente com Yukihime presente e vigiando-o o tempo todo, Touta decidiu descontar sua frustração nos treinamentos matinais. Eles estavam cada vez mais intensivos e durando mais do que de costume. Naquela manhã, o treino estava particularmente intenso.
Touta investia com força total contra Kuroumaru, regulando o peso de sua espada apenas quando ficava muito frustrado por não conseguir atingi-lo, pois não achava justo usar o poder da espada durante o treino, uma vez que aquele poder não pertencia a ele originalmente, e Kuroumaru nunca usava uma de suas muitas técnicas secretas contra ele. O amigo quase sempre conseguia aparar ou desviar de seus golpes, às vezes com certa dificuldade, o que significava que Touta estava melhorando.
Quando começaram a treinar, Karin, Santa e Kirie sentaram-se na varanda para assistir. Mas o treino havia se tornado tão longo que os três acabaram ficando entediados e arranjaram outra coisa para fazer, sumindo de vista. Tanto Touta quanto Kuroumaru sangravam com os ferimentos adquiridos e, embora fossem apenas cortes de raspão que se curavam em questão de segundos graças a imortalidade dos dois, não fazia com que suas roupas fossem reparadas. Touta estava com metade da camisa rasgada, exibindo metade do tórax e o braço direito exposto. A calça de Kuroumaru tinha rasgado na barra, fazendo parecer que ele estava usando shortes, e uma das mangas de sua camisa também tinha rasgado, ficando uma curta e a outra comprida.
Ele avançou mais uma vez contra Touta, decidido a acabar de uma vez com aquela luta que já estava começando a perder o sentido, mas o amigo conseguiu bloquear seu ataque. Ele acertou um chute na barriga de Kuroumaru, mas aquilo tinha sido apenas uma distração para o próximo golpe de espada que pretendia aplicar contra o garoto. Kuroumaru, no entanto, conseguiu desviar a tempo, tendo ganhado apenas um arranhão em seu pescoço onde a gola de sua camisa tinha rasgado. Ele se preparou para contra-atacar, mas Touta girou em um movimento rápido para atacá-lo por trás. Kuroumaru virou-se também, para bloquear o ataque e surpreendeu Touta, que ficou indeciso se atacava ou desviava do ataque dele e acabou tropeçando nos próprios pés.
Touta derrubou Kuroumaru junto quando tropeçou e, de alguma maneira, tinha caído em cima do garoto. Kuroumaru tinha batido a cabeça no tronco de uma árvore e fechado os olhos por causa da dor. Quando os reabriu, viu-se encostado contra o tronco da árvore, com Touta ajoelhado em cima dele, as pernas entrelaçadas com as suas. Ambas as espadas jaziam longe do alcance dos garotos, mas isso não parecia importar no momento.
De novo. Touta sentiu seu rosto queimar de novo. Por que estar tão próximo assim de Kuroumaru o deixava tão agitado? Assim de perto podia observar cada traço de seu rosto, os orbes castanhos arregalados encarando-o, a pele delicada e ruborizada (Touta tinha a impressão de que ele estava sempre corado, embora não soubesse o motivo), os lábios macios entreabertos… bem, pelo menos pareciam ser macios. Por um instante fugaz, Touta ficou com vontade de comprovar se eram realmente macios ou não. Ora, mas como ele faria isso? Não podia simplesmente dizer "Ei Kuroumaru, posso te beijar só para ter certeza de que seus lábios são tão macios quanto parecem?". Ele provavelmente apanharia se falasse algo assim. E enquanto seus olhos percorriam o rosto do garoto, ele percebeu que o machucado que havia feito em seu pescoço ainda não havia se curado. Era pouco, mas ainda havia um filete de sangue escorrendo ali. Pensando bem, a pele de Kuroumaru parecia ser bastante macia também… tão macia que Touta nem percebeu quando tinha se aproximado tanto dele a ponto de cravar os lábios no pescoço do garoto e começar a sugá-lo até ouvir Kuroumaru gemer.
— T-Touta…?! — Kuroumaru arfou, amalidoçando-se mentalmente. Droga, ele não conseguiu se conter dessa vez, tinha soltado aquele barulho contrangedor — O q-que pensa que está f-fazendo…?
— Eu… — Touta parou por um instante o que estava fazendo. É verdade, o que raios ele estava fazendo?! O que poderia responder para ele? Nessa situação, Kuroumaru poderia acusá-lo de assédio sexual e Touta não poderia culpá-lo por isso. Até que uma luz, vinda sabe-se lá de onde, veio à sua mente — Eu sou um vampiro. Preciso de sangue. E seu pescoço estava sangrando, então me deu fome — ele respondeu, e continuou com o que estava fazendo, lambendo o pescoço do garoto, sentindo o corte que ele mesmo tinha feito com a ponta da língua e ouvindo Kuroumaru gemer em seu ouvido. No fundo, Touta sabia que estava errado, mas não conseguia parar. A pele dele tinha um sabor intoxicante. E não tinha nada a ver com o sangue que havia escorrido do ferimento, que Touta já havia lambido a algum tempo aliás (e que não tinha um gosto muito bom, por sinal). Aquela era uma baita desculpa esfarrapada, Touta sabia disso. Nunca tinha tomado sangue em toda sua vida, mas não lhe ocorreu nada melhor para dizer.
— Você está mentindo para mim — Kuroumaru juntou forças sabe-se lá de onde para dizer isso e conseguiu empurrar Touta para longe de si — Você não quer o meu sangue — ele tocou os lábios de Touta, que sentiu o rosto corar involuntariamente outra vez, alheio ao fato de que o outro garoto só queria verificar o tamanho de seus dentes — Você não tem presas. Não precisa beber sangue. Por que estava fazendo isso?
— Ah… é que… — Touta coçou atrás da cabeça, sem saber o que responder — Na verdade eu não tenho certeza. É que eu… não fique chateado com isso, mas é que ultimamente eu… meio que tenho me sentido atraído por você, Kuroumaru — Touta confessou — Eu não sei bem por quê… acho que deve ser aquilo que dizem sobre quando você está entrando na adolescência, sabe? Seus hormônios ficam à flor da pele, você começa a ficar curioso sobre certas coisas, com vontade de experimentar coisas novas… deve ser algo assim — ele riu sem graça. Céus, o que ele estava dizendo? Não era nada disso! Desse jeito só iria deixar Kuroumaru zangado! Mas então, o que ele poderia dizer?
— E você fez uma coisa dessas só por causa disso? — Kuroumaru indagou de cabeça baixa, de modo que a franja escondesse seus olhos. É claro… o que mais poderia ser? Não podia esperar que Touta gostasse dele de verdade, sendo o que é. Mas, fazer algo assim "só para experimentar"… era cruel demais. Mas provavelmente era tudo o que ele poderia ter. Alguém como ele, que não era homem e nem mulher, não deveria ter a ousadia de desejar mais do que isso. Na verdade, deveria agradecer por receber essas migalhas.
— Kuroumaru… desculpa — Touta falou hesitante, estranhando aquele longo silêncio do amigo. Geralmente Kuroumaru daria um longo sermão nele, não ficaria quieto assim — É claro que não fiz isso só para experimentar, eu… é que eu, bem… ora, e por que você está reclamando? Você bem que gostou! Se não tivesse gostado, não teria ficado gemendo daquele jeito! — incapaz de encontrar um argumento, Touta resolveu mudar de tática e tentar virar o jogo.
— O que?! E-Eu não fiquei g-g-gemendo coisa nenhuma! — Kuroumaru exclamou, corando até a raiz dos cabelos. Ele repassou a cena mentalmente, e entendeu do que Touta estava falando. Maldição, ele não tinha mesmo conseguido se controlar. Céus, que vergonha!
— Ficou sim que eu ouvi muito bem! — Touta insistiu — E se você gemeu daquele jeito, foi porque gostou!
— Foi você quem me obrigou a fazer aqueles ruídos estranhos! A culpa é sua! — Kuroumaru rebateu, terrivelmente corado.
— Ahá! Então, você admite que gostou, não é? — Touta se colocou de pé, com um ar vitorioso — Vamos lá, responda!
— Me responda você, Touta — Kuroumaru se levantou também.
— Hein? Responder o que?
— Você disse que fez aquilo comigo porque se sentia atraído por mim, mas também falou que só queria experimentar — Kuroumaru lembrou. A vermelhidão tinha desaparecido de seu rosto. Agora ele exibia um semblante sério e magoado, e mais alguma outra coisa que Touta não sabia identificar — Se você só queria experimentar, então teria feito a mesma coisa com o Santa ou com a Karin-senpai, por exemplo?
— Claro que não — Touta respondeu mais rápido do que esperava — Eu te disse, não foi? Que estou atraído por você, e não por nenhum deles. Embora eu ainda não saiba o que exatamente isso significa… por exemplo, quando eu me machuquei durante a viagem e você caiu em cima de mim, e aquilo aconteceu… e também durante os nossos treinos mais recentes… eu ando me sentindo meio estranho. Fico mais agitado do que o normal, e meu coração fica acelerado… você não sente o mesmo?
— É… e-eu me sinto assim quando eu estou com v-você também — Kuroumaru respondeu, sem conseguir acreditar no que ouvia. Será que estava sonhando? Seus amigos estavam lhe pregando uma peça? Talvez fazendo um tipo de teste, só para fazê-lo admitir que realmente amava Touta? Não conseguia acreditar que Touta estava mesmo dizendo essas coisas para ele.
— Ah, então eu não sou o único! — Touta pareceu ficar mais aliviado — Eu estou pensando nisso há vários dias, mas ainda não consigo entender o que é… eu sou meio lerdo quando se trata de entender sentimentos e essas coisas, sabe?
— Sim, eu sei muito bem disso — Kuroumaru suspirou — Quando descobrir o que é, me conte. Eu preciso entrar agora.
— Tá, mas… por que a pressa?
— Você me marcou aqui, não foi? — Kuroumaru apontou para o próprio pescoço, e Touta arregalou os olhos surpreso. De fato, havia uma marca vermelha onde ele havia sugado o pescoço do garoto minutos atrás. Se Kuroumaru não tivesse mencionado, ele nem teria percebido — Minha regeneração cura ferimentos, mas não vai fazer isso desaparecer. Preciso trocar de roupa e torcer para que a gola da minha camisa esconda isso. Terei sérios problemas se alguém ver isso… — ele saiu resmungando enquanto entrava na casa, desaparecendo de vista.
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Depois de trocar os trapos que vestia por uma roupa decente, Kuroumaru permaneceu no quarto, sentado em sua cama, com vários pensamentos passando pela cabeça. Touta tinha acabado de admitir que se sentia atraído por ele. E se tinha feito aquilo… talvez fosse mais do que mera curosidade de adolescente. Pensando bem, Touta não era o tipo de pessoa que faria algo assim com um amigo só para "experimentar". Ele deve ter ficado envergonhado e não conseguiu pensar em nenhuma justificativa melhor para ter feito o que fez, ou talvez nem sequer soubesse porque tinha feito aquilo. O próprio Touta tinha admitido, ele era lento quando se tratava de lidar com sentimentos, principalmente com os seus próprios. Mas talvez aquilo fosse um sinal. Kuroumaru já estava ficando cansado de esperar… ele não conseguia mais mentir para si mesmo. No fundo, sabia que amava Touta, por mais que não quisesse admitir. Estava na hora de dizer isso para ele.
No entanto, havia outra verdade, mais delicada e mais perturbadora, que precisava ser dita antes.
Cerca de meia hora depois, Touta adentrou o quarto que eles compartilhavam. O garoto também tinha trocado de roupa. Os cabelos estavam úmidos, ele provavelmente tinha tomado banho e por isso demorou mais para chegar. Kuroumaru desceu da cama assim que ele entrou e ficou parado de frente para o amigo.
— Ei, suas roupas esconderam mesmo aquilo. Ainda bem — Touta riu sem graça, indicando a marca avermelhada que tinha deixado no pescoço do outro garoto, que agora estava escondida embaixo da gola da camisa dele. Em seguida percebeu o quanto Kuroumaru estava sério e acrescentou — O que foi? Aconteceu alguma coisa?
— Touta, precisamos conversar.
— Esse não é o tipo de frase que se diz quando alguém está terminando um relacionamento? — Touta comentou enquanto fechava a porta, tentando acabar com a tensão que pairava no ar, mas não funcionou — Você vai terminar a sua amizade comigo?
— Não é isso. Eu tenho uma coisa para te contar — Kuroumaru disse, sem saber por onde começar.
— Ah. Então por que essa cara séria? Apenas fale de uma vez.
— Não é uma coisa fácil de se dizer, está bem? Será que pode ficar quieto um instante e me deixar falar? — a voz de Kuroumaru se elevou algumas oitavas. Não era comum ele ficar alterado assim do nada, então Touta resolveu atender ao pedido dele — Você… já deve ter ouvido a Kirie e o Ikkuu-senpai comentando coisas sobre eu gostar de um garoto, fazerem piadas sobre eu parecer uma adolescente apaixonada e esse tipo de coisas, não é? — ele perguntou retoricamente — Eu não sei se você não deu importância, ou se simplesmente se esqueceu, mas eles tinham razão quando diziam isso. Mas também… o que eu te disse agora a pouco, quando terminamos o treino… também era verdade. Que eu me sinto agitado quando estou muito perto de você. Meu coração bate mais forte, e meu rosto começa a queimar… você disse que é lento para lidar com esse assunto, mas eu não sou. Eu me sinto assim… p-porque me apaixonei por você, Touta — ele encarou o outro garoto por alguns instantes, apenas para ver seus olhos se arregalarem e seu queixo cair levemente, deixando-o com um semblante meio tolo. Kuroumaru sentiu seu rosto esquentar involuntariamente outra vez. Não conseguia acreditar que tinha mesmo dito isso. Ele desviou os olhos para o chão, envergonhado — Desculpe. Sei que prometi que seríamos amigos e rivais, que sempre competiríamos para ver quem seria o mais forte, mas… quando eu vi, já tinha acontecido. Não consegui evitar.
— Kuroumaru… e-eu… realmente não sei o que dizer — Touta falou com sinceridade, um tanto atordoado. Pensou que Kuroumaru iria censurá-lo pelo que tinha acontecido mais cedo, mas nunca imaginou que o garoto diria algo assim. Era verdade que ele se sentia atraído por Kuroumaru, mas não tinha conseguido definir seus sentimentos ainda. Mas daí Kuroumaru vem e diz isso para ele, assim do nada? É muita informação de uma vez só! — Q-Quero dizer, eu nunca imaginei que você poderia gostar de outro garoto…
— Ah, sim… quanto à isso — Kuroumaru falou hesitante — Tem uma coisa que eu não te contei.
— Ainda tem mais?! — Touta exclamou. Depois daquela revelação, não conseguia pensar em mais nada que poderia ser mais chocante.
— Sim. E, por favor, não grite.
Respirando fundo, Kuroumaru ergueu as mãos e começou a tirar a camisa. Primeiro o paletó preto que usava, depois a gravata, e então segurou a barra da camisa branca que restou para retirá-la.
— Ei, ei, ei! Espera aí! Por que você está tirando a roupa? — Touta exclamou alarmado. Será que ele realmente ainda estava zangado pelo que Touta tinha feito com ele hoje de manhã? Bom, pensando bem, Touta meio que tinha abusado dele… essa não, será que ele estava pretendendo se vingar?!
— Eu falei para não gritar! — Kuroumaru pediu — Você vai entender melhor vendo com seus próprios olhos.
Em um movimento rápido, ele terminou de tirar a camisa. Com as mãos trêmulas e os olhos cerrados, ele desabotoou a calça e a tirou, junto com a roupa de baixo, deixando o corpo que tanto odiava completamente exposto.
Touta o encarou com os olhos arregalados durante longos segundos. Sua mente simplesmente não conseguia processar aquilo. Kuroumaru possuía um tórax masculino, com músculos modestos. Já o abdômen era difícil de definir, poderia pertencer tanto a um homem quanto a uma mulher. A cintura afinava de um jeito desproporcional conforme seu corpo descia pelas laterais até o quadril, que era exatamente como o de uma garota. Mas o que era mais espantoso. No torso inferior… não havia nada. Nenhum órgão, nem masculino, nem feminino.
— Kuroumaru… — Touta falou após um longo silêncio — Você não tem pi*to…
— Não diga pi*to! — Kuroumaru exclamou, corando ainda mais. É claro, sendo Touta, ele só podia ter uma reação como essa.
— Você me disse que era homem — Touta lembrou — Me disse isso várias vezes desde que nos conhecemos. Mas… também não parece ser uma mulher. Kuroumaru, o que você é afinal?
— Nada. Não sou nada — Kuroumaru mirou o chão tristemente — Eu sou um semi-humano de corvo Yata… e nós temos uma condição fisiológica muito rara. Nós passamos os primeiros 16 anos de vida sem ter sexo definido. Ou seja, até que eu me torne adulto, não serei nem homem e nem mulher — ele explicou — Você se lembra de quando nos conhecemos, Touta? Eu te disse que tinha recebido a missão de eliminar a Yukihime-san, caso contrário, não poderia voltar para casa. Eu repeti para você as palavras do líder do meu Clã. "Em caso de não cumprir a missão, não volte. E apodreça longe daqui". Mas eu menti. O que realmente me disseram foi "Em caso de não cumprir a missão, não volte. Leve esse corpo amaldiçoado para apodrecer longe daqui" — ele repetiu as palavras do irmão mais velho, sentindo um nó na garganta ao recordar daquilo — Eu odeio a condição do meu corpo. Mais do que o meu irmão odiava, mais do que os outros membros do Clã odiavam, mais do que qualquer um poderia odiar. Eu estou sempre dizendo que não sou uma mulher, mas também não sou um homem completo… eu não sou nada. Sou a escória da humanidade — ele começou a se vestir outra vez. Não conseguia mais suportar que Touta o visse como realmente era. Na verdade, não sabia nem como Touta estava conseguindo aguentar tudo aquilo — Por isso eu estou sempre tentando esconder o meu corpo. Por isso não queria que você me visse como realmente sou.
— Eu não entendo — Touta falou lentamente. De fato, era muita informação de uma vez só para absorver — Por que você não nos contou sobre isso antes? Quero dizer, aqui na UQ Holder tem todo o tipo de pessoas diferentes… o Ikkuu-senpai é um robô, o Santa é um morto regressante, e eu e a Yukihime somos vampiros! — ele lembrou — Não acho que o pessoal se importaria tanto com isso. E aliás, se a parte de cima do seu corpo parece ser masculina, por que você sempre enrola a toalha ao redor do corpo como se fosse uma garota quando toma banho afinal?
— É uma espécie de reflexo, eu acho. Porque também existe a possibilidade de eu me tornar uma mulher no futuro — Kuroumaru respondeu, enfim encarando-o nos olhos — Touta, eu quero ser homem, você já deve saber muito bem disso. Mas eu acho que você não se interessa por outros homens, considerando que já teve uma queda pela Yukihime-san, não é?
— O que? — Touta piscou confuso — Aonde está querendo chegar com isso?
— Estou dizendo que existe a possibilidade de eu me tornar uma mulher no futuro. Ainda há tempo para isso. A Karin-senpai disse que, se eu me tornasse uma mulher, talvez tivesse mais chances de ficar com você. Sim, ela já sabe, todo mundo já sabe, eu só não queria que você soubesse — Kuroumaru abanou a mão diante do olhar espantado de Touta — O que eu quero dizer é que… por mais que eu deseje me tornar um homem quando me tornar adulto… eu acho difícil você se interessar por um homem, então… se eu me tornar uma mulher for fazer você ficar comigo… eu posso me tornar uma.
A cabeça de Touta parecia estar mais pesada de tantos pensamentos que rondavam sua mente. A pessoa que ele considerava seu melhor amigo e por quem descobriu recentemente que sentia certa atração acabou de se declarar para ele. Como se isso não bastasse, essa pessoa não podia ser considerada seu "melhor amigo". Nem "melhor amiga". Aquela pessoa não tinha gênero. Touta nunca tinha ouvido falar de nada assim. Kuroumaru se referiu a si mesmo como uma criatura amaldiçoada que foi expulsa de seu Clã por ter nascido com um corpo sem sexo definido. Para onde ele teria ido se Touta não o tivesse convidado para se unir à UQ Holder? Ele não tinha culpa de ter nascido desse jeito. E ainda assim, se odiava por isso.
Mas o que havia deixado Touta mais chocado foi a declaração final de Kuroumaru. Mesmo sem ele precisar dizer, Touta já sabia que ele desejava ser homem, isso era visível, considerando o número de vezes que ele gritava que não era mulher quando alguém confundia seu gênero (que não existia, aliás). Mas ele tinha acabado de dizer que estava disposto a abdicar de sua escolha de identidade para ficar com Touta? Era isso mesmo? Ele provavelmente deve ter decidido ser homem desde que era criança, e conhecia Touta há apenas alguns meses… e ainda assim tomou uma decisão radical como essa. Kuroumaru estava mesmo decidido a se tornar uma mulher, se isso fizesse Touta aceitar ficar com ele.
— Kuroumaru…
— Touta! Kuroumaru! Vocês estão aí? — antes que Touta pudesse dizer qualquer coisa, a porta do quarto deles se abriu abruptamente e Santa entrou por ela. Touta pulou de susto e conseguiu por pouco conter um grito. Pela primeira vez na vida, Kuroumaru sentiu vontade de matar uma pessoa fora de uma missão. Só que essa pessoa já estava morta — É uma emergência. A Yukihime-san está pedindo para todo mundo se reunir na sala dela, e… eu… por acaso interrompei alguma coisa? — ele perguntou incerto.
— Não. Não interrompeu nada — Kuroumaru mentiu o melhor que pôde — É uma emergência, certo? Vamos indo então — ele saiu do quarto, caminhando a passos largos pelo corredor, sendo seguido pelos outros dois.
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