Identidades Indefinidas, Um Mesmo Coração
13 Capítulo 13 - Competição
Depois de receberem a "bênção" de Yukihime, as preocupações de Touta desapareceram, pelo menos por ora, e ele conseguiu aproveitar a vida como se fosse uma pessoa normal outra vez. Era engraçado como os dias passavam depressa, ao mesmo tempo em que o tempo parecia passar devagar. Depois do incidente com Tsukuyomi, eles não tinham recebido nenhuma outra missão, de modo que se acostumaram a realizar as tarefas rotineiras. Limpavam a casa, treinavam e, depois que as terminavam, podiam fazer o que quisessem com seu tempo livre, o que de alguma forma estava contribuindo para que o relacionamento de Touta e Kuroumaru começasse a avançar, do jeito que seus amigos tanto desejavam. Embora eles ainda não tivessem chegado ao nível da imaginação surreal deles, é claro.
Kuroumaru estava sentado na própria cama, lendo alguma coisa, enquanto Touta olhava pela janela do quarto, pensando no quanto sua vida tinha mudado. Tanta coisa aconteceu nos últimos meses que sua antiga vida pacata no interior parecia até um sonho. Mas ficar ali trancado na sede da UQ Holder, sem fazer nada, estava começando a ficar chato também. Quando ele suspirou pela terceira vez, Kuroumaru fechou o livro e disse:
— O que houve, Touta? Por que está com essa cara? — ele olhou para o garoto, mas ele estava de costas — Se a Kirie estivesse aqui, provavelmente diria que você parece uma garota apaixonada desse jeito — ele provocou, tentando chamar sua atenção.
— Eu estou apaixonado. Mas, se alguém aqui se parece com uma garota, este alguém seria você, não? — Touta lembrou.
— Eu não sou mulher! — Kuroumaru exclamou. Touta ainda estava de costas para ele mas, mesmo sem vê-lo, tinha certeza de que Kuroumaru tinha enrubescido. E estava certo — O que há de errado com você afinal, hein?
— Você não acha que tem estado tudo muito calmo ultimamente? — Touta perguntou.
— Bem, sim — Kuroumaru concordou, sem entender porque aquilo deixaria Touta daquele jeito — Mas isso é bom, não é?
— Sim, claro que é bom, mas… — Touta enfim virou-se para encará-lo — Também é chato. Não tem nada para fazer. Estou entediado.
— É por isso que você está desse jeito? — Kuroumaru perguntou incrédulo — É verdade que, tirando o fato da Karin-senpai e os outros nos encherem de perguntas constrangedoras todos os dias, nada de emocionante tem acontecido, mas não é motivo para ficar assim…
— É isso — disse Touta, tendo uma súbita ideia. Karin e os outros sempre enchiam os dois de perguntas porque imaginavam que eles faziam todo o tipo de coisas embaraçosas quando estavam sozinhos, mas a verdade é que eles nunca fizeram nem metade das coisas que os amigos falavam. Mas… como será que era a sensação de fazer aquelas coisas? — Se nós não temos nenhuma missão, e temos muito tempo livre, então vamos usá-lo para fazer algo interessante — ele falou, subindo na cama de Kuroumaru.
— Como assim? O que você quer fazer? — o garoto perguntou.
— Vou te mostrar — e com isso ele segurou o rosto de Kuroumaru com uma das mãos, trazendo-o para perto de si e o beijou.
Kuroumaru arregalou os olhos, pego de surpresa e deixou o livro que estava lendo cair no chão. Em seguida se deixou levar. Ele segurou a camisa de Touta com uma das mãos, fechando os olhos, sentindo o rosto queimar quando Touta começou a descer a mão livre pelo seu corpo. A outra mão dele, que antes segurava o rosto de Kuroumaru, deslizou até seus cabelos e começou a afagar as mechas escuras. Kuroumaru o abraçou com força com a outra mão, trazendo Touta para mais perto de si, a mão subindo e descendo por suas costas.
E então, tão de repente quanto tinha começado, Touta o soltou. Kuroumaru respirou fundo, recuperando o fôlego, para reclamar em seguida:
— Mas o que foi isso de repente?
— Eu te beijei, ué — Touta disse o óbvio.
— Sim, eu percebi — Kuroumaru respondeu — Não faça essas coisas sem avisar, me pegou de surpresa…
— A ideia era essa — Touta riu — Você fica uma graça quando fica embaraçado desse jeito, sabia?
— Não tem graça nenhuma, eu não sou seu brinquedo — Kuroumaru reclamou — Além de começar com isso sem avisar, parou do nada também, francamente…
— Então você queria continuar? — Touta perguntou — Não seja por isso.
Sem esperar por uma resposta, Touta selou seus lábios nos dele outra vez, iniciando outro beijo. Dessa vez Kuroumaru estava preparado. Não deixaria que Touta o pegasse de surpresa, nem brincasse com ele de novo. Enlaçou o pescoço do garoto e o trouxe para mais perto. Percebeu Touta ofegar de surpresa e sorriu infimamente, satisfeito por ter conseguido surpreender o garoto.
Mas pensando bem, talvez aquela não tivesse sido uma ideia tão boa assim. Com seus braços ao redor do pescoço dele, Touta tinha total acessibilidade para tocar seu peito, abdômen e cintura, como estava fazendo agora. Kuroumaru odiava aquilo. Não o fato de ser tocado, mas aquela região do seu corpo. A parte que se misturava de forma tão bizarra. Mas Touta parecia gostar disso, de alguma forma. Não entendia como Touta podia gostar daquilo, nunca entenderia. Mas estava feliz com o fato do garoto não o odiar.
Ele percebeu que Touta estava se demorando muito na cintura, acariciando-o ali. Era a parte do corpo que se parecia com a de uma garota. E também era muito embaraçoso ser tocado naquela região por tanto tempo. Ele precisava fazer alguma coisa para desviar a atenção de Touta dali. Precisava virar o jogo. Sem pensar duas vezes, ele desceu as mãos pelas costas de Touta enquanto tocava os lábios dele com a língua. Aquilo definitivamente tinha pego o garoto de surpresa. Touta abriu a boca para perguntar o que raios ele pensava que estava fazendo, mas descobriu a resposta quando sentiu a língua de Kuroumaru invadir sua boca e começar a explorar sua cavidade bucal. Touta sentiu seu rosto corar furiosamente e ficou sem ação por alguns instantes. Kuroumaru não era de tomar esse tipo de iniciativa. O que estava acontecendo com ele? Seja lá o que fosse, Touta não podia ficar para trás.
Sem que os dois percebessem, aquilo havia se transformado em uma espécie de brincadeira entre duas crianças que estavam competindo para saber quem era o mais "corajoso", exceto que era um tanto pervertida para ser chamada de brincadeira de criança. E, no momento, Touta estava ganhando. Não sabia como tinha acontecido, mas agora os dois estavam deitados na cama, Touta por cima de Kuroumaru. Este o abraçava pela cintura, coisa que raramente fazia, mas Touta estava em uma posição que lhe dava vantagem. Ele se lembrou daquilo que deixava Kuroumaru mais embaraçado do que qualquer coisa e sorriu por dentro. Soltou os cabelos do garoto, com os quais não cansava de brincar, e deslizou as mãos até a cintura dele, começando a levantar sua blusa.
— Ei, Touta…! — Kuroumaru interrompeu o beijo ao perceber o que o garoto estava prestes a fazer — Pare com iss…
— Por que? — Touta perguntou, continuando com o que estava fazendo — Não quer esquentar as coisas?
— Do que você está falando? — ele perguntou, corando ainda mais — N-Não é que eu me importe de ir mas longe, mas… mas isso é…
— Você não quer me mostrar o seu corpo, não é? — Touta adivinhou seus pensamentos — Qual é o problema? Eu já te vi sem roupa antes. Olha, se quiser, eu tiro a minha primeiro…
— Ah! Não! Não precisa fazer isso! — Kuroumaru gritou ao ver que Touta realmente tinha tirado a camisa. Conhecendo Touta como conhecia, tinha certeza de que o garoto realmente faria o que estava dizendo — Não é isso, Touta. É só que… você sabe que o meu corpo ainda está incompleto.
— Sim, e daí? — Touta deu de ombros — Você também sabe que eu não me importo com isso. Na verdade, acho incrível — ele foi levantando a camisa de Kuroumaru devagar enquanto falava — Você ter um tórax masculino… o seu abdômen… na verdade eu não sei dizer se ele parece com o de um garoto ou com o de uma garota. Acho que o seu corpo deve começar a mudar aí. E uma cintura tão fina como a de uma… ei, Kuroumaru — ele chamou, encarando não o rosto do garoto, mas a parte do corpo que acariciava — É impressão minha ou a sua cintura não parece mais estar tão feminina assim?
— O que? — Kuroumaru sentou-se, examinando melhor o próprio corpo — Tem razão. Ela costumava ser mais fina até algumas semanas atrás, mas agora… agora parece mais…
— … masculina? — Touta completou e o garoto assentiu — Ainda não parece completamente com o corpo de um garoto, mas mudou mesmo alguma coisa, não é?
— É o que parece — Kuroumaru respondeu, encarando abismado o próprio corpo.
— Mas por que você começou a mudar agora? — Touta indagou confuso — Pensei que seria só depois de você completar a maior idade.
— Talvez… porque eu encontrei uma pessoa que me aceitou do jeito que eu sou. E que aceitou o meu desejo de ser homem — Kuroumaru o encarou, os olhos brilhando — Acho que é graças a você, Touta.
— Pára com isso, está me deixando sem graça — Touta coçou atrás da cabeça — Ei, será que você também mudou alguma coisa aqui? — ele apontou para o meio das pernas de Kuroumaru.
— Não faz isso! — o garoto gritou antes que Touta tentasse arrancar suas roupas ou coisa parecida. De repente ouviram alguém bater na porta e caíram da cama com o susto. Realmente doía cair da cama de cima e ir parar de cara no chão.
— Ei, Touta, Kuroumaru. Vocês estão aí, não é? — a voz de Ikkuu chamou. Ele girou a maçaneta, mas a porta estava trancada — Ah, eles trancaram a porta. Devem estar bastante ocupados — ele deixou escapar uma risada.
— Mas o que eles estão fazendo? — Santa indagou, balançando a cabeça como se eles fossem um caso perdido — Ei, que barulho foi esse de agora? Vocês estão bem? Vou entrar…
— Não, você não pode entrar lá assim — Ikkuu o impediu antes que o garoto se tornasse intangível — Se eles trancaram a porta, é porque queriam privacidade. Por mais que eu também queira espiar, não seria justo com eles — ele bateu na porta outra vez — Touta, Kuroumaru. Sinto muito por interromper… o que quer que vocês estejam fazendo… mas é melhor vocês saírem.
— A Yukihime-san está chamando. Ela quer falar com vocês — Santa informou.
— Droga, de novo o Santa… será que ele faz de propósito? — Kuroumaru resmungou, prendendo o cabelo outra vez e ajeitando as roupas.
— Acho que é só uma infeliz coincidência. O Ikkuu-senpai está com ele afinal — Touta riu, colocando a camisa de volta — Anda, é melhor irmos — ele abriu a porta — Vocês são muito barulhentos.
— E vocês demoraram muito para abrir a porta — Santa rebateu — O que estavam fazendo?
— Isso é segredo — Touta piscou de modo travesso — Bem, a Yukihime está chamando, não é? É melhor não deixarmos ela esperando.
Os garotos foram até a sala de Yukihime mas, quando chegaram, apenas Touta e Kuroumaru foram convidados para entrar. Eles ficaram supresos pelos amigos serem apenas seus guias.
— Vocês demoraram — Yukihime comentou — O que estavam aprontando?
— Nada — os dois falaram ao mesmo tempo, o que perceberam que só tornava aquilo mais suspeito. Eles se entreolharam por um instante e em seguida desviaram um olhar um do outro.
— "Nada", sei… — Yukihime sorriu maldosamente — Vocês estavam se divertindo, não é? Vocês têm feito muito isso ultimamente.
— Escuta, Yukihime, você nos chamou aqui só para nos interrogar? Porque já temos a Kirie e a Karin-senpai para fazer isso, sabe — Touta falou mal-humorado, tentando disfarçar a vergonha.
— Por mais que eu deseje continuar fazendo isso, não foi por esse motivo que eu chamei vocês aqui — a mulher assumiu um ar mais sério — Recentemente, eu consegui entrar em contato com o Fate. E nós trocamos algumas informações… bem… um pouco preocupantes. É um assunto um tanto delicado.
— Bem, finalmente aquele cara resolveu dar sinal de vida! Já estava na hora! — Touta exclamou.
— Mas espere um pouco, como assim "informações preocupantes"? — Kuroumaru perguntou — O que foi que ele te contou?
— Como eu disse antes, foi uma troca de informações — Yukihime lembrou — Eu perguntei a ele sobre o incidente com aquela mulher, Tsukuyomi, que o Ikkuu e os outros enfrentaram algumas semanas atrás, já que até onde eu sei ela trabalha para ele. E enquanto conversávamos sobre isso percebemos alguns fatores que podem deixar as coisas complicadas tanto para o nosso lado quanto para o dele.
— Do que você está falando, Yukihime? — Touta perguntou — Está me deixando preocupado.
— Eu tenho uma nova missão para vocês. Quero que vão até um lugar e encontrem uma pessoa — ela anunciou — Existe uma única garota que pode resolver nossas dúvidas. Isso é só uma hipótese afinal, pode ser que estejamos nos preocupando à toa, então quero que vocês dois investiguem o caso. Aqui, este é o endereço — Yukihime estendeu um pedaço de papel para eles.
— Mas quem é essa mulher com quem devemos falar? Como vamos encontrar uma pessoa que nem sabemos quem é? — Kuroumaru perguntou.
— Não se preocupe com isso — ela respondeu — Vocês vão reconhecê-la no momento em que a virem.
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