Ich Liebe Dich.

89 Cap. 89: Dias solitários com você.


Notas iniciais
Somente ela e as flores, como era no começo. Ela, as flores, e o hostil mundo...

A primavera havia chegado e o inverno rigoroso havia passado. Mesmo com todas aquelas flores lindas que eu tanto amava, nada me dava um motivo para sorrir.

Um mês tinha se passado, desde que Peter havia ficado paralisado, num rosto de perfeito e incômodo silêncio mortal e num estado de morbidez que sugava qualquer tipo de felicidade que eu poderia vir a ter.

Eu andava por como se nada em mim existisse. Como no começo. Como quando nada para mim era o suficiente no mundo. Ou como se nenhuma pessoa estivesse na rua.

Éramos somente eu e o mundo. Seco, parado. Lívido. Meus sentidos falhavam a todo momento. As flores coloridas estavam em todos os lugares e eu passava cada solitário e perturbador dia de minha vida insignificante a olhar a para ele. A esperar. A espera mais tortuosa de minha vida. A espera mais incerta dela.

Sam estava me obrigando a comer. Ela não havia voltado para a sua vida na universidade, pois ainda estava muito abalada. Alegou que ir para a Escócia era a pior coisa que ela poderia fazer agora. Ela não tinha amigos próximos como eu para quem reclamar de sua, também insuportável, tristeza e amargura.

Todos sempre queriam me perguntar se eu estava bem e se precisava de algo. Teddy era o mais hospitaleiro. Ela sempre vinha até mim, falando tristemente e em tom o qual nunca falava, um tom baixo e respeitoso que ele nunca usara. Sempre dizia, que eu poderia ficar o tempo que quisesse e que não hesitasse em chamá-lo, caso algo estivesse me incomodando. Jolie olhava para mim com uma cara triste. Ela sentia pena de mim, mas todos sentiriam mais dela, pelo seu rosto piedoso. Era incrível...

Frida não falava comigo. Ia visitar Peter nas horas em que eu não estava. Novamente, ela começara uma guerra contra mim. Pra variar. Sim, eu precisava de mais um inimigo...

Talvez, fosse numa guarda baixa. Ela sabia que eu não tinha culpa, mas, com o restinho de rancor que ainda guardava por mim, não deu para me perdoar por esta segunda proeza. Por mais que ela soubesse que eu não tinha culpa, ela estava com raiva e não conseguia pensar em outra coisa. E eu a entendia...

Norma e Chris, agiam como Teddy. Estavam sempre ali. Eles estavam felizes entre si. Esperavam a chegada de um bebê. Eu ficara feliz, quando soube, mas foi uma alegria tão efêmera, que nem pude guardá-la por muito tempo.

Angel ficava sozinha e falava muito pouco. Nunca se dirigia a nenhum de nós, se não fosse necessário. E nunca visitava Peter. Não que eu soubesse. Ela se isolou totalmente.

Eu ficava andando pela organização, com um rosto sóbrio a luz do sol. Meus cabelos negros contrastavam com sua luz e minhas olheiras eram bem visíveis. Eu dormia no quarto de Peter. Falava com ele. Como se nós estivéssemos, realmente conversando. Eu não ria. Não havia mais restos de senso de humor em mim. Eu só falava de minha vida. De como ela não tinha detalhes vivos sem ele. De como éramos somente eu e o mundo. Sem vida. As coisas. Os objetos, vazios e silenciosos. Eu não escutava mais músicas. Não sentia vontade. Só sentia vontade de deitar-me perto dele e lamentar. Lamentar por tudo e me encolher, me protegendo da hostilidade que minha mente me impunha. Eu queria apenas sumir. Só para não ter que lidar com a hostilidade do mundo. Peter me dera um amor incondicional tão difícil de conviver sem, que eu não conseguia mais me acostumar com a frieza que me rodeava. Ele me deixara desprotegida. Sensível. E agora, que ele tinha se ido, eu estava seca. Eu senti a sua “partida”, mas agora as coisas tinham perdido a cor. O sentimento. Eu só me sentia morta.

--- Lottie! –Joseph me acordou de minha letargia. –É melhor você ir se deitar. Já está tarde.

Ele sempre estava lá. Comigo nas horas mais difíceis. Ele ainda me amava.

Sam me disse que agora ele estava mais radiante. Talvez, para ele houvesse esperanças de que eu pudesse esquecer Peter. Mas, para mim, era quase impossível. A condição em que Peter estava, por mais maldita que fosse, me aproximava cada vez mais dele. Minha ânsia por vê-lo melhor só iria aumentar, até quando eu precisasse tomar a decisão, que, para mim, como uma boa pessimista, já estava bem próxima de ser tomada. A de desligar as fontes de vida de Peter.

--- Não, Joe. Eu quero dormir aqui, novamente, — Eu disse.

--- Você não come, não dorme direito, não sorri, não se alegra... Lottie, acho que você está mais morta do que Peter. –Joe disse, com uma ponta de raiva na voz.

Ele odiava saber que eu estava ficando cada vez mais triste, morta e entorpecida por causa de Peter. Ele me entendia, mas queria me forçar a viver.

--- Não me importo. –Eu disse, sem me importar com a preocupação dele. De repente, aquela velha Charllottie doente que insultava a todos, mesmo que eles só quisessem o seu bem, reapareceu.

--- Charllottie... você é muito egoísta. Precisa pensar em Sam, em sua mãe. Nas outras pessoas que estão sofrendo pro sua causa. Peter está em um estado dormente. Ele não pode sentir esta dor de te ver assim, mas ele não iria querer senti-la. –Joe não havia acabado o seu discurso, mas ele sabia que não ia adiantar, então parou de falar.

--- Joe, você me conhece. Eu não estou nem ai para quem está sofrendo. Não enquanto não posso fazer nada. Eu não posso simplesmente ficar fingindo que não me importo e que estou bem, para que todos estejam felizes. Eu sempre fui capaz de fazê-lo. Mas, agora, não há maneiras de fazê-lo. Eu não agüentaria fingir. Não conseguiria. A única coisa que consigo fazer é falar. Nem mesmo expressar a minha raiva e minha tristeza, fazem mais sentido para mim. Eu apenas sou um corpo desprovido de sentido de existência. E, enquanto eu não voltar a ser quem era, você não vai me ver de outra maneira. Bom, eu ia dizer que sinto muito, mas não sinto. Na verdade, não sinto nada. –Eu disse, secamente.

--- Tudo bem, Lottie. Eu sei. –Ele colocou a mão na cabeça. Mas, por favor, não morra. –Ele disse, debilmente. –Eu... não posso fazer nada por você.

--- Obrigada, Joe. –Eu disse, sem sentimento algum na palavra. Eu apenas estava agradecida, mas não confortada.
--- Lottie, sei que não é a melhor hora, mas eu queria te dizer que ainda amo você. –Ele semicerrou os olhos numa tristeza amarga e os cantos de sua boca se curvaram.

Havia me esquecido do quando Joe era lindo. Seus cabelos negros e lisos caiam por sobre seu rosto, quase tapando os olhos. A cara triste e amarga deixava-o pensativo e enigmático. Seus braços fortes estavam cruzados e o cachecol vermelho o deixava tão bonito e solene...

Fitei-o por um instante.

--- Eu... já vou, Lottie. –Ele disse, passando a mão pelo cabelo liso perfeito e ainda com uma cara de preocupado.

--- Joe... me desculpe. –Eu disse, agora com mais veemência. –Eu... só preciso de um tempo para ficar inconformada.

--- Eu entendo. –Ele suspirou, sem olhar-me no rosto, ainda com sua expressão agudamente sofrida. Voltei a fitar Peter, angustiada.

Joe se aproximou de mim e beijou a minha testa, num gesto de amizade. Ali, me senti um pouco melhor.
x.x.x

Resolvi sair daquele lugar. Vê-lo naquele estado só estava me dando mais motivos para suicídio. Então, como eu não queria o que Peter nunca iria querer que eu fizesse, levantei-me e fui para fora da organização. Já eram oito horas da noite e andar por ai em Dusseldorf não seria muito boa ideia, porém, preferi –o do que o suicídio.

Imaginava ele e suspirava. Era o único som que minha cabeça conseguia assimilar. O resto dos sons, como passarinhos, insetos, pessoas andando e barulhos comuns às ruas, passavam despercebidos. Minhas sobrancelhas se franziam e no meu estômago se formava uma ameba que me dava vontade de vomitar. Eu estava suando frio e meu coração, de repente, acelerou. Resolvi, então, levantar a cabeça para ver se tinham muitas pessoas que poderiam me ajudar, mas a rua estava um pouco deserta. Só tinha um velho sentado num banco perto da loja de doces e um casal vinha em minha direção. A bolha em meu estômago parecia balançar toda a víscera, qualquer que fosse e contraí-la para que algo saísse de lá, mas eu nem tinha comido... “Há há” Pensei. Que coisa legal.

--- Que venham todas as desgraças! Graças a elas, seus outros frutos são mais suportáveis. –Falei, sorrindo para mim mesma.

Olhei para o céu. Uma gota gelada de suor caiu escorreu pelo meu pescoço enquanto minha cabeça rodava e eu sentia vontade de colocar tudo que não havia em meu estômago para fora. Uma ânsia de vômito me fez parar perto de um lixo num lugar escuro. Minhas pernas tremiam. Eu me sentia tão fraca, que eu estava ficando desesperada.

Algo que não estava em meu estômago estava sendo puxado. Algo que não estava em minhas vísceras frias a ponto de vomitar suas tristezas e amarguras. Tudo ficou tão colorido quando fechei os olhos. E bolinhas cintilantes de luzes começavam a parecer desaparecer em meus olhos fechados. Uma tontura final e eu não entendia mais nada.

Notas finais
Peeeter... T.T