Idealismo
1 Juventude idealista
Notas iniciais
Eram jovens, enérgicas. O mundo parecia desabrochar à sua frente, ramificar-se em longos e inexplorados caminhos feitos de sonhos. Sentadas naquela varanda, a menor tinha, nas mãos, um quadrinho ainda molhado de tinta, que estendia para o céu. Sorriram abobalhadamente para ele.
Beijaram-se, fizeram amor. Tudo era um sonho sem fim, pensavam. Poderiam viver de pinturas e sorrisos, de abraços e toques, de pores do sol como aquele. E quem neste mundo conseguiria parar aquelas duas jovens idealistas?
(...)
Monika digitava mecanicamente, encarando a tela do computador com automática insensibilidade. Escrevia um relatório, mas não sabia exatamente sobre o que — naquele emprego, nada era necessário entender. Ou gostar ou sentir.
Deu o último comando no teclado e levantou-se para buscar as folhas na impressora, deixando que um suspiro escapasse por entre os lábios no caminho. Embaixo dos olhos azuis sem brilho, grandes olheiras demonstravam o nervosismo e a tristeza de semanas. Seu rosto nunca fora tão pálido, o cabelo nunca tão alinhado.
Como uma máquina, deixou as folhas sobre a mesa, organizadas e grampeadas. Então olhou desoladamente para a janela, constatando que ainda chovia um tanto e o céu continuava tediosamente nublado — por que todos os dias pareciam ser assim? De qualquer forma, seu trabalho havia acabado, poderia ir para casa.
Ou sair para beber.
(...)
"Voltar à Itália."
Foi numa ocasião especialmente aconchegante, estavam abraçadas, descansando em um banco de parque pouco visitado. Os sorrisos não vacilaram nem mesmo quando aquelas palavras foram pronunciadas pela menor. Separação nunca existiu em seus vocabulários, porque a esperança nunca abandonou-lhes a mente.
Continuaram enlaçadas, coladas uma à outra, ouvindo as próprias respirações misturarem-se com o som dos pássaros. Adormeceram ali mesmo, embaladas por uma tranquilidade desumana, pelos sonhos com tintas e pinturas.
Será que não se importavam com o futuro iminente?
(...)
Monika nunca tinha ido àquele bar antes. Também não sabia porque o escolhera, mas ficara feliz por ter poucas pessoas no local — ninguém precisava vê-la esquecendo as mágoas. Passou pela porta de vidro, sentou-se na bancada, pediu uma cerveja. O mesmo ritual de sempre.
O lugar não era feio, notou, parecia até ajeitado, se isso realmente importasse naquela situação. Mas a refinada mulher loira, com sua pasta de trabalho lotada de papéis, simplesmente não pertencia àquele bar. E o garçom deixou isso muito claro ao entregar-lhe a bebida com uma careta.
Monika deu um gole, dois. Sua face tornava-se mais rosada à medida que sentia-se um pouco mais viva — um pouco menos como uma máquina. Mas não sabia no que exatamente pensar naquele momento. Rolou os olhos por todo o local, a expressão perdida de mais para estar prestado atenção à qualquer coisa.
Sorriu discretamente ao focalizar uma construção antiga, lembrando ao século passado. Recordou tudo o que conversou com ela, sobre morar numa casa exatamente assim, com uma fachada assim, umas cores assim. Naquela época em que ainda não tinham sérias preocupações como a depressão ou a vida.
Então os olhos focaram num cartaz, nas grandes letras "Exposição" exibidas. Isso não era anormal, já que sua cidade vinha apoiando artistas desde os últimos anos, organizando exposições e palestras em prol da arte. O que contrastava mesmo com todo o cenário depressivo era o nome da pintora, em tipografia menor, "Felicia Vargas".
Os sentimentos sufocaram-lhe a razão.
(...)
As pessoas não importavam-se com as jovens paradas no meio da estação de metrô. Cada qual com seus problemas e, talvez, as próprias separações, não havia tempo para as lágrimas alheias. As duas choravam, mas a esperança limpava-lhes a face.
A menor prometeu que enviaria um sinal. Avisaria, de alguma forma, sobre a sua existência. Tornar-se-ia alguém. A outra balançou a cabeça, beijou sua testa, a fez jurar que seguiria seus sonhos.
E então ela entrou naquele vagão de trem.
Mas sua alma continuou na Alemanha.
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