Dois anos depois…


Kuroumaru não conseguiu dormir naquela noite. Seu corpo inteiro latejava de dor, embora não tivesse nenhum ferimento em nenhuma batalha recente. Ele sentia seu corpo queimar de dentro para fora como se tivesse engolido lava, o suor escorria por toda a pele, e não importa o quanto se contorcia ou em que posição tentasse deitar, a dor não passava. Pelo contrário, parecia piorar ainda mais. Quando finalmente amanheceu ele acordou, sem precisar escutar Touta batendo a cabeça no estrado da cama dele pela primeira vez desde que chegara na sede da UQ Holder. Tinha alguma coisa errada com ele. Alguma coisa tinha mudado. Ainda era cedo, os primeiros raios de sol mal tinham começado a surgir pela janela… Kuroumaru pulou da cama e correu até o banheiro para confirmar suas suspeitas.


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— Pessoal! — Touta corria pela casa, tão rápido como se sua vida dependesse disso. Os cabelos ainda estavam despenteados e ele mal tinha se vestido — Yukihime! Kirie! Ikku-senpai! Santa! Karin-senpai!
— O que foi? — como se estivesse esperando a deixa, Karin virou um corredor e acertou uma cotovelada na cabeça dele — Não corra pelos corredores de manhã cedo.
— Foi mal — ele esfregou a cabeça — Você viu o Kuroumaru?
— Não, não vi — ela respondeu de mau humor — Ele dorme no seu quarto, e não no meu.
— O que aconteceu com ele? Vocês brigaram? — como se tivesse sido atraída por um ímã, Kirie surgiu ao lado de Touta, metralhando-o com perguntas.
— Não, nós não brigamos. Mas ele não estava no quarto quando eu acordei — Touta esclareceu — E eu sempre acordo primeiro. Você o viu?
— Não, não vi. E olha que estou acordada já faz um tempão — ela respondeu.
— Vai ver ele só acordou mais cedo e foi tomar café da manhã na frente — Santa, que vinha andando do mesmo corredor de onde Karin tinha vindo, com Ikkuu em seu encalço, falou.
— Não, eu estava na varanda agora a pouco e o Kuroumaru não estava lá — Ikkuu falou — E eu acho que ele iria esperar o Touta para tomar café, não?
— Com certeza esperaria — Kirie concordou, coçando o queixo pensativa. De repente deu um soco na palma da outra mão — Ah! Será que "aquele dia" finalmente chegou?
— Que dia? — Touta indagou confuso.
— Touta, quanto tempo faz desde que vocês chegaram aqui? — Kirie perguntou.
— Dois anos.
— E vocês dois chegaram aqui quando tinham 14 anos de idade, certo? — Karin lembrou, captando a ideia da amiga.
— Sim, mas e daí?
— Céus, como você é lerdo! — Kirie irritou-se — O Kuroumaru não vai ter um corpo sem sexo definido para sempre, Touta. O corpo dele estava assim enquanto tinha 14 anos de idade, que é a idade que ele tinha quando chegou aqui, mas se chegou o dia em que ele está completando a maior idade…
— Espera… é hoje?! — Touta exclamou alarmado.
— Mas o Kuroumaru não tinha dito que não sabia quando era o aniversário dele quando perguntamos? — Santa lembrou — Sabe, por causa daquela história de todos os membros do Clã dele o odiarem e nem sequer terem se dado ao trabalho de dizer a data…
— Ele pode ter simplesmente mentido — Ikkuu respondeu — Para tentar aliviar a pressão de ter tanta gente fazendo perguntas sobre quanto tempo falta para ele completar a maior idade.
— Faz sentido — Karin balançou a cabeça — Já está na época de ele completar 16 anos, e se ele sumiu assim de repente, talvez tenha acontecido algo com o corpo dele.
— Ou dela — Kirie acrescentou, deixando escapar uma risada — Talvez Kuroumaru não tenha gostado do resultado e por isso resolveu fugir. Ei, Touta, o que você… — ela deixou a frase pela metade ao notar que o garoto já tinha sumido.

Touta correu pela casa inteira, tentando lembrar dos lugares onde ainda não tinha procurado. Os quartos dos amigos, os escritório de Yukihime… ele tinha que olhar em cada canto da casa, embora soubesse que eram lugares improváveis. E de fato eram improváveis, pois Kuroumaru não estava em nenhum desses lugares. Também não tinha voltado para o quarto deles. Touta pensou em tomar uma ducha para esfriar a cabeça e pensar melhor no que fazer, quando se lembrou de uma coisa. O banheiro. Ele ainda não tinha procurado lá. Começou a correr outra vez e, depois de dobrar alguns corredores, chegou ao local. Ele girou a maçaneta, mas a porta estava trancada.

— Kuroumaru! — Touta chamou — Kuroumaru, você está aí?
— Vá embora! — uma voz respondeu do outro lado da porta. Era a voz de Kuroumaru, Touta tinha certeza, mas o timbre estava diferente.
— Kuroumaru, abra a porta! — Touta pediu, socando a porta — O que aconteceu?
— Eu falei para ir embora! — Kuroumaru gritou mais alto.
— Eu não vou embora! Não enquanto não souber o que está acontecendo com você! — Touta rebateu — Estou entrando, hein? — ele avisou e arrombou a fechadura em seguida, tomando cuidado para não arrancar a porta das dobradiças — Mas o que foi que deu em voc… ah…

A primeira coisa que Touta percebeu ao adentrar o cômodo foi que Kirie tinha razão e, céus, como ele odiava quando a amiga tinha razão! Kuroumaru tinha enfim atingido a idade adulta e assumido um sexo definido, e essa foi a segunda coisa que Touta percebeu. Seu corpo não tinha mais curvas desproporcionais entre o tórax e o abdômen. Agora seu corpo era como o de uma pessoa normal. Ele ainda possuía músculos modestos nos bíceps e no tórax. Porém, o principal… no torso inferior, que era a região que definia seu gênero…

— Kuroumaru — Touta chamou, por algum motivo sem cosneguir desgrudar os olhos daquela região — Você tem pin*o agora.
— Eu sei — o garoto, agora sim, definitivamente um garoto, respondeu. Não era só impressão por causa da porta abafando o som da voz dele, o tom de voz de Kuroumaru havia se tornado um pouco mais grave. Ele estava se encarando no espelho que ocupava metade da parede do banheiro, sem roupas, já fazia um bom tempo. Geralmente isso seria considerado algum tipo de perversão ou fetiche estranho, mas no caso dele era provavelmente algo compreensível.
— Ei, você não gritou "Não diga pin*o!" como geralmente faz — Touta observou, deixando escapar uma risada. Ele queria quebrar a estranha tensão que havia no ar de alguma forma, mas estava difícil.
— É. De repente isso não parece mais ser tão embaraçoso — Kuroumaru respondeu, sem desgrudar os olhos do seu próprio reflexo — Aliás, por que você está olhando tanto para essa região? Está parecendo um pervertido.
— Não é nada… só estava reparando que o seu é maior do que o meu. Que injusto — Touta reclamou.
— Idiota — Kuroumaru virou o rosto embaraçado e pegou a calça, que tinha largado em cima da pia junto com o resto de suas roupas, para vesti-la de volta — Touta, eu consegui. Me tornei um homem de verdade.
— Sim, eu vi. Parabéns! — Touta exclamou — Só não entendi porque você está com essa cara. Pensei que ficaria mais feliz.
— Eu estou feliz, mas… também estou com medo — Kuroumaru respondeu, abotoando a calça — Touta, agora que sou um homem completo… você vai me deixar, não é?
— O que?! — Touta exclamou sem entender — De onde foi que tirou isso?
— Você sempre dizia que gostava das "peculiaridades" do meu corpo — Kuroumaru lembrou — Até hoje não entendo como alguém poderia gostar de um corpo bizarro como aquele, mas você dizia que gostava… mas eu atingi a maior idade agora. E também não existe mais a possibilidade de eu me tornar uma mulher. Você… você não vai querer ficar com outro homem, não é…?
— Você é idiota? — Touta exclamou — Kuroumaru, nós já conversamos sobre isso várias vezes! E eu já te disse que não me importa se você é homem ou mulher, eu gosto de você pela pessoa que você é, e não por causa do seu corpo! Depois de dois anos juntos, você já deveria saber disso, então por que está pensando nessas besteiras de novo?
— Eu nunca deixei de pensar nisso! — Kuroumaru confessou — Sempre tive medo de você me largar se eu me tornasse homem. Você sempre disse que não faria isso, então eu fui deixando o assunto de lado porque ainda era menor de idade, mas agora… agora eu estou com mais medo do que nunca…

Touta interrompeu o garoto ao selar seus lábios nos dele, roubando-lhe o primeiro beijo de sua nova forma 100% masculina. Ele segurava o rosto de Kuroumaru com uma das mãos, trazendo-o para mais perto, enquanto a outra o abraçava pela cintura. Seu corpo estava mesmo diferente. Ele não tinha mais uma cintura fina como a de uma garota. Era um corpo completamente masculino agora. Touta surpreendeu-se ao sentir as mãos do garoto o abraçarem de volta, uma delas descendo até seu quadril. Parece que não tinha sido apenas o corpo de Kuroumaru que tivesse sofrido mudanças, mas também sua personalidade. Não que Touta se importasse. Quando começaram a ficar sem ar, Touta encerrou o beijo, porém sem tirar as mãos dele.

— Será que isso acabou com o seu medo?
— É… isso ajuda — Kuroumaru sorriu sem graça.
— Então você quer mais? — Touta ergueu uma sobrancelha, porém, antes que fizesse alguma outra coisa, a porta do banheiro, já arrombada, abriu-se de vez.
— Com licença — Kirie limpou a garganta para anunciar tanto a sua presença como a dos demais — Lamento interromper…
— Mentira, não lamenta nada — Santa murmurou.
— Como eu dizia — Kirie continuou após dar uma cotovelada na cabeça dele — Nós também queremos saber o que aconteceu com o nosso amigo! Ou seria amiga agora?
— Continua sendo amigo, Kirie — Touta soltou o garoto a contragosto, deixando que os outros olhassem para Kuroumaru. Ele tinha se esquecido de vestir a camisa, de modo que todos podiam comprovar que ele, de fato, havia conseguido se tornar um homem completo — Ele conseguiu.
— Olha só. Você nem gritou "Eu não sou mulher!" dessa vez — Ikkuu reparou, deixando escapar uma risada.
— Acho que eu não vou mais precisar fazer isso — Kuroumaru riu de volta — O que é um alívio. Vocês não têm ideia de como aquilo era cansativo.
— Oh. Sua voz está diferente também — Karin reparou — Mudou pouca coisa, mas está diferente.
— Está? — Kuroumaru falou, surpreso consigo mesmo — É verdade. Nem tinha percebido.
— Como você pode não prestar atenção na própria voz? — Santa indagou.
— Eu acho que é porque ele estava mais preocupado com o principal — Kirie deu um sorriso maldoso — Ei, será que eu posso conferir?
— Mas não mesmo! — Touta respondeu por ele, colocando-se na frente de Kuroumaru — Só eu posso olhar!
— Eh… então quer dizer que você já viu, Touta? — Ikkuu indagou, sorrindo quase tão maldosamente quanto Kirie. O garoto gaguejou alguma coisa incompreensível e corou. Atrás dele, Kuroumaru enrubesceu também.
— Sabia. Ele foi o primeiro a ver — o sorriso de Kirie se alargou.
— Ei, o que vocês ficaram fazendo dentro do banheiro esse tempo todo, hein? — Santa indagou.
— Não é da conta de vocês! Agora saiam daqui! Todos vocês, anda! Francamente, ninguém tomou café da manhã nessa casa ainda e já querem saber da vida dos outros? Que horror! — Touta começou a gritar e a empurrá-los para fora. Os amigos saíram aos risos, satisfeitos com o que tinham descoberto. Embora tivesse expulsado o grupo, Touta saiu também, pois ainda não tinha tomado café da manhã. Ele parou na porta e virou-se para Kuroumaru, que tinha ficado para terminar de se vestir — Ah, Kuroumaru.
— O que foi? — ele perguntou, segurando a camisa branca.
— Feliz aniversário — e deixou o banheiro.

Notas finais
Oláaa~ pessoas! E finalmente o Kuroumaru conseguiu! Atingiu uma forma definida, palmas para ele pessoal! o/ O próximo capítulo será o último, então vão se preparando! Deixem reviews por favor e façam uma autora feliz!!! *o*