Ich Liebe Dich.

136 Capítulo 137: Último Sorriso.


Notas iniciais
THE END.

–-- Vai começar. –Kurt disse.

Uma criança de sete anos. Outra de sete e um mês. As duas lindas.


Uma, de belos cabelos loiros e lisos, caindo nos ombros. Uma boca rosada, bonita, perfeita. Um rosto branco e límpido. Bochechas apertáveis. Olhos grandes, fixos, bonitos.


Outra, de cabelos ruivos e olhos castanhos apáticos. Cabelos lisos desgrenhados, maçãs do rosto avantajadas, boca fina, e olhos também grandes, significativos.


Kurt tinha seu suéter vermelho surrado, assim como a calça jeans e os all stars. Raven tinha um blusão rosa surrado e calças jeans com all stars. Tinham mais coisas em comum do que percebiam. Eram apaixonados por música. Por rock.

–-- Sim! –Raven repetiu.

–-- Pete, não acha que Kurt –Peter me interrompeu.

–-- Não! Ele está bem com ela. E... Deixe que as coisas aconteçam, Lottie... Você e este seu senso pessimista pré- situação... –Murmurou, rindo.

–-- Há há. –Resmunguei.

–-- Lottie... Já pensou em tudo que acontece aqui? –Peter disse, surpreso.

Olhei profundamente para ele, pela primeira vez desde que havíamos chegado. Seu rosto estava de perfil. Mas a expressão era muito pensativa.

Estávamos sentados numa arquibancada. A festa de Jolie já havia acabado e Norma nem queria que Raven fosse para o show do Troll Girl (banda da Jolie). Mas eu e Peter insistimos em levá-la. E Chris convenceu a Norma, que ficou bem mansa com carícias...


A lua iluminava o rosto de Peter, esplendorosamente.

–-- Ahn? –Perguntei, aturdida, por estar muito concentrada em seu rosto e na lua.

–-- Eu perguntei se –Interrompi-o.

–-- Ah! –Disse eu, recordando-me de suas palavras.

–-- Meu amor, você está muito desatenta...

–-- E não é para estar? Já pensou em tudo o que acontece aqui?! –Sorri, triunfante. –É de ficar estonteado...

–-- Você pensa rápido demais. –Ele riu-se.

–-- Eu entendo. –Sorri.

–-- Olhe só quantas pessoas! –Ele exclamou, enquanto olhávamos para baixo, onde havia uma grande multidão.

–-- Sim, olhe só quantos destinos... E... Jolie vai ser uma boa matriarca. Ela é tão linda e competente... Nem imaginei. Aliás, nem imaginei que eu pudesse ser capaz de elogiar alguém assim... Sempre fui tão rabugenta! –Ri, tombando para trás.

Peter olhou-me, de um modo tão terno como nunca havia feito antes.

–-- Você me tornou isso. Seu malvado! –Eu murmurei, enquanto nos aproximávamos cada vez mais.

Beijamo-nos. Foi mágico. Aquela noite. A luz da lua fraca e caida...

Ouvimos fogos e paramos, olhando, pasmados.

–-- E agora, pessoal, esta vai ser a primeira música. Que deveria ser a última de todos aqui presentes. Sabem por quê? Termina bem! –Jolie fechou os olhos, enquanto a multidão louca gritava e fazia chifrinhos com as mãos.

Ela girou a guitarra para o outro lado. Ela era ambidestra! Talvez a tenham ensinado até mesmo isto para que fosse a matriarca. Sua guitarra brilhava muito, vermelha. Seu vestido era de couro, vermelho e seu cabelo estava apenas com um laço preto no meio de cabelos assanhados. A guitarra começou a soar, numa melodia melancólica e solene...

–-- Último Sorriso. –Jolie murmurou, cansada no microfone.

Eu e Peter tínhamos perdido alguma parte do show, conversando. Mesmo com o barulho, estávamos concentrados.

A melodia da guitarra começou, forte, solene, mansa, pesada. A voz de Jolie começou sussurrante, morta, arrastada, espremida.

“Traga-me.
Traga-me sua cabeça.
Numa tigela.
Para que eu possa festejar.
O último dia.
O dia em que sorrirei.

A guitarra soou, estridente, num surto súbito de energia. Jolie pulou e caiu no chão de pé, com a cabeça para baixo. Os instrumentos pararam, por um breve e súbito segundo.

Com toda a força cavalar de som, eles voltaram, revoltos. Mais revoltos que uma onda de uma catástrofe natural no mar.

“Então diga.
Então diga para mim que sou feliz.
Então diga.
Então me diga que sou inteligente.
Então diga.
Então me diga que consegui você.
Então me diga.
Então diga que eu te amo.
Será verdade...
A última a sorrir.
O último a me fazer sorrir... Ah!”

Uma chuva de gritos quase irritados sucedeu-se, e voltou a calmaria na voz e nos movimentos de Jolie.

“Traga-me.
Traga-me você.
Só para eu não ficar sozinha.
Em minha amarga tristeza.
No primeiro dia.
O dia em que eu chorava.”

“Então diga.
Então diga para mim que sou feliz.
Então diga.
Então me diga que sou inteligente.
Então diga.
Então me diga que consegui você.
Então me diga.
Então diga que eu te amo.
Será verdade...
A última a sorrir.
O último a me fazer sorrir...

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”

O grito final soou, inerte em sua duração. Estridente. Fundo. Cuspido. Visceral. E a guitarra saiu em sua ponte esganiçada, acompanhando o grito sufocado e violento.

Fazendo isso, Jolie corria pelo palco, em frenesi. Depois desta música, Jolie disse que este era apenas um show de poucas músicas e se despediu.

Então, fomos embora, no meio da multidão de jovens da organização.

Kurt conversava o tempo inteiro com Raven.

–-- Ela é muito bonita. –Kurt disse, novamente se referindo a Jolie, naquela noite.

–-- É realmente... Eu gosto dela. –Disse Raven. Percebi que ela havia ficado meio tristonha ao vê-lo falar daquela maneira de Jolie. Não era somente eu quem estava ficando doida...

Aliás, eu estava sim, ficando doida. Uma garota de sete anos estava apaixonada e um garoto de sete anos poderia estar levemente apaixonado por uma mulher.

Se bem que era bem típico que os garotos sonhassem com as mulheres poderosas, charmosas, bonitas e elegantes naquela idade.

–-- Quer chiclete? –Kurt perguntou.

–-- Sim. –Ela disse, ainda melancólica, como sempre aparentava.

–-- O que você tem? –Perguntou ele, preocupado.

–-- Não é nada... Só... Aqui que é um pouco solitário. –Disse ela, soturnamente.

–-- Ah... Eu estou aqui, então, não pense nisso agora. –Ele sorriu, gentilmente. Ele o fazia poucas vezes.

–-- Vamos brincar no parque? –Pediu ela, entusiasmada.

–-- Não gosto muito de me mexer, sabe? –Disse ele, rindo, de modo desajeitado.

–-- Não aqui. Os parques não são normais para a nossa idade. É muito interessante... –Ela sorriu. Parecia uma boneca de porcelana. Kurt ficou pasmado com a entonação do “interessante” dela. Parecia com a dele.

–-- Amanhã. –Kurt respondeu.

–-- É, amanhã. –Disse eu, sorrindo. –Chegamos a sua casa, Raven.

–-- Até logo. –A menina ruiva disse, apreensiva.

Ela sabia que Kurt, o garoto da Escócia não ia voltar tão cedo, depois que brincasse, pela última vez com ela. E depois que ela desse o seu último sorriso. E que ele fosse o último a fazê-la sorrir.
__________x___________

Logo de manhã, depois de Kurt ter ido visitar Raven, fomos até o grande “palácio” onde Jolie residia, agora. Era uma imensa e bonita construção. Por dentro, milhares de corredores e espelhos e brilhos fantásticos. Fomos nos despedir.

Ali era onde Teddy morava. Mas eu nunca havia ido lá. Nem dera tempo, quando ele era vivo. Tantas coisas aconteciam...

–-- Olhem só! Vocês por aqui! –Jolie disse. Ela estava com uma roupa bem desleixada se comparada a quando ela saia na, entre aspas, rua. Rua entre aspas, por ser dentro da organização.

Usava uma trança e uma blusa de mangas marrom com uma calça jeans preta de couro e botas pretas.

–-- Viemos nos despedir. –Peter disse, solenemente.

–-- Ora, não precisa me tratar como ao meu velho pai. Sou nova ainda. Não quero que me trate assim, Pete! –Ela sorriu.

–-- Parabéns, Jolie. –Frida disse, orgulhosa.

–-- Frida, minha amiga! –Jolie correu, subitamente levantando do assento vermelho e dourado em que estava e descendo as escadas com poucos degraus. –Não quer entrar para a banda? –Ela abraçou-a, apertando-a.

No dia anterior, não tinha dado tempo de Jolie nem se quer falar conosco...

–-- Não, obrigada. –Frida sorriu.

–-- Mas você toca baixo tão bem! Se Christie me vir falando assim, ela me esquarteja. –Jolie riu-se.

–-- E você, Charllottie, está bem! Muito linda, ainda. –Ela disse.

–-- Obrigada... Apesar de ser gentileza. –Ri-me.

–-- Não, não! E este garotinho, gosto muito dele! –Ela abaixou-se, apertando as bochechas de Kurt. Ele ficou um pouco emburrado, mas logo se recompôs. –E... Sua mãe?

–-- Ela não quis vir... Ainda está muito... Machucada com tudo. E disse que este lugar lembra muito o Teddy. –Eu disse, agora sem muita dificuldade, mas não como há alguns anos atrás.

–-- Bom, precisamos ir. –Bridget disse, apressada.

–-- Ei, sua doida, nem vai me dar um abraço?! –Jolie resmungou.

Bridget riu e correu para a abraçou.

–-- Tenho um jogo imperdível para assistir! –Disse Joe, inquieto.

–-- Tudo bem, cara. –Jolie disse, de modo engraçado.

–-- Jolie, você viu Sam por ai? –Perguntei.

Havia me lembrado de Gustav e de Sam, de súbito. Não os tinha visto na festa. Sam mal se comunicava comigo. Viajava como ninguém. Mal a havia visto em anos.

–-- Gustav está no Egito com Sam. Eles disseram-me, por carta, que não iam comparecer. Gustav está vendo se eles vão se aquietar lá. –Jolie riu.

–-- Hm... –Disse, devagar.

Lembrei-me que a última carta de Sam dizia que ela estava procurando um lugar para “se aquietar”.

–-- Então, adeus! –Disse Peter. E nós saímos.

Jolie ficou acenando.

Bridget e Joe foram até o hotel onde se hospedaram, pegar suas coisas. Eles preferiram ficar no hotel a ocupar espaço na organização. Eu e Peter, como ainda tínhamos nossa casa lá, intacta, (preservada por Jolie) ficamos lá.

–-- Mãe! –Kurt exclamou, de repente. –Quero ver Raven mais uma vez.

–-- Tudo bem. –Mal eu calei-me, e Raven apareceu, juntamente com seus pais.

Estávamos na entrada da grande morada de Jolie. E do lado só havia grama e imensidão.

O sol brilhava nos cabelos de nós todos. Mas notei-o especialmente em Raven. Aquela garota me era muito notável. Ela parecia carregar um fardo em seus olhos pequenos e apertados... Tão castanhos...

Seus cabelos voavam. A luz do sol pareciam alaranjados. Ela tinha os olhinhos apertados por causa do sol forte que fazia. E a boca se retorcia em uma expressão de angústia. Até mesmo eu, que nem a conhecia, senti pena.

Kurt se aproximou dela, devagar. Norma e Chris se aproximaram de nós, também.

–-- Raven está louca, Charllottie... Ela quer que o Kurt fique aqui. –Disse Norma, repressiva. Ela me parecia não ser uma mãe muito fácil de lidar.

–-- Norma, calma. –Disse Chris, com um olhar repressivo. –Nós só queremos que a deixem falar. –Ele disse, respeitosamente.

–-- Kurt... Fique aqui... –Ela implorou, choramingando. –Eu... Me sinto só... –Kurt a interrompeu.

–-- Raven... Minha mãe...

–-- Sim, eu não quero que fique, Kurt. Nós não vamos ficar! –Exclamei, sem gritar.

–-- Raven... –Kurt a abraçou. Ela chorou. Ela soluçava nos braços dele, como nunca vi uma criança fazer antes. Não por um motivo assim. Tão... adulto.

–-- Pete... O que faremos? –Perguntei.

Não queria, de jeito algum, ficar longe do meu filho. Jamais o faria. Mas eu tinha que pelo menos pensar em Raven. A garota me pareceu muito urgente. Eu queria que tivesse uma solução fácil para todos.

–-- Não podemos ficar. Mas o Kurt pode escolher entre ir ou ficar. Como você mesma disse, Charllottie, ele pode fazer suas escolhas. Mas ele só tem sete anos, então, é melhor para ele que ele vá conosco. Depois, quando ele tiver mais consciência do que pensa, decide de vez. –Peter disse, depois de pensar um pouco.

–-- Tudo bem, Raven. Tudo bem. –Kurt disse, devagar, soltando-a. –Eu voltarei. Eu prometo.

Kurt olhou-a, com um novo olhar. Era caloroso. Não era como apenas um amigo. Era como se quisesse aplacar a tristeza dela. Ele colocou as mãos nos ombros dela e a olhou no olhos para dizer que voltaria.

O fato de Kurt ter dito aquilo me deixou em choque. O garoto queria fazer parte daquele mundo. A Escócia era monótona para ele. Percebi que o brilho em seu olhar ao ver aquela organização não tinha sido um simples indicativo de sua idade que facilmente podia-se impressionar. Ele gostava do lugar. Ele lembrara de ter balançado suas perninhas há anos em cima do banco, olhando as árvores agora tão familiares.

Raven o olhou, apreensiva. Mas o olhar dele era fixo, belo. Eu estava na diagonal de ambos, olhando-os. Observando aquela cena de “gente grande”.


–-- Obrigada. –Ela respondeu, aliviada.

–-- Adeus. –Kurt disse, triste.

–-- Até logo. –Ela respondeu.

E assim, nós fomos embora.
x.x.x

–-- Coitadinha dela. –Murmurei, já no avião.

–-- Ela sou eu, antigamente. Eu sinto sua dor. –Peter disse, soturnamente. –Mas eu pelo menos tinha Angel. E não nasci naquele lugar.

–-- Mas ela pelo menos tem os pais com ela.

–-- A mãe não me parece fazer de casa um ambiente menos hostil do que a organização.–Peter disse.

–-- Peter, o importante, é que tudo está bem, agora. –Disse eu.

Deixei que minha cabeça caísse em seu ombro, tristemente. Apesar de tudo estar realmente bem, alguns sacrifícios haviam sido feitos. Nem tudo estava, de fato, bem. Mas eu ainda o amava. E tinha o seu amor. E tudo estava melhor do que antes. Uma dor mais suportável. Com ele.

–-- Sim. É verdade. –Ele murmurou, numa voz terna.

De repente, me veio um desejo maluco de comer morangos e esqueci todos os incômodos em que estava pensando.

–-- Você gosta de morangos? –Perguntei.

–-- Por quê? –Ele se espantou.

–-- Ah, sei lá... Eu estou com vontade de comer morangos. –Murmurei, de repente.

“Ops!” Pensei. Escapou...

–-- Não acredito! –Peter sorriu. A surpresa e uma ponta de alegria voltaram a seu rosto.

–-- Pete, calma. Nem deve ser nada demais. –Eu sorri, de modo desconcertado.

–-- Ich Liebe Dich. –Ele disse, baixinho em meu ouvido.

Naquele momento, soube que nunca mais haveria tristeza ou dor não suportável para mim, enquanto ele estivesse ali. Meu coração poderia se espedaçar. Minha cabeça poderia ficar louca. Mas enquanto eu tivesse o amor, eu estaria a salvo. Ele me salvara. E eu nunca iria esquecer disto. E a cada dia que passasse, eu iria ser mais grata por ele estar ao meu lado. Por tudo que ele havia me dito. Por tudo que ele havia me ensinado. Por tudo que ele havia me ensinado a ensinar a ele. Por toda a reciprocidade que nós contínhamos, naquele amor puro. E nunca mais a dor seria tão pesada. E se fosse, ele me ajudaria a carregar.

E se soubéssemos quando o mundo acabaria, rezaríamos, num cantinho, no fim do mundo. Os dois. Juntos. Na miséria. No infortúnio. Mas teríamos o amor que nos faria feliz de morrermos juntos...

A vontade de comer morangos me dominou novamente. Foi tão súbito, instantâneo, que foi me fazendo esquecer as coisas sérias uma a uma.



Notas finais
Fim de História, gentes. T.T
Gente, esse Kurt é muito linds *-* rsrsrs. Acho que, daqui a dez mil anos, vou fazer uma história sobre a vida dele e da Raven.
Obrigado a todo mundo que lê! E TAMBÉM A QUEM COMENTA! Luana Nascimento é uma das chefs! auhsuahsahus Comentou em quase todos os capítulos! Amei*-* Obrigada mesmo... Pelos elogios a história, também... E, que os LEITORES FANTASMAS APAREÇAM! KKKKKKKKKKK É, gente, eu AMO REVIEWS como todo autor. Mas eu nunca peço... Sou uma bastarda auto-crítica. Acho que devo esperar sempre que as pessoas digam as coisas. Não gosto de importuná-las, porque assim o mérito é mais saboroso. uahsuahsuahs
Se divertiram? Choraram? Entenderam? Se comoveram? Tomara que sim...
Obrigada aos leitores fantasmas também... Por lerem. Tomara que comentem pelo menos no fim... E tomara que todos os leitores leiam isso aqui. kkkkk Ah! Tomara que alguém mais marque a história como recomendada! Isto pode ser considerado um pedido. KKKKK Ou não... Bom, se acharem que ela merece, façam isso, please! :*
Até a vista... õ/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!