Identidade Homicida
83 Carta na manga
[Kim]
— Você está me dizendo que tem alunos dentro daquela escola?
— Sim, senhor delegado! — falei, consentindo com a cabeça — E eles foram colocados pra matar uns aos outros! Tudo por obra da diretora Eleonora Shermansky!
As palavras escapavam da minha boca sem controle. O delegado ouvia tudo de braços cruzados, com ares de desconfiança, como se eu fosse apenas uma louca catatônica.
Lógico, quem acreditaria numa história daquelas?
O motivo que me fez recorrer até a polícia naquela ocasião não era nenhuma tentativa de ato heróico -- eu sabia que inocentes estavam envolvidos na conspiração, mas eu estava ali mais por mim do que por qualquer outro motivo.
Se eu pudesse fazer a analogia perfeita pra qualquer um que aceitou se envolver com a corja da Shermansky e participar do jogo dela, seria: é como fazer um contrato com o diabo. Não tem pra onde correr. Ainda mais eu -- agora como uma fugitiva da Central e do jogo. Eu estava fora dos muros de Sweet Amoris e da Central, mas ainda vivia como uma prisioneira
Durante quase todos os cantos da região Shermansky possuía aliados, apoiadores, seguidores… o que quer que queira chamar esse “culto” maluco que ela conseguiu criar. Não à toa que a apelidaram de “Hórus”, “aquele que tudo vê”.
Não era fácil andar pela cidade sem acabar pisando em algum território próximo que não fosse minado por ela, a sorte é que agora eu tinha conhecimento de toda a sua rede. Ainda assim, viver no anonimato como uma fugitiva não foi uma tarefa fácil.
Desde que consegui escapar do laboratório da Central, tentei forjar uma aparência irreconhecível: raspei o cabelo e usei roupas masculinas por um bom tempo. Esse meu disfarce me deu uma boa camuflagem pra entrar em todos os tipos de lugares, conseguir mais informações e pensar no melhor momento pra agir.
Ainda assim, vivia como uma indigente pela cidade -- sem dinheiro e pouca comida. Às vezes passava em frente de casa apenas para ouvir a voz dos meus pais lá de dentro e me certificar de que estavam bem, e de que Shermansky não tinha feito algum mal a eles (essa era uma angústia real minha). Me dilacerava o coração, mas eu sabia que não poderia dar as caras ainda. Não podia voltar pra casa e abraçá-los como se nada tivesse acontecido naqueles últimos meses. Não ainda. Não sem antes me desfazer de todos os riscos e quebrar todas as correntes que ainda me prendiam ao jogo e à Shermansky.
Eu sabia que a única forma de viver em paz depois de fugir daquele lugar era destruir toda a conspiração. E eu tinha todas as peças pra conseguir isso.
— Fiquei meses sendo mantida dentro de um suposto centro de investigação. Lá eu consegui entender tudo o que está acontecendo — continuei.
— “Suposto centro de investigação”…? — sentado na cadeira à minha frente, o delegado franzia a sobrancelha, desconfiado.
— Isso. A Central Office. Assim que cheguei lá minha cabeça tava um pouco atordoada, não conseguia lembrar nem o meu nome. Em poucos dias eu já tava bem melhor, mas decidi seguir com aquele teatro porque ainda não entendia direito que lugar era aquele e o que pretendiam fazer comigo. Até que comecei a captar tudo, delegado. Juntei várias pistas durante o tempo que fiquei por lá. Fingi que tomava os remédios e fingi que tava dopada. Descobri tantas coisas, delegado. A Central é pura fachada e tem inocentes dentro de Sweet Amoris! Você precisa tomar uma atitude!
— Filha, calma. — com os braços cruzados, colocou um deles para frente e fez um gesto de repreensão com a palma da mão voltada para mim. — Vamos com calma.
O delegado ainda me observava sem falar nada -- mas pela sua expressão parecia duvidar de todas as minhas palavras. Eu precisava trazer alguma credibilidade pros fatos. Eu tinha minhas cartas na manga. Respirei fundo, relaxando os ânimos, e o encarei seriamente:
— Jade Klippel…
O delegado imediatamente fixou seus olhos em mim, como se finalmente eu tivesse sido capaz de atrair a sua atenção.
— Vocês estão atrás dele — prossegui — Não estão?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos:
— Você o conhece?
— Sim. E também sei que foi ele quem causou um incêndio dentro de Sweet Amoris, causando a morte de uma estudante. Ele também foi o autor do assassinato brutal de uma senhora viúva com o sobrenome “Murple”.
O delegado desfez os braços cruzados; parecia espantado com todas aquelas informações:
— Como você…?
— Eu sei onde Jade está. Estou falando pro senhor: eu descobri muitas coisas dentro da Central
O delegado balbuciou como se fosse dizer algo, continuei:
— Ele está dentro da escola. Ele e a sua cúmplice Peggy. Eles nunca saíram lá de dentro, na verdade. A escola é cheia de bifurcações e cômodos internos. Eles estavam vivendo por lá. E saíam só em segunda ordem…
— Ordem? De quem?
— Eleonora Shermansky, senhor delegado. Veja o senhor com os seus próprios olhos.
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